DIÁRIO DE UM VIAJANTE - REGISTRO 02

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[ Registro 02 ]

[ A Velha dos Gatos ]

Existem coisas que a gente aprende a esquecer.

Não porque quer.

Mas porque lembrar… muda tudo.

A primeira vez que eu entendi isso, eu ainda era criança.

Depois da morte do meu pai me mudei com minha mãe para um lugar pequeno, daqueles onde todo mundo se conhece pelo nome e pelas histórias que contam uns dos outros. Não havia muito o que fazer, então a gente inventava medo pra ocupar o tempo.

E nenhuma história era maior do que a da velha dos gatos.

Diziam que ela morava depois da floresta, numa casa torta, quase caindo, escondida perto de um trecho de terra onde ninguém gostava de passar. As crianças evitavam aquele lado da vila, não por coragem ou falta dela… mas porque os próprios pais faziam questão de alimentar aquilo.

— Se você andar por lá, a velha te pega.

— Ela come criança.

— Leva pra dentro da casa e ninguém nunca mais vê.

Era sempre assim.

Histórias criadas pra manter a gente longe da floresta.

Funcionava.

Até certo ponto.

Eu tinha um gato branco.

Ele apareceu em casa sem ninguém saber de onde tinha vindo… e ficou. Dormia no pé da minha cama, me seguia pela casa inteira, como se sempre tivesse sido meu.

Eu nunca dei um nome pra ele.

Talvez porque, no fundo… eu sentisse que ele não era exatamente meu.

E então, um dia, ele sumiu.

Procurei em todo canto. Chamei, andei pela vila, perguntei pra todo mundo.

Nada.

Foi o Caio que sugeriu.

— Ele pode ter ido pra lá.

Eu sabia exatamente o que ele queria dizer.

— Nem pensar.

respondi na hora.

— Minha mãe me mata se eu chegar perto daquela ponte.

E não era exagero.

A tal ponte era improvisada, velha, feita de madeira irregular que rangia só de olhar. Ficava no caminho da casa da velha, atravessando um trecho mais fundo do terreno. Minha mãe já tinha deixado claro mais de uma vez que eu não devia nem pensar em ir até lá.

Caio, como sempre, não parecia preocupado.

— A gente só vai olhar.

ele disse, com aquela calma que me irritava.

— Se ele não estiver lá, a gente volta.

— E se estiver?

Ele deu de ombros.

— A gente pega.

Era simples pra ele.

Sempre foi.

Não demorou muito até eu ceder.

Eu sempre cedia.

Fomos no fim da tarde, quando o céu começava a perder cor e a vila ficava mais silenciosa. A floresta parecia diferente daquele lado mais fechado, mais abafada, como se o ar ali fosse mais pesado.

Como se não circulasse direito.

A ponte fez exatamente o que eu temia.

Rangeu.

Cada passo parecia alto demais. Errado demais.

Por um instante, tive a sensação de que aquilo não era só madeira velha… era um aviso.

— Anda logo!

Caio disse, já do outro lado, sem nem olhar para trás.

Respirei fundo e atravessei.

A casa da velha não era exatamente como eu imaginava quando ouvia as histórias.

Era pior.

Porque era… normal demais.

Velha, sim. Desgastada. Com a madeira escurecida pelo tempo e janelas que pareciam não abrir há anos.

Mas não tinha nada de sobrenatural à primeira vista.

O que tinha… era ausência.

Não havia vento tocando as folhas.

Não havia insetos.

Não havia som de nada vivendo ali.

E então, som.

Uma voz.

Paramos na mesma hora.

A velha estava falando.

Mas não com alguém.

Com os gatos.

Dava pra ouvir claramente, mesmo do lado de fora. Uma voz suave, quase carinhosa… como quem conversa com filhos.

— Venha cá… você não pode sair assim…

— Não, não… fica aqui comigo…

Senti um arrepio subir pelas costas.

