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Capítulo 6: no museu.
POV: ..., ON.
A dor na coxa é uma pontada cega que pontua cada passo. Não dá para disfarçar a mancada, então uso o peso do corpo para compensar, transformando o passo em um balanço pesado. A garota me acompanha ao lado, mantendo os olhos atentos às ruínas. Ela aprendeu rápido: não olha mais para os próprios pés, olha para as frestas, para os telhados, para os pontos cegos.
O sol de meio-dia castiga o asfalto trincado. Precisamos de sombra e de um tempo de parada antes de encarar o perímetro aberto que leva ao São Vicente.
Depois de alguns minutos de caminhada encontramos um museu de história natural. A fachada de colunas imponentes está parcialmente desmoronada, e o letreiro de bronze foi arrancado. Por dentro, o ar é denso, cheirando a papel mofado, gesso e poeira antiga. Esqueletos de animais extintos e vitrines de vidro estilhaçado decoram o saguão principal.
É o lugar ideal. Barricamos a entrada com dois bancos de madeira pesados e nos posicionamos na penumbra de uma galeria secundária.
Sento-me em um pedestal de pedra para aliviar a perna. Larissa solta a mochila no chão e limpa o suor da testa com a manga da camisa.
— Você tá mancando menos — ela observa, baixo.
— O torniquete funcionou — respondo, limpando a fuligem da lâmina da minha faca. — Mas você quase me matou lá fora. Por incompetência. E no mundo de hoje, incompetência mata igual a uma mandíbula de Driller.
Ela abaixa o olhar, a vergonha estampada no rosto, mas não se encolhe. É um bom sinal.
— Eu quis ajudar — murmura.
— Vontade não serve de nada se a mão tremer na hora de puxar o gatilho — digo, guardando a faca e puxando o revólver cromado que tirei do soldado morto no beco. Puxo o tambor, retiro as duas últimas munições e entrego a arma descarregada para ela, pelo cabo. — Pega.
Larissa hesita por meio segundo antes de estender as mãos. Ela segura o metal como se segurasse um pássaro machucado.
— Leve — ela diz.
— É ferro. Não é pesado, você é que tá fraca — corrijo, me levantando com um grunhido preso na garganta. Fico atrás dela. — Primeira regra: a arma é uma extensão do seu braço, não um brinquedo de arremessar. Abre os pés. Largura dos ombros. Flexiona os joelhos.
Ajusto a postura dela tocando em seus ombros e no quadril, corrigindo a rigidez.
— Segura com as duas mãos. Dedos cruzados na empunhadura, mas o polegar da mão dominante fica livre. Não trava o cotovelo, deixa ele absorver o tranco, senão o coice joga o cano pra cima e você acerta o teto.
Ela se ajusta. A respiração dela fica mais pausada, concentrada.
— Mira com o olho dominante. Enquadra a alça e a massa de mira no alvo. Se o alvo for um homem, mira no peito. Se for um bicho... mira onde a carapaça for mais fina. Na articulação. No olho.
— E se eu precisar lutar de perto sem arma? — ela pergunta, sem desfazer a postura de tiro.
Puxo a faca e coloco o cabo de madeira na mão livre dela.
— Você não precisa lutar bonito. — falo, aproximando meu rosto do dela para que entenda a gravidade. — Lutar de perto pra quem é menor é covardia calculada. Se alguém te agarrar, você não tenta empurrar. Você enfia os dedos nos olhos. Morde a orelha. Chuta o joelho de lado pra estourar o ligamento. E se tiver com isso aqui... — bato levemente na lâmina na mão dela — ...você entra com a ponta na garganta ou na virilha. Onde passa artéria.
Ela engole em seco, sentindo o peso do aço.
— Faz o movimento. Golpe direto. De baixo pra cima.
Ela desferiu um golpe no ar. Lento. Hesitante.
— De novo. Com vontade. Imagina que é o cara que te segurou pelo cabelo no mercado.
Larissa fecha a mandíbula. O olhar dela muda — a garota assustada dá lugar à sobrevivente que se recusou a morrer naquele buraco. Ela gasta o ar num golpe seco, rasgando o vento do museu com a faca.
Swish.
— Melhor — digo, assentindo devagar. — Agora de novo. Até o braço decorar o caminho.
