O Coelho - Senhora Morte

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Capítulo 1 – As Marcas de Ravenhill

O cheiro de ferro e de chuva recente ainda tomava conta da madrugada quando passei pela fita amarela de isolamento. As luzes azuis das duas viaturas cortavam a névoa pesada da zona norte, projetando sombras compridas contra os muros descascados do terreno baldio.

No centro da área iluminada pelos refletores, sobre a terra úmida, estava o corpo de uma mulher, com os pés removidos.

Aproximei-me devagar, ajustando as luvas de nitrilo e pegando minha lanterna de perícia. Anos trabalhando na divisão de homicídios me ensinaram que uma cena de crime pode revelar muita coisa antes mesmo de qualquer testemunha abrir a boca. E aquela cena contava uma história assustadora.

Os pés da vítima haviam sido removidos.

Não havia sinais de cortes desordenados ou de tentativas malfeitas. Os cortes eram precisos, feitos exatamente na articulação do tornozelo. A lâmina havia separado os tecidos sem causar danos desnecessários aos ossos. A quantidade de sangue encontrada indicava que a vítima provavelmente ainda estava viva quando os primeiros cortes foram feitos.

— O corte foi feito com um bisturi número 22 ou uma faca de caça muito afiada — murmurei, inclinando-me para examinar a pele sob a luz da lanterna. — Não há marcas de serra nem sinais de hesitação. Quem fez isso sabia exatamente onde cortar.

— Laura...

A voz de Amélia soou atrás de mim. Ela parecia nervosa, e havia algo em seu tom que ia muito além da preocupação profissional.

Virei-me para encará-la.

Amélia segurava a prancheta contra o peito com tanta força que seus dedos estavam brancos. Ela não olhava para o corpo, mas para o chão enlameado, como se tentasse encontrar alguma resposta ali.

Dois anos antes, o laudo assinado por Amélia havia ajudado a conseguir o mandado de prisão de Jack Merrin. Ela era uma das peritas mais promissoras do departamento e havia garantido à promotoria que o Coelho estava atrás das grades.

— É a mesma lâmina? — perguntou ela, com a voz trêmula. — O corte foi feito do mesmo jeito? Me diz que é só um imitador, Laura. Por favor.

— Os cortes seguem o mesmo padrão do caso de 2023 — respondi, tentando manter a voz firme, apesar do arrepio que subia pela minha espinha. — Os tornozelos foram limpos com soro fisiológico logo depois. Não há fibras de tecido nem sujeira nas feridas. Quem fez isso limpou tudo com muito cuidado, como se estivesse preparando uma peça para estudo.

Amélia levou a mão à boca e deu um passo para trás.

— Não pode ser... O Jack está no presídio de segurança máxima de Ravenhill. Eu conferi os relatórios de custódia hoje de manhã! Nós o prendemos, Laura. As provas contra ele eram fortes! Encontramos as digitais dele no galpão e roupas encharcadas de sangue. Fui eu quem assinou o laudo!

— E se o laudo mostrou apenas o que o verdadeiro assassino queria que víssemos? — perguntei, levantando-me para encará-la.

— Se eu errei há dois anos, mandamos um garoto de vinte anos para a prisão enquanto o verdadeiro assassino passou todo esse tempo livre — sussurrou ela. Sua voz estava carregada de culpa. — A imprensa vai acabar com a gente. O departamento inteiro vai desmoronar.

— Esqueça a imprensa por um momento — ordenei, assumindo o controle da investigação. — Quero uma busca com luminol em um raio de cinquenta metros. Recolham amostras do solo, procurem marcas de amarras nos pulsos e me entreguem o relatório do exame do corpo até o amanhecer. E ligue para a direção do presídio. Quero falar com Jack Merrin. Ainda hoje.

Amélia engoliu em seco e assentiu. Em seguida, afastou-se para orientar a equipe de perícia.

Caminhei de volta para a viatura descaracterizada, enquanto a chuva voltava a cair em gotas grossas sobre o asfalto.

