Véu da Tempestade

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VÉU DA TEMPESTADE Vol.1

Pedro Paulo Lopes Olivato Prefácio

Bom dia, leitor. Sou Pedro Paulo Lopes Olivato, e é um privilégio poder falar com você antes que mergulhe nas páginas deste livro. Escrevo desde os onze anos, não apenas por vontade, mas como uma necessidade, uma maneira de transformar minha mente acelerada em algo que pudesse tocar, provocar ou oferecer novas perspectivas a quem lê. A escrita e o desenho sempre foram meus refúgios, meu escape das dificuldades que enfrentei: anos de ansiedade, bullying, erros que me fizeram sofrer mais do que eu gostaria de admitir. Mas foi justamente enfrentando essas adversidades que encontrei a força para criar mundos, personagens e histórias que não apenas existiam para mim, mas poderiam servir para que outros encontrassem um pouco de luz, reflexão ou simplesmente um momento de distração saudável. Escrever tem sido a minha forma de equilibrar os extremos da minha mente, transformar intensidade em narrativa, dor em criação, caos em sentido. Este livro é uma extensão disso. É uma conversa silenciosa entre nós: você, leitor, e eu, que apenas espero que minhas palavras possam, por um instante, acompanhá-lo em sua própria jornada. Então, antes de virar a primeira página, quero lhe desejar um bom dia. Que cada frase daqui possa, de alguma forma, ecoar em você, provocar perguntas ou oferecer um respiro. Obrigado por permitir que minhas palavras cruzem o seu caminho. — Pedro Paulo Lopes Olivato

Indice: I. Linha de Varsóvia, 7

II. Rosas Vermelhas, 47

III. Instituto Hargrove, 89

Introdução Se você procura consolo, esperança ou a promessa de um final que restaure a fé na humanidade, esta não é a história que deve ser lida. Não há luz suave aqui. Não há redenção fácil. A neve que cobre estas terras não traz beleza, mas silêncio, um silêncio pesado, capaz de engolir vozes, lamentos e pecados. Cada floco cai como um lembrete frio de que, neste lugar, até o céu parece indiferente. Este é um relato de sofrimento. De decisões que esmagam existências inteiras. De homens cuja crueldade não nasce da loucura, mas da vontade. Aqui, a nobreza é apenas um título vazio carregado por mãos manchadas, e a inocência não é um escudo, mas um alvo. O que se segue é a história de uma criança que não pediu para nascer. Uma criança entregue, desde o primeiro instante, ao desamparo e à violência. É também a história de um homem que fez do tormento alheio seu único legado. E a história de um garoto que, mesmo exausto e quebrado, tentou permanecer justo em um mundo que só lhe oferecia escuridão. Se escolher prosseguir, saiba que cada página carrega cicatrizes. Aqui não há espaço para ilusões. Há apenas o que aconteceu, frio, irrevogável e verdadeiro. Com toda a gravidade que este testemunho exige, O narrador.

