Planeta dos insetos - Capítulo 5

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Capítulo 5 – Sonhos.

POV: LARISSA, ON

O peso dele sobre o meu ombro é a coisa mais real que senti em meses.

Não é apenas o peso de um homem; é o peso da minha culpa. Cada vez que ele cambaleia e o seu joelho falha, a pontada de dor que sobe pelo rosto dele parece ricochetear em mim. Eu atirei nele. Eu, que passei meses estudando como costurar tecidos e salvar vidas na faculdade de veterinária, acabei abrindo um buraco na única coisa que me mantém viva nesse inferno.

— Só mais um pouco... — sussurro, mas não sei se ele ouve.

O senhor carrancudo — é como comecei a chamá-lo na minha cabeça, porque ele nunca sorri e sua face parece esculpida em madeira velha e brava — está grogue. O hálito dele sai quente, com cheiro de metal e cansaço. O sangue que escorre da sua coxa já empapou minha manga, um rastro quente e pegajoso que marca nosso caminho pela estrada engolida pelo mato.

O mundo ao nosso redor está morrendo em silêncio. As trepadeiras abraçam os postes de luz como se quisessem estrangulá-los. Cada estalo de galho seco me faz saltar, esperando ver uma antena gigante ou o cano de um fuzil do grupo do tal "Scar".

Finalmente, avistamos uma casa. É uma estrutura de madeira descascada, com as janelas parecendo olhos vazios. Entramos tropeçando.

O carrancudo se solta de mim com um rosnado de dor. Ele mal consegue ficar de pé, mas a obsessão dele com a segurança é maior que a agonia. Ele empurra uma cômoda mofada e uma mesa de jantar capenga contra a porta. O som da madeira arrastando no chão me dá arrepios; é um convite para qualquer coisa que esteja caçando lá fora.

Quando o último móvel trava a entrada, ele desmorona.

Não é um tombo dramático. Ele simplesmente desliga. O corpo bate contra o assoalho e ele fica lá, imóvel, com o gravador pendurado no pescoço parecendo um amuleto inútil.

— Ei? Ei! — chamo, mas a resposta é apenas uma respiração curta e ruidosa.

Respiro fundo, tentando controlar o tremor nas minhas mãos. Pensa, Larissa. Não é um cachorro, não é um cavalo. É um homem. Mas no fim, é tudo carne, osso e hemorragia.

Procuro algo para usar. Encontro um kit de costura velho numa gaveta e uma garrafa de bebida transparente que cheira a combustível de foguete. Rasgo a perna da calça dele. O ferimento é feio. O buraco de entrada está roxo, irritado, vertendo um sangue escuro que brilha sob a luz fraca que passa pelas frestas das janelas.

A bala ainda está lá. Eu sinto o metal com a ponta dos dedos.

Uso uma pinça de sobrancelha que achei na bolsa e a bebida para desinfetar. Quando o líquido toca a ferida, O Carranca solta um gemido baixo, profundo, como um animal ferido num pesadelo.

— Desculpa... desculpa... — murmuro, mais para mim mesma do que para ele.

Suo frio enquanto trabalho. O metal raspa no osso. O som me dá náuseas. Quando finalmente a bala cai no chão com um tinido seco, sinto um peso saindo do meu peito. Limpo a área como posso e faço um torniquete improvisado com uma tira da minha própria camisa. Aperto até os meus dedos doerem.

Ele não acorda. Ele está em algum lugar longe daqui, onde o céu ainda é azul e as baratas não comem gente.

Sento-me num canto da sala, longe das janelas. Abraço meus joelhos, encostando a testa neles. A posição fetal é a única que me faz sentir um pouco protegida, como se eu pudesse diminuir de tamanho até desaparecer.

O carrancudo está ali, a poucos metros. Ele é perigoso, é bruto e provavelmente vai me odiar por ter atrasado o passo dele. Mas, no escuro dessa casa abandonada, o som da respiração pesada dele é a única coisa que me impede de enlouquecer.

Fecho os olhos. O cheiro de poeira e sangue me embala num sono sem sonhos, onde o mundo ainda faz sentido.

O sol não dói. Ele brilha.

