Publicado em
Não sei dizer exatamente quando essa história começou.
Durante muito tempo, achei que tudo tivesse começado no dia em que um pen drive apareceu na empresa onde eu trabalhava.
Hoje tenho a impressão de que aquele foi apenas um momento em que alguém decidiu me colocar no caminho certo.
Na época, eu trabalhava recuperando arquivos danificados para empresas de mineração. Era um serviço comum. Restaurávamos vídeos de inspeção, fotografias, relatórios e qualquer outro material perdido durante acidentes ou falhas em equipamentos.
Quase todos os dias chegavam HDs queimados, cartões de memória destruídos ou pen drives que haviam passado meses enterrados na lama.
Naquela manhã, porém, eu recebi algo diferente.
Era um pen drive preto, completamente sem identificação. Não havia etiqueta, número de patrimônio, nem qualquer informação sobre a empresa de origem. Apenas um pequeno pedaço de fita adesiva preso na lateral, com duas palavras escritas à caneta:
Recupere tudo.
Conectei o dispositivo ao computador e iniciei o processo de recuperação.
Havia 17 arquivos. Dezesseis estavam corrompidos de uma maneira muito difícil de reverter, mas, com o tempo, fui conseguindo recuperá-los.
O primeiro que consegui recuperar era apenas um vídeo.
A gravação tinha uma qualidade péssima, como se tivesse sido copiada dezenas de vezes antes de chegar até mim.
No vídeo, três homens caminhavam por um túnel de mineração usando capacetes com lanternas acesas. Um deles anunciava a profundidade em voz alta, enquanto o outro filmava o trajeto.
Nada parecia fora do normal até que eles ultrapassaram a marca de 1.500 metros.
Foi nesse momento que a câmera deixou de mostrar o chão e apontou para a parede do túnel.
Aquilo não parecia uma formação natural. A superfície era lisa demais, uniforme demais, sem rachaduras, nem qualquer característica comum de uma mina, como se tivesse sido construída por alguém.
Um dos homens se aproximou para tocar a parede e, no mesmo instante, o rádio preso ao seu colete começou a chiar.
Depois de alguns segundos de interferência, uma voz surgiu.
— Interrompam a escavação imediatamente.
Os três olharam ao redor, confusos.
Um deles respondeu:
— Tá, mas quem tá falando?
Houve alguns segundos de silêncio.
Então a voz voltou.
— Vocês ultrapassaram o limite autorizado.
A gravação terminou exatamente ali.
Não houve gritos. Não houve explosões. Não apareceu criatura alguma. O vídeo simplesmente acabou.
Imaginei que fosse algum treinamento interno ou uma gravação incompleta.
Só que havia outro arquivo no pen drive.
Era uma página, sem logotipo, assinatura ou data. No centro da folha havia apenas uma única instrução:
Toda informação referente ao incidente deverá continuar sendo atribuída à hipótese extraterrestre. Em nenhuma circunstância, a origem subterrânea deverá ser mencionada.
Li aquela frase várias vezes.
O que chamou minha atenção não foi a palavra extraterrestre.
Foi a palavra continuar.
Aquilo significava que essa versão já vinha sendo repetida há muito tempo.
Mas por quê?
Por que alguém teria tanto interesse em convencer o mundo de que aquelas criaturas vieram do espaço?
Naquele momento, eu ainda não tinha resposta para essa pergunta.
A única coisa que eu sabia era que aquele pen drive não havia chegado à minha mesa por acaso.
E, sem perceber, eu tinha acabado de dar o primeiro passo em direção à maior mentira da história da humanidade.
Naquela noite, eu não consegui dormir.
A frase do documento não saía da minha cabeça.
"Em nenhuma circunstância, a origem subterrânea deverá ser mencionada."
Origem subterrânea de quem?
Passei os dias seguintes pesquisando qualquer coisa que relacionasse mineração, civilizações subterrâneas e desaparecimentos em escavações.
A maior parte do que encontrei eram teorias da conspiração sem qualquer evidência.
