Onde os Mortos Esperam

Publicado em

O cheiro de formol fazia parte da rotina do necrotério muito antes de Arthur atravessar aquelas portas pela primeira vez. Era um odor que se infiltrou nas roupas, nos cabelos e na pele, mas havia quem jurasse que, depois de algum tempo, ele deixava de ser apenas um cheiro. Tornava-se uma presença. Os funcionários mais antigos nunca comentaram sobre isso. Limitavam-se a realizar o próprio trabalho em absoluto silêncio, como se qualquer conversa mais alta pudesse despertar algo que deveria permanecer adormecido. Arthur percebeu esse comportamento logo nos primeiros dias, mas atribuiu o clima pesado ao contato constante com a morte. Era natural imaginar que um lugar onde os vivos passavam mais tempo entre cadáveres do que entre pessoas acabasse moldando o comportamento de todos.

Sua rotina rapidamente tornou-se mecânica. Os corpos chegavam durante a madrugada, eram identificados, catalogados e encaminhados às câmaras frias, onde permaneceriam até os exames ou até que algum familiar os reconhecesse. Arthur acreditava que jamais se acostumaria com aquilo, mas descobriu que o ser humano possuía uma estranha capacidade de transformar o horror em hábito. O que nunca conseguiu transformar em hábito, entretanto, era o silêncio daquele lugar. Não era um silêncio comum. Era denso, quase físico, como se ocupasse os corredores da mesma forma que o ar gelado escapava das gavetas metálicas. Em certos momentos, tinha a impressão de que aquele silêncio observava cada passo dado por qualquer pessoa que ousasse atravessar os corredores do necrotério em dado momento. Mas não se importava o suficiente para fazer ou comentar algo a respeito com qualquer um.

Já em sua terceira semana de trabalho, um dos funcionários mais antigos aproximou-se enquanto Arthur organizava alguns prontuários. O homem possuía os olhos fundos, marcados por noites mal dormidas, e carregava uma expressão cansada que parecia existir há décadas. Sem qualquer motivo aparente, inclinou-se na direção do rapaz e falou em voz baixa, como se tivesse medo de ser ouvido por alguém além deles. Disse apenas que, se algum cadáver abrisse os olhos, ele jamais deveria olhar de volta. Em seguida, afastou-se sem explicar se aquilo era uma brincadeira ou um conselho. Arthur sorriu por educação, mas o velho sequer retribuiu o gesto, o fazendo acha que era alguma brincadeira idiota, só para logo perceber que um homem daquela idade era velho demais para isso, então apenas ignorou e voltou ao seu trabalho.

Naquela mesma noite, pouco depois das três horas da manhã, um ruído metálico rompeu o silêncio do corredor principal. O som era seco, ritmado, semelhante ao impacto de unhas contra aço. Arthur imaginou que alguma gaveta não tivesse sido fechada corretamente e caminhou até a sala fria carregando apenas uma lanterna. As luzes do teto piscavam em intervalos irregulares, lançando sombras que pareciam mover-se lentamente pelas paredes revestidas de azulejos brancos. O frio aumentava a cada passo, tornando a respiração visível diante de seu rosto. Quando chegou à última fileira de gavetas, encontrou uma delas entreaberta.

Consultou o registro eletrônico preso à parede ao lado. Aquela câmara deveria abrigar o corpo de um homem encontrado poucas horas antes nos arredores da cidade. No entanto, a gaveta estava completamente vazia. Arthur franziu a testa, convencido de que algum colega havia removido o cadáver sem atualizar o sistema. Voltou até a recepção para verificar a documentação, mas encontrou algo ainda mais estranho. O nome permanecia registrado, assim como a causa da morte, o horário da entrada e todos os demais dados. Apenas a fotografia anexada ao prontuário havia desaparecido, deixando um espaço branco onde antes deveria existir um rosto.

Enquanto analisava os documentos, ouviu três batidas metálicas ecoando pelo corredor. O som parecia distante e, ao mesmo tempo, próximo o suficiente para fazer o sangue gelar em suas veias. Quando retornou à sala fria, a gaveta permanecia fechada, exatamente como deveria estar. Ainda assim, havia marcas úmidas semelhantes a impressões digitais espalhadas pela superfície de aço, como se alguém tivesse pressionado as mãos contra o metal pelo lado de dentro.

