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ALERTA AO LEITOR! (LEITURA +18, VIOLÊNCIA, POSSÍVEIS GATILHOS)
O texto a seguir contém gatilhos. Considere se a leitura é adequada para você. O autor não colabora nem endossa as atitudes contidas no texto. Tudo é apresentado exclusivamente para fins de ficção e entretenimento, sem qualquer apoio ou incentivo à realidade. Cuide-se.
Meu nome é Bill.
É tudo o que precisa saber... Eu acho.
Já se sentou de frente para a janela, vendo o horizonte no fim de uma tarde qualquer enquanto vasculha a própria alma? Do tipo reflexivo? Bem... Isso resume meus dias. Resume minha vida.
Já se perguntou em que ponto as coisas perdem as cores e o sentido se torna sem gosto? Se souber a resposta, me diga. Porque eu, francamente, não sei agora.
Só o que me sobra nesse mundo cinza são coisas cinzas. Coisas que herdei do meu coroa... Aquele velho filho da mãe. Me deixou um trailer velho caindo aos pedaços, dívidas, álcool, drogas, a cara feia... E o mesmo vazio.
Vazio? Eu nem sei o que isso significa.
Mas escute só...
E não se esqueça...
Talvez você esteja como eu.
Então...
Isso é ser humano?
Era uma segunda-feira como as outras. A ressaca torturava minha cabeça enquanto meus olhos se odiavam por terem se aberto. A areia entrava pelas janelas velhas e sujas daquele meu trailer mal-acabado.
O deserto é o meu covil. Meu cantinho particular, o único corajoso que aguenta me olhar e rir de mim.
Gosto do deserto. Gosto de saber que ele me esconde. Me faz ser uma miragem para os outros. Eu acho graça... Muita graça.
A garrafa ainda estava nas minhas mãos. Sabe-se lá como ela continuava ali, presa nos meus dedos, enquanto eu dormia dopado na velha poltrona de couro.
Só acordei porque bateram na porta.
Três vezes. Foi forte.
― Polícia! Tem alguém em casa? Abra a porta!
Ouvi a voz autoritária. Me lembrei da mamãe... Ela bebia muito. Fedia a cigarros baratos. Era uma prostituta barata. Não sinto falta dela, nem depois de morta.
― POLÍCIA! Tem alguém aí? Abra a porta!
Gritou de novo, agora impaciente. Mas que saco...
Me levantei cambaleante, tentando firmar as pernas magras. Os pés descalços no tapete velho. Tropecei em mais algumas garrafas de cerveja, uma camisa suja, um canivete suíço, um par de botas gastas.
Abri a porta e fitei a figura policial à minha frente, pela fresta, mal revelando meu rosto pálido e cansado.
― Pois não, seu guarda?
Minha voz saiu embargada, eu nem percebi. Ele me fitou atrás dos óculos de sol reluzentes, como quem já identifica um meliante culpado.
― Boa tarde, senhor. ― disse ele. Bigode castanho, grande, mal encarado. O distintivo dourado bem evidente no peitoral definido. A mão descansando sobre a pistola prateada no coldre de couro marrom. O uniforme azul, impecável. Atrás dele, a viatura estava estacionada a poucos metros, modelo antigo, mas ainda miseravelmente rápida. Não gosto disso.
― Estamos à procura do suspeito que matou quinze meninas de seis a nove anos nos últimos dias. – Deu uma pausa, como que procurando palavras – O miserável as violentou. – fez mais uma pausa, apertando a coronha da revólver - E sabe que... Esse tipo de verme não sobrevive muito tempo nessas terras, não é?
Cuspiu as informações diante de mim. O olhar condenador de um juiz diante do próprio diabo.
― Só gostaria que soubesse disso ― sorriu ele.
― O-obrigado pela informação, seu guarda... ― disse, fechando o resto da porta. Ele rapidamente a segurou. A porta rangeu contra nosso esforço. Fitei-o de novo. Ele fechou o rosto.
― Se tiver alguma informação, ligue para nossa central... Senhor.
― Tudo bem, policial... Obrigado por me avisar.
