Em 1618, em uma pequena cidade da Escócia, existia um velho moleiro bastante do egoísta.
Trabalhava dia e noite, sempre moendo trigo e guardando em sacos de estopa. Nunca vendia, nem cedia a ninguém. O trigo ficava só pra ele e não era de mais ninguém.
Sempre que as pessoas da vila o perguntavam:
- "Caro Sr. Moleiro, por que não vendes os punhados de trigo que tens?"
O Moleiro, em tom bravejante, sempre respondia:
"Ora, pois! Porque não quero!"
Aquele homem passava mais tempo no moinho de trigo do que em casa.
Sua esposa e filhos pediam-lhe para que passasse mais tempo com eles:
"Por favor, querido, sinto tanto sua falta" - dizia sua esposa.
"Papai, fica pra brincar com a gente!" - falavam os filhos.
O Moleiro, não dava bola e, apesar dos pedidos incessantes da mulher e das proles, ia-se ao moinho, onde passava muito e muito tempo moendo, ensacando e guardando trigo. Esta era a atividade que, aparentemente, mais gostava de fazer.
Em uma noite, enquanto o Moleiro estava em mais uma de suas atividades incessantes com o trigo que nunca parava, alguém bateu na porta do moinho.
O homem parou por um momento o que fazia e dirigiu-se a porta:
"Quem será a essa hora?" - perguntou a si mesmo.
O Moleiro então abriu a porta e viu uma figura estranha...
Era uma mulher encapuzada.
Tinha cabelos desgrenhados que em partes estavam brancos e um rosto um tanto enrugado.
Sua voz era esganiçada, porém calma e doce.
Estava meio curvada e ficava sempre esfregando suas mãos, que tinham longos dedos com unhas um pouco amareladas.
A figura, que estava parada em frente ao Moleiro, então disse:
"Boa noite, moço...
Poderia dar-me um pouco de trigo?...
Meus filhos passam fome lá na cidade"
O Moleiro, ouvindo aquilo, falou:
"Olha, senhora... Vai ter que me perdoar, mas não posso dar meu trigo"
- "Mas vejo que o moço tem muitos sacos aí dentro... Não poderia me dar pelo menos um?..." - falou a mulher, implorando com um semblante de tristeza.
- "Não. Agora escafedasse daqui e deixe-me voltar ao trabalho" - respondeu o Moleiro em tom arrogante.
O homem então fechou a porta na cara da mulher e começou a voltar para o local onde moia o trigo.
Nesse momento, outra batida foi ouvida na porta.
O Moleiro parou, virou-se e foi até ela de novo.
Abriu-a:
"Olha! Eu já falei que não posso dar meu trigo!" - disse ele berrando.
A mulher só o encarou...
- "Agora vamos! Suma daqui!" - continuou o homem.
A mulher então começou a rir com a voz um tanto zombeteira...
- "Homem de pouca humildade..." - falou aquela figura, ainda rindo.
A mulher então aproximou o dedo indicador em direção ao Moleiro e tocou sua testa, ficando com dedo parado nela.
- "És asqueroso! Vire um ser como tal!" - falou a mulher, em tom de ordem e amargura, ainda com um sorriso na cara.
O dedo então foi tirado da testa do Moleiro.
A mulher virou-se e começou a caminhar de volta até a cidade.
O homem ainda ficou um tempo tentando entender o que havia ocorrido, ficou ali, parado olhando.
- "Maluca..." - falou o Moleiro após um tempo depois de presenciar aquilo.
O homem então fechou a porta do moinho com força e, de novo, começou a voltar para onde moia trigo.
Porém, no meio do caminho, o Moleiro começou a sentir um sentimento de queimação...
Uma dor aguda subiu em seu corpo.
O homem então caiu ao chão e começou a se contorcer.
Sentiu como se seus músculos fizessem uma dolorosa mudança para um estado maior.
De repente, percebeu que grandes pelos grossos e pretos cresciam em seu corpo.
