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Eu tinha oito anos quando conheci meu melhor amigo. Naquela época, eu ainda acreditava que as coisas que imaginávamos podiam existir em algum lugar. Talvez embaixo da cama, dentro dos armários ou naqueles cantos escuros do quarto que pareciam mudar de tamanho quando as luzes se apagavam.
Eu não tinha muitos amigos. Era quieto, passava bastante tempo sozinho e preferia inventar brincadeiras a tentar participar das conversas das outras crianças. Foi assim que ele apareceu.
Não me lembro exatamente do primeiro dia. Só me lembro de estar sentado no chão do meu quarto, montando uma cidade com blocos de brinquedo, quando percebi alguém sentado na beirada da cama. Ele usava um moletom preto, calça jeans escura e uma máscara branca. No lugar dos olhos, havia duas aberturas completamente escuras. A boca era um sorriso preto, pintado de uma ponta à outra do rosto. Não parecia uma máscara de Halloween. Parecia que alguém havia tentado desenhar uma expressão humana sem nunca ter visto uma pessoa sorrindo. Fiquei olhando para ele por alguns segundos.
— Quem é você? Ele inclinou a cabeça. — Você quer brincar?
Foi assim que começamos. Eu nunca contei aos meus pais sobre ele de imediato. Não porque tivesse medo, mas porque, na minha cabeça, não havia nada de estranho naquilo. Ele era meu amigo. Eu conversava com ele, inventava histórias e passava tardes inteiras brincando no quintal. Quando minha mãe me via falando sozinho, perguntava com quem eu estava conversando.
— Com meu amigo. — Que amigo? Eu apontava para o lugar onde ele estava. Ela sorria, dizia que eu tinha muita imaginação e voltava ao que estava fazendo.
le nunca parecia se importar com o fato de ninguém conseguir vê-lo. Na verdade, acho que gostava. Durante os primeiros anos, éramos inseparáveis. Ele me acompanhava em todas as brincadeiras e parecia saber exatamente o que dizer quando eu estava triste. Quando as outras crianças não me chamavam para brincar, ele ficava comigo. Quando eu tinha medo do escuro, sentava ao lado da cama até eu dormir.
Eu não precisava dar um nome a ele. Quando alguém perguntava, dizia apenas que era meu amigo. Mas, certo dia, minha mãe me ouviu falando sobre ele e perguntou como se chamava. Fiquei em silêncio.
Nunca tínhamos conversado sobre isso. Virei para a cama, onde ele estava sentado com as mãos apoiadas nos joelhos. — Qual é o seu nome? Ele ficou imóvel por alguns segundos. Então respondeu: — Não tenho. Achei estranho, mas insisti.
Todo mundo tem um nome. A máscara se inclinou para o lado. — Então escolhe um para mim. Olhei para o sorriso pintado. — Sem Expressão. Ele não respondeu. Naquele instante, tive a impressão de que o quarto havia ficado mais frio. Foi uma sensação rápida, tão breve que logo esqueci. A partir daquele dia, passei a chamá-lo assim. E ele nunca reclamou. Quando completei dez anos, ganhei meu primeiro videogame portátil. Era um aparelho simples, com poucos jogos, mas eu fiquei completamente encantado. Passei os primeiros dias jogando até minha mãe ameaçar guardá-lo no armário. No começo, meu amigo participava de tudo.
Sentava no chão ao meu lado e observava a tela. Às vezes, dava palpites sobre o que eu deveria fazer. Outras vezes, inventava desafios para tornar os jogos mais difíceis. — Você está roubando — reclamei certa tarde, depois de perder pela terceira vez. Ele estava sentado na cama. — Você que é ruim. Olhei para ele, indignado. — Você nem está jogando! — Mesmo assim, sou melhor. Joguei uma almofada na direção dele. A almofada atravessou seu corpo e caiu no chão. Fiquei parado por um instante, olhando para ela. Depois comecei a rir. Ele também riu.
Ouvi a risada dele, pelo menos. Era baixa e estranha, como uma gravação reproduzida na velocidade errada. Naquela época, eu não me importava. Eu gostava de tê-lo por perto. Só que, aos poucos, comecei a passar mais tempo com o videogame do que com ele. Era mais divertido desbloquear fases, descobrir segredos e vencer desafios do que brincar de esconde-esconde pela centésima vez. Ele não reclamou de imediato. Apenas começou a ficar mais quieto. Certa noite, enquanto eu jogava deitado, ouvi a voz dele perto da janela. — O que você está fazendo? — Jogando. — De novo? — Ué, sim. Ele ficou em silêncio. Continuei olhando para a tela. — Você não quer brincar comigo? — perguntou.