Fico observando enquanto ela repete o treino no silêncio do museu abandonado, Ela continua desferindo os golpes no ar. Swish. Swish. O suor escorre pela testa dela, sujando a poeira no rosto, mas a postura melhora a cada repetição. A garota aprende rápido quando entende que a alternativa é virar comida.
Depois do décimo quinto golpe, ela abaixa o braço, arfando. Olha para a faca na própria mão, depois para mim, inclinando a cabeça com um brilho esquisito nos olhos.
— Sabe de uma coisa, Carranca? — ela solta, tentando recuperar o fôlego.
Fecho os olhos por meio segundo.
— Não me chama assim.
— Ué, você não me deu seu nome. E convenhamos, você tem exatamente a cara de uma carranca de barco de madeira velha. Daquelas bem feias que o pessoal usa pra espantar espírito ruim.
Dou um suspiro pesado, cruzando os braços e encostando no pedestal de gesso de um esqueleto qualquer.
— Você fala demais.
— É pra compensar o seu silêncio — ela dá um sorriso curto, o primeiro de verdade que vejo no rosto dela. É estranho ver um sorriso em meio a tanta ruína. — Mas sério... de onde você tirou tudo isso? Essa história de desarmar cara, postura de tiro, sabão nos olhos, saber exatamente onde furar uma artéria? Você era o quê? Algum tipo de mercenário secreto? Agente do BOPE?
Ela tenta fazer uma pose dramática segurando a faca, claramente tentando puxar assunto, tentando arrancar qualquer pedaço de humanidade da casca que montei ao meu redor.
Olho para a fita do torniquete na minha coxa. Olho para a poeira flutuando na luz que entra pelas janelas quebradas do museu.
— Segurança — a palavra sai seca, mas quebra o muro que passei dias erguendo.
Larissa para o movimento com a faca. A brincadeira no olhar dela dá lugar a uma curiosidade genuína.
— Segurança? Tipo... de banco?
— De tudo — respondo, olhando para a lâmina no chão. — Carro forte. Eventos. Boate. Prédio comercial. Dez anos vestindo terno barato e grosso, ouvindo gente rica reclamar de besteira e lidando com bêbado violento às três da manhã.
Dou um riso curto, amargo. Não chega nem perto de humor.
— O mundo antigo já era cheio de bichos, Larissa. Eles só não tinham carapaça de quitina e nem três metros de altura. Usavam terno, usavam camisa de time, usavam droga. Você aprende a ler o corpo das pessoas antes delas reagirem. Aprende que quando a briga começa, não existe regra. É bater pra derrubar antes que te matem.
Ela fica em silêncio por alguns segundos, processando. A piada morreu, mas o peso da conexão ficou.
— Então você já sabia lutar antes do céu cair...
— Eu sabia sobreviver à sujeira dos homens — corrijo, olhando bem no fundo dos olhos dela. — Os insetos só deixaram o jogo mais honesto. Um Driller não mentindo pra você. Ele só quer te devorar. O ser humano não. Ele sorri enquanto procura onde fincar a faca.
Larissa engole em seco, mas assente devagar. Ela devolve a faca pelo cabo, com cuidado, e pega a arma descarregada, guardando na cintura do jeito que ensinei.
— Bom... — ela diz, num tom mais baixo, mas sem a tensão de antes. — Pelo menos agora eu sei que meu instrutor tem experiência.
— Seu instrutor vai te deixar pra trás se você não pegar a mochila — digo, ficando de pé e sentindo a perna reclamar só o suficiente para me lembrar que estou vivo. — O treino acabou. Vamos descansar um pouco, amanhã cedo vamos pro São Vicente.
Giro o corpo e me encosto em uma parede fechando os olhos, mas sinto o olhar dela em mim. Menos assustado. Mais firme.
A garota tá deixando de ser um mapa e virando gente. E isso é perigoso pra cacetada.
A luz do dia vacila e dá lugar a um cinza escuro. Encosto a cabeça na parede fria do museu só por um segundo. Para descansar a vista. Só um segundo.
O escuro me engole.
Gritos. Altos, agudos, cortando o barulho de vidros estourando e o ronco de algo imenso rastejando no telhado.
— "AMOR! PEGA O LÉO! PEGA O LÉO!"
Mãos pequenas me puxando. O cheiro de queimado. O rosto dela coberto de poeira, os olhos arregalados de puro pânico. O teto cede. Uma pata negra, articulada, grossa como um tronco de árvore, despenca entre nós dois.
— "NÃO!"
Acordo com um golpe de ar nos pulmões.