Ele continuou me fitando por mais dois segundos, como se quisesse guardar cada detalhe da minha cara. Suspirou e soltou a porta.
― Tenha um bom dia. ― disse, caminhando até a viatura. Entrou e saiu, perdendo-se na estrada principal a uns setenta metros de onde eu morava. Conseguia ver o veículo branco e preto ondulando pelo calor do meio-dia.
Eu detesto policiais.
Eles sempre ficam no pé. Isso é mal.
Mas hoje é diferente. E eu sei por quê.
Honestamente, não suporto os homens. Sempre tão protetores, másculos... Sempre malhando, sempre em forma, exalando testosterona e suor. Às vezes vejo umas revistas velhas... Sinto nojo.
Homens de sunga, malhados, definidos. Alguns barbados, outros com rosto de bebê. Mas sempre com mulheres aos seus pés. Sempre uma bela loira de olhos azuis, sorriso bonito, curvas perfeitas. Sempre disposta a chupar as bolas de qualquer um que pedir.
Exibidos. Decadentes.
Rejeitam o fraco... O feio... O defeituoso.
Sinto raiva. Uma raiva que me faz rasgar as revistas depois de algumas olhadas. Mesmo assim, sempre as compro, sempre as vejo... Sempre odeio o que vejo.
Homens... Mulheres... Perfeitos.
Mas as crianças?
Ah, não... Essas são diferentes.
Elas são pequenas, frágeis... Dóceis como um cãozinho.
Tão belas... Não acha?
Eu as observo. Gosto do que vejo. Fito por um longo tempo.
Saindo sozinhas da escola, comprando doces, indo à igreja...
Eu ia para a igreja. Minha mãe me levava aos domingos. Estranhamente, depois da cerimônia, quando todos já tinham ido embora... Ela ficava a sós com o bispo por uma hora exata, numa salinha onde guardavam os produtos de limpeza.
Depois ela me comprava um cachorro-quente enquanto se perguntava por que não tinha me abortado.
Quando chegávamos ao trailer, meu pai já estava largado na poltrona de couro, antes mais intacta. Dava para sentir o cheiro azedo de mijo com álcool vindo do banheiro minúsculo e sujo.
Às vezes ele me ensinava a ser um bom rapaz. Me ensinava com seu cinto, com um isqueiro, um canivete. Me ensinava a obedecer quando pedia para comprar cigarros e cerveja. O dono nunca deixava menor de idade comprar essas coisas. Meu pai nunca acreditava.
Uma vez ele desenhou nas minhas costas com o canivete, depois que eu me recusei a agredir minha mãe quando ela foi pega no flagra com outro. Eu tinha dez anos. Ele desenhou em letras espaçadas, feias e mal escritas: B-I-X-A. Depois me banhou com álcool.
...
Eu gostava do meu pai. Ele me ensinou a ver revistas. Daquelas de mulheres nuas. Do tipo que o faziam soltar um palavrão e esboçar um sorriso luxurioso enquanto dizia: ― Quem sabe você consegue comer uma dessa algum dia, hein, moleque! ― e passava a mão na minha cabeça.
Eu sorria.
Ele morreu atropelado na pedreira. Uma morte estúpida, eu sei.
Minha mãe não foi ao enterro. Estava no bar.
Os únicos presentes era eu, de terno preto surrado, a vovó de vestido florido, sentada na cadeira de rodas, os cabelos brancos, e um amigo do serviço dele. Se chamava Joe. Era muito parecido com meu coroa: barriga grande, camisa suja de gordura, barba por fazer.
Ele já pegou a minha mãe. Eu os vi nus trepando quando entrei no quarto sem querer.
Ela me olhou, jogou uma nota de dez e mandou comprar doces. Mas ainda me lembro das palavras dela, no meio do ato, ao me ver:
― Aprende como se satisfaz uma mulher, pirralho! ― sorriu, tragando o cigarro barato enquanto Joe a satisfazia por trás.
Joe era um cara legal. Me dava presentes bons. Uma vez ganhei uma bola nova em folha.
Minha mãe, no dia do meu aniversário, me deu uma caixa rosada com uma fita por cima. Abri, e ela mal conteve o riso quando tirei de lá uma camisinha usada.