Seus dentes aumentaram, suas orelhas arrendaram-se e mudaram para um tamanho maior.
Uma cauda surgiu,
Depois um enorme focinho com bigodes.
Seus pés e mãos viraram patas e seus olhos ficaram avermelhados.
Depois de se transformar por completo, O Moleiro levantou-se e deu um berro animalesco.
Havia se transformado em um enorme rato!
A criatura então começou a correr de um lado para o outro dentro do moinho, derrubando tudo e destruindo tudo.
O Moleiro, agora virado em bicho, no meio de sua confusão, sentiu o cheiro do trigo dentro dos sacos de estopa e sem pestanejar, avançou em cima dos mesmos e rasgou-os, comendo todo o conteúdo que estava neles.
Depois de comer, o rato começou a correr dentro do moinho de novo, se batendo nas paredes.
Em determinado momento, quebrou a porta e saiu correndo para o lado de fora.
Na madrugada afora, a fera se colocou em duas patas e farejou o ar.
Sentiu o cheiro do trigo que estava nos outros moinhos da cidade...
O grande monstro então saiu a galope e naquela noite atacou quase todos os moinhos de trigo, comendo todo o alimento que neles era guardado.
De manhã, os outros moleiros encontraram seus ambientes de trabalho todos destruídos e sem um farelo de trigo:
"O que houve aqui?" - perguntavam-se todos.
Eis que então outro moleiro vem correndo em direção aos camaradas que estavam tentando entender o que tinha ocorrido nos moinhos:
"Há uma grande fera comendo todo meu trigo!
Ela destruiu meu moinho!
Escapei por pouco..." - falou aquele moleiro, ofegante.
Os outros então falaram:
"Será que foi está tal criatura que atacou nosso companheiro que também destruiu nossos moinhos?"
Os moleiros então armaram-se com ferramentas e dirigiram-se até o moinho que estava sendo atacado.
Lá, encontraram o grande rato dentro do local. Estava rasgando os sacos de estopa e comendo todo o trigo dentro deles.
A criatura, ao ver os homens, soltou um berro e avançou sobre eles, porém, os moleiros fizeram cerco e logo atacaram o grande roedor.
Linchando-o e matando-o.
A grande aberração então foi levada até a cidade, onde foi mostrada a todos.
- "Este monstro atacou nossos moinhos e comeu todo o trigo!" - falavam os moleiros.
Todas as pessoas ficaram horrorizadas.
O prefeito da cidade vendo aquele alvoroço e o horrendo ser, disse aos homens:
"Joguem este horrível ser ao rio!"
E assim foi feito.
O moleiros atiraram a criatura ao rio e ela foi levada pela correnteza para longe.
Depois de um tempo,
As pessoas deram pela falta do tal Moleiro egoísta.
Ninguém sabia onde ele estava...
Em casa ele não estava, nem pela cidade.
Olharam em seu moinho, lugar onde ele passava a maioria do tempo.
Encontraram tudo destruído e revirado e no chão suas roupas rasgadas.
Ao verem essas coisas, logo deduziu-se:
"O homem foi devorado pela fera..."
Apesar de não ser gostado pela maioria das pessoas, teve comoção pela perda do homem e houve uma missa em sua homenagem.
A esposa e os filhos do homem choraram é uma lápide com o nome do homem foi colocada no cemitério, sem corpo, apenas a lembrança de um homem.
Os dias, meses e anos foram se passando.
Os filhos do moleiro cresceram e a sua esposa envelheceu e continuou viúva.
Todos ainda sentiam falta do homem e lamentavam o que não poderam viver com ele.
As pessoas da cidade também lamentavam pelo pobre homem que teria sido devorado por um ser cruel.
A mulher que havia visitado o Moleiro na noite em que o mesmo se virou em rato apenas observava tudo, sempre de maneira serena, sem se compadecer pelo falecido.
Toda vez, dizia em voz de pensamento:
"Deveriam estar felizes por terem se livrado desta praga!"