O Parapeito

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O céu estava nublado, coberto por nuvens escuras que só podiam ser descritas como apocalípticas. De outubro a março, as noites na Sibéria são tão escuras que a negridão se torna quase palpável. Eu tinha chegado à cidade há poucos meses e nem sequer pensara no que faria por aquelas bandas ou em como sobreviveria; sempre fui do tipo que deixava a vida me levar por uma estrada cujo destino só descobriria ao vivenciá-la. Passava metade dos dias caminhando por avenidas desertas e comendo qualquer coisa em cafeterias baratas que encontrava em minhas viagens nômades durante a noite. O vazio das ruas aliado ao frio parecia deixar a sensação de solidão cada vez mais forte, porém não de uma maneira negativa; sentia-me livre das minhas novas obrigações como adulto. Naquela época, morava em um apartamento construído no início do governo de Lenin, e sempre me perguntava se, por algum acaso, as pessoas no futuro apreciariam aquele tipo de arquitetura ou se aquilo se tornaria algo que outras culturas adotariam para suas cidades. De qualquer forma, quando não estava na rua romantizando minha própria solidão e observando o que a vida urbana podia me proporcionar, ficava dentro de casa, olhando para fora e pensando nas coisas que aconteceram durante a minha adolescência. O prédio onde eu residia tinha vista para um parquinho e, em todas as noites que estive ali, nunca vira sequer uma alma viva naquele local... porém, isso mudaria em uma noite específica. Enquanto eu preparava o café, olhei para a janela, me perguntando onde fazia mais frio: do lado de fora ou dentro de casa. Meu aquecedor havia quebrado, eu não tinha dinheiro suficiente para pagar o conserto e, como nunca tinha visto o síndico do prédio, não fiz questão de cobrá-lo. Afinal, aquele lugar estava praticamente abandonado; as únicas pessoas por ali eram drogados, casais que brigavam quase o tempo todo, maconheiros e pessoas desesperadas como eu ou os meus vizinhos de corredor. A neve caía do lado de fora e os ventos sopravam moderados, embora o frio ainda fosse suficiente para fazer o sangue congelar dentro das minhas veias. Por isso, eu me mantinha enrolado em uma ou duas mantas velhas que trouxera da antiga casa da minha mãe. Eu olhava para o bule, e o fogão tremia apenas o suficiente para me manter focado — como quando há uma goteira e você esquece de tirar o balde do lugar, e aquele som rítmico faz sua mente desligar de tudo, até que, puf, você nem se lembra de quando pegou no sono. Foi só quando a água começou a dar sinais de ebulição que voltei a mim e desliguei o fogo. A chama deu um leve estalo antes de se apagar de vez. Coloquei o bule na mesa, coei o café e, depois de adicionar um cubo de açúcar, finalmente me sentei no sofá para encarar a janela. O aroma do café enchia o ambiente devagar e com calma, como uma visita agradável que chega de forma suave. O clima do lado de fora era terrível, mas lá dentro era pior ainda; contudo, o calor localizado daqueles cobertores me fazia sentir como se estivesse, mais uma vez, no colo da minha mãe. Eram tempos bons, um lugar ao qual, por mais que me ofertassem a chance, eu jamais voltaria. E não me entenda mal: aquelas memórias ainda são tudo para mim, mas vivê-las com a perspectiva de hoje seria como profanar um túmulo sagrado. Mas algo me tirou do transe. Uma sensação estranha tomou conta de mim: todos os pelos do meu corpo se arrepiaram, e não de frio. Levantei-me devagar, sentindo os cobertores subitamente mais pesados sobre os ombros, e olhei para a janela. Meus olhos pousaram em algo que me deixou totalmente paralisado. Mesmo na escuridão, consegui distinguir uma figura pálida parada no canto do escorregador. Era alta, excessivamente alta, estava nua e tinha uma pele tão branca que se confundia com as camadas de neve, enquanto seus cabelos longos e negros pareciam falhas na própria realidade. Por um instante, temi que aquilo tivesse me visto, mas lembrei que quase todas as luzes da minha casa — exceto a do quarto, que ficava do outro lado do cômodo — estavam apagadas. Virei-me devagar para ver se a porta do quarto estava aberta; se a luz escapasse pela fresta, isso poderia denunciar minha posição. Quando vi que estava fechada, soltei um suspiro de alívio — um alívio que durou até eu escutar o som de passos apressados sobre a neve. Virei-me num solavanco e olhei pela janela mais uma vez. Não se passaram nem cinco segundos, mas aquela coisa, fosse o que fosse, já não estava mais no parque. Fiquei procurando por ela e cometi o erro idiota de me aproximar mais da janela. O vidro embaçou com a minha respiração, então tive que limpá-lo com a ponta do cobertor, até que meus olhos caíram sobre algo pendurado no prédio em frente ao meu. Ela estava grudada em uma das paredes do edifício, como uma maldita aranha. Segurava-se no concreto bruto como se a gravidade não existisse, movendo-se com uma lentidão que fazia meu sangue gelar, como se não tivesse pressa ou estivesse apenas esperando o momento certo. Ela permaneceu assim pelo que pareceu uma eternidade, até que se moveu de novo. Só então compreendi a razão daquele sumiço repentino: ela era rápida. Tão rápida que parecia um borrão fundindo-se à cor cinzenta do concreto. Movia-se com tanta agilidade que parecia invisível e, o mais aterrorizante, sem emitir nenhum ruído enquanto escalava. A coisa continuou subindo até parar diante de uma janela. Ela pressionou o rosto no vidro e, com uma delicadeza silenciosa, abriu-o, enfiando o braço longo para o interior em busca de alguma coisa. Prendi a respiração quando ela começou a puxar o membro de volta lentamente e, para meu absoluto horror, vi o que ela estava segurando: parecia ser um garoto. Ele se debatia e chorava; seus movimentos eram erráticos e desesperados, mas o aperto daquela criatura era férreo. Tentei gritar, mas a garganta travou. Aquele pesadelo ainda não havia acabado. A coisa ergueu a criança acima da própria cabeça e deslocou a mandíbula com um estalo que ecoou na noite, abrindo uma boca tão monstruosamente grande que poderia engolir um homem adulto por inteiro. Seus dedos se abriram, e a criança caiu direto em sua cavidade oral. Num piscar de olhos, a criatura soltou-se da parede e despencou na neve com um baque surdo, disparando de volta para trás do escorregador com uma corrida antinatural — parecia a arrancada torta de um animal com as articulações invertidas. Eu não podia vê-la, mas podia ouvir o som da mastigação e da deglutição, ossos se partindo, carne sendo rasgada e pequenos soluços abafados. Eu estava petrificado, tão apavorado que minha visão começou a escurecer, a xícara escorregou da minha mão e senti o mundo sumir debaixo dos meus pés. Lembro-me apenas de acordar na manhã seguinte, sentado no sofá, com a xícara de café colocada cuidadosamente no parapeito da janela... que agora estava completamente aberta.