CONTOS DE NHERION - DOMINÓ

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Um verdadeiro jogador conhece o seu oponente antes mesmo da primeira peça tocar a mesa. Não é sorte; sorte é o consolo dos amadores.

Ganhar é uma questão de anatomia: observar o suor na têmpora, o tremor imperceptível no lábio e, principalmente, o brilho da ganância no olhar.

Já derrubei homens que se diziam mestres, e confesso que sinto um prazer quase gastronômico ao ver o desespero de quem achava que tinha o destino nas mãos. Eu domino todos os jogos, mas o meu favorito, sem dúvida, é o dominó.

Há algo de poético naquelas peças brancas que emulam o marfim, com seus pontos pretos profundos como estrelas em um céu morto. Sei que para um desconhecido nada disso parece fazer sentido, mas em Nherion, o sentido é uma faca que corta devagar.

Hoje, visitei meu fornecedor habitual nos fundos da vila. Ele tinha um jogo novo para mim, finalizado durante a madrugada. — “O material é de primeira, como o senhor pediu”, ele disse, limpando as mãos no avental de couro.

Peguei a caixa de madeira escura com a etiqueta amarelada que dizia “não abrir”. Eu não precisava abrir; eu sentia o peso. As peças não eram leves como resina ou plástico oco. Elas tinham a densidade do osso, o calor residual de algo que um dia fez parte de um sistema vivo.

Caminhei até o posto de gasolina, o último marco de civilização antes da fronteira da minha cidade. O asfalto ali é gasto, e o ar tem cheiro de ferrugem e abandono. Sento-me na mesa de canto, sob a luz trêmula da varanda, e espero. Os viajantes costumam passar apressados, fugindo da névoa, mas sempre há um corajoso — ou um tolo — que repara no homem elegante sentado sozinho.

Eu não aposto dinheiro. Dinheiro é papel, e papel apodrece. Muito menos aposto almas; o que eu faria com algo tão imaterial e inútil?

Minha aposta é simples: jogamos uma partida. Se o estrangeiro ganhar, eu lhe entrego um cheque em branco, uma fortuna capaz de reconstruir uma linhagem. Mas, se ele perder… bem, ele me entrega o que eu pedir. Eles sempre perguntam o que eu poderia querer de tão valioso de um simples viajante.

Eu apenas sorrio, mantendo os lábios fechados para não revelar o estado dos meus próprios dentes, e respondo que o prêmio é algo que dinheiro nenhum no mundo pode comprar.

Eles aceitam, acreditando que têm o controle. Mal sabem que, no momento em que tocam as peças brancas e radiantes, já começaram a entregar o que eu mais desejo. O som do motor interrompeu o silêncio da estrada antes mesmo dos faróis cortarem a névoa. Um carro de luxo, brilhante e deslocado naquele cenário de ferrugem, estacionou junto às bombas desativadas. Dele desceram três rapazes. Jovens, talvez com seus 19 ou 20 anos; o tipo de pessoa que, de longe, percebe-se ser apenas uma casca vazia, movida por excessos e pela ilusão de poder.

Para eles, eu era apenas um detalhe na paisagem. Primeiro, olharam-me com desprezo, depois com um interesse faminto. Eu sempre assumo a forma necessária para desarmar meu oponente. Para aqueles três, a elegância do terno seria um aviso, e eu não queria avisá-los; eu queria atraí-los. Desta vez, eu jogaria de vestido.

Um dos rapazes, o que parecia liderar o grupo pela altura do riso, aproximou-se. Ele me viu ali, sentada sozinha sob a luz amarela, e seu olhar me percorreu como se avaliasse um pedaço de carne no balcão de um açougue. Pobre rapaz. Se ele soubesse quem era a verdadeira presa naquela mesa...

— "Está sozinha aqui, moça? Uma estrada dessas não é lugar para uma beleza dessas", ele disse, com um sorriso que transbordava uma confiança barata. — "Estou apenas esperando alguém que saiba jogar", respondi, minha voz saindo suave, quase um sussurro que o vento da estrada carregou até ele.

