O Relógio que Não Marca

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O Paradoxo do Relógio

Vou fechar os olhos, não levantarei da cama e colocarei meus calçados. Assim, não irei tomar o café da manhã e dar bom dia para qualquer um que venha me desejar um “bom dia”. Por esse motivo, também, não irei trabalhar e sequer pensarei na escola para a qual iria logo em seguida.

Manterei os olhos fechados para o tempo passar, que os dias se tornem semanas e elas, por sua vez, virem meses. Então, que se passem os anos.

Quando a morte chegar e me perguntar o que diabo estou fazendo, vou dizer que rodei o tempo para o tempo parar.

Faz sentido?

Se não faz sentido, por que me manteria com os olhos fechados, sabendo que, mesmo dando tudo que tenho ao tempo, nada ele me deve e favor algum dele posso cobrar? Colocar os calçados, tomar o café da manhã e dar bom dia para quem me fizer essa mesma saudação.

Trabalhar, cansar, logo em seguida ir para a escola cansado, mas, ao final do dia, deitar-me e pensar nos instantes em que existir conviveu junto do viver.

Caso faça sentido, o tempo pode levar aquilo que preferir, porque não irei resistir. Esse será meu e seu pacto: darei todo momento não vivenciado e você se manterá parado. Não é uma troca justa, um acordo cujo preço eu possa pagar. Fechar os olhos seria tirar as mãos do volante e deixar ir. Cair nas mãos do acaso, enquanto abrir os olhos e viver, mesmo que cansado, seria uma convivência constituída por mim, o tempo e tudo que se pode jogar à mesa. Esse é o meu relógio, para o qual nada foi atribuído, então não marca fim ou começo. Seus ponteiros se movem, sua estrutura sutilmente, com o passar do tempo, muda, mas, essencialmente, ele é o mesmo relógio fora e dentro do tempo.

Fora porque outros relógios podem marcar um começo ou fim, podendo estar corretos, adiantados ou atrasados. Mas o meu relógio não é especial.

Ele pode ser visto de duas maneiras.

Anacrônico, a qualidade daquilo que está fora do tempo, que não respeita o presente, pode falar do passado e se perder no futuro. Paradoxal, a condição daquilo que se contradiz, parece fazer sentido, mas se perde na própria lógica.

Estranho, não é?

Parece não dar em lugar nenhum, talvez porque seja realmente por esse motivo, está indefinido, ou melhor, eu diria abstrato.

Agora, o motivo de ele estar no tempo.

Mesmo sendo um relógio abstrato, em alguma instância existe e está mudando nas classificações de tempo. Seguindo uma rotina, se repetindo e nunca estando realmente parado. Os termos utilizados foram interpretados por meio da minha ótica. O mesmo pode ser feito com esse estranho relógio.

Você pode olhar pelo lado de fora, encarar como os momentos caem numa abstração atemporal, deixando de fazer sentido aos poucos até fazer parte do inconsciente. Também pode olhar pelo lado de dentro, se perguntar como posso estar sempre mudando e, mesmo assim, continuar sendo o mesmo relógio. Por mais difícil que seja entender, no fundo, você provavelmente já sentiu isso em algum momento.

Tem muitos nomes. Um em particular que gosto é “nostalgia”.