No meu sonho, o céu é de um azul tão limpo que parece mentira. Estou no meu quarto, vestindo aquela camiseta nova que comprei para o primeiro dia de aula. O cheiro de café passado pela minha mãe invade o corredor. Minha mochila está pesada, cheia de cadernos em branco que eu planejava preencher com nomes de remédios e anatomia animal.

Eu ia ser veterinária. O mundo ainda tinha lugar para quem queria cuidar da vida.

Vou até a cozinha. A TV está ligada. O apresentador tem um suor estranho brilhando na testa. Ele fala sobre o interior, sobre lavouras devoradas por algo que os biólogos não conseguem explicar. "Anomalias genéticas", dizem uns. "Pesticidas", dizem outros.

As imagens mostram algo se mexendo num milharal. Uma mancha escura. Grande demais.

— Larissa, come logo. Você vai se atrasar — minha mãe diz, mas os olhos dela estão grudados na tela.

E então, o som começa.

Não o zunido que conhecemos agora. Era um estalo rítmico, como se centenas de pessoas estivessem batendo palmas com luvas de couro. Olho pela janela da cozinha.

A rua está sendo engolida.

Gafanhotos. Do tamanho de bolas de futebol. Eles caem sobre os carros, quebrando os para-brisas com o peso das carapaças. Um vizinho corre para o portão e é derrubado em segundos. Não há sangue de imediato, apenas o som de mandíbulas mastigando tecido e... outra coisa.

— Tranca tudo! — meu irmão grita, puxando as cortinas.

O recorte muda. O tempo no sonho vira fumaça.

Passamos semanas ali. No escuro. Comendo o que sobrava no fundo do armário. A TV foi nossa única janela para o fim do mundo. Vimos cidades caírem, governos sumirem, até que o sinal virou estática. Antes do fim, veio a última mensagem: "Zonas de Segurança".

Hospital São Vicente. Era o nosso porto. O governo prometeu que de lá iríamos para bases subterrâneas. Um lugar onde o céu não podia nos morder.

— Agora ou nunca — minha mãe disse, segurando a chave do carro.

O trajeto foi um borrão de adrenalina. O motor do nosso SUV roncava, atropelando bichos que estalavam sob os pneus como plástico bolha gigante.

E então, ela apareceu.

Uma abelha. Mas não havia nada de doce nela. Tinha o tamanho de um fusca, o corpo coberto por pelos grossos e pretos que pareciam agulhas. Ela mergulhou do alto de um prédio, as asas produzindo um vento que quase jogou o carro para fora da pista.

— Acelera, mãe! Pelo amor de Deus, acelera! — meu irmão berrava.

O ferrão bateu no teto do carro, rasgando o metal como se fosse papel alumínio. O som do aço sendo aberto me fez tapar os ouvidos. O hospital estava logo ali. Arame farpado, sacos de areia e... fuzis.

— Ali! — apontei.

O carro derrapou na entrada da emergência. A abelha pairou sobre nós, a sombra dela nos cobrindo como um caixão. O som das asas era um trovão físico.

A porta do hospital se abriu. Homens de farda saíram em formação.

— ABAIXEM-SE! — alguém gritou.

O fogo dos fuzis iluminou o pátio. O bicho explodiu em secreção amarela e pelos pretos. Militares nos puxaram para dentro, o som das botas deles no piso de granito era a música mais linda que já ouvi.

— Vocês estão seguros agora — um soldado disse, fechando as portas pesadas atrás de nós.

Seguros.

Acordo com o som de uma goteira.

O sonho se apaga, deixando apenas o gosto amargo de poeira na boca. Não estou no hospital. Não estou com minha mãe. Estou numa casa caindo aos pedaços, com frio, fome e um estranho ferido por minha causa.

Olho para o Carranca. Ele continua lá, respirando pesado no escuro.

A segurança foi uma mentira que durou pouco.

O sonho não me solta. Ele muda de forma, virando pesadelo.

A segurança do hospital durou poucas semanas. Primeiro, o barulho dos helicópteros foi ficando raro. Depois, parou de vez. O governo simplesmente esqueceu que a gente existia. As pilhas de mantimentos viraram caixas vazias. A fome começou a roer a paciência de todo mundo.