O som da chuva parecia uma contagem regressiva.


Nota Jornalística – Canal 7 Notícias

[A vinheta de plantão urgente surge na tela, acompanhada por tons de vermelho-escuro. A imagem muda para a repórter Clara Voss, que está na bancada do estúdio. Ao fundo, uma imagem em alta definição mostra o terreno baldio da zona norte. Seu semblante é sério.]

— Boa noite.

Depois de vinte e quatro meses de silêncio, Ravenhill acorda mergulhada no mesmo pesadelo que acreditava ter deixado para trás.

Hoje, às quatro horas da manhã, o corpo de uma mulher foi encontrado em um terreno abandonado na zona norte. A cena apresenta sinais semelhantes aos dos crimes cometidos pelo serial killer conhecido pela imprensa como "O Coelho", responsável por uma série de mutilações que aterrorizou o estado em 2023.

Assim como nas vítimas anteriores, os pés da mulher foram removidos com precisão no local do crime. Segundo especialistas, esse tipo de mutilação pode fazer parte de um ritual criado pelo próprio assassino.

Em novembro de 2023, o jovem Jack Merrin foi preso e condenado como o responsável pelos crimes. Na época, a Polícia Civil anunciou a prisão como a solução definitiva para o caso.

No entanto, a descoberta de uma nova vítima com características semelhantes às dos crimes anteriores levanta questões preocupantes, que a Polícia Civil ainda não respondeu:

Será que a polícia mantém um homem inocente preso há dois anos? Ou Ravenhill está sendo ameaçada por um novo assassino, ainda mais perigoso?

— De Ravenhill, eu sou Clara Voss, para o Canal 7 Notícias.


Dois anos antes – A Caçada Original

A noite de 2023 cobria a zona industrial de Ravenhill com uma névoa úmida e sufocante. As lâmpadas amareladas dos postes antigos piscavam, iluminando as ruas vazias e os becos abandonados.

O Coelho não corria. Movia-se silenciosamente pelas sombras, com o casaco comprido escondendo sua silhueta.

À sua frente, a alguns metros de distância, uma mulher apressava o passo. O som de seus saltos contra as pedras da rua lembrava as batidas descontroladas de um coração assustado. Ela ajeitava a gola do casaco e olhava por cima do ombro a cada poucos passos, sentindo que alguém a seguia, embora não conseguisse ver ninguém.

O Coelho a observava com atenção.

Não havia raiva em seus movimentos, nem a pressa comum de um criminoso. Ele agia com a calma de alguém que estudava cada detalhe antes de tomar uma decisão.

Quando a mulher virou a esquina e entrou em direção a um galpão abandonado, a rua ficou silenciosa.

Era o momento que ele esperava.

Sem fazer barulho, o Coelho se aproximou. Tocou de leve o ombro da mulher, quase como se quisesse tranquilizá-la. Quando ela se virou para gritar, ele já havia pressionado um pano com uma substância anestésica contra seu nariz e sua boca.

Ela perdeu as forças, mas ele a segurou antes que caísse. Em seguida, deitou-a cuidadosamente sobre o concreto frio.

Não havia pressa.

Ele acendeu uma pequena lanterna de cabeça com luz vermelha e se ajoelhou ao lado do corpo desacordado.

Retirou uma fita métrica flexível e mediu a distância entre os ossos dos tornozelos e a borda dos calcanhares. Anotou os números em um pequeno caderno de capa sintética.

A lâmina do bisturi refletiu a luz avermelhada.

O corte começou na pele e avançou ao redor da articulação, sem hesitação. Cada movimento era calculado. Ele limpava o sangue com gaze esterilizada, tomando cuidado para não sujar o local mais do que considerava necessário.

Não queria desordem. Não queria deixar nada ao acaso.

Queria que tudo saísse exatamente como havia planejado.

