As Cores do Trauma

Publicado em

Aviso ⚠️

Esta obra aborda temas sensíveis, incluindo abuso infantil, trauma psicológico, depressão, tentativas de autoextermínio e violência. Todos esses elementos são apresentados como parte da construção da narrativa e de seus personagens, sem qualquer intenção de romantizar ou incentivar tais situações.

Caso esses assuntos sejam difíceis para você, priorize seu bem-estar antes de prosseguir com a leitura.

————————————————————————————————————————————

— Você está bem, Agatha?— Ele sempre fazia essa pergunta quando eu passava por ele. Cheguei a me perguntar se eu realmente parecia tão mal assim. — Estou bem. Claro, estou mais do que bem.

Ele nunca acreditava. Na verdade, eu também não acreditava.Ele sustentou meu olhar por alguns segundos, como se esperasse que eu desistisse da mentira e contasse a verdade. Não contei. Apenas sorri daquele jeito vazio que já havia se tornado um hábito e continuei andando. Quando passei por ele, senti sua voz morrer antes de alcançar meus ouvidos. Talvez ele quisesse insistir. Talvez já tenha entendido que algumas pessoas não querem ser salvas. Ou talvez soubesse que o problema nunca foi responder à pergunta, mas admitir para mim mesma que eu já não lembrava como era estar realmente bem.

De qualquer forma, seguir minha rotina parecia a melhor escolha. Ou, pelo menos, era o que eu dizia a mim mesma. Sinceramente, eu estava entorpecida demais para ter certeza daquilo ou de qualquer outra coisa.Ignorando a preocupação do meu amigo, segui para a consulta com minha psiquiatra.Não, eu não era louca. Pelo menos não da forma como as pessoas costumavam imaginar. Eu apenas carregava um histórico de tentativas de autoextermínio desde os dez anos de idade.

Dez anos.

Uma idade em que uma criança deveria se preocupar com provas, brincadeiras ou desenhos na televisão, não em querer deixar de existir. Mas o sofrimento não espera que alguém cresça. Coisas ruins nunca perguntam a idade antes de traumatizar uma pessoa.Não era algo que eu comentava com qualquer pessoa, muito menos com meus parentes. Eu já sabia exatamente o que ouviria. De alguma forma, encontrariam um jeito de dizer que a culpa era minha.

Culpar uma criança.

Só de pensar nisso, eu sentia o estômago revirar. Era esse tipo de pensamento que me fazia odiar a humanidade. Não, na verdade eu odiava um monstro,A culpa era dele. Daquele monstro.

Então por que ela caiu sobre mim?

Que culpa eu tinha por ser apenas uma criança que gostava da cor rosa? Que culpa eu tinha por crescer e me tornar uma adolescente doce, educada e simpática com todos? Que culpa eu tinha por simplesmente ter nascido naquele lugar?Eu não entendia. Por mais que tentasse encontrar uma resposta, nunca encontrava.

Então me diga… Que culpa eu tinha?

— Agatha? Você está ouvindo? Olhei para cima. Quando foi que cheguei ao consultório?— Ah... não, desculpa. Eu... eu estava pensando.Ela me olhava com aqueles doces olhos cor de marfim. — Você quer me contar o que estava pensando?

Perguntou com uma calma doce, quase ensaiada, mas eu apenas neguei com a cabeça.— Olha, estamos conversando há três semanas, mas ainda não chegamos ao ponto inicial do seu caso. Então, eu tive uma ideia.Aquilo despertou minha curiosidade. O que quer que Elise tivesse planejado poderia ser interessante... ou extremamente estressante.

— Que tal me contar tudo como se fosse uma história? Claramente seria uma história de terror, mas, como você disse que gostava de escrever esse tipo de narrativa, por que não tentar? — Olhei para ela. Realmente olhei. Pensei por alguns instantes antes de aceitar.

— Certo... vou tentar. — Respirei fundo. Fazia tempo que eu não fazia isso. — Em Wellington havia uma casa amarela, tão bela e vistosa que todos os que passavam por ela a admiravam. De vez em quando, alguém dizia: "Quão bela é aquela casa!" ou "Os donos dela hão de ser felizes."Sempre havia alguém para aclamar a beleza daquela casa. Mas seus donos não desfrutavam dessa felicidade.