Agora não. Estou quase passando de fase. Não ouvi mais nada. Quando terminei, virei para a janela. Ele não estava lá. Pensei que tivesse ido embora e voltei a jogar. Na manhã seguinte, encontrei o aparelho desligado, embora a bateria estivesse carregada na noite anterior. Tentei ligá-lo várias vezes, mas a tela permanecia preta. Fiquei irritado e pedi ajuda ao meu pai. Ele abriu o aparelho, verificou os contatos e disse que não havia nada aparentemente errado. Depois de alguns minutos, a tela voltou a funcionar. Achei que fosse apenas um defeito. Só me lembrei disso anos depois, quando comecei a perceber que as coisas estranhas sempre aconteciam depois que eu o ignorava. Na época, eu ainda era criança demais para ligar uma coisa à outra.
Aos onze anos, comecei a brincar na rua com os garotos da vizinhança. Eu ainda conversava com meu amigo, mas já não precisava dele para me divertir. Tinha pessoas com quem jogar bola, andar de bicicleta e passar as tardes inventando desafios idiotas. Pela primeira vez, eu tinha a sensação de pertencer a algum lugar. Ele começou a aparecer menos. Ou talvez eu simplesmente tivesse parado de procurá-lo. Às vezes, quando voltava para casa, encontrava-o sentado na minha cama. Eu o cumprimentava, trocava algumas palavras e seguia com minhas coisas. Outras vezes, ele ficava parado no corredor enquanto eu passava sem olhar. Certa tarde, enquanto eu jogava videogame com um amigo da escola, ouvi uma voz atrás de mim. — Ele vai embora? Continuei olhando para a televisão. — Quem? — Esse garoto. Olhei de relance para a porta do quarto.
A máscara branca estava parcialmente escondida atrás da parede. — Vai — respondi, incomodado. — Por quê? — Porque você não precisa mais de mim. Meu amigo, sentado ao meu lado, pausou o jogo. — Você falou comigo? — Não. — Então com quem você está falando? Olhei para a porta novamente. O corredor estava vazio. — Ninguém. Esquece. Ele me encarou por alguns segundos, mas voltou a jogar. Naquela noite, quando todos foram embora, encontrei meu amigo sentado no chão, perto do armário. — Você assustou o pessoal — falei. Ele levantou a cabeça. — Eu não fiz nada. — Então para de ficar aparecendo do nada.
Você costumava gostar quando eu aparecia. Suspirei. — As coisas mudam. Ele ficou completamente imóvel. Por um instante, tive a sensação de que o sorriso pintado na máscara estava diferente. Não maior, exatamente. Era como se alguém tivesse reforçado as linhas pretas com um pincel, deixando-as mais escuras e profundas. Pisquei. Parecia normal novamente. — Eu sei — respondeu. Naquela noite, dormi sem pensar muito na conversa. Mas acordei de madrugada com a sensação de que alguém estava sentado na beirada da cama. Não abri os olhos. Ouvi uma voz baixa, bem perto do meu ouvido. — Eu também posso mudar.
Aos doze anos, ganhei um celular. Foi o começo de uma fase em que tudo parecia acontecer dentro de uma tela. Entrei em grupos, comecei a jogar com pessoas que nunca tinha visto pessoalmente e passava horas assistindo a vídeos. Meu mundo ficou maior. E o quarto, menor. Eu já não precisava sair de casa para conversar com alguém. Podia mandar mensagens, entrar em chamadas e passar tardes inteiras jogando com meus amigos virtuais. Meu antigo companheiro tornou-se uma presença inconveniente. Quando eu estava no celular, ele aparecia na televisão desligada. Às vezes, seu reflexo surgia na tela preta quando o aparelho bloqueava. Se eu tentava olhar diretamente para ele, não havia ninguém atrás de mim. Comecei a me convencer de que era cansaço. Afinal, eu passava horas olhando para telas. Era normal enxergar coisas de relance. Pelo menos era o que eu dizia a mim mesmo. Certa noite, estava numa chamada com três amigos, jogando até tarde. A partida estava quase terminando quando ouvi uma voz no meu quarto. — Você pode abaixar o volume?