Ele olhou para os amigos e riu, um som oco que ecoou pelo posto abandonado. Convidou-me para um passeio no carro, prometendo o mundo em troca de alguns quilômetros. Eu recusei.

— "Como eu poderia confiar em um estranho na beira de uma estrada?" — perguntei, fingindo uma hesitação que ele leu como timidez.

Ele se inclinou, apoiando as mãos na mesa de madeira, invadindo meu espaço.

— "Eu não sou um estranho. Olhe para mim... tenho cara de homem mau?"

Eu apenas sorri, mantendo o segredo guardado atrás dos lábios. Pobre rapaz. Ele ainda não aprendeu que o mal não tem cara; ele tem a forma exata do que você mais deseja possuir.

Ele sentou ao meu lado, invadindo meu espaço com uma confiança pútrida. Pude sentir o cheiro: não era apenas perfume caro, era o odor de uma alma em decomposição, carne estragada antes mesmo do abate. Que pena. Em Nherion, detestamos desperdício, mas há casos em que a essência é tão medíocre que nem o sal consegue curar.

O rapaz fixou os olhos nas minhas mãos, que deslizavam sobre a caixa de madeira escura. Quando revelei as peças, o branco radiante pareceu hipnotizá-lo.

— "Dominó? Minha avó jogava isso", ele desdenhou, mas seus olhos não conseguiam desviar das pedras. "Vamos fazer o seguinte: uma partida. Se eu ganhar, você entra naquele carro e nos mostra do que essa cidade é feita."

Os outros dois amigos se aproximaram, cercando a mesa como hienas esperando as sobras. Eu apenas acenei, um gesto suave que selou o contrato.

— "E se eu ganhar?" — perguntei. Ele riu, um som seco. — "O que você quiser, boneca. O que você quiser."

Espalhei as peças sobre a mesa. O som não foi o de plástico batendo em madeira; foi um som denso, um estalo orgânico, como dentes batendo uns contra os outros durante um calafrio. O jogo começou.

À medida que as peças eram encaixadas, o ar ao redor do posto começou a esfriar. O primeiro rapaz jogou uma peça, e por um segundo, ele hesitou. Ele sentiu a textura. As peças eram lisas demais, porosas de um jeito que lembrava esmalte humano.

— "Onde você comprou isso? É... gelado", ele murmurou, a arrogância começando a rachar. Eu não respondi. Joguei a próxima pedra. Clack.

O segundo amigo, que observava por cima do ombro, levou a mão à boca. Ele sentiu uma pontada súbita na gengiva. O terceiro sentiu o gosto de ferro — sangue — inundar a própria língua. Eles não entendiam, mas o jogo já estava cobrando o seu preço. Cada ponto preto nas peças de dominó parecia uma pupila nos observando.

O silêncio da estrada tornou-se absoluto. O único som era o das pedras sendo batidas. Clack. Clack. Clack. Com o jogo chegando ao fim, a iluminação do posto começou a oscilar. Na luz trêmula, minha forma de "mulher" vacilava. Por um milésimo de segundo, o rapaz não viu uma moça bonita; ele viu algo vasto, antigo e faminto, cujos dedos eram longos demais para serem humanos.

— "Minha vez", eu sussurrei. Bati a última peça na mesa. O encaixe foi perfeito.

O rapaz tentou rir, mas o som morreu na garganta. Ele tentou abrir a boca para falar que tinha sido um bom jogo, mas sentiu um vazio súbito. O rosto dele empalideceu. Ele levou a mão à boca e sentiu o primeiro dente cair, seguido por outro, e outro, sem dor, apenas um desprendimento inevitável, como se o corpo dele estivesse devolvendo o que nunca lhe pertenceu.

Olhei para os três, cujos sorrisos agora eram crateras de sangue e confusão.

— "O jogo acabou", eu disse, minha voz agora voltando ao tom elegante e grave do Homem de Dominó. "E eu aceito o meu prêmio."