Eu já estava quase desistindo quando encontrei um vídeo antigo de um podcast.
Nele, dois apresentadores mostravam fotografias de um suposto extraterrestre para alguns indígenas da Amazônia. A intenção parecia ser apenas registrar a reação deles diante das imagens, mas algo me chamou a atenção.
As primeiras fotografias não despertaram nenhum interesse neles.
Mas tudo mudou quando mostraram a imagem de um Grey.
Um dos indígenas ficou em silêncio por alguns segundos. Depois apontou para a fotografia e disse uma única palavra:
— Mancouno abo.
Depois de identificar a fotografia como sendo "Mancouno abo", um dos apresentadores perguntou se aquele ser havia vindo do céu.
O indígena respondeu que não.
Disse que eles sempre viveram embaixo da terra e que seu povo conhecia essa história. Ele era mais conhecido como o Homem-Formiga.
Naquele momento, senti um arrepio.
Voltei ao documento encontrado no pen drive e reli a frase pela décima vez.
"Toda informação referente ao incidente deverá continuar sendo atribuída à hipótese extraterrestre."
Era exatamente a mesma ideia.
Durante décadas, o mundo inteiro foi ensinado a acreditar que aqueles seres vinham de outro planeta.
Mas e se essa história tivesse sido criada justamente para impedir que fizéssemos a pergunta certa?
Não de onde eles vieram...
Mas há quanto tempo eles já vivem aqui?
Depois daquele podcast, eu parei de procurar por alienígenas.
Comecei a procurar por minas.
Passei dias pesquisando sobre acidentes de mineração, escavações interrompidas e túneis abandonados.
Eu queria encontrar qualquer registro que explicasse por que um documento oficial faria tanta questão de esconder uma origem subterrânea.
No início, parecia não haver relação alguma entre os casos. Uma mina fechava por risco estrutural, outra encerrava as atividades por falta de viabilidade econômica.
Por exemplo, a Gruta de São Thomé das Letras foi lacrada pelas autoridades, misteriosamente. E é bizarro como você olha para a porta daquilo totalmente lacrada com ferros.
Mas o mais estranho é que, quanto mais eu comparava os relatórios, mais um padrão aparecia.
Sempre que uma escavação atingia determinada profundidade, alguma coisa acontecia.
Obras interrompidas, funcionários transferidos, registros que desapareciam.
Era como se existisse um limite invisível que nenhuma empresa pudesse ultrapassar.
Resolvi pesquisar as empresas responsáveis por essas minas.
Achei que encontraria processos, acidentes ou até mesmo denúncias.
Mas o que encontrei foi algo muito pior.
Várias delas simplesmente deixavam de existir poucos meses depois do encerramento das atividades. Mudavam de nome, mudavam de CNPJ, eram incorporadas por outras empresas.
Era impossível seguir o rastro delas.
Foi então que eu decidi voltar onde tudo começou: o pen drive.
Os 16 arquivos corrompidos ainda me incomodavam. Passei horas tentando recuperar qualquer fragmento que tivesse sobrevivido.
Depois de dezenas de tentativas, um único arquivo finalmente abriu.
Não era um vídeo.
Era apenas parte de um documento.
A primeira página estava destruída.
A segunda também.
Só consegui ler um pequeno trecho da terceira.
Classificação: Ultra Secreto. Projeto VX.
Meu primeiro pensamento foi que Vorax fosse o nome de alguma operação militar.
Continuei lendo.
A linha seguinte mudou completamente a minha interpretação.
O documento confirmava que o Projeto VX não era um experimento.
Era o nome dado ao tratado firmado entre representantes da humanidade e uma civilização inteligente que habitava as regiões mais profundas da Terra.
O primeiro trecho preservado era uma apresentação feita pelos próprios representantes subterrâneos.
"Não somos visitantes. Não somos extraterrestres. Somos a civilização originária deste planeta."
Segundo a ata, eles afirmavam existir muito antes das primeiras cidades humanas.
