Planeta dos insetos - capitulo 7

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Capítulo 7 – A Isca e o Alvo

POV: LARISSA, ON.

O som das nossas botas no asfalto trincado virou a única música que conheço.

Enquanto caminhamos pelas ruas de um bairro residencial devastado — onde casas elegantes agora exibem telhados afundados e portões arrancados por garras gigantes —, pego-me observando O Carranca. Ele anda com aquela mancada pesada, mas ritmada. Não reclama. Não demonstra fraqueza. É uma rocha em um mundo feito de vidro moído.

Sinto uma estranha mistura de gratidão e segurança ao lado dele. No começo, achava que ele era apenas um monstro calculista, alguém que me deixaria para trás no primeiro segundo de perigo. Mas me enganei. Ele tem fantasmas — ouvi o desespero na voz dele quando acordou daquele pesadelo no museu —, só que os esconde sob camadas de pragmatismo bruto. Ele me ensinou a segurar uma arma. Ele dividiu a comida dele. Ele me ouviu.

Pela primeira vez em meses, sinto que não sou um fardo. Sou parte de algo.

O Carranca levanta a mão fechada em punho.

Freio meus passos na hora. Encostamos na parede de uma garagem destruída, cobertos pela sombra de uma trepadeira espressa.

A pouca distância, no meio do cruzamento, há uma caminhonete cabine dupla. A lataria está amassada e pintada com spray escuro, mas o motor está ligado, emitindo um ronco gutural que estremece as frestas do asfalto.

— São eles? — sussurro, sinto o sangue gelando. — Os canibais?

O Carranca espia pela quina, os olhos estreitos e analíticos.

— Não — ele responde baixo, a voz sem tremor. — Esses aqui usam fardas misturadas. Colete tático. Têm disciplina. São saqueadores de elite ou mercenários. Estão muito bem organizados pra serem aqueles ratos de esgoto.

Ele volta o olhar para a caminhonete, e vejo a engrenagem na cabeça dele girando.

— Aquela caçamba e aquele motor... — ele murmura, quase para si mesmo. — A gente chega no São Vicente em vinte minutos com esse carro. Sem gastar canela, sem arriscar rastro na rua.

— Mas eles estão em quatro — aponto, sentindo a garganta secar ao contar os homens. Dois estão no caçamba mexendo em caixas de mantimentos, enquanto os outros dois conversam junto à porta do motorista. — E olha aquilo...

— Fuzis semiautomáticos — ele completa. — Dois deles têm alcance e poder de fogo pra moer a gente em segundos.

Ele se vira para mim. O olhar dele não tem medo, apenas o cálculo frio que aprendi a reconhecer.

— Não dá pra ir no confronto direto. A gente morre. Mas dá pra usar a confiança deles contra eles mesmos.

Ele se aproxima mais, baixando o tom de voz até virar um sopro denso.

— O plano é perigoso. Eu preciso que você seja a isca.

Meu coração dá um salto no peito.

— Isca?

— Você vai sair da sombra — ele explica, segurando meu ombro com firmeza. — Sem arma na mão. Parecendo exatamente o que é: uma garota assustada, faminta, sozinha. Vai levantar as mãos, pedir ajuda, inventar que tem bicho atrás de você. Atraia a atenção dos quatro. Os dois do fuzil vão relaxar porque não vão te ver como ameaça imediata. No momento em que todos olharem pra você... eu chego por trás. Pego os dois armados primeiro, depois a gente assume o controle.

Ele faz uma pausa. O aperto no meu ombro fica mais intenso, mas não dói.

— É um risco absurdo. Se um deles for um maníaco e atirar antes de falar, você morre. Se eu falhar na abordagem por causa da minha perna, nós dois morremos. O que você pensa disso, Larissa?

Fico em silêncio por três segundos que parecem séculos.

A ideia de me expor no meio da rua para quatro homens armados faz minha pele arrepia inteira. As memórias do mercado, das mãos me puxando pelo cabelo, tentam me paralisar.

Mas depois olho para O Carranca. Olho para a caminhonete. Lembro do peso da faca na minha mão no treino do museu. Se eu quiser continuar viva, preciso parar de reagir ao mundo e começar a agir sobre ele.

Ajeito o corpo. Ajusto a respiração.

— Se a gente conseguir aquele carro, a gente chega ao hospital — digo, sustentando o olhar dele. — Eu faço.

Um canto da boca dele se eleva quase imperceptivelmente. O mais próximo de um elogio que vou arrancar daquela cara de pau.