Olhei pro Caio.

Ele não parecia assustado.

Parecia… atento.

Como se estivesse ouvindo mais do que a voz.

— Vamos dar a volta.

ele sussurrou.

Antes que eu pudesse discordar, ele já estava andando.

Fomos pelos fundos da casa, tentando não fazer barulho. O chão de terra ajudava, mas qualquer galho seco parecia alto demais naquele silêncio estranho.

E foi então que vimos.

A porta dos fundos.

Aberta.

Não parecia arrombada.

Nem esquecida.

Só… aberta.

Como se estivesse esperando.

Aquilo não ajudou em nada.

— Eu vou entrar.

Caio disse, quase como se estivesse decidindo sozinho.

Segurei o braço dele.

— Não. Vamos embora.

— É rápido.

ele respondeu.

— Você fica aqui. Se acontecer alguma coisa, a gente corre.

Eu não queria.

Sabia que não devia.

Mas soltei.

Ele entrou.

E o mundo… cedeu.

O silêncio que veio depois não era normal.

Não era ausência de som.

Era como se tudo tivesse sido puxado pra fora.

Nem vento.

Nem insetos.

Nem o som da própria floresta.

Nada.

Fiquei esperando.

Um minuto.

Dois.

Talvez mais.

Ou menos.

O tempo ali… não passava do jeito certo.

— Caio…

Chamei baixo.

Nenhuma resposta.

Meu coração começou a bater mais forte.

Pensei em ir embora.

Pensei em entrar.

Pensei em gritar.

Mas meu corpo não se mexia.

Era como se qualquer escolha fosse errada.

E então ele apareceu.

Na porta.

Parado.

Pálido.

Os olhos… diferentes.

Não assustados.

Mas… deslocados.

Como se ainda não tivessem voltado completamente.

Segurando meu gato nos braços.

— Vamos embora.

ele disse.

Sem emoção.

Sem explicação.

— Agora!

Alguma coisa na voz dele me fez obedecer sem questionar.

Virei na mesma hora.

Comecei a correr.

E então a voz veio.

De dentro da casa.

Alta.

Desesperada.

Quebrada.

— Onde está o meu menino branco?!

Um segundo de silêncio.

E de novo.

Mais alto.

Mais urgente.

— Onde está o meu menino branco?!

Senti meu sangue gelar.

Não olhei pra trás.

Não tive coragem.

Caio segurou meu braço com força, me puxando mais rápido.

A mão dele…

Estava gelada.

Fria demais.

Como se tivesse ficado tempo demais em um lugar onde não devia.

Corremos pela trilha, atravessamos a ponte quase tropeçando, sem parar em nenhum momento. Só diminuímos quando as primeiras casas da vila começaram a aparecer.

Foi então que Caio soltou meu braço.

E caiu no chão.

Sentado.

Respirando pesado.

E começou a chorar.

Eu nunca tinha visto aquilo.

Nunca.

Caio caía de árvore, se machucava, se metia em coisa pior… e nunca chorava.

Nunca.

Me aproximei devagar.

— Caio… você tá bem?

Ele não respondeu de imediato.

Só ficou ali, tentando recuperar o fôlego, os olhos ainda presos em algum lugar que não estava mais ali.

Quando finalmente falou… a voz saiu baixa.

Quebrada.

— A velha…

Ele parou.

Engoliu seco.

— A velha… estava morta, Felipe.

Senti um frio subir pelo corpo.

— O quê?

Ele me olhou.

E eu nunca esqueci aquele olhar.

— Os gatos…

Ele começou, a voz falhando

— eles estavam…

Silêncio.

Curto.

Pesado.

— …comendo o rosto dela.

O mundo ficou em silêncio.

Mas não era o mesmo silêncio de antes.

Era pior.

Porque, dessa vez…

Eu entendi.

Algumas histórias não são inventadas.

Elas só esperam… alguém chegar perto o suficiente.