Durante milhares de anos, permaneceram isolados nas regiões subterrâneas, evitando qualquer contato direto com a superfície.
A reunião só aconteceu porque as escavações humanas começaram a atingir áreas próximas aos seus assentamentos.
Foi nesse momento que eu encontrei a resposta para a pergunta que me acompanhava desde o primeiro documento.
Por que caralhos eles queriam inventar que vieram do espaço?
A resposta estava registrada na própria ata.
"A hipótese extraterrestre deverá ser incentivada permanentemente. Civilizações procuram respostas olhando para o céu, jamais para o solo sob seus próprios pés."
O restante do documento explicava que a narrativa extraterrestre reduziria o risco de novas escavações em regiões consideradas sensíveis.
Quanto mais eles fizessem as pessoas acreditarem que aqueles seres vinham de outros planetas, menos pessoas imaginariam que eles sempre estiveram aqui.
Até aquele momento, o acordo parecia beneficiar os dois lados.
Os humanos evitariam o colapso social causado pela descoberta de outra civilização inteligente vivendo sob a Terra.
E os habitantes do subterrâneo continuariam preservando o anonimato que mantinham havia milhares de anos.
Foi então que eu encontrei a cláusula que justificava toda a reunião.
Solicitação formal apresentada pelos representantes subterrâneos.
Logo abaixo havia apenas uma exigência.
Autorização para localizar, capturar e pesquisar a espécie A17.
Nenhuma descrição.
Nenhuma fotografia.
Nenhum nome científico.
Apenas aquele código.
No rodapé da página existia uma observação escrita à mão.
Solicitação aceita por unanimidade.
Fechei o documento e fiquei alguns minutos olhando para a tela.
Pera...
Eles só aceitaram?
Mas aceitaram o quê?
Após isso, continuei recuperando as páginas restantes da ata.
A maior parte delas descrevia apenas procedimentos burocráticos, assinaturas e protocolos de segurança.
Mas, algumas páginas depois, encontrei um novo documento anexado ao tratado.
O título dizia apenas:
Iniciativa A17.
Diferente da ata, aquele documento era técnico.
Não falava sobre política.
Falava sobre pesquisa.
O objetivo da iniciativa era simples:
Localizar, capturar e estudar a espécie A17.
Naquele momento, imaginei que estivessem procurando algum animal gigantesco escondido em uma floresta isolada ou, talvez, uma criatura subterrânea jamais catalogada.
Mas o restante do relatório destruía completamente essa hipótese.
A distribuição geográfica da espécie abrangia praticamente todos os continentes.
Ela não era rara.
Também não estava ameaçada de extinção.
Pelo contrário.
Os pesquisadores afirmavam que milhões de exemplares podiam ser encontrados facilmente na natureza.
Então aquilo não fazia sentido.
Se a espécie era tão comum, por que esconder seu nome?
Continuei lendo.
Os documentos afirmavam que os representantes subterrâneos jamais demonstraram interesse pelo animal em si.
O interesse estava concentrado em um único evento biológico que acontecia apenas uma vez durante todo o ciclo de vida do organismo.
Era nesse instante que o VX17 era produzido.
Os pesquisadores conseguiram isolar pequenas quantidades da substância e iniciar os primeiros testes em laboratório.
Os resultados pareciam impossíveis.
Tecidos envelhecidos recuperavam parte da sua estrutura.
Lesões desapareciam em poucas horas.
Os relatórios descreviam o evento sempre da mesma maneira:
Regeneração sistêmica observada.
Ou seja, você rejuvenescia e regenerava a própria pele.
Foi a primeira vez que encontrei qualquer descrição dos efeitos do VX17.
Mas o entusiasmo durou pouco.
Cada exemplar da A17 produzia uma quantidade tão pequena da substância que os próprios pesquisadores classificavam sua extração como inviável.
0,1 ml.
No rodapé de uma das páginas havia um cálculo feito à mão.
