A Dama do Vaticano

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Capítulo 1

Era uma vez uma vila pacata, habitada por pessoas igualmente pacatas, cuja fé enfraquecera a ponto de acreditarem que Deus as havia abandonado.

Você talvez imagine que esta seja uma história repleta de heróis e vilões. Mas não. Não é bem assim.

Esta história é sobre uma freira.

Mais especificamente, sobre a Madre Eleanor.

Ela era bela, admirável e profundamente devota a Deus. Não ao meu Deus, nem ao seu. Era devota ao Deus dela mesma. Afinal, a Madre Eleanor, que chegara como uma simples noviça, era ninguém menos que o próprio Satanás usando a pele de uma bela dama enviada pelo Vaticano.

Chocado?

Não?

Ou ao menos surpreso por eu revelar esse detalhe tão cedo?

Bem... isso não importa muito.

Esta não é uma historinha de fantasia em que, em algum momento, um cavaleiro sagrado descobre a verdade e derrota o maligno. Não.

A verdade é que isto é apenas um diário.

O meu diário.

E quem sou eu?

Digamos que apenas um narrador.

Mas narradores também mentem.

Essa é a parte curiosa das histórias. Vocês sempre acreditam em quem as conta, como se palavras escritas fossem incapazes de carregar pecado.

Pobres leitores.

Tão fáceis de conduzir quanto ovelhas caminhando para o abate.

Conheci a Madre Eleanor quando ainda era jovem. Jovem demais para compreender por que o frio aumentava sempre que ela passava pelos corredores do convento ou por que as velas pareciam se apagar sozinhas durante suas orações noturnas.

Os moradores a chamavam de santa.

As crianças, de anjo.

E eu...

Eu fui o único que a chamou pelo verdadeiro nome.

Lembro-me perfeitamente da primeira vez em que seus olhos pousaram sobre mim. Não havia ódio neles, nem maldade. Isso teria sido muito mais fácil de aceitar.

O que existia ali era algo pior.

Compreensão.

Como se ela já soubesse cada pecado que eu cometeria antes mesmo de eu cometê-los.

Naquela noite, os sinos da igreja tocaram às três da manhã.

Não havia vento.

Não havia ninguém acordado.

Ainda assim, eles continuaram ecoando pela vila como um anúncio funerário.

Na manhã seguinte, encontramos o velho padre Augusto morto diante do altar.

Suas mãos permaneciam unidas em oração.

E em seu rosto...

Havia um sorriso.

Mas esse não é exatamente o começo da história.

Vou contar desde o princípio.

Madre Eleanor chegou à nossa pequena, pacata e triste vila como uma noviça transferida da igreja central do Vaticano. Sua missão era auxiliar o padre e as demais freiras a devolver a fé em Deus às pessoas daquele lugar.

O problema era que acreditar em milagres se tornava difícil quando tudo o que existia era desgraça.

Nossa vila, conhecida antigamente como La Muerte, jamais conhecera um único dia de verdadeira prosperidade. As colheitas morriam antes da estação da ceifa, o poço permanecia contaminado e os recém-nascidos raramente sobreviviam por muito tempo.

Até a chegada dela.

Foi como se o próprio céu finalmente tivesse voltado seus olhos para nós.

Em menos de um mês, a água do poço tornou-se cristalina. As plantações cresceram verdes e vigorosas como jamais haviam crescido. Pela primeira vez em décadas, ouviu-se o choro saudável de um bebê ecoando pelas casas de madeira da vila.

As pessoas choravam de alegria.

Rezavam.

Sorriam.

E, pela primeira vez em muitos anos, deixavam as portas destrancadas durante a noite.

Madre Eleanor caminhava entre nós sempre vestida de branco, com aquele olhar sereno e as mãos frias como mármore. Nunca levantava a voz, nunca parecia cansada e jamais era vista dormindo.

Ainda assim, ninguém desconfiava dela.

Afinal, por que desconfiariam?

Depois de tantos anos de sofrimento, a esperança parecia mais importante do que a verdade.

Mas havia pequenos detalhes que começaram a me incomodar.

Os cães latiam desesperadamente sempre que ela passava.

As crianças paravam de chorar ao vê-la, como se estivessem hipnotizadas.

E, toda vez que Madre Eleanor entrava na igreja, as velas ao redor do altar se apagavam por alguns segundos antes de voltarem a acender sozinhas.

No início, achei que tudo fosse fruto da minha imaginação infantil.

Até a noite em que a vi no cemitério.

Foi ali que conheci sua verdadeira face.

E, se existe alguma forma de descrever o que vi naquela noite, é dizendo que o deus que havia abençoado nossa vila... não era exatamente um deus.

A chuva caía fraca sobre o cemitério enquanto a névoa rastejava entre as lápides antigas como dedos procurando algo enterrado.

Eu deveria estar dormindo.

Mas a curiosidade sempre foi um pecado mais forte que o medo.

Vi Madre Eleanor ajoelhada diante de uma sepultura aberta.

Não havia padre.

Não havia oração.

Não havia cruz.

Apenas ela.