— Garota esperta — ele diz, soltando meu ombro e sacando a faca. — No meu sinal... você dá o show.

Tiro a mochila dos ombros e a escondo cuidadosamente atrás de um arbusto seco e moribundo. Levar excesso de peso seria um erro. Minha única companhia física é a faca de caça — o cabo de madeira fria repousa pressionado contra a minha lombar, bem preso no cós da calça e coberto pela barra da minha jaqueta.

Olho para O Carranca uma última vez. Ele assente com a cabeça, seco, e recua em direção a um muro baixo cobertos de trepadeiras, sumindo entre as sombras com uma agilidade surpreendente para quem carrega um tiro na coxa.

Respiro fundo. Um. Dois. Três.

Saio para o meio da rua.

Começo a mancar de propósito, arrastando o pé esquerdo e deixando meus ombros caírem. Ergo as mãos, com as palmas abertas para frente, tentando transmitir o máximo de vulnerabilidade e desespero que consigo reunir.

— Por favor! — minha voz sai fina, embargada, ecoando pelo asfalto quente. — Por favor, me ajudem!

O ronco do motor da caminhonete parece abafar meu primeiro grito, mas um dos homens de colete tático — o que carrega o fuzil no peito — vira a cabeça abruptamente.

— Parada aí! — ele berra, erguendo o cano da arma na minha direção. — Mãos onde eu possa ver! Nem mais um passo, porra!

Eu paro, vacilando no lugar, forçando lágrimas nos olhos. Os outros três se viram imediatamente. A atenção do grupo inteiro está travada em mim.

— Eu... eu tava num grupo no mercado — digo, misturando mentiras com o pânico real que vivi. — Apareceram escaravelhos... do tamanho de carros. Eles mataram todo mundo. Eu me perdi, tô sem água, sem comida... por favor, não atirem.

Os dois que mexiam na caçamba trocam olhares. Um deles, o mais alto, dá uma risada curta e debochada.

— Olha só, a sorte sorriu pra gente. O que a gente faz, chefe? Leva ela? O Scar paga bem por gente jovem.

— O Scar que se foda, a gente nem sabe se essa garota tá infectada ou trazendo bicho atrás dela — o do fuzil retruca, sem abaixar a arma, mas os passos dele relaxam. A postura dele perde a rigidez. Ele não me vê como perigo.

É o momento.

Um estalo seco rasga o ar.

O crânio do homem do fuzil se explode num espirro vermelho, e ele desmorona como um saco de batatas antes mesmo de ouvir o disparo.

BUM!

O segundo tiro ressoa um microssegundo depois. O segundo homem armado leva o impacto direto no peito, caindo de costas contra o capô da caminhonete com um urro sufocado.

O Carranca surge de trás da caçamba como um fantasma sangrento. Com a arma agora descarregada na mão, ele não hesita: arremessa o metal pesado com força total direto no rosto do terceiro saqueador. O ferro atinge o nariz do cara num estalo de osso quebrando, fazendo-o tombar para trás zonzo.

Sem perder o embalo, O Carranca se lança sobre o quarto homem.

Os dois caem rolando na poeira. O quarto homem é forte, tem braços como troncos, e consegue encaixar dois socos violentos no rosto do Carranca, fazendo o sangue espirrar da boca dele. Mas O Carranca não cede. Ele ignora a dor, trava as pernas ao redor do corpo do sujeito e passa o braço esquerdo em volta do pescoço dele, fechando um mata-leão brutal.

Enquanto eles lutam no chão, olho para o lado.

O terceiro homem — o que levou a armada do revólver no rosto — está rastejando, a cara coberta de sangue. Ele estica a mão, prestes a alcançar o fuzil que caiu no asfalto.

Não.

A hesitação morre no meu peito. Corro até ele e tento chutar a arma para longe. Ele é mais rápido: segura meu tornozelo e me derruba com violência. O chão bate nas minhas costas, tirando todo o meu ar.

Ele se joga por cima de mim, as mãos imundas apertando meu pescoço.

— Sua vadia... — ele rosnava, o hálito podre colado no meu rosto.

A visão começa a escurecer. As palavras do Carranca no museu ecoam na minha cabeça como um grito: Lutar de perto pra quem é menor é covardia calculada... enfia a ponta onde passa artéria!

Minha mão direita escorrega pelas minhas costas. Meus dedos fecham no cabo de madeira da faca.

