Madrugada

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Não há ninguém lá fora... O tempo parece estranho, mesmo que passe a impressão de estar passando rápido enquanto escrevo, quando paro, ele parece estagnar. Eu escuto o cantar dos galos... Galos não cantam de noite... Dizem que quando isso acontece é porque algo anda aos arredores. Escuto uma batida em minha porta:

  • "Alguém em casa?" - uma voz distorcida e gutural quase incompreensível fala isso. Outra batida:
  • "Alguém em casa?..." - seguido por um silêncio. O vento sopra e bate em minhas janelas, empurrando-as, mas como estão trancadas não abrem. Pela terceira vez:
  • "Alguém em casa?..." Me aproximo da porta, olho para baixo, pela fresta em seu inferior. Não tem sombra alguma... Me abaixo e olho pela fresta: Não há pés. Não há ninguém lá fora... Me levanto e me afasto. Volto para a mesa e continuo a escrever. Para quem escrevo?... Para a insônia, para que ela não venha me incomodar. Quarta vez:
  • "Há alguém aí?..." - uma nova pergunta se fórmula. Eu não respondo. Vou para a sala e fito a porta: silêncio. Olho para o relógio da sala: 3:50. De repente uma voz passa como vento pelos meus ouvidos atrás de mim: "Ô..." - é o que diz. Viro-me depressa: silêncio novamente. Uma cadeira de balanço se mexe em minha sala. Balança para frente e para trás. Escuto uma voz dela... Ela diz:
  • "Não há ninguém lá fora..." Uma quinta batida surge na porta:
  • "Há sim... Há sim..." - a voz gutual fala. A luz da noite entra por entre os buracos do teto. Uma outra voz surge do corredor:
  • "Não há ninguém em casa!" Olho para a mesa, minha caneta começa escrever no papel sozinha: "Não há gente... Não há gente..." Eu apenas observo, assustado, mas com modo de medo contido, reação apática, mas cheia de horrores. Olho para o relógio: 3:51. "Como passou-se só um minuto?" - penso. A televisão da sala liga sozinha, a estática surge junto à um rosto desforme:
  • "Gente? Aqui tem?..." - ela pergunta. Uma sexta batida na porta. A voz fala algo... Não consigo decifrar... É um gemido, uma vocalização initendível. A minha chave começa a flutuar, entra à fechadura e gira: uma... Duas... Abre-se. Lá fora parece que há só a luz artificial dos postes e da lua... Não há ninguém na porta... Olho para o relógio novamente: 5:00. Um pulo rápido, um sobressalto de tempo fugaz... Os galos cantam:
  • "Já há gente aqui... Já há gente aqui..." - a voz gutual fala. Outras vozes se unem: "Há sim... Há sim..." A luz do sol surge. Olho para fora: não há ninguém na rua. As vozes continuam: "Há sim... Há sim..." A voz gutual pergunta: "Mas, quem aqui há?..." E eu respondo: "Não há ninguém aqui dentro..."