Os poucos soldados que sobraram ficaram desesperados, mas não queriam arriscar os próprios pescoços. Usando a desculpa que precisavam ficar ali pra proteger o local, eles reuniram os mais jovens — os que ainda tinham pernas rápidas — para formar grupos de busca. Eu fui uma das escolhidas.

Fomos até um supermercado abandonado a poucas quadras. O teto estava caindo, a estrutura podre por causa da umidade. Eu estava no mezanino, procurando caixas de leite em pó, quando o chão de madeira compensada cedeu.

CRACK.

Caí direto no andar inferior, no meio de prateleiras tombadas e poeira sufocante.

Meu joelho estalou. Gritei de dor. Lá de cima, os outros soldados olharam pelo buraco, jogando a luz das lanternas sobre mim.

— Larissa! Pega a minha mão! — um deles gritou.

Antes que eu pudesse me levantar, o som começou.

Clack. Clack. Clack.

Um barulho pesado, metálico, de patas articuladas contra o piso de azulejo. Escaravelhos. Bichos do tamanho de caçambas de lixo, com cascas pretas e iridescentes que pareciam óleo queimado.

Os soldados lá em cima congelaram. Quando a primeira antena gigante surgiu da escuridão de um corredor, o pavor venceu.

— Desculpa, garota! Não dá! — o soldado gritou.

Eles correram. Me deixaram para trás.

O pânico travou minha garganta. Arrastei-me para debaixo de uma prateleira metálica amassada. O ar ali dentro cheirava a comida podre e mofo. Fiquei encolhida, prendendo a respiração enquanto os escaravelhos passeavam pelo corredor.

Um deles parou a centímetros do meu rosto. Pude ver as mandíbulas duplas trabalhando, minúsculos ácaros andando pelas placas da carapaça dele. O calor que saía daquele bicho parecia o de um forno ligado. Fechei os olhos, esperando a morte.

BUM! BUM! BUM!

Tiros do lado de fora. O som reverberou na estrutura de zinco do mercado. Os escaravelhos se assustaram e dispararam em direção ao barulho.

Aproveitei a chance. Saí rastejando, mancando, e me lancei pela saída dos fundos, desesperada por ar puro.

Mas ao cruzar a porta... dou de cara com braços sujos e cheirosos a sangue velho.

Mãos brutas agarraram meu cabelo. Tentei gritar, mas uma mão imunda tampou minha boca.

— Olha só o que achamos... — uma voz nojenta sussurrou no meu ouvido.

Acordo com um sobressalto, o peito subindo e descendo em golpes curtos.

Estou encharcada de suor frio. Levo alguns segundos para perceber que não estou mais naquele mercado. A poeira que vejo flutuar no ar vem do raio de sol que atravessa a janela da casa abandonada.

Pisco as pálpebras pesadas e olho para o canto da sala.

O Carranca está acordado.

Ele está sentado contra a parede, a perna esticada. A fita do torniquete que fiz ainda está firme, mas ele já limpou o excesso de sangue do rosto. A cor voltou um pouco às bochechas dele, embora os olhos continuem fundos e atentos como os de um predador.

Ele olha para a própria perna. Depois olha para mim.

— Você... — a voz dele sai rouca, profunda, como se estivesse engolindo areia. — Tirou a bala. Limpou o estrago.

Assinto devagar, ainda tentando desacelerar meu coração.

ele passa a mão pelo queixo coberto por uma barba rala, encara o chão por um segundo e me olha nos olhos. Sem rodeios. Sem o tom agressivo de antes.

— Obrigado — ele diz. A palavra sai seca, mas é sincera. De um homem que não está acostumado a dever nada a ninguém.

Um nó se desfaz no meu peito.

— Você me tirou da mão daqueles homens — respondo, dando um sorriso fraco, cansado. — Acho que estamos quites. Obrigado você.

Ele dá um tique quase imperceptível com a cabeça, ajeitando o gravador na gola da jaqueta antes de se inclinar um pouco para descansar o pescoço na parede.

Ajeito-me de novo no meu canto. O medo que me acompanhava desde o hospital não sumiu, mas agora tem um peso diferente. Pela primeira vez desd e o Dia da Eclosão, fecho os olhos sem sentir que estou completamente sozinha no escuro.

Adormeço de novo. Dessa vez, feliz por ter encontrado O Carranca.

POV: LARISSA, OFF.