Para o Coelho, os pés não eram apenas carne e ossos. Eram símbolos de sorte, responsáveis por levar uma pessoa pelos caminhos da vida. Ele acreditava que, ao removê-los, poderia tomar para si a sorte que suas vítimas não sabiam valorizar.

Depois de terminar, envolveu cuidadosamente os pés em um tecido de linho branco, sem costuras.

Em seguida, ajeitou as mãos da mulher sobre o peito, alinhou seu corpo e usou o próprio lenço para afastar um fio de cabelo que havia caído sobre a testa dela.

— Agora a sorte tem um dono que sabe valorizá-la — sussurrou, com uma voz baixa e suave.

Ele se afastou, levando o embrulho consigo.

Naquela noite, a polícia encontrou apenas a cena de um crime sem sinais evidentes do responsável. Não havia digitais, fibras de tecido ou pegadas na lama.

O Coelho nunca deixava rastros.

Afinal, ele não precisava de pés para desaparecer na noite de Ravenhill.

Capítulo 2 – O Jogo do Espelho

O presídio de segurança máxima de Ravenhill parecia uma enorme estrutura de concreto presa ao pé da montanha. O ar lá dentro cheirava a metal enferrujado, desinfetante barato e mofo. As paredes pareciam nunca ter visto a luz do sol.

Caminhei pelo corredor do bloco de isolamento, ouvindo o som dos meus saltos ecoar entre as grades. Ao meu lado, Amélia mantinha a postura rígida, segurando a prancheta contra o peito como se aquilo pudesse protegê-la.

— Tem certeza disso, Laura? — sussurrou ela, pouco antes de o guarda destrancar a última porta de ferro. — O capitão Renard ficou furioso quando viu nosso pedido de escolta. A promotoria pode considerar isso uma grave violação dos procedimentos.

— O capitão Renard só se preocupa com números e política, Amélia — respondi, sem diminuir o passo. — Eu me preocupo com o corpo que encontramos no necrotério. Alguém cortou os pés daquela mulher com uma precisão impressionante. Se Jack foi o responsável pelos crimes de dois anos atrás, ele pode saber quem está fazendo isso agora. E, se for inocente, nós duas temos muito a reparar.

O guarda girou a chave, e a porta de aço se abriu com um rangido estridente.

Jack Merrin estava sentado no centro da cela, sob a luz fraca de uma lâmpada fluorescente que piscava de vez em quando. Vestia o uniforme laranja desbotado do presídio. Não estava algemado e segurava um livro de capa azul gasta sobre os joelhos.

Ele não parecia um homem derrotado pela prisão. Parecia alguém esperando por uma visita que já estava marcada.

Virou uma página devagar, sem levantar os olhos.

— "Comece pelo começo e siga até chegar ao fim. Então pare" — recitou, com uma voz tranquila e educada demais para aquele lugar. — Um trecho clássico, detetive Laura. Embora o Rei de Copas fosse um juiz péssimo... Bem parecido com os de Ravenhill.

Ele fechou o livro com um estalo suave e finalmente ergueu o rosto.

Os olhos de Jack eram cinza-azulados, frios e atentos. Não tinham a expressão cansada que eu costumava ver nos rostos dos presos. Um sorriso torto surgiu em seus lábios, revelando seu costumeiro ar provocador.

— Dois anos... — murmurou, examinando meu rosto. — Pensei que você já tivesse me esquecido. Ou que sua parceira, a jovem especialista em perícia, tivesse encontrado outro monstro para colocar no relatório do mês.

Seus olhos se voltaram para Amélia, que ficou um pouco mais pálida.

— Não vim aqui para ouvir suas provocações, Jack — respondi, dando dois passos à frente e apoiando as mãos na mesa. — Encontramos um novo corpo. Os cortes são parecidos com os do caso anterior. A vítima perdeu os pés, e os ferimentos mostram que quem fez isso tinha conhecimento de anatomia.

Jack não piscou. Pela primeira vez, notei um interesse verdadeiro em sua expressão.

