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ATENÇÃO: História longa! Tempo médio de narração da história completa: 1h.
Capítulo 4:
O cômodo mergulhou no silêncio, somente o som da chuva batendo no telhado e os trovões podiam ser ouvidos.
Alex pareceu perdido, sua respiração ficou mais pesada e ele se virou para outra direção.
Fiquei ali, olhando para o chão, esperando que ele dissesse alguma coisa.
Então ele se virou novamente, olhando diretamente para mim, e aquilo fez eu erguer minha cabeça.
— Sei que é uma escolha difícil, mas temo que você desperdice sua única chance e se arrependa disso.
Meu olhar voltou para o chão e, de repente, Alex estendeu sua mão para mim.
Olhei confusa.
— Só… só vem comigo. — Ele desviou o olhar. — Você pode se decidir quando chegarmos lá.
Um raio cortou o céu, suponho, pois seu clarão avançou para dentro da loja.
O tempo pareceu congelar, mas eu me movi e coloquei minha mão sob a de Alex.
Quase na mesma hora, o som ensurdecedor de uma sirene surgiu, sobressaindo até mesmo o som da tempestade.
Coloquei minha mão livre sobre a minha orelha esquerda. Parecia que ela iria sangrar com aquele som estridente.
— Temos que ir — Alex falou com urgência.
Me levantei e ele olhou para a mesa.
— Não esquece — disse, apontando para o bloco de notas e para a caneta.
Peguei os objetos rapidamente e Alex agarrou minha mão, me levando com ele para o lado de fora.
Eu ainda estava atordoada com aquele som excruciante, mas Alex continuou a me puxar, me levando com ele enquanto segurava minha mão firmemente.
Ele abriu a porta de um carro preto que estava estacionado perto da loja.
Eu entrei e ele fechou a porta com força. Em seguida, deu a volta e entrou no lugar do motorista.
Assim que ele fechou a porta, o som das sirenes ficou mais abafado e, consequentemente, mais tolerável. Assim, eu pude me acalmar.
Ao contrário de mim, Alex estava tenso e não fazia a menor questão de buscar por calma. Ele manobrava o carro de forma apressada, como se quisesse nos tirar dali o mais rápido possível.
Não pude evitar de olhar para ele, esperando que ele me desse qualquer pista do porquê estávamos fugindo daquele jeito.
Tenho certeza que eu parecia um gato em alerta, pois senti meus olhos perfeitamente redondos enquanto o encarava.
— Eles estão vindo — finalmente se manifestou.
Fiquei ainda mais confusa do que antes.
Alex finalmente virou o carro e acelerou, acelerou enquanto apertava o volante com força como se temesse que ele fugisse de suas mãos.
— Todos aqueles monstros… estão vindo.
Ele finalmente deu a resposta, mas acho que eu não estava pronta para ouvir.
Senti um arrepio percorrendo a minha espinha.
— Eles sabem que eu te encontrei — completou, sem desviar os olhos da rua.
Me encolhi na minha poltrona, queria falar alguma coisa, qualquer coisa e talvez perguntar se tudo ia ficar bem, mesmo que a resposta fosse tão ruim quanto as outras.
Mas é claro que eu não podia fazer isso.
Então apenas continuei sentada naquela poltrona, olhando a cidade passar pelos meus olhos através da janela.
Alex pareceu mais calmo depois de alguns minutos, quando estávamos bem longe do nosso ponto de partida.
Ele diminuiu a velocidade do carro e umedeceu os lábios.
— O lugar que estávamos antes era a parte mais baixa da cidade e essa parte é a mais perigosa, pois é por lá que fica o único portal que você jamais cogitaria entrar.
Olhei para Alex.
— Agora vou te levar para os portais certos, mesmo que você não tenha se decidido ainda, lá você estará perto das duas únicas opções aceitáveis.
Ele finalmente desviou seu olhar para mim.
— Mas seria mais fácil se você já tivesse sua resposta.
Outra vez não consegui olhar para ele e assim voltei meu olhar para a janela.
Apoiei minha cabeça no vidro, contemplando o turbilhão de pensamentos que atravessava minha mente naquele momento.
Meu “guardião” também ficou pensativo.
As gotas de chuva escorriam pelo vidro e eu olhava para aquilo como se fosse a coisa mais importante do mundo.
Mas é claro que eu não me importava, aquilo era só uma forma de fugir dos olhos de Alex.
Então, um suspiro dele cortou o ar.
— Eu sei o que te levou a fazer aquilo…
Assim que suas palavras atingiram os meus ouvidos, me virei para ele, de súbito.
Eu queria saber… como.
— Eu sei sua história, seu nome, sua idade, como você veio parar aqui. Infelizmente, não tenho poder para ler seus pensamentos e saber o que se passa na sua mente agora, algo que seria bem útil, já que você perdeu sua voz.