I Linha de Varsóvia

A s densas e alvas camadas de neve ocultavam as pegadas e os rastros dos que já se foram. Sob o céu fechado, um grupo de escavadores buscava abrigo com urgência, avançando com dificuldade contra o vento cortante. Os mortos, vítimas daquilo que muitos chamariam de ira de Deus, acumulavam-se numa carroça, empilhados como fardos sem nome, rígidos e azulados pelo frio. Quando as esperanças dos sobreviventes se esvaíam e a exaustão ameaçava vencê-los, uma luz dourada e intensa rasgou o véu tempestuoso de neve e folhas secas. Uma caravana surgiu entre a tormenta: fora enviada pela Família Capaldi para resgatar os pobres desgraçados. As carruagens avançavam firmes, e o brasão prateado da família refletia a pálida luz da lua, que, agora liberta da prisão de nuvens e névoa, voltava a brilhar em toda a sua glória silenciosa. O metal reluzia como um presságio ambíguo, promessa de salvação para uns, de desgraça para outros. No caminho em direção a um abrigo seguro, os homens nas carruagens adornadas com os símbolos dos Capaldi ouviram um som abafado e ínfimo, quase imperceptível, que teria passado despercebido se a noite não estivesse tão absolutamente silenciosa.  O que é esse som? — exclamou a figura misteriosa à frente da comitiva.  Não se preocupe, não deve ser nada. Continue — repreendeu a outra figura, com voz firme.  Mas, senh… — o homem foi interrompido por um som súbito de agonia, seguido de gritos lancinantes.  O que está havendo ai atrás!— gritou a figura ao lado, alarmada.  Precisamos de ajuda rápido!— berrou o escavador mais velho, com a voz rasgada pelo pânico. Os homens desceram de suas carruagens, movendo-se lentamente, com enorme dificuldade. A espessa camada de neve lhes prendia as pernas, tornando cada passo um esforço penoso. Ainda assim, vagarosamente, dirigiram-se à origem do som. À luz trêmula dos lampiões, revelava-se uma cena de horror silencioso: uma mulher de semblante jovem, com o olhar fraco e já quase morto, dançava entre a vida e a morte. Sangue misturado à água escorria de seu ventre aberto, manchando a neve com um vermelho vívido e cruel. Em desespero, os misteriosos viajantes lançaram seus lampiões ao chão para avançar mais rápido. Ao chegarem até a mulher, um homem de aparência avançada pediu, com urgência, que lhe entregassem um canivete. Com movimentos forçados, brutos e indelicados, ele rasgou o ventre da mãe moribunda e retirou o recém-nascido à força. A criança não emitia som algum… até que, sob um último vislumbre da luz da lua, o pequeno e frágil bebê chorou e tremeu, como se a própria vida resistisse em seus pulmões. Os gélidos dedos da morte, materializados na neve implacável, estendiam-se sobre o corpo do recém-nascido, ameaçando roubar-lhe o primeiro fôlego. Rapidamente, os viajantes reuniram pedaços de pano, cobertores gastos e mantas rasgadas, envolvendo a criança na tentativa desesperada de preservá-la. Contudo, devido à longa espera, um jovem usando vestes nobres desceu de uma das carruagens adornadas. Ostentava o brasão prateado da família também em suas roupas. Aproximou-se da criança, tomou-a pelos pés e a manteve de ponta-cabeça à beira de um precipício, rindo de forma descontrolada, como se exibisse uma aberração grotesca. A criança, completamente desconhecida para ele, teve o infortúnio de cruzar o caminho de Edmund Capaldi — um homem cruel, de natureza sádica. Seu prazer no sofrimento alheio não necessitava de motivos; a dor, por si só, já lhe era suficiente. Para Edmund, o desespero daquela vida recém-nascida era um espetáculo, uma oportunidade vulgar de demonstrar poder e impiedade. Enquanto a criança chorava e tremia de medo, Capaldi, com um sorriso maligno, proferia palavras de desprezo, cuspidas com deleite. A cena, marcada pela crueldade do nobre, revelava a verdadeira essência de um homem cujas ações eram guiadas exclusivamente pelo prazer do tormento alheio. Naquela noite, sua figura destacava-se contra o horizonte nevado, personificando o terror e a injustiça que pairavam sobre aquela terra desolada. O escavador experiente, em puro desespero, sacou seu revólver e apontou-o para o vilão.  