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— Ei, que tal contarmos histórias de terror? — perguntou Pedro enquanto mergulhava a mão em um pacote de batatas chips
— Puxa, é verdade, vamos contar histórias de terror! — Bruno, o mais criativo do grupo, ficou entusiasmado com a ideia de Pedro
Os demais presentes na fogueira aceitaram a ideia, embora algumas garotas tenham ficado com uma pulga atrás da orelha
— Eu começo! — falou Bruno, alto e claro, olhando em volta para os demais presentes
Vendo que todos concordaram em deixá-lo ser o primeiro, Bruno iniciou
— Meu pai me contou essa história quando estávamos vindo para o sítio, se é verdade, eu não sei… Há muitos e muitos anos, a mansão abandonada que fica do lado esquerdo do sítio estava à venda, uma família de classe média alta, que economizara durante meses, comprou a mansão à vista, o antigo proprietário, um velho quieto e meio ranzinza, deu um único aviso à família: “Nunca abram o quarto dos fundos”, a família concordou, pois o quarto não teria utilidade, além de ser o único cômodo cuja porta estava visivelmente velha, com vários desgastes e a maçaneta praticamente solta
A família se mudou para a mansão em uma manhã de domingo, o pai, Roberto, a mãe, Helena, e seus dois filhos, Lucas, de 12 anos, e Mariana, de 8, ficaram encantados com o tamanho da casa, os enormes corredores, os móveis antigos e o jardim que parecia não ter fim, durante as primeiras semanas, tudo ocorreu normalmente, até que algumas coisas estranhas começaram a acontecer
Mariana dizia ouvir alguém chorando durante a madrugada, sempre vindo do corredor do segundo andar, mas, quando seus pais verificavam, não encontravam absolutamente nada, Lucas, por outro lado, afirmava que alguém batia três vezes na parede de seu quarto todas as noites, exatamente às 3 horas da manhã
Roberto não dava muita importância, acreditava que eram apenas barulhos causados pela madeira velha da mansão, Helena, entretanto, começou a ficar preocupada quando encontrou Mariana conversando sozinha perto da escada
— Com quem você está falando, querida? — perguntou Helena
— Com o menino do quarto dos fundos — respondeu Mariana, tranquilamente
Helena sentiu um arrepio percorrer sua espinha
— Que menino, Mariana?
— Aquele que fica atrás da porta, mamãe, ele disse que está sozinho há muito tempo
Helena imediatamente levou a filha para o quarto e contou tudo ao marido, Roberto ficou irritado, dizendo que aquelas histórias eram fruto da imaginação de uma criança, mas, naquela mesma noite, decidiu verificar o corredor
Eram exatamente 3 horas da manhã quando Roberto acordou com três batidas na parede, levantou-se irritado e saiu do quarto, caminhou pelo corredor escuro até parar diante da porta dos fundos, ficou alguns segundos olhando para a maçaneta enferrujada, até ouvir uma voz baixinha vindo de dentro
— Papai?
Roberto congelou, aquela era a voz de Lucas
— Lucas? O que você está fazendo aí dentro?
— Papai, abre, por favor, está muito escuro
Roberto colocou a mão na maçaneta, mas, antes que pudesse girá-la, ouviu novamente a voz do filho, dessa vez vindo de trás dele
— Pai? O que você está fazendo?
Roberto virou-se lentamente, Lucas estava parado no início do corredor, com os olhos sonolentos e segurando seu ursinho de pelúcia
Os dois ficaram se olhando por alguns segundos, até que três batidas vieram novamente de dentro do quarto
Roberto agarrou o filho e correu para o quarto, trancando a porta, na manhã seguinte, contou tudo a Helena, que decidiu que a família deveria deixar a mansão imediatamente, mas Roberto, tentando manter a calma, insistiu que aquilo poderia ser alguma brincadeira de Lucas
Naquela tarde, enquanto os pais arrumavam as malas, Mariana desapareceu
Procuraram por toda a casa, pelo jardim, pela garagem e até pelos arredores da propriedade, mas não encontraram nenhum sinal da menina, até que Helena ouviu uma voz vindo do segundo andar
— Mamãe, estou aqui!
Era Mariana, a voz vinha do quarto dos fundos
Helena correu até lá, seguida por Roberto, que tentou impedi-la, mas já era tarde, a maçaneta estava caída no chão e a porta, que antes parecia impossível de abrir, estava entreaberta
Helena empurrou lentamente a porta
O quarto estava completamente vazio, exceto por um pequeno espelho encostado na parede e uma cadeira de madeira no centro, Mariana estava sentada nela, de costas para os pais
— Meu amor, vamos embora — disse Helena, chorando
A menina não respondeu
Roberto aproximou-se e colocou a mão no ombro da filha, mas, quando ela finalmente virou o rosto, os dois deram alguns passos para trás
Não era Mariana
Era uma mulher extremamente pálida, com cabelos compridos cobrindo parte do rosto, que sorria de uma maneira tão larga que parecia impossível para uma pessoa normal
— Vocês demoraram — sussurrou ela
As luzes da mansão se apagaram
Quando Roberto conseguiu encontrar o interruptor, a cadeira estava vazia, a mulher havia desaparecido e Mariana estava caída no chão, aparentemente desacordada
A família abandonou a mansão naquela mesma noite, sem levar praticamente nada, nunca mais voltaram e, segundo dizem, o imóvel permanece vazio até hoje
Bruno terminou a história e jogou um graveto na fogueira
— Caramba, cara, essa foi boa — disse Pedro, pegando mais algumas batatas
— É, mas acho que você exagerou um pouquinho no final — comentou uma das garotas, tentando disfarçar o medo
Todos riram, menos Rafael, que estava sentado um pouco afastado dos demais, olhando fixamente para a escuridão atrás das árvores
— Gente… — falou ele baixinho
— Que foi, Rafael? — perguntou Pedro
— Aquela mansão… ela ainda está lá?
