O abismo de Judith

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Buscando desesperadamente um abismo para se lançar, ela sabia: o amor não era para ela. Sabia também: o mundo não seria gentil. Então, buscou uma ponte para lidar com tudo aquilo.

A dor. Ó, a dor... Uma linha tênue entre a tristeza e o prazer.

Ela não sabia como aquilo iria acabar. Vagava por um caminho escuro, sentindo, atrás de si, monstros imensos a perseguirem-na.

Finalmente, chegou ao seu tão desejado abismo. Cogitou pular, mas antes que pudesse agir — foi atacada.

Dois cães surgiram, derrubando-a no chão, lambendo seu rosto e abanando os rabos com entusiasmo.

— Duke, Luke! Parem!! Ahaha, vocês estragaram tudo! — ela riu, tentando afastá-los.

Imersa em seus pensamentos sombrios, foram os cães que a trouxeram de volta à realidade. Sentou-se no chão, com o cabelo bagunçado e o rosto brilhando de saliva.

— Vocês são malvados! Eu vou pegar vocês! — desafiou-os, levantando-se para brincar.

Riam juntos, corriam pela sala, os cães saltavam no sofá. Quando agarrava um, ordenava: — Fique parado! — e ia atrás do outro.

Mas então, uma voz cortou o momento: — Judith! Para de brincar com eles! Estamos no velório da sua mãe! — exclamou Rita, sua tia, surgindo da porta com uma vela nas mãos.

Aquelas palavras cortaram Judith como uma lâmina.

— Eu sei que você não quer aceitar… — disse Rita, num tom duro — …mas ela estava doente há anos. Você precisa aceitar. Estamos aqui para te ajudar. Mas agindo assim, parece uma louca…

Judith abaixou a cabeça, sentindo-se esmagada. Lembrou o porquê queria fugir.

Respirou fundo e foi até a sala onde velavam o corpo de sua mãe. Através do véu, jurou ver os olhos dela abertos — mas ninguém mais notou. Ignorou, achando ser apenas sua mente lhe pregando peças.

O dia passou sem mais incidentes. Mas à noite... Judith viu. Uma figura caminhava pela casa.

Ela estava acordada, lúcida — e apavorada.

Tentou alertar a tia, mas Rita não acreditou.

— Chega, Judith! Chega dessa palhaçada! Sua mãe aguentava isso, mas ela não está mais aqui! Pare de viver no mundo da lua!

Aquelas palavras foram como punhais.

Antes que Judith pudesse reagir, viu: a figura — se movendo, rastejando atrás da tia.

— Tá bom, eu paro... Mas se vira! Ela está aqui! — gritou Judith, apontando desesperadamente.

Rita revirou os olhos e se virou — e foi então que a criatura atacou.

Em um piscar de olhos, um buraco negro abriu-se no chão. Quem caiu? Era difícil dizer. A casa desapareceu.

Judith correu, subiu escadas que não levavam a lugar algum, os cômodos eram apenas vazios infinitos.

Ela se encolheu no chão, chorando.

E então, uma voz suave:

— Judy... Judy, querida… está tudo bem… foi só um pesadelo...

Sua mãe estava ali. Viva. Linda. Sorrindo.

Como era possível?

Essa pergunta ecoou durante anos... Até que se descobriu: era psicose.

Judith havia matado a tia. E culpado uma criatura que nunca existiu.

Essa foi a notícia que chocou a cidade.

— Céus, quão bizarro nosso mundo pode ser? — murmuravam.

Judith, sentada na cela do hospital psiquiátrico, arrumou os cabelos cuidadosamente.

— Eles não sabem de nada — murmurou com um sorriso tênue. — Agora que estou feliz... querem arruinar minha vida. Inaceitável.

Fim.