— Ah... — murmurou, inclinando a cabeça. — O Coelho voltou a atacar nas ruas de Ravenhill. E vocês vieram pedir ajuda justamente ao homem que mantiveram preso nesta jaula por vinte e quatro meses.

— Viemos descobrir se você está por trás desses crimes e comanda alguém do lado de fora ou se estamos lidando com um imitador — respondeu Amélia, tentando manter a voz firme. O tremor em suas mãos, porém, mostrava o quanto estava abalada. — Os cortes são muito parecidos com os do caso de 2023.

Jack virou o rosto para ela. Seu sorriso perdeu o ar simpático e se tornou frio e provocador.

— Muito parecidos, perita? — perguntou, em tom de deboche. — Vocês olham para os cortes como se fossem marcas de um carimbo. Mas o Coelho não corta apenas carne. Ele acredita no que faz. Ele rouba a sorte das vítimas porque acha que o mundo pertence aos corajosos, não aos medrosos que assinam laudos apressados só para encerrar o trabalho antes do jantar.

— Chega! — ordenei, batendo a palma da mão na mesa.

O estalo fez o silêncio voltar à cela.

— Você vai analisar as provas do novo crime. Vai nos ajudar a entender o comportamento do assassino e apontar as diferenças entre os casos.

— E por que eu faria isso? — perguntou Jack, encostando-se na parede e cruzando os braços. — Para vocês receberem medalhas enquanto eu continuo apodrecendo nesta cela? Para tentar provar que sou inocente a um sistema que precisa desesperadamente me considerar culpado?

— Porque consegui autorização para sua transferência temporária para a custódia policial durante a investigação — respondi, observando cada mudança em seu rosto. — Você ficará sob minha supervisão direta, vinte e quatro horas por dia. Se tentar fugir ou fizer alguma coisa suspeita, voltará para esta cela de isolamento. E não terá outra oportunidade. Se nos ajudar a capturar o verdadeiro assassino, a promotoria poderá reexaminar seu caso.

Jack ficou imóvel.

Minha proposta pairou entre nós, como uma ameaça e uma promessa ao mesmo tempo.

Pela primeira vez, percebi que sua expressão debochada estava mudando. Seus dedos apertaram a capa do livro, e ele me encarou com uma intensidade que eu ainda não tinha visto.

Não havia apenas provocação naquele olhar. Havia também o desejo desesperado de um homem que sabia que poderia passar o resto da vida esquecido atrás das grades.

— Sob sua supervisão direta... — murmurou, como se estivesse avaliando cada palavra. — Você realmente acha que consegue me controlar, detetive? Acha que colocar uma coleira no meu pescoço vai impedir que a verdade acabe com você?

— Não quero controlar você, Jack — respondi, sustentando seu olhar. — Quero ver como vai agir diante de uma cena de crime. Quero saber se vai reconhecer alguma coisa que só o assassino saberia. Se estiver por trás desses crimes, vou descobrir. Se for uma vítima de um erro da polícia, você vai nos ajudar a encontrar o verdadeiro culpado.

Jack me encarou por alguns segundos.

A lâmpada fluorescente piscou duas vezes, projetando sombras sobre as marcas que ele tinha nos pulsos e nos tornozelos.

Por fim, abriu um sorriso lento, sombrio e quase triste.

— "Somos todos loucos aqui" — disse, levantando-se com uma calma inesperada. — A diferença é que vocês têm distintivos, e eu tenho tempo de sobra.

Ele caminhou até a porta e estendeu os pulsos para receber as algemas.

— Abra a jaula, detetive Laura. Vamos descobrir quem é o caçador e quem é a presa quando a névoa de Ravenhill cobrir nossos passos.

Amélia colocou as algemas em seus pulsos. O som do metal ecoou pelo corredor.

Jack não reclamou da pressão das algemas. Apenas olhou para ela por cima do ombro e falou em voz baixa:

— Cuidado ao fechar essas algemas, perita. Se aprendemos alguma coisa com o passado, é que os erros de ontem sempre voltam para cobrar seu preço.