Muito pelo contrário. A mulher era triste e apática. Vivia pelos cantos a chorar, desejando que a morte um dia viesse buscá-la. Desejava e desejava, até nas noites mais belas do luar, na luz das velas as lágrimas dela brilhavam sem parar. O homem, por sua vez, era seco, desprovido de qualquer afeto. Recusava-se até mesmo a se aproximar da esposa. Casara-se com ela por pura obrigação, e por consequência da mesma obrigação, se deitará com ela, com puro desgosto. Desse fruto de lástima e dor nasceu uma doce garotinha. Que aos três anos, viu seu genitor ir embora, viu sua genitora se despedaçar e viu sua bela casa amarela perder o brilho, tornando-se apenas uma velha casa de amarelo-mostarda.

Mas não demorou para que um novo brilho invadisse a casa. A mulher que lhe dera a luz encontrara um novo homem, dizendo à garotinha que, dali em diante, ele seria seu novo pai. A doce pequena, porém, não gostou dele nem por um instante. Sempre que podia, o evitava, como se um instinto silencioso a alertasse para manter distância. Então, em um dia de sol, a casa amarelo-mostarda tornou-se de um amarelo esverdeado.

Porque, em seu décimo aniversário, aquele novo pai destruiu tudo o que ainda existia de inocência dentro dela. E não havia nada que aquela criança pudesse fazer para impedir. Terminei de falar e abaixei o olhar para minhas mãos. Elas tremiam enquanto eu esperava Elise dizer qualquer coisa. O consultório permaneceu em silêncio por alguns instantes, até que finalmente encontrou a voz. — Então... seu padrasto… Ela interrompeu a própria frase, levando a mão à boca, como se as palavras tivessem se tornado pesadas demais para serem ditas. Confirmei com um leve movimento de cabeça, mordendo o lábio inferior. — É... foi ele. Respirei fundo antes de continuar. — Foi por isso que eu pedi a troca de psiquiatra.

Elise permaneceu em silêncio. Não era um silêncio desconfortável, nem vazio. Era o tipo de silêncio de quem entendia que qualquer palavra dita cedo demais poderia machucar ainda mais. Ela respirou fundo, fechou a prancheta e a deixou sobre a mesa. — Agora eu entendo. — Franzi a testa. — Entende o quê?

— Por que você nunca consegue falar de si mesma sem transformar tudo em uma história. — Permaneci calada. — Na sua história, a menina nunca tem nome. O padrasto nunca tem rosto. A casa muda de cor, mas ninguém diz o motivo. É uma forma de manter distância do que aconteceu.

Desviei o olhar.

— Se eu der um nome para ela... deixa de ser uma história. — Elise assentiu devagar.

— Exatamente. E passa a ser a sua. — Senti um nó se formar na garganta. Pela primeira vez, contar a verdade parecia mais assustador do que qualquer pesadelo que eu já tivera. — Mas me diga... o que acontece no final dessa história?

Pensei por alguns instantes, tentando me lembrar. Meus dedos apertaram a manga da blusa quase por instinto. Ergui o olhar para Elise. — A garotinha matou o monstro.

O silêncio que se seguiu pareceu durar uma eternidade. Elise não desviou os olhos de mim. — E ela viveu feliz para sempre?

Sorri. Não era um sorriso de felicidade, nem de alívio. Era apenas um sorriso cansado.

— Não.

Minha voz saiu baixa, quase um sussurro.

— Histórias assim não terminam quando o monstro morre. Elas só ensinam a vítima a sobreviver aos fantasmas que ele deixou para trás.

Nota da Autora

Escrever esta história não foi sobre criar monstros, mas sobre mostrar que, às vezes, os piores deles usam rostos comuns e vivem onde menos esperamos.

Esta obra é uma ficção, mas trata de temas que fazem parte da realidade de muitas pessoas. Em nenhum momento meu objetivo foi romantizar a dor, e sim dar voz às cicatrizes que, muitas vezes, permanecem invisíveis.

Se, em algum momento da leitura, você se identificar com Agatha, saiba que sua história não precisa terminar como a dela. Espero que este livro desperte empatia, reflexão e coragem para enxergar que o silêncio nunca deveria proteger quem causa a dor, mas sim quem a sobrevive.

Obrigada por dar uma chance a esta história.