Entregue a criança! — ordenou, com a voz trêmula de raiva. — Dê-lhe ao menos cobertura seca e quente! Edmund virou-se lentamente. Seu sorriso decaiu para um tom de desgosto entediado. Revirando os olhos, lançou a criança nos braços do escavador como se fosse um saco velho, vazio e inútil. Sem dizer mais nada, afastou-se. O escavador, sem hesitar, cobriu o bebê com cuidado, abandonou a carroça de corpos e seguiu viagem dentro de uma carruagem adornada e elegante. A neve continuava a cair, cobrindo pouco a pouco o rastro de sangue deixado pela jovem mãe, apagando sua existência como se jamais tivesse vivido. Com a criança nos braços, o escavador entrou na carruagem aquecida, onde o calor do interior contrastava violentamente com o frio implacável do exterior. Os membros da caravana, ainda abalados, retomaram suas posições, prontos para seguir viagem. Dentro da carruagem, o escavador observava o bebê, que agora chorava mais forte, como se reconhecesse a presença de um novo protetor. Envolveu-o em mantas mais espessas e o manteve junto ao peito, tentando aquecê-lo com o próprio corpo. O silêncio reinava, quebrado apenas pelo ranger das rodas sobre a neve endurecida.  Precisamos encontrar um lugar seguro para esta criança — murmurou, mais para si mesmo do que para os outros. A caravana avançava lentamente, adentrando cada vez mais um território desconhecido. A lua, alta no céu, iluminava o caminho com sua luz prateada. De repente, um dos homens à frente levantou a mão, sinalizando para que todos parassem.  O que foi agora? — perguntou o escavador, misturando preocupação e cansaço.  Há algo à frente, senhor. — respondeu o homem, apontando para uma sombra que se movia na neve. A sombra aproximava-se vagarosamente, revelando-se sob a luz lunar. Os viajantes mantiveram as mãos próximas às armas. O escavador, ainda com a criança nos braços, observava atento. Quando a figura enfim se revelou por completo, mostrou-se uma criatura alta, magra e seca, com a pele esticada sobre ossos proeminentes. Seus olhos negros eram fundos e vazios; o maxilar, quebrado; a boca, repleta de dentes podres. A criatura caminhava de forma lenta e cansada. Subitamente, imobilizou-se como uma estátua macabra. Em seguida, lançou-se numa corrida frenética, emitindo um grunhido gutural que reverberou pela noite. As árvores tremeram, despejando neve ao chão. O monstro investiu contra a primeira carruagem, despedaçando-a por completo. Sob os escombros, as vísceras dos homens pendiam entre as tábuas quebradas. A criatura, absorta, devorava os corpos enquanto as outras carruagens disparavam em fuga. Sem rumo, os sobreviventes chegaram a um vilarejo velho, pobre e abandonado. O lugar exalava melancolia e desolação. As casas, outrora cheias de vida, estavam em ruínas: telhados desabados, janelas quebradas, portas rangendo ao sopro do vento, como se sussurrassem histórias esquecidas. A vegetação crescia desordenada, invadindo ruas de terra batida, cobrindo poços e fontes antigas. As chaminés, agora frias, erguiam-se como sentinelas silenciosas de um passado extinto. O ar, pesado de mofo e abandono, denunciava um lugar onde a esperança fora arrancada pela raiz. Os sobreviventes, exaustos e feridos, encontraram abrigo nas casas menos deterioradas, tentando se proteger do frio cortante. O escavador, com a criança ainda nos braços, buscou um canto mais protegido, onde pudesse aquecer aquele pequeno ser que agora dependia inteiramente dele. A lua lançava sua luz prateada sobre o vilarejo, criando sombras longas e inquietantes. O grupo manteve-se vigilante durante toda a noite, temendo o retorno da criatura. O silêncio era quebrado apenas pelo vento e pelo estalar ocasional das madeiras antigas. A cada ruído, os homens se sobressaltavam. O escavador, com o coração pesado, contemplava a criança adormecida em seus braços. Sabia que a jornada estava longe do fim e que muitos desafios ainda os aguardavam. Ainda assim, encontrava forças na fragilidade daquele pequeno ser, cuja inocência lhe dava um motivo para continuar. A noite passou lentamente. Com o primeiro raio de sol, o vilarejo abandonado pareceu ganhar uma aparência menos hostil. Os membros da caravana, renovados pela luz do dia, começaram a planejar seus próximos passos, determinados a encontrar um local verdadeiramente seguro. No centro do vilarejo, uma praça esquecida abrigava uma fonte seca, cujas esculturas gastas ainda conservavam vestígios de beleza antiga. Árvores retorcidas e sem folhas projetavam sombras fantasmagóricas. Os consortes de Capaldi encontraram refúgio em uma das casas menos arruinadas. Lá dentro, o ar era pesado e úmido, impregnado pelo cheiro de madeira apodrecida. Acenderam uma fogueira no que restava da lareira, tentando afastar o frio da noite. As chamas lançavam sombras dançantes nas paredes enquanto os consortes de Capaldi se aqueciam em silêncio, alheios, ou indiferentes, ao horror que ainda ecoava naquela terra coberta de neve.

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