Meu peito sobe e desce descontrolado. A mão voa direto para a faca na cintura antes mesmo dos meus olhos focarem no escuro.
O calor de uma chama fraca me atinge o rosto.
Larissa está sentada a poucos metros, alimentando uma fogueira pequena, montada com cuidado dentro de um tambor de metal velho para não deixar a luz vazar pelas janelas. O fogo estala baixo. Ela me olha, notando meu estado, mas não faz perguntas. Ela aprendeu a respeitar os fantasmas dos outros.
— Calma — ela diz, a voz macia. — Tá tudo limpo lá fora.
Ela mexe no bolso do casaco e me estende duas barras de cereal amassadas, a embalagem desbotada.
— Achei num balcão do arquivo. Tá dentro da validade... eu acho.
Pego as barras, a vergonha do pesadelo ainda queimando no meu peito.
— Valeu.
Ela se levanta, limpando a poeira da calça.
— Vou ali atrás de uns escombros... preciso ir ao banheiro. Se algum bicho me pegar, a culpa é sua por ter me ensinado a chutar fraco.
Ela se afasta para a penumbra dos fundos da galeria.
Fico sozinho com o estalar do fogo. Puxo o gravador da jaqueta. Aperto o botão. O chiado fino invade o ar.
— Registro... não sei que dia. — Sussurro, a voz funda. — Estamos num museu. A perna tá aguentando. A garota... a Larissa... ela não é burra. Cuidou do meu tiro, aprendeu a segurar o ferro e dividiu a comida. É uma boa pessoa.
Faço uma pausa. Olho para a escuridão por onde ela sumiu.
— Mas ainda é inocente. O mundo destruiu tudo, mas não tirou a humanidade dela. E é isso que me preocupa. Pessoas boas morrem primeiro aqui fora. Se eu quiser que ela chegue viva naquele hospital... vou ter que garantir que a casca dela fique tão dura quanto a minha.
Desligo o gravador antes de ouvi-la voltar.
Comemos em silêncio. A barra de cereal tem gosto de papelão e açúcar velho, mas é o banquete do dia. Quando terminamos, Larissa olha em volta, os olhos brilhando com a curiosidade que o apocalipse não conseguiu matar.
— A gente não vai sair agora de noite mesmo... me mostra o resto do lugar? — ela pede, num tom calmo, quase infantil na sua simplicidade.
Hesito. O instinto manda mandar ela calar a boca e dormir. Mas olhai para a perna, olho para a fogueira... e dou de ombros.
Caminhamos lado a lado pela penumbra do museu, iluminados apenas pela réstia de lua que passa pelo teto solar quebrado.
É um momento estranho. Quase fofo, se essa palavra ainda existisse.
Passamos pelas sombras gigantescas de répteis pré-históricos. As costelas de um tiranossauro projetam garras de sombra no chão. Mais adiante, a carcaça de um avião biplano da Primeira Guerra repousa como um pássaro cego.
Ela para diante de uma vitrine alta de vidro. Dentro, preservados em resina e espetados por agulhas, há dezenas de besouros, borboletas e joaninhas. Pequenos. Inofensivos.
— Olha só — ela murmura, encostando o dedo no vidro sujo. — A gente achava que esses bichos eram nojentos. Eu tinha pavor de barata de esgoto.
Solto um riso curto pelo nariz.
— É. Hoje em dia uma barata daquelas parece um bicho de estimação.
— Que saudade da época em que o maior problema do mundo era uma abelha picar o seu pé na praia — ela diz, olhando para um besouro-verde do tamanho de uma moeda. — Eles eram tão... pequenos. Tão normais.
— O mundo era normal, Larissa. A gente é que não dava valor.
Ficamos ali por alguns minutos, em um silêncio confortável que não precisa de sobrevivência para existir. Só dois seres humanos olhando para um passado que virou exposição.
A manhã chega fria, com uma névoa cinzenta cortando as ruínas da cidade.
Apagamos os restos da fogueira. Ajusto a mochila nas costas. A coxa ainda fisga, mas a dor agora é uma velha conhecida.
Larissa checa a arma descarregada na cintura, ajeita as alças do bornal e me olha. Não há mais tremor nas mãos dela.
— Pronta? — pergunto.
— Pronta — ela responde.
Botamos o pé na estrada. O Hospital São Vicente está próximo. E o fim dessa caminhada tá só começando.
POV: ..., OFF