Mesmo utilizando centenas de milhares de indivíduos, a produção continuaria insuficiente para qualquer aplicação prática.
Foi então que encontrei a anotação responsável por mudar completamente o rumo da pesquisa.
A produção natural jamais atenderá à demanda. Autoriza-se o início dos estudos de replicação biológica.
Nas páginas seguintes apareciam dezenas de espécies diferentes.
Insetos: fracasso.
Aracnídeos: fracasso.
Anfíbios: fracasso.
Répteis: fracasso.
Mamíferos: fracasso.
Todas as linhas estavam riscadas com tinta vermelha.
A última página daquele relatório terminava com uma observação extremamente curta.
Caso a replicação interespecífica continue falhando, será necessária uma abordagem sem precedentes.
Não havia qualquer explicação sobre o que significava aquela abordagem.
Mas, depois de tudo o que eu já tinha lido, comecei a perceber um padrão.
Sempre que os documentos usavam expressões vagas como aquela, a próxima decisão costumava ser pior.
A ata descrevia aquele fenômeno de forma curiosa.
A VX17 parecia reconhecer quando estava fora do organismo correto, como se existisse alguma condição biológica extremamente específica que nenhum pesquisador conseguia reproduzir.
Os representantes que vinham debaixo da terra continuavam comparecendo às reuniões, mas não interferiam na condução das pesquisas.
Eles apenas perguntavam quanto tempo ainda seria necessário até que a produção pudesse ser ampliada.
Só que foi durante uma dessas reuniões que encontrei a transcrição de uma conversa que, na minha opinião, mudou completamente o destino da humanidade.
Um dos pesquisadores afirmou que eles estavam tentando copiar um processo biológico impossível de reproduzir utilizando espécies completamente diferentes.
Outro respondeu que talvez o erro nunca tivesse sido a técnica empregada, mas o organismo escolhido para os experimentos.
A partir daí, a discussão tomou um rumo que nenhum daqueles cientistas parecia disposto a impedir.
Se a molécula não podia ser produzida em nenhuma outra espécie, talvez fosse necessário utilizar algum tipo de organismo com uma capacidade genética muito maior.
Foi nesse momento que alguém fez uma pergunta que parecia destacada no documento, como se até quem digitou a ata soubesse que aquela frase mudaria tudo.
Existe alguma restrição ética ou jurídica quanto ao uso de embriões humanos na Iniciativa A17?
Eu não encontrei a resposta naquela página.
Ela terminava exatamente ali.
Droga...
Tá.
Então agora eles vão testar em humanos.
O documento seguinte já era a ata da reunião realizada alguns dias depois.
Não havia registro de debates, objeções ou votos contrários.
Existia apenas uma decisão.
Fica aprovada, por unanimidade, a fase humana da Iniciativa A17.
Fechei o arquivo e fiquei alguns minutos olhando para a tela.
Até aquele momento, eu ainda conseguia enxergar o projeto como uma tentativa desesperada de produzir uma substância capaz de regenerar tecidos.
Mas, a partir daquela assinatura, alguma coisa mudou.
Agora era o ser humano que fazia parte do próprio experimento.
Depois da aprovação da fase humana, os documentos mudaram completamente de tom.
As atas deixaram de registrar reuniões diplomáticas e passaram a descrever apenas procedimentos médicos.
Parecia que, a partir daquele momento, ninguém mais se importava em justificar o que estava sendo feito.
O único objetivo era alcançar uma produção estável da VX17.
Os primeiros experimentos utilizaram culturas de células humanas. Depois vieram tecidos cultivados em laboratório. Em seguida, embriões mantidos sob desenvolvimento artificial.
Todos fracassaram.
Em alguns casos, a VX17 sequer era produzida.
Em outros, a molécula surgia por poucos minutos antes de desaparecer completamente.
Havia também experimentos em que o embrião simplesmente não sobrevivia tempo suficiente para que qualquer análise pudesse ser realizada.
Conforme os meses se passavam, a palavra fracasso aparecia cada vez menos nos relatórios.