Ignorei. — Está me ouvindo? Continuei jogando. A voz veio novamente, dessa vez mais perto. — Eu estou falando com você. Tirei um dos fones. — Agora não. Um dos meus amigos perguntou: — Quem está aí? — Ninguém. Minha mãe deve estar acordada. Continuei jogando, mas meu personagem parou de responder aos comandos. A tela começou a apresentar pequenos cortes, como se a conexão estivesse falhando. Então a partida congelou. No centro da tela, apareceu uma figura branca. Uma máscara. Duas aberturas escuras no lugar dos olhos e um sorriso preto atravessando o rosto.
tão imóvel que mal percebi meus amigos chamando meu nome. A imagem desapareceu. O jogo voltou ao normal. — Você viu isso? — perguntei. — Vi o quê? — respondeu um deles. — A máscara. Houve uma pausa. — Cara, sua tela ficou preta por uns segundos — disse outro. — Deve ter travado. Desliguei o jogo. Naquela noite, não consegui dormir. Passei horas olhando para a tela do celular, esperando que ela acendesse sozinha. Quando finalmente adormeci, sonhei que estava de volta ao meu antigo quarto, montando uma cidade com blocos de brinquedo. Ele estava sentado na cama.
Você lembra de quando a gente brincava? — perguntou. Não respondi. — Eu lembro de tudo. Acordei com o celular vibrando ao lado do travesseiro. Era uma notificação de um aplicativo que eu nem lembrava de ter instalado. Não havia nome de remetente. Apenas uma mensagem: VOCÊ NÃO PRECISA FICAR SOZINHO PARA ME ENCONTRAR. Apaguei a notificação e desinstalei o aplicativo. No dia seguinte, não havia nenhum registro de que ele tivesse existido.
Aos treze anos, parei de falar com ele de vez. Não foi uma decisão dramática. Eu simplesmente cansei. Tinha escola, amigos, jogos, vídeos e outras coisas para fazer. Não queria mais perder tempo com um personagem que eu havia inventado quando era criança. Eu precisava crescer. E, se ele fosse apenas uma criação da minha imaginação, não havia motivo para continuar alimentando aquilo. Durante semanas, funcionou. Eu não o via no quarto, não ouvia sua voz e não pensava nele com frequência. Aos poucos, a lembrança do meu antigo amigo foi ficando distante, como uma história que eu conhecia de cor, mas já não conseguia contar direito. Até que uma noite encontrei um desenho antigo. Estava dentro de uma caixa de brinquedos, entre papéis amassados e peças de jogos que eu não usava havia anos. O desenho mostrava duas figuras de mãos dadas. Uma delas era uma criança. A outra usava moletom preto e uma máscara branca. Embaixo, havia uma frase escrita com minha letra infantil: Meu melhor amigo vai ficar comigo para sempre.
Fiquei olhando para o papel. Eu me lembrava de ter feito aquele desenho, mas não me lembrava da figura mascarada ter braços tão compridos. Na ilustração, as mãos chegavam quase aos joelhos, e os dedos pareciam finos demais. Virei o papel. No verso, havia uma frase escrita em letras pequenas. Não reconheci a letra. VOCÊ DEMOROU PARA VOLTAR. Joguei o desenho na caixa e fechei a tampa. Naquela noite, ouvi três batidas na porta do quarto. Não respondi. Ouvi outras três. Depois, a voz. — Você está ocupado? Fiquei sentado na cama, com o celular na mão. A maçaneta girou. A porta estava trancada.
— Eu só queria conversar — disse ele. A voz parecia triste. E isso me assustou mais do que qualquer ameaça. Porque, por um segundo, lembrei do garoto que ficava comigo quando ninguém mais queria brincar. Do amigo que inventava jogos para me fazer rir. Da presença que eu havia abandonado sem sequer me despedir. Quase abri a porta. Quase. Então me lembrei das marcas na madeira, das mensagens no celular e daquela máscara aparecendo onde não deveria. — Vai embora — falei. O silêncio que se seguiu foi tão longo que pensei que ele tivesse ido embora. Então ouvi uma risada baixa. — Você aprendeu a mentir para mim. Os passos se afastaram pelo corredor. Esperei até amanhecer antes de sair do quarto.
No ano seguinte, minha família decidiu organizar uma festa de Halloween em casa. Não era nada grandioso. Minha mãe queria reunir alguns parentes e vizinhos, e meu pai achou divertido decorar o quintal com abóboras artificiais, lanternas e teias falsas. Eu não queria participar, mas minha mãe insistiu. — Você não pode passar a vida inteira trancado no quarto. Achei irônico, considerando que ela não fazia ideia do motivo pelo qual eu preferia ficar lá. Naquela noite, havia crianças fantasiadas correndo pelo quintal, adultos conversando perto da mesa de comida e música tocando em uma caixa de som. Tentei aproveitar. Por algumas horas, consegui. Conversei com meus primos, ajudei a distribuir doces e participei de um jogo em que todos precisavam encontrar pequenos objetos escondidos pela casa. Então vi um homem parado do outro lado do portão. Moletom preto. Calça jeans escura. Máscara branca.
