Meu amigo Gonçalves convidou a mim e a patroa para um jantar em sua casa. Fiquei relutante de ir...
Sou um sujeito bastante caseiro e Marília também não gosta de sair muito. Porém, quando Gonçalves disse que teria pato para comer eu logo me animei.
Gosto bastante de pato, como mais que frango inclusive. Sempre que vou ao açougue, peço logo:
"Ei, chefe. Me vê aí um pato dos bem gordos!"
É uma delícia.
Chamei Marília para ir.
De começo, ela fez a velha mania:
"Ah, amor... É longe..."
"Deixa pra da próxima vez..."
"Não quero ir..."
Depois que insisti bastante, pois estava louco para me saborear com a carne de pato, ela aceitou:
"Tá bom... Mas só por você, seu bebêzão!"
Ficou marcado então ali: ir para o jantar na casa do Gonçalves.
A noite então veio.
Arrumamo-nos e seguimos para a casa do meu amigo.
No caminho todo eu só pensava naquele bendito pato...
Ah, como eu iria me deliciar...
Chegamos então na casa do sujeito.
Fomos recepcionados por Gonçalves e sua esposa, a Genoveva.
Entramos e logo começou o clássico diálogo:
- "Que bom que vieram!"
- "Disponha, Gonçalves... Tudo para vim ver meu tão prezado amigo!" (Prezado amigo... Eu queria mais era mesmo aquele pato!)
Ficamos um tempo na sala jogando conversa fora.
Falamos bastante.
Em determinado momento, toquei no assunto:
"Pois é... E o jantar, em?"
- "É mesmo!" - disse Gonçalves num susto.
- "Já íamos esquecendo. A conversa tava tão boa..." - falou Genoveva.
Começamos todos a rir.
Dirigimos então em direção a cozinha:
- "Olha, tem arroz, feijão, farofa, bisteca, salada..." - começou Gonçalves.
- "E pato?" - indaguei eu.
- "Pato também!" - falou Gonçalves, em tom humorado.
Nos servimos.
Marília colocou no prato só arroz, feijão, farofa, salada e bisteca.
Já eu...
Não pus bisteca.
Perguntei:
"Em qual panela tá o pato?"
- "Tá naquela ali, ó!
Do lado do feijão" - respondeu-me Gonçalves.
Avancei então com cobiça à carne de pato.
Botei bastante no prato.
Ela disse que o marido depois do jantar ficou com a consciência pesada e decidiu falar uma coisa pra ti..." - continuou minha mulher.
- "O que seria?" - perguntei.
- "Não tinha carne de pato no jantar..." - respondeu-me.
- "Como assim?" - indaguei.
- "Era capote, Ricardo!
Você comeu carne de capote.
O Gonçalves disse que era carne de pato só pra tu ir" - falou Marília.
Carne de capote...
O miserável sabe que sou sensível a carne de capote e mesmo assim não falou nada e ainda mentiu dizendo que era de pato!
Mandei então Marília ligar para a casa do Gonçalves e dizer que se ele convidasse para ir em outro jantar eu recusaria e mandei um xingão para ele de cortesia.
Nunca mais falo com esse mentiroso!
Tô passando mal...
Já fazem duas horas que tô aqui no banheiro.