Não porque os testes estivessem funcionando, mas porque os pesquisadores haviam deixado de registrar cada tentativa individual.
Os documentos passaram a trabalhar apenas com estatísticas.
Milhares de embriões utilizados.
Centenas de perdas por semana.
Dezenas de laboratórios trabalhando simultaneamente.
Nenhum resultado considerado satisfatório.
Foi nesse ponto que encontrei uma observação escrita por um dos coordenadores da Iniciativa A17.
"A molécula parece depender de uma interação entre o material genético humano e a estrutura biológica da espécie A17. A simples transferência genética não é suficiente."
Aquela frase mudava completamente o rumo da pesquisa.
Até então, os cientistas acreditavam que bastava copiar determinados genes.
Agora começavam a suspeitar de algo muito pior.
Talvez fosse necessário combinar os dois organismos de uma maneira muito mais profunda.
As páginas seguintes estavam quase totalmente censuradas.
Os trechos que permaneceram legíveis repetiam apenas um termo:
Compatibilidade embrionária.
Não havia explicações.
A impressão que tive foi de que aqueles números não representavam experimentos.
Representavam tentativas.
O último documento daquele lote continha apenas duas linhas.
Protocolo de hibridização autorizado. Primeira gestação iniciada. 03:42 da manhã.
Fechei o arquivo sem conseguir pensar em mais nada.
Até aquele momento, tudo o que eu havia lido podia ser defendido como ciência levada ao extremo.
Mas, pela primeira vez, encontrei uma palavra que não combinava com uma pesquisa.
Hibridização.
Juntar dois seres diferentes.
Eu tinha a sensação de que os próximos documentos finalmente mostrariam o que havia nascido dentro daquele laboratório.
Os documentos seguintes já não pareciam relatórios científicos.
Pareciam registros de produção.
Cada página continha apenas números, datas e códigos de identificação.
Não existiam nomes.
Nenhuma referência aos pesquisadores.
Nenhuma fotografia.
Apenas tentativas.
O primeiro protocolo terminou antes mesmo da formação completa do embrião.
O segundo sobreviveu apenas três dias.
O terceiro apresentou crescimento acelerado, mas morreu poucas horas depois.
Conforme os meses avançavam, os números deixavam de representar experimentos e começavam a representar vidas.
Protocolo 0147: fracasso.
Protocolo 0261: fracasso.
Protocolo 0419: fracasso.
Depois de algum tempo, os pesquisadores simplesmente deixaram de registrar cada tentativa individual.
Os relatórios passaram a resumir tudo em tabelas.
Embriões utilizados: 3.284. Sobreviventes: zero.
Mesmo assim, a Iniciativa A17 continuava crescendo.
Novos laboratórios eram inaugurados todos os meses, e o financiamento aumentava em uma velocidade impressionante.
Em nenhum momento encontrei qualquer documento sugerindo o encerramento do projeto.
Pelo contrário.
Quanto mais vidas eram perdidas, mais recursos eram destinados à pesquisa.
Foi então que um relatório interrompeu completamente aquele padrão.
Não era uma tabela.
Era um protocolo interno enviado para todos os os laboratórios envolvidos na iniciativa.
Protocolo 731. Status: sobrevivente.
Li aquela página várias vezes.
Era a primeira vez, em todos aqueles documentos, que a palavra sobrevivente aparecia.
As páginas seguintes descreviam apenas as primeiras horas após o nascimento.
O organismo apresentava estabilidade.
Os sinais vitais permaneciam constantes.
Não havia rejeição.
Aparentemente, os pesquisadores sequer comemoravam.
Pareciam cautelosos demais para acreditar que finalmente haviam conseguido.
Então encontrei o exame realizado 48 horas depois.
Foi a primeira vez que a VX17 apareceu em uma quantidade considerada suficiente para análise.
Os resultados surpreenderam toda a equipe.
A molécula continuava regenerando tecidos exatamente como a versão original.
Sim, eles conseguiram replicá-la.