sorriso pintado parecia quase luminoso sob a luz da rua. Meu corpo inteiro ficou rígido. Ele estava parado entre duas árvores, observando a festa. Ninguém parecia notá-lo. Peguei o braço do meu primo. — Você está vendo aquele cara? Ele olhou na direção que eu apontava. — Que cara? Voltei a olhar. O portão estava vazio. — Nada — murmurei. Tentei me convencer de que tinha sido uma pessoa fantasiada passando pela rua. Mas, quando entrei em casa para buscar água, encontrei uma pequena figura de plástico em cima da mesa da cozinha. Era um boneco de máscara branca, moletom preto e calça escura. Parecia uma versão minúscula dele.
Peguei o boneco e examinei sua base. Não havia marca, etiqueta ou qualquer indicação de onde tinha vindo. Então percebi algo escrito nas costas. Meu nome. Não o nome que as pessoas usavam para me chamar. Meu nome completo, escrito com uma letra torta e infantil. Deixei o boneco cair. O barulho chamou a atenção da minha mãe, que apareceu na porta. — O que aconteceu? Apontei para a mesa. O boneco não estava mais lá. Ela me perguntou se eu estava me sentindo bem. Respondi que sim, peguei um copo de água e voltei para o quintal. Foi quando as luzes se apagaram. A música parou. Alguém soltou uma risada nervosa, e algumas crianças começaram a gritar. Por alguns segundos, a única iluminação veio das lanternas artificiais espalhadas pelo jardim. Então ouvi uma criança chorando.
Era minha prima, de seis anos. Ela estava parada perto da escada que levava ao porão, olhando para alguma coisa no fim do corredor. — O que foi? — perguntei, aproximando-me. Ela apontou para a escuridão. — Aquele homem quer brincar comigo. Senti o sangue gelar. — Que homem? A menina olhou para mim como se a pergunta fosse absurda. — O que tem a cara branca. Segurei sua mão e a levei de volta para o quintal. As luzes voltaram pouco depois. Minha mãe culpou a instalação elétrica, e meu pai foi verificar o disjuntor. Ninguém mais falou sobre o homem. Eu não consegui aproveitar o restante da festa. Pouco antes da meia-noite, minha prima desapareceu. No início, todos acharam que ela estava escondida em algum lugar da casa. Minha tia começou a chamá-la, e os adultos se espalharam pelo quintal.
Depois de alguns minutos, o desespero tomou conta. Procuramos nos quartos, no banheiro, atrás das cortinas e embaixo das mesas. Meu pai verificou a garagem. Minha mãe chamou os vizinhos. Nada. Foi então que encontrei a porta do porão aberta. Eu tinha certeza de que estava fechada antes. Desci alguns degraus e chamei o nome da minha prima. Nenhuma resposta. O porão estava escuro, cheirando a poeira e umidade. A luz do celular iluminava caixas empilhadas, ferramentas antigas e móveis cobertos por lençóis. No fundo, havia uma porta que eu nunca tinha visto aberta. Ela dava para um pequeno depósito. Aproximei-me. Ouvi uma voz infantil do outro lado. — Você veio! Era minha prima.
Ela estava sentada no chão, segurando um boneco. O mesmo boneco que eu havia encontrado na cozinha. — O que você está fazendo aqui? — perguntei, tentando manter a voz calma. Ela sorriu. — Ele disse que você vinha. Olhei para o boneco. A máscara branca estava voltada para mim. — Quem disse? Minha prima apontou para o canto do depósito. Não havia ninguém ali. Quando voltei a olhar para ela, seu sorriso tinha desaparecido. — Ele disse que você não gosta mais dele. O celular escorregou da minha mão. A tela iluminou o chão.
Atrás de mim, ouvi a porta bater. Virei imediatamente. No escuro, alguém respirava. Uma respiração lenta, irregular, quase divertida. — Você cresceu — disse a voz. Eu conhecia aquela voz. Conhecia desde os oito anos. — Não — murmurei. A silhueta se moveu. — Você ganhou jogos, fez amigos, encontrou outras coisas para amar. A máscara surgiu na luz do celular. — E eu fiquei aqui. Recuei até bater na parede. — Você não existe. Ele inclinou a cabeça. — Então por que está com medo? Não consegui responder.
figura avançou um passo. Minha prima continuava sentada no chão, segurando o boneco, completamente tranquila. — Você prometeu que a gente ficaria junto — ele disse. — Eu era criança! — Eu também. A voz falhou na última palavra, como uma gravação danificada. Por um instante, o sorriso pareceu tremer. — Você me deixou crescer sozinho. Ouvi passos no corredor. Meu pai estava chamando meu nome. Tentei gritar, mas minha garganta parecia fechada. A figura se aproximou. E, pela primeira vez desde que eu a conhecia, tive a certeza de que a máscara não estava escondendo um rosto. Estava escondendo a ausência de um. A luz do celular apagou. Ouvi minha prima rir.