— Claro que está, seu idiota, fica logo ali — respondeu Bruno, apontando na direção da propriedade
Rafael engoliu seco
— Então por que tem alguém olhando pela janela?
O grupo inteiro virou a cabeça na direção da mansão
No segundo andar, havia uma janela iluminada, apesar de a casa estar abandonada há décadas, uma silhueta feminina estava parada atrás do vidro, imóvel, observando a fogueira
— Deve ser algum reflexo — disse Bruno, embora sua voz já não transmitisse a mesma confiança de antes
Pedro pegou uma lanterna e apontou para a janela
A silhueta desapareceu
— Pronto, acabou a brincadeira, vamos voltar — disse uma das garotas
Todos começaram a recolher suas coisas, mas, antes que pudessem sair, ouviram um barulho vindo da direção da mansão
Três batidas
Pausa
Mais três batidas
E então uma voz feminina, distante, mas perfeitamente audível, atravessou o terreno
— Vocês demoraram…
Bruno parou de andar
Seu sorriso desapareceu completamente
— Gente… essa parte eu não inventei
Pedro olhou para ele, confuso
— Como assim?
Bruno estava pálido, olhando para a mansão
— Meu pai me contou que, depois que a família foi embora, o antigo proprietário voltou à casa para recuperar algumas coisas, ele entrou no quarto dos fundos e nunca mais foi visto, quando a polícia investigou, encontrou apenas uma cadeira vazia e um espelho quebrado
O grupo ficou em silêncio
— Mas tem mais uma coisa — continuou Bruno, com a voz trêmula — meu pai disse que o velho deixou uma fotografia dentro da casa, uma fotografia da família que comprou a mansão
— E daí? — perguntou Rafael
— Na fotografia, havia cinco pessoas
— Mas a família tinha quatro — respondeu Pedro
Bruno assentiu lentamente
— Exatamente
Antes que alguém pudesse perguntar qualquer coisa, uma voz surgiu atrás deles
— Bruno?
Era a voz de seu pai
Bruno virou-se imediatamente, mas não havia ninguém
Seu celular começou a vibrar dentro do bolso, era uma ligação de seu pai
Ele atendeu
— Filho, onde você está?
— Na fogueira, pai, por quê?
Do outro lado da linha, houve alguns segundos de silêncio
— Bruno, escuta com atenção, você precisa sair daí agora, estou tentando te ligar há quase meia hora, mas não consigo completar a chamada
Bruno franziu a testa
— Pai, eu acabei de atender
— Não, filho, você não entendeu, eu estou aqui no sítio, na cozinha, e acabei de ouvir alguém batendo três vezes na porta dos fundos
Todos se entreolharam
— E o que tem isso, pai?
A voz do outro lado começou a tremer
— Porque tem alguém aqui dentro, Bruno, e está usando a sua voz
A ligação caiu
Por alguns segundos, ninguém se mexeu
Então Pedro, que estava sentado mais perto da fogueira, começou a chorar
— Bruno… — sussurrou ele
— Que foi?
Pedro apontou para trás de Bruno, na direção das árvores
Havia um garoto parado entre os troncos, usando exatamente as mesmas roupas que Bruno, com o mesmo cabelo, o mesmo rosto e o mesmo sorriso
Mas havia algo errado
O garoto não estava olhando para o grupo
Estava olhando diretamente para Bruno
E então levantou lentamente a mão, apontou para a mansão e abriu a boca
— Você esqueceu de contar o resto da história
Bruno tentou correr, mas suas pernas não obedeceram
O garoto começou a caminhar em sua direção, enquanto os outros gritavam e corriam para o sítio
Quando finalmente conseguiram chegar à casa, Pedro percebeu que Bruno não estava com eles
Voltaram para procurá-lo, mas não encontraram ninguém, apenas seu celular caído perto da fogueira, ainda com a ligação encerrada na tela
Na manhã seguinte, a polícia foi chamada, procuraram por Bruno durante dias, revistaram o sítio, os arredores e até a mansão abandonada, mas não encontraram nenhum vestígio dele
Apenas uma coisa chamou a atenção dos investigadores
No quarto dos fundos, havia um espelho encostado na parede, exatamente como Bruno havia descrito
E, escrito com o dedo sobre a superfície empoeirada, havia uma frase:
“AGORA SÓ FALTA UM”
Pedro nunca mais voltou ao sítio
Anos depois, já adulto, recebeu uma fotografia antiga pelo correio, sem remetente e sem qualquer explicação
Era uma fotografia da antiga mansão, tirada aparentemente no início do século passado
Havia cinco pessoas na janela do segundo andar
Quatro delas eram desconhecidas
A quinta era Bruno
E, no verso da fotografia, escrito com uma caligrafia que Pedro reconheceu imediatamente, havia uma última mensagem:
“Pedro, da próxima vez, não deixe ninguém terminar a história”