A partir daquela madrugada, algo começou a mudar lentamente dentro dele. Arthur passou a dormir cada vez menos. Sempre que conseguia adormecer, sonhava com corredores intermináveis iluminados por lâmpadas brancas que nunca paravam de piscar. Figuras cobertas por lençóis caminhavam lentamente em sua direção, mas nenhuma delas revelava o próprio rosto. Permaneciam imóveis diante dele enquanto sussurravam palavras que sua mente jamais conseguia compreender por completo. Ao despertar, trazia consigo a incômoda sensação de que alguém permanecera observando seu sono durante toda a noite.

Os sonhos não demoraram a atravessar a fronteira da realidade. Vozes começaram a acompanhá-lo durante os plantões. Eram sussurros baixos demais para serem entendidos, porém constantes o suficiente para fazê-lo virar a cabeça repetidas vezes em busca de quem estivesse falando. Nunca havia ninguém. Ainda assim, a certeza de que não estava sozinho tornava-se mais forte a cada noite. Em certos momentos, tinha a impressão de enxergar pessoas paradas na extremidade dos corredores. Bastava piscar para que desaparecessem.

Sua memória também começou a falhar. Pequenos acontecimentos escapavam completamente de sua lembrança. Encontrava prontuários organizados por suas próprias mãos sem recordar tê-los tocado. Descobria anotações escritas com sua caligrafia em folhas espalhadas pela mesa. Todas continham frases curtas, desconexas e inquietantes. A que mais se repetia dizia apenas que ele precisava se lembrar. Lembrar de quê, contudo, jamais era explicado.

A administração do necrotério conhecia bem aqueles sintomas. Não era a primeira vez que um funcionário demonstrava sinais de desgaste psicológico. Os arquivos escondidos no subsolo guardavam décadas de relatórios médicos descrevendo surtos de paranoia, perda progressiva da memória, alucinações auditivas e episódios de dissociação. O curioso era que todos os documentos pareciam contar exatamente a mesma história, como se diferentes pessoas estivessem revivendo uma única experiência. Arthur jamais deveria encontrar aqueles registros, mas o destino parecia conduzi-lo inevitavelmente até eles.

Foi durante uma madrugada silenciosa que desceu ao arquivo pela primeira vez. Enquanto folheava as pastas envelhecidas, percebeu que os relatos se tornavam cada vez mais familiares. As palavras utilizadas pelos antigos funcionários eram praticamente idênticas às anotações que encontrava sobre sua própria mesa. As mesmas vozes. Os mesmos corredores. As mesmas sombras. Então encontrou uma pasta diferente das demais.

Seu nome estava escrito na capa.

Ao abri-la, sentiu o corpo inteiro perder a força. Havia fotografias suas usando um uniforme antigo do necrotério. Havia avaliações psicológicas assinadas por médicos mortos havia décadas. Havia pedidos de demissão redigidos por sua própria caligrafia, todos datados de anos diferentes, separados por longos intervalos de tempo. Nenhuma daquelas datas fazia sentido. Algumas pertenciam a um período anterior ao seu nascimento.

Naquela noite, Arthur deixou o arquivo incapaz de distinguir lembranças de imaginação. Correu pelos corredores até alcançar a sala fria, convencido de que precisava provar para si mesmo que ainda compreendia o que era real. As câmaras permaneciam imóveis, alinhadas como sempre estiveram. O silêncio voltara a dominar o ambiente. Então seus olhos encontraram uma pequena etiqueta caída no chão.

Ela trazia seu nome completo.

À frente, uma única gaveta permanecia aberta.

Lentamente, Arthur aproximou-se. O frio parecia tornar-se mais intenso a cada passo, enquanto uma estranha sensação de reconhecimento crescia dentro dele. Havia a impressão inexplicável de que já estivera exatamente naquele lugar inúmeras vezes, embora sua memória insistisse em negar.

Com as mãos trêmulas, segurou a ponta do lençol branco e o puxou. escreva seu text aqui

O cadáver deitado sobre a maca possuía exatamente o seu rosto.

Os mesmos traços.

A mesma cicatriz.

As mesmas roupas que usava naquele instante.

A diferença era que o homem à sua frente mantinha os olhos completamente abertos.

E, antes que Arthur pudesse recuar, um sorriso lento começou a surgir em seu rosto imóvel, enquanto, do lado de fora da gaveta, alguém fechava a pesada porta metálica, aprisionando mais uma vez aquilo que jamais conseguiria permanecer morto.