Amélia ficou tensa, mas não respondeu.

Conduzimos Jack para fora do presídio. Do lado de fora, o céu estava escuro, carregado de nuvens que ameaçavam despejar mais chuva sobre Ravenhill.

O jogo do espelho estava apenas começando.

Capítulo 3 – Labirinto de Evidências

O zumbido da lâmpada fluorescente na sala de reuniões do departamento parecia perfurar o silêncio. Sobre a mesa central, dezenas de fotografias mostravam os detalhes dos crimes: de um lado, as imagens do caso de 2023; do outro, as fotos do novo corpo encontrado no terreno baldio.

Jack estava sentado à cabeceira da mesa, com a jaqueta preta de moletom cobrindo o uniforme do presídio. Seus pulsos estavam presos a uma haste metálica fixada à mesa, por ordem da chefia.

Ele não parecia incomodado. Com a ponta do indicador, percorria os detalhes dos ferimentos nas fotografias, como se estivesse analisando uma obra de arte.

— Observem a parte superior do corte — disse Jack, com a voz calma. — No caso de 2023, o corte foi feito em um único movimento, sem interrupções. O responsável teve paciência. Esperou que os espasmos musculares após a morte parassem para evitar irregularidades na região do corte.

Ele bateu com o dedo na fotografia do novo homicídio.

— Aqui é diferente. Há uma pequena hesitação perto do tendão de Aquiles. A lâmina escorregou dois milímetros para a esquerda, e o agressor precisou corrigir o movimento. Ele usou força demais para compensar a falta de precisão.

— Ah, agora o assassino em série virou especialista em técnicas criminais? — perguntou o detetive Moreira, com a voz grave, enquanto abria a porta com violência.

Moreira, um veterano com vinte anos de carreira e uma expressão sempre fechada, entrou acompanhado por dois agentes armados. Olhou para Jack com desprezo e jogou uma pasta pesada sobre a mesa.

— Laura, isso é um absurdo — rosnou Moreira, ignorando a presença de Jack. — O capitão Renard perdeu o juízo ao autorizar essa loucura. Trazer o psicopata que aterrorizou Ravenhill para dentro do nosso centro de operações? A equipe inteira está prestes a entrar em greve!

— Jack está aqui sob minha responsabilidade, Moreira — respondi, mantendo a calma e a postura diante do veterano. — E as observações dele estão de acordo com os primeiros laudos da perícia. O corte do novo corpo apresenta irregularidades.

— E daí?! — gritou Moreira, inclinando-se sobre a mesa para ficar a poucos centímetros do rosto de Jack. — Isso só significa que esse doente passou dois anos enferrujando na cela ou que encontrou um fã psicopata para continuar com essa palhaçada enquanto tenta conseguir liberdade condicional! Você não engana ninguém, Merrin. Para mim, continua sendo o mesmo monstro que cortava os pés de mulheres indefesas em 2023.

Jack ergueu os olhos devagar. Não piscou. Um sorriso discreto surgiu nos cantos de sua boca.

— É reconfortante ver como funciona a mente de um burocrata, detetive — respondeu Jack, com uma calma quase assustadora. — É muito mais fácil colocar tudo em categorias e acreditar que o mundo funciona assim, não é? Dá menos trabalho do que pensar. Mas, enquanto o senhor perde tempo gritando com um homem acorrentado à mesa, o verdadeiro assassino está lá fora... rindo da sua incompetência.

Moreira deu um passo à frente e levou a mão instintivamente ao coldre da arma. Amélia, porém, entrou rapidamente no meio dos dois.

— Chega, Moreira! — interveio ela, com firmeza, embora seu rosto pálido mostrasse o quanto aquela situação a desgastava. — Estamos seguindo um procedimento oficial. Se você tem alguma objeção, faça uma reclamação à corregedoria. Agora, deixe-nos trabalhar.

Moreira olhou para Amélia com desprezo.

