A vida que eu vivo já não é mais só um conto de fadas.
Pelas ruas eu ando sem ter perspectiva das próprias coisas!
Sou um garoto daqui!
Sou daqui!
Arquipélago, sou daqui.
Na estrada os carros vão passando...
A sua fumaça vai me enauseando...
Entretanto, sou como um andróide e continuo no ritmo da minha sinfonia...
Orgânico de aparência, mecânico de ação.
No meu celular eu vejo tudo passar:
Mortes, dólar, protestos, política, poesia, medo, alegria, confusão, diversão...
Olhe só! Mais uma postagem!
Tiro olho por um segundo...
Olho para o alto...
Os fios emaranhados dos postes empoleiram os pequenos pássaros; prendem uma inocente pipa.
Olho para o lado: os gatos em cima dos muros, nos muros, as pichações:
"Que se dane isso!"
"Fé em Deus!"
"Viva a liberdade!"
"Declaro guerra!"
Desenhos de simbolismo: ódio, paz, raiva, amor.
De repente um vendedor me para:
- "Um xilito, senhor?"
- "Hoje não"
- "Para ajudar..."
- "Hoje não..."
- "Certo, Deus abençoe seu dia, irmão!"
- "Amém, irmão"
E vou no meu trote tropeiro.
As buzinas, os artistas de rua, os ambulantes, as moças que fazem propaganda no microfone para as lojas, as músicas, as pessoas falando. Tudo isso mistura-se.
Um grupo de estudantes passa por mim:
- "Bom dia, moço!"
- "Bom dia!"
Passam por mim, fardados e de mochilas. Conversam alegres.
E o futuro, a esperar por eles de braços abertos, ou cruzados e com uma cara carrancuda, pois, às vezes, o futuro é como cobrador para alguns.
Tropeço em um tijolo solto no calçamento:
"Ora, mas que!..."
Olho para o objeto.
Ele não olha para mim.
Volto a caminhar.
Ao meu redor é tudo e ao mesmo tempo o nada.
Do som se faz a cacofonia, e da cacofonia o meu silêncio mental.
"Eu deveria ter trazido meu fone de ouvido..." - penso eu, querendo alguma música para distrair-me da jornada de ir à entrevista de emprego.
Passo pela praia...
Vejo todos os banhistas reunidos.
Vejo o balançar das ondas do mar, no seu frevo: vai, não vai.
Me maravilho por pouco tempo, pois ainda tenho minha pendência de jovem adulto.
Chego ao local.
- "Oi... Tudo bom? Bom dia!" - digo eu ao entrar na sala.
- "Rafael, certo?" - a mulher me pergunta.
- "Sim..." - eu respondo.
Entrego meu currículo, ela analisa, conversa comigo mais um tempo.
- "Seu currículo é realmente muito bom..." - ela diz.
Fica quieta mais algum tempo olhando para o papel.
- "Qualquer coisa nós te ligamos" - concluí.
Eu apenas respondo um singelo:
- "Certo... Muito obrigado..."
Pergunto se posso ir-me, ela responde:
- "Pode"
E fica com meu currículo.
Eu abro a porta:
"Bom dia, e obrigado de novo!" - eu digo.
"De nada!" - ela responde carinhosamente.
Eu sigo pelo corredor e saio.
- "Como foi?" - pergunta-me a moça da recepção.
- "Não tão ruim quanto eu esperava..." - respondo em tom brincalhão.
Nós dois rimos, batemos um pequeno papo e então, eu vou embora:
- "Mas é assim mesmo... Pois bem... Até!" - eu digo.
- "Certo. Até!" - a moça da recepção me responde.
Eu vou para fora, de volta à rua.
Apesar de ter conseguido, ainda sinto-me sem perspectivas...
A noite chega.
Meus amigos convidam-me para uma festa.
Eu vou.
2:45 da manhã...
Parafraseando o poeta:
Tô numa festa estranha com gente esquisita.
- "Juca... Eu não tô legal... Não aguento mais birita..." - falo eu.
- "Ah, deixa disso! Bora ficar só mais um pouquinho, cara!" - Juca me responde.
- "Tá bem..." - eu digo.
Continuamos a festa.
Vamos até as 5:32...
Ninguém aguenta mais:
- "Bora pedir um Uber?" - pergunto.
- "Bora..." - Juca me responde embriagado.
Pegamos o Uber.
Cada qual volta para sua casa.
Eu... De volta para meu apartamentozinho.
Fico sentado no sofá por algum tempo.
Fico no celular.
Vejo o mesmo de sempre. Rio com alguns memes. Desligo.
Vou para meu quarto.
Não tiro as roupas, não vou para o banho.
Apenas me deito na cama:
"Ainda me sinto sem perspectivas..." - penso.
Só a Fé em Deus para me manter de pé...
E só ele pra ter paciência comigo...
Faço o sinal da cruz e vou dormir.
Dormir para depois acordar e talvez viver meu dia outra vez, só que, com pequenas mudanças.
Não mudanças tão grandes, mas algo como: "beber um copo d'água".
Bem... Bom sono, Rafael.
E esperemos as amigas perspectivas.
Esperemos o que nos aguarda...
Esperemos a reserva com placa escrita com seu nome.
Esperemos o porre ou o abraço da vida deste rapaz da cidade.