Puxo o aço e, com todo o peso do meu desespero, cravo a lâmina direto na lateral do pescoço dele.

O metal afunda. É macio. É horrível.

Um jato de sangue quente e metálico espirra direto no meu rosto e no meu peito. O homem solta um borbulho macabro, a força das mãos dele desaparecendo instantaneamente. Empurro o corpo dele para o lado com um grito preso na garganta.

Ele se debate no chão por alguns segundos até ficar completamente imóvel.

Olho para o lado, arfando. O Carranca acabou de soltar o corpo desacordado — ou morto — do quarto homem. Ele se levanta devagar, limpando o sangue do próprio lábio, e me encara.

Eu tento me levantar, mas minhas pernas não obedecem. O cheiro de ferro, a sensação do líquido morno grudado na minha pele, o olhar vazio do homem que acabei de matar... tudo se acumula no meu estômago.

Caio de joelhos no asfalto e vomito violentamente.

Minhas mãos tremem tanto que mal consigo me apoiar. As lágrimas finalmente descem, rasgando a sujeira no meu rosto. Eu tirei uma vida. Eu passei da linha onde não tem mais volta.

O Carranca se aproxima com passos pesados. Ele não faz discurso. Não tenta me consolar com palavras vazias. Apenas se abaixa, coloca uma mão firme no meu ombro e me puxa para cima.

— Respira — a voz dele sai baixa, rouca, mas presente. — Você tá viva. É isso que importa.

Limpo a boca com as costas da mão, ainda tremendo por inteiro. O gosto amargo do vómito e o cheiro de sangue quente impregnado na minha jaqueta me dão tontura.

É quando ouço um gemido abafado.

O segundo homem — aquele que levou o tiro do Carranca no peito no início da emboscada — ainda se mexe. O impacto foi forte, o colete tático dele segurou parte da munição ou o tiro pegou de raspão nas costelas, mas ele está vivo, tossindo sangue e rastejando no asfalto.

O Carranca se aproxima com a faca em rasteiro. A decisão no olhar dele é absoluta, limpa de qualquer dúvida. Ele vai finalizar o serviço.

— Não! Espera! — a palavra sai da minha garganta num ganido desesperado.

O Carranca para. Ele me olha por cima do ombro, a lâmina pronta para descer.

— Por favor... não faz isso — suplico, a voz rouca. — Ele já tá fora de combate. Não precisa... não mata mais ninguém hoje.

O Carranca fica em silêncio por longos segundos. Seus olhos alternam entre o meu rosto ensanguentado e o homem caído. Sei o que ele está pensando: um inimigo vivo é um problema futuro. Mas ele vê o estado em que estou, vê a minha humanidade tentando não se desintegrar por completo depois do que acabei de fazer.

Ele guarda a faca na bainha com um estalo seco.

— Não vou matar — ele diz, a voz fria como gelo. — Mas ele não vai atrás da gente.

Com uma eficiência quase cruel, O Carranca agarra o homem pelo colarinho, rasga e arranca todas as roupas dele, deixando o sujeito completamente pelado no meio da rua. Ele usa as calças e o cinto tático do próprio homem para amarrar os pulsos e os tornozelos dele num nó cego, apertado o suficiente para cortar a circulação. Sem roupas, sem armas e machucado, o homem é apenas carne exposta ao sol e aos insetos.

Começamos a vasculhar a caminhonete rapidamente.

Checo o painel: o ponteiro do combustível marca meio tanque. É mais do que suficiente para nos levar onde precisamos. Na caçamba, não encontramos quase nada de comida, apenas caixas de ferramentas pesadas e peças de motor graxa e pesadas.

— O que é isso? — pergunto, mexendo num bloco de metal grosso.

O Carranca analisa com o olhar.

— Motor de barco — ele murmura, franzindo o teto. — Peças de popa. Inútil pra nós aqui, mas alguém tá montando algo grande em área alagada.

As verdadeiras joias estavam dentro da cabine: os dois fuzis semiautomáticos tinham carregadores cheios e munição de sobra nas mochilas dos caras. E no banco de trás, preso num suporte, encontramos uma escopeta calibre .12 com cinco cartuchos pesados na coronha. Pela primeira vez desde o Dia da Eclosão, temos poder de fogo de verdade.

Colocamos nossas coisas na cabine. O Carranca assume o volante, a perna machucada agora acomodada com mais espaço no pedal do acelerador. Eu me sento ao lado dele, abraçando as pernas, tentando não olhar para minhas mãos sujas de sangue.

