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[09h12] Lara: Caio, comecei hoje no emprego novo. A casa da Dona Mirtes é impecável, mas tem algo muito estranho aqui. 😩
[09h12] Caio: Estranho como? Ela não te pagou o combinado?
[09h13] Lara: Não, ela é uma fofa. Super elegante. Mas ela tem treze gatos, Caio.
[09h13] Caio: Treze?
[09h13] Lara: Doze persas brancos, idênticos. Eles ficam parados, como se fossem decoração. E um preto.
[09h14] Caio: Preto sempre sobra.
[09h14] Lara: Ele me encara como se estivesse me julgando. Não mia. Faz um ruído seco na garganta… como se estivesse tentando falar.
[09h15] Caio: Lara… se ele te olha como gente, é porque não é só um gato.
[09h15] Lara: Lá vem você. 🙄 Estou sozinha aqui até às 18h, não começa.
[17h45] Lara: Falta pouco pra eu sair e o gato preto não me deixa em paz. Ele não me segue. Ele já está onde eu vou.
[17h46] Caio: Olha o reflexo dele em algum vidro.
[17h46] Lara: Por quê?
[17h46] Caio: Só olha.
[17h49] Lara: Caio… eu fiz.
[17h49] Caio: E?
[17h50] Lara: No vidro não era um gato. Era um homem curvado, torto, como se estivesse preso dentro da própria pele.
[17h50] Lara: Parecia estar sofrendo.
[17h51] Caio: E fora do reflexo?
[17h51] Lara: O gato. Me olhando com ódio. Como se eu tivesse entendido algo que não devia.
[17h53] Lara: A Dona Mirtes chegou agora. Não ouvi a porta abrir.
[17h54] Lara: Ela me pediu pra ficar até mais tarde amanhã. Disse que tem medo de ficar sozinha com “o intruso”.
[Dia seguinte — 08h30]
Lara: Cheguei às 07h e a Dona Mirtes já estava acordada. Me serviu chá.
Lara: Os olhos dela estavam amarelados.
Caio: Ela falou do gato?
Lara: Disse que só tem doze. Doze meninos brancos.
Caio: Lara…
Lara: Ela falou que o preto é algo que entrou aqui sem permissão. Que se alimenta do erro.
Caio: Não fica aí.
Lara: Ela chorou. Disse que se sente ameaçada. Disse que eu tenho uma “alma clara”.
Lara: Eu aceitei ficar.
Lara: O gato preto está rosnando pra ela agora.
Lara: Mas eu entendi, Caio.
Lara: Ele quer o lugar de um dos brancos.
Lara: A Dona Mirtes é a única pessoa real aqui.
[23h30]
Lara: Caio?
Lara: O gato está arranhando a porta. Mas não é como animal. É ritmado. Tum… tum… tum.
Caio: Não abre.
Lara: Tem algo no corredor. É pesado. Se arrasta.
Lara: Vejo coisas por baixo da porta. Não são patas. São dedos. Brancos. Peludos. Tentando cavar o rodapé.
Caio: LARA, ABRE A PORTA PRO PRETO!
Lara: Ela está aqui. As pernas estão erradas. As articulações dobram pra trás.
Lara: O rosto dela se abriu… como se fosse feito pra isso.
Lara: Ela disse que meus olhos ficariam lindos em um persa.
Lara: O gato preto pulou nela, mas os outros…
Lara: Eles têm dentes de gente.
Lara: Caio…
Lara: por que o gato preto tem a mesma cicatriz que você?
(sem resposta)
Dois dias depois, Caio entrou na mansão com a sensação de já ter falhado ali antes. O cheiro era doce demais para ser só lavanda. Na sala, ele contou: treze gatos persas brancos.
Um deles tremia. Tinha uma mancha na orelha, igual à de Lara. Quando abriu a boca, o som saiu quebrado:
— Caio…
No canto escuro, um gato preto observava.
— Treze? — disse a voz atrás dele.
Dona Mirtes estava de pé, mas sua pele parecia um casaco mal vestido. Os olhos eram fendas amarelas, largas demais para um rosto humano.
Quando as garras tocaram seu ombro, Caio não gritou. Ele reconheceu.
Enquanto os ossos quebravam e o mundo encolhia, o gato preto antigo começou a se desfazer em fumaça. Cansado. Aliviado.
— Você sempre tenta salvá-las — ronronou Dona Mirtes. — E sempre chega tarde.
Agora havia quatorze gatos na casa. Treze brancos. E um preto, com uma cicatriz na sobrancelha, que se sentou no canto da sala e começou a esperar, em silêncio, pelo próximo primeiro dia de trabalho de uma nova garota.
Nota do chat 9