Mas sua composição já não era a mesma.
Alguma coisa havia mudado.
O DNA humano não aumentou apenas a quantidade produzida.
Ele alterou a própria natureza da VX17.
No rodapé do relatório havia apenas uma observação.
Solicita-se a presença imediata dos representantes subterrâneos.
Foi a primeira vez, desde o início da iniciativa, que os documentos registravam um pedido de urgência direcionado aos subterrâneos.
Naquele momento, tive a impressão de que nem eles esperavam aquele resultado.
E, pela primeira vez, comecei a considerar uma possibilidade que até então parecia absurda.
Talvez a humanidade tivesse criado algo que nunca fez parte do acordo original.
Continuei procurando os relatórios seguintes.
O primeiro documento preservado era o laudo da necrópsia.
Nenhum nome.
Apenas um código.
H001.
A descrição anatômica chamava atenção por um detalhe em comum.
O espécime apresentado tinha tecido humano em praticamente toda a extensão corporal.
Logo abaixo, outra observação.
Estruturas reprodutivas compatíveis com a espécie A17.
Fiquei alguns segundos sem entender o que aquilo significava.
Então encontrei a fotografia anexada ao relatório.
Ela estava parcialmente manchada, mas, mesmo assim, era possível distinguir um corpo humano extremamente deformado, ligado por dezenas de cabos e equipamentos médicos.
Na legenda da imagem havia apenas uma frase.
Primeiro híbrido viável.
Meu estômago revirou.
Passei para a página seguinte.
Os pesquisadores finalmente revelaram a identidade da espécie A17.
Nome científico: Mantis religiosa.
Nome popular: Louva-a-deus.
Fechei os olhos por alguns segundos.
Durante semanas, imaginei que a A17 fosse algum animal desconhecido escondido nas profundezas da Terra.
Nunca passou pela minha cabeça que fosse um inseto encontrado em praticamente qualquer jardim.
Mas havia um detalhe que mudava completamente essa conclusão.
A VX17 não era produzida durante toda a vida do animal.
Ela surgia apenas uma única vez durante o acasalamento.
Mais precisamente, nos últimos instantes de vida do macho.
Aquilo não fazia sentido.
O louva-a-deus era um dos insetos mais estudados pela biologia.
Muito antes da Iniciativa A17, os cientistas já sabiam que, durante o acasalamento, a fêmea frequentemente arrancava a cabeça do macho antes mesmo do fim da atividade sexual.
Esse comportamento era conhecido havia décadas e aparecia em praticamente qualquer livro de zoologia.
Mas os documentos deixavam claro que a ciência humana conhecia apenas o fenômeno.
Já os seres subterrâneos conheciam a causa.
Segundo o relatório, a VX17 era produzida exclusivamente nos últimos instantes de vida do macho.
Enquanto seu organismo entrava em colapso, o cérebro iniciava uma reação neuroquímica única, liberando uma sequência de compostos que jamais havia sido observada em qualquer outra espécie do planeta.
Para a humanidade, aquilo sempre pareceu apenas mais uma curiosidade da natureza.
Para os subterrâneos, era o recurso biológico mais valioso da Terra.
Durante milhares de anos, eles tentaram sintetizar a VX17 utilizando a própria tecnologia, mas fracassaram em todas as tentativas.
A molécula dependia de um processo biológico tão específico que não podia ser reproduzida artificialmente.
Foi justamente por isso que aceitaram fazer contato com a humanidade.
Eles não precisavam do louva-a-deus.
Precisavam da engenharia genética humana.
Os arquivos seguintes não falavam mais sobre pesquisa.
Também não falavam sobre descobertas.
A ciência havia terminado.
Tudo o que restava era produção.
Foi nesse momento que encontrei as primeiras imagens das chamadas fazendas.
Durante alguns segundos, achei que estivesse olhando para um hospital.
As instalações eram limpas, silenciosas e ocupadas por fileiras intermináveis de cápsulas de suporte.