Separei meus lábios para questionar e me senti uma idiota quando me lembrei que nada iria sair.
— Mas eu não preciso conseguir ler seus pensamentos para saber que você está totalmente confusa agora.
Ele estava certo.
— Eu sei que você veio parar aqui por não suportar a culpa. A culpa por errar e principalmente por deixar as pessoas irem embora.
É, mais uma vez ele estava certo, mesmo entrando no assunto de forma superficial.
— Eu sei como tudo que aconteceu tornou a sua vida cinza e te fez querer desistir.
Ele olhou para mim por um segundo.
— E eu não vou dizer algo como: “isso não te define”, porque, se fosse tão simples, você não estaria aqui.
Senti meu coração apertar, o peso de tudo que eu queria dizer caiu sobre mim e ficou insustentável.
Senti o nó na garganta e as lágrimas surgindo e então… olhei para baixo e vi que eu poderia falar.
Lá estava o bloco de notas e a caneta.
Peguei os dois e apoiei no painel do carro.
As letras saíram ainda mais tremidas e irregulares por conta dos movimentos do carro, mas eu consegui.
Arrastei o papel para mais perto de Alex, para um lugar onde os olhos dele pudessem alcançar, e me senti um pouco idiota, ele estava dirigindo e eu estava lá, passando a porra de um bilhete para que ele pudesse entender como eu me sentia.
Sinto que quero voltar, mas sinto que não existem motivos para isso. Alex leu.
— Talvez… talvez não precise haver um “motivo”.
Olhei confusa.
— Talvez você só queira voltar, para ver o céu outra vez, o verdadeiro, é claro. — Ele brincou. — Ou você queira descobrir o que a vida reserva para você, porque sempre há alguma coisa.
Alex ficou em silêncio e eu voltei a ficar pensativa, tentando digerir tudo o que ele havia acabado de dizer.
Então ele se virou, seus olhos verdes refletindo o brilho amarelo das luzes.
— Também não vou dizer algo como: “pense nas pessoas que se importam com você”. Quero que você pare por um instante e procure, dentro de si mesma, uma faísca. Uma pequena faísca que te mostre que você ainda quer viver.
Suas palavras me fizeram prender a respiração por um instante.
Alex voltou a olhar para a rua e eu reencostei minha cabeça na janela, enquanto tentava buscar a tal… “faísca”.
Antes que eu pudesse relaxar, senti um arrepio ao ouvir o som agressivo de um motor se aproximando.
Abri os olhos de súbito, a tempo de sentir o forte impacto de algo atingindo a parte traseira do nosso carro.
Vi a aflição no olhar de Alex enquanto ele tentava recuperar o controle.
Mas sem sucesso.
Nós estávamos girando na pista molhada, sem qualquer chance, e aquilo era nauseante.
— Segura firme! — Alex gritou sob o som ensurdecedor.
E nós perdemos o controle de vez.
Capítulo 5:
Tossi.
O cheiro de fumaça misturado com borracha queimada parecia grudado na minha garganta.
Minha visão estava turva, mas ainda assim eu podia ver os arredores.
As casas em volta, as árvores, os postes lançando suas luzes fracas para mim… e… uma van preta.
Assim que meus olhos encontraram aquela maldita coisa, senti a adrenalina surgir da planta dos meus pés e chegar até o meu cérebro.
Tentei me arrastar, mas parecia que um elefante estava em cima de mim.
E eu juro que pude ouvir o som de alguns dos meus ossos.
Rangi os dentes de dor e senti o gosto metálico que preenchia minha boca.
Parei de tentar me mover, derrotada, e encostei minha cabeça no asfalto frio, enquanto sentia toda aquela dor irradiar pelo meu corpo.
As lágrimas não demoraram a surgir e eu me lembrei de Alex, ergui minha cabeça tentando encontrá-lo e estendi minha mão espasmática, esperando que ele surgisse e a segurasse.
Mas, diferente do que eu esperava, ouvi o baque surdo da porta da van se fechando e uma silhueta começando a se aproximar.
Não demorei a reconhecê-la.
Era a mesma de horas atrás.
Todo o esforço que eu tive de fugir e de me esconder dela, de repente, se tornou inútil.
Ela estava tão perto de mim agora.
E eu estava lá, totalmente indefesa.
A mulher se abaixou diante de mim. Seus movimentos eram superficiais e quase robóticos, e seu corpo exalava o inconfundível aroma da morte.
Ela sorriu… com aquela fissura grotesca em sua face, revelando um milhão de dentes pontiagudos e podres.
Não.
Suas mãos terrivelmente pálidas e ossudas se estenderam em minha direção.
Tentei me esquivar, mas foi inútil.
Pude sentir suas unhas afiadas perfurando a carne dos meus ombros, enquanto ela erguia o meu corpo fraco.
