Era uma Véspera de Natal

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Quando eu tinha 6 anos, lembro-me vagamente da noite de véspera de Natal. Naquele ano toda a minha família havia se reunido para a ceia na casa da minha bisavó, uma casarona grande de madeira em uma cidade do interior. Lembro-me que era uma noite amena, de temperatura agradável e com inúmeros carros estacionados ao redor da enorme casa, a qual era cercada tanto atrás como na frente por uma extensa plantação de milho e a fazenda que um dia seria herdada por toda a família. Éramos eu e meus primos, algo perto de duas dúzias de crianças cheias de energia brincando e explorando ao redor da fazenda enquanto o som de música alta e risadas ecoavam pela fazendo junto a suave brisa que fazia os pés de milho farfalharem. Já era tarde da noite quando um de nós, não me lembro ao certo quem, eu a ideia de que brincássemos de pega pega pela plantação, visto que durante a noite o lugar ficava completamente escuro sob o céu com nuvens que tapavam a luz da lua. Todos aceitaram a ideia, por que não? O primeiro deu um toque em um outro e gritou "tá com você!" enquanto todas as crianças saíam em disparada pelo local. Eu corri sozinho, não queria ficar em nenhum grupo para que isso não aumentasse as minhas chances de ser encontrado. É claro, resolvi me esconder no milharal, como a maioria assim fizera. Entrei no milharal após um tempo de corrida, me abaixei após entrar não muito fundo na plantação, me abaixei e esperei. Eu podia ouvir as risadas das crianças e os pés de milho se agitando ao longe. Pensei então em uma ideia melhor, adentrei mais fundo no milharal e pude enxergar ao longe o meu objetivo, um grande espantalho, parado a minha frente. Era isso, eu subiria na estaca, colocaria a roupa do espantalho por cima de mim mesmo e ficaria ali, ninguém nunca me encontraria, e quando os adultos nos chamassem para a ceia, eu sairia dali vitorioso, por ter sido o único a não ter sido pego uma única vez. Então eu o fiz, me ajeitei em meio a palha seca, aos casacos que mais eram trapos do que qualquer outra coisa e coloquei o grande chapéu em minha cabeça, e ali permaneci. Passou-se um tempo e eu estava começando a achar aquilo tudo muito desconfortável, a palha e os trapos me esquentavam e pinicavam minha pele, e eu só podia ouvir o som dos meus primos muito ao longe. Quanto tempo eu teria que ficar ali? Nesse momento, alguns dos milhos começaram a se agitar, e percebi algo se aproximando... mas era, estranho, grande demais, talvez um adulto? Prendi a respiração e fiquei imóvel, me preparando para conter meus risos. Agora eu tenho 16 anos, e 10 anos se passaram desde então. Estou escrevendo isso com um extremo desespero e medo. Hoje é dia 24 de Dezembro, está anoitecendo e eu sei que ele vai vir hoje, ele está só esperando... Deus, me ajude por favor! Eu sei que ele vai vir, eu vi aquela merda me olhando com os olhos brancos através da minha janela ontem, aquele maldito percebeu que eu o notei e correu tão rapidamente que beirava o inacreditável. Eu finalmente tinha começado a superar aquilo, tinha finalmente começado a seguir em frente sem deixar mais aquele trauma me atormentar. Eu estou em casa, mas estou sozinho por que meus pais ainda vão chegar em casa do trabalho. Se eu tentar sair vai ser pior, ele vai me achar, eu sei que vai, só posso ficar em casa com o revólver do meu pai e torcer pra que seja o suficiente. Quando eu tinha 6 anos, o que eu vi naquela plantação foi a coisa mais assustadora de toda a minha vida. De dentro do milharal surgiu um homem nu, com uma cabeça de bode e dois chifres longos e escuros na cabeça, e olhos brancos e cintilantes, que brilhavam naquele enorme crânio. A criatura andou calmamente, com uma postura completamente torta para a frente, respirando pesadamente a passos lentos e calculados. O ser estacou e virou-se diretamente para mim, seus enormes olhos brancos e opacos me fitando profundamente. Neste ponto eu perdi o controle de mim, urinei nas minhas calças e gritei como nunca antes e nunca mais gritaria, ao ponto de ficar sem voz por dias após tudo aquilo. O ser correu rapidamente para dentro da mata novamente, e após isso, só posso me lembrar dos meus pais, primos e tios chegando desesperados para me acudir. Eu nunca contei a ninguém nada do que eu presenciei aquele dia. CARALHO A JANELA ELE ESTA NA JANELA!