Em cada uma delas havia um híbrido.
Centenas.
Talvez milhares.
O processo realizado com os híbridos era totalmente perturbador.
Foi ali que encontrei o procedimento que deu origem à maior indústria da história.
O cérebro do híbrido era induzido a reproduzir artificialmente o mesmo estado neurológico observado no macho do louva-a-deus durante seus últimos instantes de vida.
Enquanto aquela atividade cerebral atingia o pico, a concentração de VX17 aumentava rapidamente.
Era nesse momento que a extração começava.
Os relatórios chamavam aquilo de janela de produção.
Ela durava poucos segundos.
Quando terminava, o organismo entrava em colapso.
A matéria-prima obtida durante aquele intervalo era refinada e transformada na VX17 pura.
E era exatamente isso que os subterrâneos queriam.
Esse era um produto reservado aos governos, aos bilionários e às pessoas capazes de pagar valores inimagináveis por alguns mililitros da substância.
Mas o processo gerava um resíduo.
Durante muito tempo, aquele resíduo líquido foi tratado apenas como um subproduto industrial.
Até que alguém decidiu analisá-lo.
Os testes mostraram que ele já não possuía o mesmo poder regenerativo da VX17 original.
Em compensação, preservava quase integralmente a resposta neurológica registrada durante a extração.
Quem recebia aquela substância experimentava, por alguns segundos, exatamente o mesmo estado cerebral reproduzido no louva-a-deus antes da morte.
Não era euforia.
Não era felicidade.
Os relatórios descreviam aquilo como algo para o qual a neurociência não possuía comparação.
Não demorou muito para o subproduto deixar de ser descartado.
Primeiro foi distribuído para um estudo clínico.
Depois apareceu no mercado clandestino.
Meses mais tarde, já havia se tornado o produto mais lucrativo criado pela humanidade.
Enquanto os ricos compravam tempo de vida, o resto do mundo comprava alguns segundos de um prazer que nenhum cérebro humano havia sido capaz de sentir naturalmente.
Foi naquele momento que percebi.
As fazendas nunca existiram para produzir a VX17.
Elas existiram porque alguém descobriu que o lixo do processo valia mais do que o próprio produto.
No início de tudo isso, a sociedade continuou funcionando como sempre.
As pessoas ainda iam ao trabalho.
Os hospitais permaneciam abertos.
E o governo insistia que a substância era segura quando utilizada de forma controlada.
Mas bastaram alguns anos para que tudo começasse a desmoronar.
A produção de alimentos caiu.
Cidades inteiras foram abandonadas.
Serviços básicos deixaram de existir.
E qualquer tentativa de controlar a distribuição da VX17 fracassou.
A humanidade não foi destruída por uma guerra.
Nem por uma invasão.
Ela simplesmente perdeu o interesse em qualquer coisa que não fosse reviver, por alguns segundos, a mesma sensação experimentada pelo macho do louva-a-deus antes de morrer.
E, se você chegou até este ponto do áudio, provavelmente acredita que estou contando tudo isso para que alguém, no futuro, saiba como a humanidade acabou.
Mas eu não estou.
Na verdade, enquanto você escuta esta gravação, eu ainda estou no fim da nossa história.
Do lado de fora desta sala, o que restou da nossa equipe tenta colocar em funcionamento um equipamento que talvez seja capaz de enviar um único arquivo através do tempo.
Não sabemos se ele vai funcionar.
Não sabemos se uma gravação consegue sobreviver a viagens temporais.
Também não sabemos se o passado pode ser alterado.
O que sabemos é que esta é a nossa última tentativa.
Então, se você consegue ouvir minha voz, o experimento deu certo.
Isso significa que, para você, o Projeto VX ainda não foi assinado.
E eu espero que alguém consiga impedir que ele aconteça.
escutei esse, um dos meus favoritos. Ótimo, muito bem escrito, nota 9,5 de 10
Escutei esse podcast. Excelente! Tá no meu top 5
pior que sei de onde veio a idea.