― Presente do Joe para você! ― disse, rindo.
Mas o passado é passado, não?
Embora às vezes ele volte. Te molde como uma faca molda... Hã... Pedras?
Ah, facas...
Usadas na cozinha. Por cozinheiros. Que tédio.
Eu uso para caçar... Uso para arrancar a pele de alguns animais incautos, descuidados. Sempre gostei de observar seus corpos mortos, tão submissos à minha vontade.
Apenas duas coisas ainda me chamam a atenção de forma genuína: animais e crianças.
Elas são diferentes, eu sinto isso. Elas sim são perfeitas... Atraentes de um jeito diferente.
Eu não sei. Sinto coisas diferentes. Sensações mais tênues e inomináveis. Inomináveis porque não sei nomeá-las.
Por isso... Sempre as observo.
As crianças. Os pequenos anjinhos.
Correndo despreocupadas por aí, sempre tão ingênuas, tão espontâneas, tão frágeis...
Os pais, muitas vezes, não as notam. Não dão atenção. Não as veem...
Mas eu vejo.
Eu sempre vejo.
E hoje?
Hoje é segunda. E é um dia bom.
Eu sei por quê.
Hoje tem jogo de beisebol.
Boa parte da cidade estará lá. Casais, velhos, pais e mães... Filhos.
Talvez eu apareça por lá.
Já sei como devo me comportar.
Geralmente fico na minha pick-up vermelha, meio enferrujada. Visto uma blusa preta com touca. Levo o necessário e... As assisto.
Caminhando de mãos dadas com os pais. Sorrindo docemente enquanto eles as erguem nos braços e giram no ar.
Elas sempre riem. Até de uma careta boba que alguma senhorinha faz enquanto puxa suas bochechas rosadas.
Sempre ouço: ― “Mas minha nossa, como essa princesinha cresceu!” ― ou ― “Está forte e bonito como o pai!” ― ou ― “Está linda e sorridente como a mamãe!”
A minha me mandava comprar cigarros. Era tudo o que ouvia da minha mãe, todos os dias, assim que acordava.
Não houve beijos de boa-noite. Eu me lembraria. Não me lembro de cantigas para dormir. Só me lembro dos gemidos depravados dela com algum canalha bêbado que trazia para casa, ao som de um blues no rádio do quarto. A parede era fina. Minha cama ficava ao lado. Enquanto isso, o trailer balançava e eu contava carneirinhos nos dedos.
Já vi uma criança contando carneirinhos.
Era uma menina. Elizabeth, ouvi a mãe dizer quando a chamou para passar protetor solar.
Ela estava no parque. Vestia um macacãozinho rosado com uma enorme flor pintada no peito, feita a pincel. Tinha uns sete anos, talvez menos. Corria pela grama chutando desajeitadamente uma bola de praia. O irmãozinho, mais novo, brincava com uma pistola d'água.
Eu observava tudo de outro banco. Próximo, mas não tão próximo. Dava para ver.
Sempre agi assim. Distante. Era seguro para mim.
E hoje deve ser igual: blusa preta com touca, pick-up vermelha, uma cerveja e sorte. Muita sorte.
Eu pensava assim.
Cerca de duas horas depois eu já estava na estrada, cercada dos dois lados por um extenso milharal de algum fazendeiro, logo depois da zona desértica. Mais adiante, dentro da pequena cidade, via nas calçadas grupos de jovens caminhando entre conversas e brincadeiras.
Líderes de torcida, jogadores, músicos... O típico clima de jogo estudantil.
Eu sabia o horário. Faltavam dez minutos.
Dez minutos eram suficientes para estacionar a picape e observar por trás das bancadas.
Estacionei. Fumei um ou dois cigarros extrafortes. O tabaco aguçava meus sentidos, me relaxava. Bebi um gole de cerveja e despejei o resto na grama do estacionamento, atrás das arquibancadas, uns cinquenta metros do campo.
Então a vi.
Era loira, vestia um vestidinho azul claro com babados. Cabelos ondulados. Branca e corada como uma boneca de porcelana.
Fitei-a. Ela estava com os pais.
