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Olá, meu nome é Manuela e, para ser sincera, pouco isso importa. Estou aqui para relatar as noites de terror que vivi enquanto morei em um kitnet em Indaiatuba, São Paulo.
Fiquei lá por algum tempo. Era um lugar consideravelmente pequeno. Eu estava solteira e tinha ido para a cidade apenas por causa do trabalho. Na maior parte dos dias, minha rotina era simples: trabalhar, voltar para casa e dormir.
E foi justamente nessas voltas para casa que comecei a reparar na minha vizinha. Nunca soube muito sobre ela. Não que eu quisesse saber. Ela tinha um jeito desleixado, parecia não cuidar de si mesma e era extremamente grossa. Até mesmo com a própria filha. A menina era constantemente maltratada.
Gritos. Batidas na parede. Choro.
Com o tempo, aquilo virou um som frequente dentro do meu quarto. Eu conseguia ouvir tudo através da parede. Tinha pena daquela criança, mas nunca fiz nada. Algumas pessoas do kitnet diziam que a mulher era envolvida com umas coisas "tensas". Vocês sabem do que estou falando.
Nunca tentei chamar a polícia. Até hoje me arrependo disso.
Todas as manhãs, antes de ir para o trabalho, eu costumava vê-la brincando no corredor. Só que ela não estava ali porque queria. A mãe a trancava do lado de fora. Jogava os brinquedos no corredor, colocava a filha para fora e simplesmente fechava a porta. Depois, sabe-se lá o que fazia lá dentro.
Eu conseguia observar tudo pelo meu olho mágico. A menina sentava no chão e brincava sozinha. Tinha algumas bonecas da Barbie, brinquedos espalhados pelo corredor e um que parecia ser o favorito dela. O nome dele era Chico.
Chico era um palhaço de pano. As roupas estavam velhas, encardidas pelo tempo, e o rosto era coberto por pinturas de palhaço, quase todas vermelhas e brancas.
Pelo menos nas partes em que a tinta ainda não havia descascado.
Nas costas, havia um cordão.
Quando a menina puxava, o palhaço falava algumas frases. A que mais me lembro era:
"Nós vamos te amar..."
A voz do dublador era extremamente grossa. Não combinava nem um pouco com um palhaço de circo. Então vinha uma pausa. Uma pausa longa demais. Era como se, durante aqueles segundos, o brinquedo sugasse todo o ar do corredor antes de completar a frase.
"...para o ETERNO sempre."
Eu nunca gostei daquela frase.
Antes de tudo acontecer, porém, nada no palhaço realmente me incomodava. Às vezes eu me perguntava por que ele dizia "nós", no plural. Cheguei a pensar que talvez fosse algum tipo de brinquedo antigo de um grupo de palhaços. Também achava estranho a menina nunca levar o Chico para dentro de casa.
Ela sempre o deixava no corredor.
E o pior é que, algumas vezes, quando eu passava por ele, tinha a impressão de que o rosto do palhaço estava virado para mim.
Mas eu ignorava. Até que, um dia, a menina desapareceu.
Tudo o que lembro é de acordar cedo com uma movimentação estranha no corredor. Havia um monte de gente lá fora. A mãe estava desesperada, chamando pela filha aos gritos.
"Cadê você?" "Filha!"
Chamaram a polícia. Fizeram buscas pelo prédio, pelas ruas próximas, pelos terrenos ao redor.
Nada. Nenhum sinal.
A única coisa que a mãe repetia era que a menina estava brincando no corredor e simplesmente havia "sumido".
Eu nunca contei o que sabia. Nunca contei que ela era frequentemente deixada sozinha do lado de fora. Nunca contei que a mãe costumava trancá-la no corredor.
Depois disso, o clima do kitnet mudou completamente. As pessoas começaram a comentar sobre o desaparecimento. À noite, ninguém queria ficar sozinho nos corredores. E o motivo era o palhaço.
Depois do desaparecimento dela, o brinquedo virou um sinal de desgraça. Mesmo deixando todos desconfortáveis, ninguém tinha coragem de tirá-lo dali.
Com o tempo, começaram a surgir lendas urbanas. Diziam que, durante a madrugada, o palhaço andava pelos corredores, dizendo frases estranhas e, às vezes, até batendo na porta dos moradores.
Mas o que mais me assustava era o relato da idosa Fátima. Ela dizia que já tinha visto não o brinquedo do palhaço, mas um homem fantasiado parado na parte mais escura do corredor. Segundo ela, quando se aproximou, ele simplesmente desapareceu na escuridão.
Tudo aquilo me cegava de medo, para ser sincera.
Mas eu tentava não acreditar.
Até que o fatídico dia aconteceu.
Eu havia acabado de chegar em casa depois de um dia de trabalho árduo. Estava sem forças até para preparar alguma coisa para comer. Apenas me joguei na cama.
Aos poucos, fui fechando os olhos.
Foi então que escutei algo.