Depois, senti uma mão gelada agarrar meu pulso. Meu pai me encontrou no chão do depósito, sozinho, com a porta aberta e o celular quebrado ao meu lado. Minha prima estava no quintal, com minha mãe. Ela disse que nunca havia descido ao porão. Disse que eu tinha ido procurá-la e não voltado. Quando contei o que aconteceu, ninguém acreditou. Meu pai achou que eu tinha sofrido uma crise de ansiedade. Minha mãe me abraçou e prometeu que tudo ficaria bem. Mas, naquela noite, três pessoas desapareceram da vizinhança. Minha prima foi uma delas. A polícia passou semanas procurando. Examinaram casas abandonadas, terrenos, câmeras de segurança e as estradas próximas. Não encontraram nada. A festa de Halloween virou notícia, e a cidade ficou marcada pelo desaparecimento. As pessoas começaram a inventar histórias sobre um homem mascarado que aparecia nas ruas durante a noite.
Alguns diziam que era um sequestrador. Outros afirmavam que alguém estava usando uma fantasia para assustar as crianças. Ninguém sabia de onde aquelas histórias tinham surgido. Eu sabia. Mas fiquei calado. Não queria que alguém me perguntasse como eu conhecia o homem. Não queria explicar que ele havia sido meu amigo durante toda a infância. E, principalmente, não queria admitir que uma parte de mim ainda sentia saudade. Os anos passaram. Mudei de cidade, terminei a escola e comecei a trabalhar. Aprendi a não olhar por muito tempo para os cantos escuros dos cômodos. Parei de deixar a porta do armário aberta e nunca mais guardei brinquedos antigos. Também parei de comemorar o Halloween. Minha mãe dizia que eu precisava superar o passado. Talvez ela tivesse razão.
Durante muito tempo, a vida foi normal. Até eu encontrar uma fotografia antiga. Estava dentro de um álbum da família, entre imagens de aniversários e viagens. A fotografia mostrava meu quintal quando eu era criança. Eu aparecia sentado na grama, sorrindo para a câmera, com um brinquedo nas mãos. Ao fundo, perto da porta da cozinha, havia uma figura de moletom preto. A máscara branca estava voltada para a câmera. Meu sorriso desapareceu. Aproximei a fotografia do rosto, tentando encontrar alguma explicação. Talvez fosse um reflexo, uma sombra ou alguém fantasiado que tivesse passado atrás de mim. Virei a imagem. No verso, havia uma data. Era o dia em que eu tinha completado oito anos. Abaixo, uma frase escrita com minha letra infantil: Ele disse que nunca vai me abandonar. Fiquei olhando para aquelas palavras até sentir os olhos arderem.
Então percebi algo que me fez largar a fotografia. No fundo da imagem, atrás da figura mascarada, havia um espelho. E, no espelho, apareciam duas pessoas. Eu. E alguém parado atrás de mim. Alguém que não estava na fotografia original. Naquela noite, tranquei todas as portas da casa. Não dormi. Às três e dezessete da manhã, meu celular vibrou sobre a mesa. Uma mensagem havia chegado de um número desconhecido. Não havia texto. Apenas uma fotografia. Era uma imagem do meu quarto, tirada de dentro do armário. Eu estava deitado na cama, olhando para o celular. A fotografia tinha sido tirada naquela mesma noite.
Quando ouço a voz, não sinto mais o mesmo medo de antes. Sinto saudade. E isso me assusta muito mais do que a possibilidade de ele estar esperando do outro lado da porta. Porque, às vezes, quando a casa está silenciosa e a noite parece longa demais, eu me pego pensando em como seria bom conversar com meu velho amigo mais uma vez. Só para saber como ele está. Só para perguntar se ainda se lembra das nossas brincadeiras. Só para ter certeza de que tudo aquilo foi real. E ontem, enquanto eu pensava nisso, encontrei uma coisa em cima da minha mesa. Um pequeno boneco de moletom preto. A máscara branca tinha uma rachadura na bochecha. E, embaixo dele, havia um bilhete.
EU TAMBÉM SINTO SUA FALTA.