O pai vestia a camisa verde e branca com o número 13, um boné verde escuro, e gritava da arquibancada: ― Vamos lá, Mike! Esse é meu garoto!
A mãe usava um vestido simples, mas elegante, óculos escuros de aro redondo, batom vermelho, e segurava um bebê envolto num manto lilás.
A garotinha, bem... Ela brincava com um filhote de poodle branco. Tão pequeno que poderia caber na palma da mão.
O filhote corria de lá para cá, vez ou outra passando por baixo das pernas dela. Ela sorria, despreocupada, tentando pegá-lo. Os pais, vidrados no jogo, nem notavam que ela se distanciava. Estavam vidrados num garoto de uns catorze anos, uniforme verde-claro e branco, que corria pelo campo depois de rebater a bola para fora.
O cãozinho fugiu.
Passou por baixo dos degraus e sumiu no estacionamento. A menina correu atrás. Eu mesmo ouvi seu gritinho agudo:
― Pipoca, vem aqui!
Hum... Pipoca. Eu gostava da salgada. Furtava das barracas do circo quando ele vinha à cidade. Quando me pegavam, levava um corretivo dos funcionários.
― PIPOCA, VEM AQUI! ― gritou ela. O cão fugia mais adiante, cruzando os carros estacionados, fileira por fileira, até que eu o apanhei.
― Ora, ora... O que temos aqui? ― disse, com o bicho na mão, analisando-o. A menina finalmente chegou, parando a um metro de mim. O rostinho rosado se ergueu docemente para fitar meu rosto.
― Este cãozinho é seu, meu bem? ― falei, agachando-me para ficar na altura dela. Ela assentiu com timidez.
― Pegue-o ― disse, sorrindo.
Ela me fitou e desviou o olhar. A timidez evidente. Deu um passo, depois outro. Os bracinhos se ergueram enquanto se aproximava. Os olhos nunca deixavam o cãozinho nas minhas mãos.
― FIQUE LONGE DELA! AGORA! ― A voz familiar cortou o ambiente, autoritária. Ergui o olhar e vi o reluzir dourado do distintivo. O mesmo sujeito que batera na minha porta. Ele, o policial.
― Eu só estava...
― EU FALEI PARA FICAR LONGE DELA! ― cortou-me, fitando-me de forma predatória atrás dos óculos escuros. Estava a dois metros de distância, atrás dela. Eu nem o vi chegar.
Droga...
― Venha cá, meu bem... ― disse ele, ajoelhando-se. A menina se aninhou nos braços dele por instinto.
― Senhor, policial, eu só estava...
― VOCÊ FICA AQUI! ― ordenou, apontando o dedo para mim. Soltei o cão, que correu para as mãos pequeninas da garota.
― Vou te levar para seus pais, está bem? ― disse ele, mudando o tom. A garota assentiu de novo.
Ergui-me. Ele me deu as costas enquanto a pequena segurava sua mão.
Suspirei. Respirei fundo.
Detesto políciais.
Chutei um pedregulho ou outro, pensando em ir embora. O pensamento venceu.
Sentei-me no banco de couro velho da pick-up e saí dali. Procurei os cigarros no porta-luvas. Vazio. Revirei a sacola preta que eu trouxera com algumas cervejas, no banco de trás. Também vazia.
― Mas que droga.
Tomei novamente a estrada.
Pisei no acelerador. Minha mente fervilhava: vergonha, ódio e algo mais.
O ponteiro marcava 100 km/h, conforme eu me afastava da cidade. A poeira do deserto subia pelo asfalto enquanto eu passava pelo trecho dos milharais.
A abstinência bateu.
Eu precisava de um cigarro, urgente. Meus dedos se apertavam contra o volante até ficarem brancos, meus olhos perdidos, vidrados em lugar algum.
Cocei nervosamente o pescoço, passando a mão sob o rosto agoniado. O rádio chiava enquanto uma música country tocava melancolicamente.
Suspirei.
Meu rosto soando frio.
(BOOM.)
Senti o impacto seco.
Estava tão perdido nos pensamentos, que nem percebi quando o carro se chocou com algo. O solavanco me fez parar de pensar. Acionei o freio bruscamente. Os pneus gritando contra o pavimento seco.