A mistura e a intensidade de todas aquelas dores causavam a estranha ironia de parecer que não havia dor alguma, como se eu estivesse anestesiada.
Alex.
A mulher me colocou sobre um de seus ombros, como se eu não fosse nada e, contrariando todas as preces que eu fazia em minha mente, começou a caminhar comigo em direção à van.
Cada passo que ela dava fazia meu corpo balançar e toda vez que minha caixa torácica ricocheteava contra seus ossos, me faltava ar.
Mas eu não tinha forças para me desvencilhar daquele ser profano, muito menos uma voz para gritar por uma ajuda incerta.
Tudo que eu tinha era o gosto salgado das lágrimas que rolavam pelo meu rosto, o pânico e a dor.
A mulher finalmente parou diante da porta da van. Sua mão tocou a maçaneta, mas então… ela parou.
Logo depois, se virou lentamente para trás e eu finalmente entendi sua reação.
Era Alex.
Ele estava parado diante de nós.
Estava ferido, mas lançava um olhar hostil para a mulher.
Pude sentir cada músculo daquela aberração se contraindo sob mim, antes que ela deixasse o meu corpo despencar para o chão.
Arfei assim que meu corpo moribundo atingiu o asfalto.
Então ergui meu olhar para Alex enquanto segurava um de meus pulsos. Minha visão estava desfocada por conta das lágrimas, mas ainda pude notar que Alex continuava encarando a mulher, que estava totalmente paralisada.
— Eu já te disse um milhão de vezes para não cruzar a porra do meu caminho, Lemora — ele disse, sua voz firme sobressaindo aos trovões.
O silêncio pairou no ar e Alex finalmente desviou seu olhar para mim, que ainda estava no chão.
— Corre, Cecília.
A ideia pareceu absurda. Eu mal conseguia me levantar, tampouco correr.
Mas então senti meu corpo ganhar força e energia de forma repentina. Não era muito, mas o suficiente para eu me levantar e correr.
Rapidamente me coloquei de pé e avancei na direção de Alex.
Parei diante dele e olhei em seus olhos, esperando que ele me acompanhasse, mas ele não se moveu.
— Eu não vou com você… ainda — disse, com os olhos fixos na mulher. — Alguém precisa dar um jeito nela — falou, como se soubesse exatamente o que se passava na minha cabeça.
Continuei parada diante dele, me sentindo incapaz de dar qualquer passo.
Alex desviou o olhar para mim outra vez.
— Você precisa ir, eu prometo que vou te encontrar.
Seus olhos verdes e o sangue que escorria pelos seus lábios refletiam a luz pálida do luar.
O rosto de Alex se contorceu de repente em uma estranha expressão de dor. Ele tentou disfarçar, mas eu ainda pude perceber. Alex.
— Você tem que correr agora, Cecília!
Assenti, ainda atordoada, e comecei a correr, movida pela urgência.
Tentei esquecer tudo o que estava acontecendo, fechei meus olhos com força enquanto sentia a brisa da noite tocar o meu rosto e mordi meus lábios com tanta força que senti o gosto metálico voltar.
Mas então… um som me fez parar com os olhos arregalados.
Era… era como uma melancia explodindo, seguido do som de algo batendo contra o asfalto.
Me virei bruscamente e senti meu coração afundar com a cena que estava a alguns metros de mim.
Alex… Alex estava de joelhos diante daquela mulher e, do outro lado da van, havia uma outra figura. Era um homem, extremamente alto e com características semelhantes às da mulher.
Eram dois… ha… claro que eram.
E aquele homem estava lá para nos pegar de surpresa.
Alex estava pronto para controlar aquela mulher, mas não poderia imaginar que aquele maldito homem também estava lá, em silêncio.
Aquela maldita coisa estava lá apenas esperando para… para fazer aquilo.
Senti minhas pernas fraquejarem e minha respiração falhar.
Se eu pudesse gritar, teria feito.
Alex… Alex estava morto.
O seu corpo ajoelhado diante daqueles monstros… estava sem cabeça.
E ao redor havia sangue, muito sangue.
Não sei quanto tempo fiquei congelada diante daquela cena. Tudo parecia… uma mentira… uma mentira terrível, e quanto mais eu olhava, mais errado parecia, mais meu coração ardia dentro do meu peito e meu sangue congelava dentro das veias.
O corpo de Alex caiu de bruços, produzindo outro baque, e a mulher o chutou, como se ele não fosse nada… mas ele era… ele era minha esperança.
E mesmo que ele estivesse morto, eu não deixaria aqueles monstros vencerem.
Vi eles vindo em minha direção e fiz a única coisa que eu poderia fazer: voltei a correr.
Desde o início eu deveria ter percebido que a única coisa que poderia fazer naquela noite era… correr.
E, apesar de tudo, deveria ter notado que eu queria viver…
Desde o início.