Por um instante, o mundo pareceu tremer e se realinhar. O frio súbito desapareceu, e as luzes do posto pararam de oscilar. Os três rapazes piscaram, atordoados, trocando olhares confusos. Para eles, o horror dos últimos minutos foi filtrado pela mente como um delírio, um efeito colateral das substâncias que costumavam consumir para preencher suas cascas vazias. Eu me levantei devagar, ajustando o vestido que ainda me servia de disfarce. O líder do grupo, recuperando a arrogância, inclinou-se em minha direção com um sorriso torto.

— "Você ganhou, boneca... então, qual vai ser o prêmio?"

Eu olhei no fundo dos olhos dele, vendo ali apenas o reflexo da própria ruína.

— "Não se preocupe", respondi, minha voz já se misturando ao som do vento. "Eu busco o que é meu na hora certa."

Virei-me e caminhei em direção à névoa que subia do asfalto, sumindo antes que eles pudessem protestar. Eles riram, achando que tinham se livrado de uma louca na estrada, e voltaram para o carro. Seguiram viagem pela única rota possível: aquela que eu havia traçado.

Quando finalmente cruzaram os limites de Nherion e estacionaram diante do açougue na Rua 13, o desespero já tinha substituído a euforia. O líder entrou tropeçando, a confusão nublando seus sentidos. Ele se aproximou do balcão, buscando informações, sem notar a figura sentada na penumbra do canto, observando-o. O Açougueiro não disse uma palavra. Apenas apontou com o queixo para a sombra atrás do rapaz.

Quando ele finalmente percebeu minha presença, eu não usava mais o vestido. Eu era novamente o Homem Elegante, sentado com a calma de quem possui todo o tempo do mundo. Sorri para ele, revelando a fileira de dentes podres e amarelados que tanto contrastavam com a minha postura.

— "Está na hora de recolher o meu prêmio."

O grito dele foi abafado pelo som do cutelo batendo na madeira.

Dois dias depois, retornei ao açougue. O fornecedor me esperava com três caixas de madeira escura, polidas e pesadas.

— "Três jogos completos, senhor", disse o Açougueiro, entregando-me o fruto do nosso contrato. "Material de primeira linha. Perfeitos, como sempre."

Abri uma das caixas. As peças brilhavam com um branco perolado, radiantes sob a luz da vitrine. Cada caixa continha exatamente 32 peças. Nem uma a mais, nem uma a menos. O conjunto exato para um jogo de mestre.

Coloquei as caixas sob o braço e saí para a rua silenciosa de Nherion. O ciclo estava completo. Agora, eu só precisava de uma nova mesa, um novo posto de gasolina e outro par de olhos gananciosos que acreditassem na sorte.

O Homem de Dominó sentou-se em seu escritório, onde as sombras pareciam prestar reverência. Sobre a mesa de mogno, ele abriu a primeira das três novas caixas. O cheiro de cera de abelha não conseguia mascarar totalmente o odor metálico que emanava do conteúdo.

Ele pegou o Duplo Seis. A peça estava morna. Ele a levou aos lábios, sentindo a curvatura perfeita do esmalte. Não havia imperfeições; o jovem líder do grupo possuía, afinal, uma dentição invejável, fruto de anos de ortodontia cara e vaidade oca. Ironicamente, aquela vaidade agora servia para um propósito muito mais nobre: a eternidade de uma partida bem jogada.

— "32 razões para não se subestimar uma mulher de vestido," ele cantarolou para o vazio, sua voz deslizando entre o barítono e o soprano.

Ele guardou a peça e fechou a caixa com um estalo seco. Amanhã, a névoa estaria densa na fronteira sul. E, em algum lugar, um caminhoneiro solitário ou um herdeiro apressado estaria sentindo um formigamento incômodo na gengiva, sem saber que o seu destino já estava sendo embaralhado em uma mesa de posto de gasolina.

O jogo nunca termina. Ele apenas troca de dentes.