— Cuidado, perita. Sua assinatura está no laudo que ajudou a condená-lo há dois anos. Se esse sujeito for inocente, sua carreira vai para o lixo junto com a reputação deste departamento.

As palavras atingiram Amélia em cheio. Vi seus ombros ficarem tensos, mas ela manteve a cabeça erguida até Moreira e os dois agentes saírem, batendo a porta com força.

Antes que pudéssemos retomar a análise, o rádio preso ao meu cinto estalou. Uma voz transmitiu o alerta de emergência:

— Unidade 12, atenção. Homicídio na antiga estação ferroviária abandonada, setor leste. O agressor deixou uma mensagem no local. Padrão de mutilação confirmado. Repito: padrão de mutilação confirmado.

Olhei para Jack. O cinismo em seus olhos deu lugar a uma expressão séria e concentrada.

— O imitador não quer apenas copiar — murmurou ele, erguendo os pulsos acorrentados. — Está com pressa. Quer gritar mais alto do que o mestre.

A antiga estação ferroviária de Ravenhill parecia um esqueleto de ferro e tijolos envolto pela neblina noturna. O cheiro de fuligem antiga, ferrugem e chuva se misturava ao odor forte de sangue fresco, tornando o ar quase insuportável.

Dessa vez, o Imitador não tentou esconder sua obra na escuridão de um terreno baldio.

O corpo de um homem estava suspenso por cordas de náilon presas às vigas do teto. Um holofote de obra, alimentado por um gerador portátil que funcionava ao lado, iluminava a cena. Tudo havia sido preparado para causar o maior impacto possível.

Os pés da vítima não tinham sido apenas removidos. Haviam sido amputados com violência, deixando bordas irregulares e cortes profundos que indicavam o uso de uma lâmina cega ou de um serrote sem fio.

A grande quantidade de sangue espalhado pelas paredes e pelo chão indicava que a vítima ainda estava consciente durante o processo e havia sofrido muito.

No chão de concreto, exatamente abaixo do corpo, os dois pés decepados tinham sido colocados em forma de cruz. Ao lado deles, uma frase escrita com tinta spray vermelha se destacava na parede:

"O COELHO ERA APENAS O COMEÇO."

Amélia levou a mão à boca e deu dois passos para trás, enquanto a equipe de isolamento tentava controlar a situação.

— Meu Deus... — murmurou ela, com os olhos arregalados de horror. — Isso é pura barbárie. Não existe ritual aqui... só sadismo.

Ajoelhei-me perto da frase pintada, peguei a lanterna e direcionei a luz para a parede.

— Ele queria causar dor — analisei, observando as marcas deixadas pelas amarras nos pulsos da vítima. — O Coelho, em 2023, anestesiava as vítimas. Ele queria preservar os corpos. Esse novo agressor quer provocar pânico. Quer chamar a atenção da imprensa e espalhar o terror pela cidade.

Jack caminhou até o limite da área isolada, mantendo as mãos nos bolsos do casaco preto. Encarou o corpo suspenso e a frase na parede. Sua expressão não demonstrava ironia nem deboche. Pelo contrário, ele parecia sentir uma repulsa profunda diante daquela cena.

— Um bárbaro usando a aparência de um santo — sussurrou Jack, com uma seriedade que eu nunca tinha ouvido em sua voz. — Ele acredita que mutilar alguém é uma forma de arte. Acha que derramar sangue faz dele um caçador.

Jack se virou para mim. Seus olhos cinzentos pareciam brilhar sob a luz do holofote.

— Detetive Laura... esse homem não é um discípulo. É alguém que profana aquilo que diz admirar. E, se vocês não o impedirem logo, ele vai transformar esta cidade em um matadouro só para provar que é maior do que a lenda que vocês criaram.

Senti um arrepio percorrer minha espinha. A linha que separava a lenda da realidade acabara de se romper, e Ravenhill estava prestes a mergulhar em um pesadelo ainda pior.