Desci do veículo no meio da estrada. O calor era abrasador, difícil de suportar. A intensidade desfigurando o horizonte além.
Forcei as vistas, e vi.
A mancha vermelha ondulava no calor do asfalto. Vermelho e branco.
― Puta merda! Mas que merda...
Minhas mãos subiram à boca enquanto eu fitava o cadáver de um filhote de poodle branco, estirado sob o solo. A cabeça fora esmagada.
O observei por alguns segundos. Sua figura inerte, agora desprovida de vida, me fazia recordar os animais que eu caçava.
“Mas de onde ele veio?” – pensei, me agachando próximo ao cadáver. Olhei em volta, para os milharais. Silêncio. Apenas ouvia o vento.
“Ele devia ter saído correndo do meio do milharal. Mas por quê?” – tentava deduzir a rota pela qual aquele animal surgira repentinamente. Um filhote daquele porte não poderia ter chegado sozinho até aquele limite da estrada.
Foi quando percebi.
Eu o conhecia... Sim...
Era idêntico ao cãozinho da garota do jogo.
Não. Era o mesmo.
Em seu pescocinho jazia uma coleira azul com um medalhão escrito: “Pipoca” junto do telefone para contato.
― Meu Deus! ― disse, pasmo. Meus olhos se viraram para a direção de onde o animal viera.
O milharal balançava com o vento suave. Folhas amareladas balançando ao gosto do vento.
Caminhei até a beira. Notei um espaço entre as folhagens, largo o bastante para passar um carro.
“Ele deve ter vindo daqui” – cogitei.
Havia marcas retas, folhas tombadas, esmagadas por um rastro que lembrava pneus.
“Por que um carro entraria no meio da plantação, bem nesse trecho da estrada?”
Lancei meu olhar para alguns metros a frente. Um corredor largo se estendia.
Pisei o milharal adentro.
Segui pé ante pé. O silêncio só se quebrava pelo farfalhar das folhas sob minhas botas. Até que algo destacou-se a uns dois metros de mim: uma cor diferente do amarelo sem fim.
Azul claro.
Minha vista mal conseguia reconhecer o objeto por causa das rajadas de luz do fim de tarde. Forcei os olhos, fiz sombra com a mão, e me aproximei. Inclinando-me, tomei o objeto estranho nas mãos e trouxe para perto do rosto.
A textura era lisa e macia aos dedos.
Um vestido azul claro, pequeno, de criança.
Meu rosto se desfigurou em incredulidade e confusão:
“Um vestido? Por que aquilo estava ali no meio da trilha? Ou melhor, por que estava ali no meio da plantação?” – pensava atônito.
“Este vestido é idêntico ao daquela...”
Arregalei os olhos com o palpite que se desenrolava em minha mente.
Odiei ter decifrado rápido demais.
Esse palpite martelou em minha mente. Fez meu coração bater descontrolado contra minhas costelas enquanto eu corria para o fim da trilha. Não era um bom palpite. Mas eu queria acreditar que sim.
Corri. Ah, como corri.
Foi quando avistei, ainda com os olhos feridos pela claridade, bem no fim da trilha...
Um borrão preto e branco.
Se reorganizando aos poucos sob minha vista cansada.
“Uma viatura.”
Estacionada no meio do nada. Cercada por centenas de milhares de metros de milho. As folhas altas a cobriam como um cerco, um muro.
Ouvi um estalo.
Me agachei, me refugiei entre as folhas. Meu corpo em estado de alerta, a adrenalina correndo em minhas veias.
Meu peito subia e descia, enquanto minha atenção se deu para uma persona familiar.
Uma figura masculina se ergueu do chão. Ajustando a cintura da calça azul. Fechou o zíper. O peito nu do homem tinha salpicos de um líquido vermelho.
“Vermelho”.
Ele se encostou no capô da viatura e acendeu um cigarro. Deu uma longa tragada. Passou os dedos fortes pelo bigode, recolocou os óculos escuros e soltou a fumaça.
“Mas é ele... É o maldito do policial que...” – Não terminei a frase.
Era ele.
