Dentes no Camarim

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Verso 1

Eu sei o que você pensa quando entra no salão: “É só uma palhacinha, maquiagem e ilusão.” Que graça, meu querido… que doce distração. Você veio pelo riso; eu vim pela atenção.

A lona cheira a açúcar, ferrugem e serragem; a plateia se ajeita; alguém pede passagem.Tropeço nos sapatos, levanto com vantagem: — O chão pediu abraço. Foi breve a homenagem.

Meu nome é McKenna, prazer, ou quase isso, a estrela mais torta desse circo movediço. A mulher que me inventou costurou este babado, escolheu meu nome num caderno já manchado.

Ela treinava o tom, a queda, a reverência, sabia o tempo exato do riso e da impaciência. Depois lavava o rosto, pendurava o figurino e ia jantar sozinha no trailer pequenino.

Na primeira vez, o riso durou até o portão. Ela apertou as faces, atribuiu à tensão. Na segunda, a mão acenou depois da despedida; e ela guardou no bolso a mão intrometida.

Eu sorrio bem bonito, faço pose de miragem; você ri com os amigos, seguindo a personagem. Atrás de mim, o espelho faz parte da atração: abaixo o braço; o vidro conclui a saudação.

Aponta para o vidro. Giro a moldura inteira. — Meu substituto bebe! — Falei na bilheteria. O riso cobre o ruído da madeira na poeira; a mulher prende os dedos à barra que vestia.

Aperta-me por dentro para conter o gesto. Eu abro a mão ao público e sigo o movimento. A luva branca treme; mantenho o braço erguido. Você ainda ri, mas ele está contido.

A maquiagem coça bem na curva do sorriso. Ela quer tocar o rosto; eu termino o improviso. Um fio de vermelho desce além do pintado,e eu o lambo de perfil, olhando para o lado.

Acha que me encara e sustenta o meu olhar. Escolho a sua fila e o chamo para entrar. Os outros batem palmas; você deixa o casaco. Seguro a sua mão e o levo até o tablado.

A música abaixa. Você espera a instrução. Eu ajeito sua gola, peço calma com a mão. Ela tenta dizer que o número terminou;sai só um sopro mudo, que o circo nem notou.

Encostamos os sapatos sobre a marca do chão. Você olha os amigos, buscando aprovação. Inclino a cabeça, como fiz tantas vezes; ela força o pescoço; os tendões vêm retesos.

Verso 2

Você veio pelo riso; eu vim pela atenção; agora olhe os dedos, sem soltar minha mão. O indicador se curva pra trás, rente à costura; a luva esconde a unha, mas revela a dobradura.

Tenta fechar o punho; mantenho a mão aberta. Um estalo interrompe a música na hora certa. — Esse era depois! A mão anda apressada. Você ri uma vez, olhando a junta deslocada.

Eu passo a outra luva pela boca, distraída, e a mulher puxa a tinta na face umedecida. O vermelho vem em fios; a pele cede junto. Por um segundo, esquece a plateia e o assunto.

No canto do lábio, fica um sulco descoberto. Ela prende o fôlego; você chega mais perto. A carne se contrai, puxando a borda da ferida, e o rasgo se alarga enquanto a fecha, aflita.

Viro o rosto pra luz, escondo o lado aberto, mas sua mão já gela e o olhar fica esperto. Pede para sair; aperto seus três dedos; as primeiras filas riem, esperando novos medos.

Meu polegar encosta na unha do anelar. Você puxa; eu seguro. A unha vai levantar. Uma gota cai no branco, perto do meu punho, seu grito corta o homem que filmava o número.

A plateia bate palmas; alguém elogia o efeito. Seu amigo levanta, sem entender direito. Ergo nossas mãos juntas, grata à colaboração; atrás do pano, apagam toda a iluminação.

A cortina nos fecha da primeira fileira. Você torce o braço e bate o pé na madeira. Por dentro, ela reúne o que ainda obedece: prende meu outro pulso, força a mão, me enfraquece.

Ouça o que escapa entre meus dentes, tão baixinho: “Solte a mão! Vá pelo pano, e siga no corredor.” É a mulher que me vestiu apontando o caminho; ela abre meus dedos antes que volte o vigor.

Você foge, deixando sangue ali na cortina, passa pelos cabos, pela escada da oficina. A placa de saída brilha no corredor; empurra a barra, presa num contêiner exterior.

Eu fico junto ao espelho, com o rosto descoberto. Tenta dizer seu nome; o primeiro som vem certo. No segundo, a mandíbula se afasta do encaixe, e a voz sai molhada na língua que se debate.

Firmo o queixo na palma e o ponho no lugar. Os dentes não se encontram quando tento fechá-lo. A mulher ainda respira, tentando me segurar; abro os bastidores e saio para buscá-lo.