Assim que o motor ronca forte e as rodas cantam no asfalto, o homem pelado na rua começa a gritar com o resto de forças que tem:

— SEUS DESGRAÇADOS! OS PIRATAS DE AÇO VÃO ACHAR VOCÊS! O SCAR VAI ARRANCAR A PELE DE VOCÊS DOIS! OS PIRATAS DE AÇO NUNCA ESQUECEM!

O Carranca nem se dá ao trabalho de olhar pelo retrovisor. Ele engata a marcha e acelera, deixando os gritos para trás até virarem poeira. Ele ignorou o nome, mas eu não. Piratas de Aço. Scar. Mais uma facção, mais um nome marcado no meu mapa mental de ameaças.

O ronco da caminhonete preenche o espaço entre nós durante a viagem. A paisagem lá fora passa como um filme de terror em câmera lenta.

Depois de vinte minutos de silêncio, não aguento mais. As memórias do pescoço do homem cedendo sob a minha faca continuam martelando na minha cabeça.

— Eu matei uma pessoa — sussurro, olhando pela janela. — Eu tirei a vida de alguém... e parecia que ele era só um obstáculo. Eu tô virando um monstro?

O Carranca mantém os olhos na estrada quebrada, com as duas mãos firmes na direção.

— Não — a voz dele sai baixa, inesperadamente macia para o tom habitual. — Se você estivesse virando um monstro, não estaria passando mal por causa disso. Você estaria rindo.

ele faz uma pausa, mudando de marcha antes de continuar.

— Você nunca vai se acostumar com isso, Larissa. E acredite em mim: você não quer se acostumar. O dia em que tirar uma vida não pesar nada na sua cabeça, você virou um deles. Mas no mundo de hoje... às vezes a única escolha é entre o sangue na sua mão ou o sangue no seu pescoço. Você fez o que precisava pra continuar respirando.

Engulo o nó na garganta. As palavras dele não apagam o fantasma que agora carrego, mas servem como uma âncora. Ele não romantiza nada. Ele só me entrega a verdade crua de que preciso para não enlouquecer.

— Obrigada, Carranca — murmuro, encostando a cabeça no vidro frio da janela.

— Olha pra frente — ele diz, reduzindo a velocidade.

Ergo os olhos.

No horizonte, surgindo entre o nevoeiro e as trepadeiras secas que escalavam as ruínas, está a nossa meta.

O Hospital São Vicente.

Não parecia um santuário. Era uma carcaça branca e imensa, devorada pela ferrugem, com janelas quebradas parecendo órbitas vazias e cercas de arame farpado caídas no chão. O lugar de onde fugi, o lugar onde a promessa do governo morreu.

A caminhonete para a cinquenta metros do portão principal.

Nosso destino finalmente chegou. Mas, olhando para a quietude doentia daquele lugar, sei que os problemas reais estão prestes a começar.

O interior do Hospital São Vicente cheira a mofo, remédio velho e um odor metálico e pesado que faz o meu estômago dar voltas.

A caminhonete ficou estacionada do lado de fora, escondida entre dois bloqueios de concreto. Empurramos a porta dupla da emergência, que rangeram como um lamento longo na penumbra do saguão.

— Olá? — minha voz sai pequena, ecoando pelas paredes de azulejos descascados. — Tem alguém aqui? É a Larissa! Eu voltei!

O silêncio que responde é doentio.

O Carranca caminha ao meu lado, a postura tensa, o fuzil colado ao peito. Ele não chama por ninguém. Ele olha para as paredes. Para as marcas de impacto no gesso. Para as cápsulas de munição deflagradas que pontilham o chão como sujeira.

— Isso aqui não foi ataque de bicho — ele murmura, a voz funda. — Foi invasão. Tiroteio militar contra gente treinada.

Avançamos pelo corredor principal, o mesmo onde há dois meses vi soldados de farda limpa prometendo que tudo ficaria bem. Agora, a fita de isolamento amarela está rasgada no chão, e as portas das salas foram arrancadas das dobradiças.

Dobramos a esquina em direção ao setor de internação.

E então, o mundo para.

O corredor à nossa frente é um necrotério a céu aberto. Dezenas de corpos estão empilhados contra a parede. Alguns com marcas de tiros, outros terrivelmente mutilados por dentes e garras. O cheiro é sufocante, mas nada disso importa.

Meus olhos travam em um ponto específico. A três metros de mim.

