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[ O Início Sempre Parece Inocente ]
Viajar sempre parece uma boa ideia no começo.
Existe uma espécie de encanto nisso, a promessa silenciosa de que o mundo é maior do que tudo aquilo que a gente deixou para trás. Estradas vazias, céu aberto, o desconhecido chamando de um jeito quase bonito… quase seguro.
Mas não é.
Nunca foi.
— Você trouxe mesmo só isso?
Caio perguntou, encostado na porta do carro, analisando minha mochila com uma expressão que misturava julgamento e resignação.
Dei de ombros, ajustando a alça nas costas.
— Quanto menos peso, melhor.
Ele soltou um riso baixo, daqueles que parecem mais um sopro do que uma reação genuína.
— Você nunca aprende.
Não respondi. Talvez porque, no fundo, eu soubesse que ele estava certo ou talvez porque já tivesse aprendido a não discutir com o Caio quando ele falava daquele jeito, como se soubesse de coisas que eu ainda nem tinha percebido.
Entramos no carro, e o motor respondeu com aquele ronco cansado, familiar. A lataria carregava marcas de outras viagens, e o som do motor definitivamente não era tranquilizador… mas pra gente, aquilo fazia parte. Era quase reconfortante, como um velho hábito que você não questiona mais.
— Primeiro destino?
perguntei, acomodando-me no banco do passageiro.
Caio demorou a responder.
Ele sempre demorava.
Seus olhos ficaram fixos na estrada à frente por um instante maior do que o normal, como se estivesse escutando algo além do silêncio.
— Tanto faz.
disse por fim.
— A estrada escolhe.
Soltei um pequeno riso.
— Você fala isso toda vez.
— E toda vez funciona.
E então partimos.
A cidade ficou para trás aos poucos, dissolvendo-se em postes, depois em sombras, até não restar nada além da estrada cortando a escuridão. O mundo parecia diminuir à medida que avançávamos, como se tudo aquilo que não estivesse iluminado pelos faróis simplesmente deixasse de existir.
O silêncio veio junto.
Mas não era um silêncio vazio.
Era um silêncio que preenchia tudo.
— Você ainda escreve sobre isso?
Caio perguntou depois de um tempo. Virei o rosto na direção dele.
— Sobre o quê?
— Sobre o que a gente vê.
Hesitei.
— Às vezes.
Ele assentiu, quase imperceptivelmente.
— Não deveria.
— Por quê?
Caio não respondeu de imediato. Seus dedos bateram levemente no volante, num ritmo lento, distraído.
— Algumas coisas… não gostam de ser lembradas.
Sorri de lado, encarando a estrada.
— Você anda dramático demais.
— Não é drama.
ele disse, finalmente.
— É aviso.
A conversa morreu ali, como sempre acontecia quando ele falava daquele jeito. Não era desconforto… era costume. Havia coisas que simplesmente não se aprofundavam quando estávamos juntos.
Já eram quase três da madrugada quando o mundo pareceu se estreitar.
A estrada à frente era tudo o que existia. Nenhuma casa, nenhum poste, nenhuma luz além dos faróis cortando o escuro. O som constante dos pneus no asfalto tornou-se hipnótico, repetitivo… quase embalador.
Ou pelo menos era.
Porque, em algum momento… deixou de ser.
Não parou.
Não sumiu.
Mas… mudou.
Como se o som não estivesse mais exatamente ali.
Franzi a testa, ainda meio sonolento, tentando entender aquela sensação estranha que se infiltrava devagar, sem pedir permissão.
Foi quando o carro freou.
Não foi uma desaceleração comum.
Foi brusco. Violento.
Meu corpo foi projetado para frente, o cinto travando contra o peito e arrancando o ar dos meus pulmões. Acordei no susto, completamente perdido por um segundo, enquanto o coração disparava sem ritmo.
— Que foi isso?
perguntei, ainda tentando entender o que tinha acontecido.
— Você bateu em alguma coisa?
Nenhuma resposta.
Virei o rosto na direção dele.
E foi nesse momento que o desconforto começou a se formar.
Caio estava imóvel.
As mãos firmes no volante.
Os olhos abertos… atentos.
Fixos na estrada.
Não havia pânico ali.
Só foco.
— Caio…?
Nada.
Segui o olhar dele.
No primeiro instante, não vi nada além da estrada vazia.
Então… eu vi.
E, por um segundo, minha mente simplesmente recusou.
Não parecia que havia algo na estrada. Parecia que a própria estrada… estava errada.
Uma forma atravessava a rodovia lentamente, cortando o caminho dos faróis como se a própria luz não fosse suficiente para alcançá-la por completo.
Não era um corpo não do jeito que deveria ser.
Era como uma distorção.
Uma falha.
Algo mais escuro que a própria noite.
Os faróis tocavam apenas a parte mais baixa daquela coisa, revelando algo que poderia ser interpretado como pés… ou talvez apenas pontos de contato com o chão.
E ainda assim…
Não houve som de passos.
Para algo daquele tamanho, deveria haver.
Mas não havia nada.
Alta.
Absurdamente alta.
Mas era difícil dizer o quanto… porque ela não parecia obedecer a nenhuma referência. Não parecia perto. Não parecia longe.
Só… estava ali.
Movendo-se com uma lentidão tranquila.
Sem pressa.
Sem esforço.
Como se atravessar aquela estrada fosse algo comum.
Como se aquilo… fosse o caminho dela. Senti minha respiração falhar.
— Você tá vendo isso…?
perguntei, minha voz saiu mais baixa do que eu esperava.
— Tô.
Caio respondeu.
Simples. Direto.
Como quem confirma algo esperado. Aquilo me gelou mais do que a própria visão.
A coisa continuou atravessando a estrada, avançando em direção à escuridão da mata ao lado.
Por um instante… tive a sensação de que ela sabia.
Não virou.
Não reagiu.
Mas sabia.
E não se importava.
Quando finalmente desapareceu entre as árvores, foi como se algo tivesse sido devolvido ao mundo.
O som.
O ar.
O tempo.
Respirei fundo, quase ofegante, tentando recuperar o controle do corpo.
Olhei para Caio.
Ele ainda encarava a estrada.
Mas agora havia algo diferente.
Não era medo.
Era reconhecimento.
Como quem confirma algo que já fazia parte do caminho.
Nossos olhares se encontraram por um breve segundo.
Nenhuma palavra foi dita.
Ele não perguntou se eu estava bem.
Eu não perguntei o que era aquilo.
Porque, de algum jeito estranho… nós dois já sabíamos que perguntas não mudariam nada.
Caio ligou o carro novamente, como se aquilo fosse apenas mais uma pausa na estrada.
E seguimos.
O silêncio que veio depois não era o mesmo.
Era mais pesado.
Mais denso.
Mais… próximo.
Encostei a cabeça no banco, ainda tentando organizar o que tinha acontecido.
Mas a sensação insistia em não ir embora.
Aquilo não parecia novo.
Parecia… reconhecível.
— Então…
comecei, sem saber exatamente o que queria dizer.
— É.
Caio respondeu.
Dessa vez, não houve interrupção.
Só confirmação.
Fiquei em silêncio.
Ele manteve os olhos na estrada.
— Agora começou.
E foi ali que caiu a ficha.
Aquilo não era um sinal de que algo estava errado.
Era um sinal de que tudo estava exatamente como sempre foi.
Nós só tínhamos esquecido.