Não era necessariamente estranho. Pareciam apenas batidas vindas do corredor. No começo, tentei ignorar. Mas elas continuaram.
Tum.
Tum.
Tum.
Não eram batidas aleatórias. Existia um ritmo naquilo. Um ritmo lento, quase como uma brincadeira macabra.
Abri os olhos.
Fiquei alguns segundos encarando o teto, tentando convencer a mim mesma de que aquilo não era nada.
Então me levantei devagar.
— Oi? Tem alguém aí?
Silêncio.
Um silêncio tão profundo que parecia ter engolido o próprio corredor. Senti o ambiente do quarto pesar. Meus pés, que estavam para fora da cama, começaram a gelar.
Por alguns segundos, nada aconteceu. Até que ouvi uma voz.
Grossa. Baixa. Muito próxima.
— Agora é sua vez de se esconder.
No instante em que a frase terminou, uma pancada forte ecoou pelo quarto.
BUM!
Meu corpo inteiro estremeceu. Logo depois, uma risada começou. Baixa no começo. Depois mais alta. Mais longa. Como se alguém estivesse se divertindo com o meu medo.
Foi quando perdi a coragem. Corri para debaixo da cama. O lugar onde eu morava era minúsculo. Apenas três cômodos. Não havia para onde fugir. Tentei me espremer o máximo que conseguia, puxando os pés para perto do corpo para que não ficassem visíveis do lado de fora.
Meu corpo começou a tremer. Eu sabia que era ele. O maldito palhaço.
Não sabia por que estava atrás de mim. Não sabia o que queria. Mas, naquele momento, tive certeza de uma coisa. Ele tinha encontrado alguém para brincar.
Levei as mãos à boca e tentei fazer o mínimo de barulho possível. Fechei os olhos.
Talvez, se eu não o visse... Ele também não pudesse me ver.
Fiquei imóvel.
Até que uma voz surgiu novamente.
Dessa vez, parecia estar bem acima de mim.
— Você sabe que eu estou te vendo, né?
Outra risada ecoou pelo quarto.
Abri os olhos e, em um surto, gritei por socorro. Joguei o corpo para o lado, saí debaixo da cama e corri até o interruptor. A luz me cegou por alguns segundos. Quando minha visão voltou, pude enxergar o quarto completamente normal.
Não havia nada.
Com o resto das minhas forças, estiquei a cabeça para conseguir ver a sala. Nada também. Por um momento, senti alívio. Depois, vergonha. Fiquei imaginando como seria encontrar os vizinhos pela manhã, depois de todos aqueles gritos. Cheguei até a rir baixo, tentando convencer a mim mesma de que tudo não passara de um pesadelo.
Mas ainda precisava tirar uma dúvida.
O palhaço estava no corredor?
Deslizei os pés lentamente pelo chão até chegar à porta. Parei diante do olho mágico e respirei fundo.
Olhei.
— Puta merda...
Foi tudo o que consegui dizer.
O corredor estava vazio.
Não havia palhaço.
Quase senti minhas pernas perderem as forças. Por um momento, pensei em simplesmente aceitar que tudo aquilo tinha acabado.
Até que ouvi aquela voz pela última vez.
— Nós vamos te amar pelo ETERNO sempre.
Então, uma sequência de pancadas começou a vibrar pelo meu quarto.
PAM.
PAM.
PAM.
PAM.
Levei alguns segundos para entender. Quando juntei as peças, estendi a mão até a parede. As pancadas vinham do quarto ao lado.
O quarto da mãe.
Fiquei em silêncio. Não interferi.
Apenas comecei a dar passos para trás, lentamente, até voltar para a cama. E dormi.
Na manhã seguinte, arrumei todas as minhas coisas às pressas. Não quis saber de mais nada. Apenas fiz minhas malas o mais rápido que pude. Quando tudo estava pronto, saí pela porta principal do kitnet.
Todos os vizinhos estavam no corredor. E havia policiais.
Eles olharam para mim. Eu não disse nada.
Apenas continuei andando até a saída daquele corredor maldito.
Finjo até hoje que não olhei para trás. Mas a verdade é que tive curiosidade. Virei o rosto apenas o suficiente para enxergar, de relance, o interior do quarto da mãe.
E vi tudo pintado de vermelho.
O cheiro de podridão atravessou o corredor e subiu pelas minhas narinas.
Foi o suficiente.
Nunca mais voltei para São Paulo. Voltei para o Ceará e tentei deixar tudo aquilo para trás. Mas, toda vez que tenho oportunidade de contar essa história, eu conto.
Poucos acreditam em mim. Mas eu sei o que vivi.
Até hoje, quando penso naquela noite, uma coisa me incomoda. O palhaço nunca entrou no meu quarto para me matar.
Ele só queria que eu soubesse que estava ali. Porque naquela noite, a brincadeira era com a mãe.
"Nós vamos te amar para o eterno sempre."