Um casaco de lã azul-marinho. Com um remendo malfeito no cotovelo esquerdo que eu mesma costurei com linha branca antes de sairmos de casa.

— Não... — o som sai como um sopro ralo.

Corro. Meus pés tropeçam no entulho, mas eu não sinto as pernas. Caio de joelhos na poeira fria, exatamente ao lado dela.

— Mãe... — sussurro, minhas mãos tremendo tanto que mal consigo tocar os ombros dela.

Viro o corpo devagar. O rosto pálido e gelado da minha mãe me encara com olhos abertos e vazios. Há um buraco de bala no peito dela, a lã azul manchada de um marrom escuro e seco. Não houve resgate. Não houve base subterrânea. A promessa do governo morreu aqui, neste chão imundo, e ela morreu esperando por mim.

— Mãe, acorda... por favor, acorda — choro, abraçando o corpo rijo contra o meu peito. Aqueço o rosto dela com as minhas mãos quentes, mas o gelo da morte não cede. — Eu voltei... eu trouxe ajuda, mãe... me desculpa... me desculpa por ter demorado...

Grito. Um grito rasgado, feio, que sai do fundo da minha alma e rebate nas paredes vazias do hospital. Eu perdi tudo. Meu irmão sumiu, minha faculdade virou cinzas, e agora a única pessoa que me mantinha presa à sanidade é apenas carne fria em uma pilha de mortos.

Sinto duas mãos fortes e pesadas pousarem nos meus ombros.

O Carranca se abaixa ao meu lado. Ele não tenta me puxar de forma agressiva. Não faz discursos sobre foco ou sobrevivência. Em um gesto raríssimo de pura empatia humana, ele me puxa devagar contra o peito dele, permitindo que eu chore e soluce contra a jaqueta surrada dele, enquanto fecha os olhos da minha mãe com dois dedos cuidadosos.

— Chora — ele murmura, a mão repousando na minha nuca, me protegendo da visão daquele horror por alguns segundos. — Deixa sair, Larissa.

Ele me segura ali por longos minutos, servindo de escudo entre mim e a dor do mundo, esperando o auge do meu desespero diminuir até virar apenas um soluço fraco e dolorido.

— A gente precisa se mover — ele diz baixinho, com a voz serena, mas firme. — Esse lugar é um caixão. Quem fez isso pode voltar, ou o cheiro vai atrair coisa pior.

Limpo o rosto encharcado de lágrimas e sangue seco. Olho para a minha mãe uma última vez, ajeitando o casaco dela antes de me levantar com as pernas bambas.

A dor não sumiu, mas virou um vazio frio dentro do peito.

— O meu irmão... — murmuro, o desespero me empurrando para a ação. — Ele pode estar vivo. Eu preciso procurar no resto do hospital! Pode ter alguém escondido nos andares de cima!

Começo a andar de sala em sala como uma louca, abrindo armários, checando leitos, chamando pelo nome dele em voz alta. O Carranca não me impede, mas mantém o foco prático: ele vasculha a farmácia da emergência e a sala de suprimentos dos soldados.

Quinze minutos depois, nos reencontramos no saguão central.

Ele balança a cabeça, o olhar sombrio.

— Limparam tudo — ele diz, mostrando as prateleiras de ferro derrubadas e vazias. — Remédios, soro, gaze, munição, os fuzis da reserva... os caras que invadiram isso aqui levaram até as caixas de esparadrapo. Não sobrou uma única pílula de aspirina.

Olho para o teto destruído, ouvindo apenas o eco dos meus próprios passos. Nenhum sobrevivente. Nenhuma resposta. Apenas uma carcaça vazia e pilhada por homens gananciosos.

— quem fez isso?

— Eu não sei — O Carranca confirma, ajeitando o fuzil no ombro. — Eles limparam o hospital, mataram a guarnição e levaram os suprimentos.

Ele caminha até a porta de saída, olhando para a caminhonete estacionada lá fora.

— Esse lugar tá morto, Larissa. Não tem nada aqui pra nós.

Olho uma última vez para o corredor de onde vim, deixando para trás minha infância, minha mãe e qualquer ilusão de resgate. A garota que entrou neste hospital morreu junto com a mãe. A que está saindo agora segura a coronha de um fuzil e não tem mais nada a perder.

— Para onde a gente vai agora? — pergunto, a voz finalmente firme, fria.

O Carranca se vira para mim, sustentando o meu olhar.

— eu..., eu ainda não sei...

POV: Larissa, OFf