Estava sem a icônica camisa, sem o distintivo dourado que exibia no peito. Era forte. Os pelos do peitoral exalavam virilidade. Era idêntico aos homens perfeitos das revistas. Aqueles de sunga, rodeados de mulheres curvílineas.
Tentei segurar minha respiração, o fluxo quase impossível de conter na caixa do peito.
Eu pude ver a barriga nua dele... lambuzada de vermelho. Um vermelho vivo, intenso.
Meus olhos se arregalaram. Meu coração palpitava loucamente, quase me fazendo desmaiar.
Baixei o olhar, tentando observar por debaixo do veículo. E vi uma pequena mão caída no chão, perto dele.
Ergui a cabeça devagar. A pequena mão revelou um antebraço, do antebraço um braço inteiro até ser revelado...
Cabelos loiros ondulados.
Unidos numa poça de sangue.
Fitei o policial. Meus olhos se ergueram para a figura desarmada, desatenta. Tragando um cigarro despreocupadamente.
Um sentimento cru consumiu meu peito por inteiro. Um ódio que eu jamais conheci.
E o alvo...
Era ele.
O impulso levou minha mão até um pedregulho próximo. Sem pensar, agi.
Saí do amarelado das folhas e golpeei a nuca dele por trás. A pancada o derrubou. A força do impacto veio acompanhada de gritos guturais que eu não conseguia conter. Nem mesmo quando o golpeei na cabeça com a pedra, uma, duas, três vezes.
Até que não pude mais reconhecer seu crânio. Seu corpo ficou inerte, como um animal morto, daqueles que eu costumava caçar.
Respirei descompassadamente. Caí sentado entre os dois corpos.
Contei três segundos. Me virei.
A imagem da pequena criatura, nua e inocente como seu cãozinho. Ali, atirada ao chão, desprotegida.
Senti dor ao ver a cena.
Receoso, a tomei nos braços em prantos, com delicadeza. Gemidos de dor e ódio mal contido. Um sentimento que sempre tivera, mas nunca soubera nomear.
Sabe...
Eu nunca tive o afago de uma mãe. Nunca senti o calor do seu amor. Nunca conheci a paz e a doçura de uma.
Nunca provei o que esses pequenos seres provaram.
Mas ali, toda aquela dor extravasava numa cascata de lágrimas descompassadas. Minha voz se reduziu a gritos incontroláveis.
Eu segurava-a, nua, nos braços. A cabecinha dela tombava para trás, completamente inerte.
Me fez lembrar Maria segurando Jesus.
Lembro-me de ter visto essa imagem quando ia à igreja aos domingos.
Agora sinto o que ela sentiu:
A sensação de querer proteger e não conseguir.
De amar algo frágil. Que facilmente poderia ser tomado, quebrado com facilidade, como uma xícara, uma bolha de sabão. Porém, que sentimento seria esse?
Medo?...
Talvez não. Então... O que seria esse sentimento que sempre me assombrou? Esse vazio que sempre me acompanhou desde minha infância?
Ah, sim...
Proteção... Era isso o que eu sentia.
Mas não soube nomear.
Eu não soube.
Eu nunca soube.
...
― MÃOS NA CABEÇA! ― disse uma voz autoritária, diferente. Vinha da trilha por onde eu entrara. ― PONHA A PORRA DAS MÃOS... – parou, notando melhor o cenário a sua frente:
O policial estava com a arma em punho. Os olhos se arregalaram em terror.
― C-comando, preciso de reforços! ― disse, a arma prateada tremendo diante da visão: um homem magro segurando o corpo nu de uma garota, e um policial caído ao chão.
Dificultosamente, eu disse:
― Senhor, policial, eu...
BANG.
...
Minha fala foi interrompida pelo tiro que perfurou meu peito mais rápido do que pude formular o restante da minha fala.
Senti o frio.
Aquele frio familiar das noites em que dormi solitário. Sozinho, enquanto contava carneirinhos...
Senti meus braços perderem as forças e me desesperei. Me desesperei por que... Eu não teria mais força para abraçar alguém.
Talvez esse fosse meu sonho. Abraçar algo puro. Algo quente e terno. Como...
Como uma criança.
Fim.