E dezenas de velas negras espalhadas ao redor da terra molhada.

Sua voz ecoava em uma língua que eu jamais ouvira. Não parecia latim.

Parecia algo muito mais antigo.

Algo errado.

Então ela levantou a cabeça.

E eu vi.

Seu rosto continuava belo, quase angelical.

Mas o lado esquerdo, sempre escondido sob o véu, agora estava completamente exposto.

Assim que compreendi o motivo, desejei nunca ter olhado.

Metade de seu rosto era apenas osso, como se a pele tivesse apodrecido muitos anos antes. A carne restante era escura, retraída e agarrava-se ao crânio como tecido morto.

Dentro da cavidade onde deveria existir seu olho...

Havia larvas.

Centenas delas.

Movendo-se lentamente umas sobre as outras, alimentando-se daquele vazio pútrido como se algo ali ainda estivesse vivo.

Meu corpo inteiro congelou.

Mas o pior não era sua aparência.

Era o fato de que Madre Eleanor continuava sorrindo.

Um sorriso calmo.

Maternal.

Quase acolhedor.

Como se aquela monstruosidade não fosse uma maldição, mas sua verdadeira forma.

Então sua voz ecoou diretamente para mim.

— Não deveria estar aqui, criança.

Eu quis correr.

Deus sabe o quanto eu quis.

Mas minhas pernas não obedeciam. Era como se o próprio chão do cemitério me prendesse ali, obrigando-me a encarar a criatura que nossa vila chamava de santa.

Naquele instante, compreendi.

Os milagres.

As colheitas.

Os bebês sobrevivendo.

A água limpa.

Nada vinha de graça.

Nunca veio.

E eu tinha absoluta certeza de uma única coisa.

Nós, moradores de La Muerte, jamais havíamos sido salvos.

Nós havíamos sido escolhidos.

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Capítulo 2

Depois daquilo, você provavelmente imaginou que eu, de repente, encontraria coragem. Que começaria a elaborar algum plano mirabolante para fazer todos na vila enxergarem quem Madre Eleanor realmente era.

Bem...

É claro que não.

Existe uma coisa que vocês precisam entender sobre mim: eu fui — e continuo sendo — um completo covarde.

Além disso, o que exatamente uma criança de onze anos poderia fazer contra um ser maligno envolto por uma aura divina? Eu não era um daqueles protagonistas de histórias de fantasia que despertam poderes milagrosos no momento mais conveniente.

Eu apenas senti medo.

Um medo tão profundo que, durante dias, mal consegui olhar para o rosto dela sem sentir o estômago embrulhar.

Então fiz o que qualquer covarde faria.

Fingi que não tinha visto nada.

Continuei frequentando a igreja. Continuei abaixando a cabeça durante as orações. Continuei aceitando o pão que Madre Eleanor distribuía aos moradores depois das missas de domingo.

E talvez essa tenha sido a pior decisão da minha vida.

Porque, enquanto eu fingia que tudo era normal...

Ela também fingia.

Sempre que nossos olhares se encontravam, Eleanor sorria daquele jeito calmo e maternal, como se dividíssemos um segredo.

Como se soubesse que eu jamais abriria a boca.

E ela estava certa.

Naquela época, La Muerte finalmente começava a conhecer a felicidade. Ninguém abriria mão dos milagres por causa das palavras assustadas de uma criança.

Ainda assim...

Coisas estranhas continuavam acontecendo.

Coisas que apenas eu parecia notar.

Madre Eleanor seguia uma rotina quase sagrada.

Sem exceção, toda sexta-feira treze ela caminhava até o cemitério pouco antes da meia-noite. Entrava sozinha pelos portões enferrujados e só voltava quando o sino da igreja marcava três horas da manhã.

Ninguém além de mim parecia perceber.

Ou talvez percebessem...

E simplesmente não se importassem.

Havia também suas orações.

Em algumas missas, o "Pai-Nosso" que ela recitava não era o tradicional. Também não parecia latim — pelo menos não um que eu conhecesse.

As palavras saíam lentamente de seus lábios, quase como um sussurro.

Não eram feitas para serem entendidas.

Eram feitas para serem sentidas.

Sempre que aquela oração começava, os moradores entravam em um estado estranho.

Os olhos perdiam o brilho.

Os corpos permaneciam imóveis.

E todos repetiam aquelas palavras desconhecidas como devotos hipnotizados.

Acho que, por algum motivo, eu era o único imune àquilo.

Talvez porque tivesse visto sua verdadeira face.

Ou talvez...

Porque ela quisesse que eu enxergasse.

Durante alguns cultos, Madre Eleanor dizia que todos nós havíamos sido escolhidos para um bem maior.

Na época, aquilo soava reconfortante.

Depois de tantos anos de miséria, qualquer promessa de propósito era suficiente para devolver esperança aos moradores.

Mas uma pergunta nunca saía da minha cabeça.

Que bem maior era esse?

A resposta demoraria anos para chegar.

E, quando finalmente chegou...

Desejei nunca tê-la descoberto.

Cinco anos se passaram.

Meu eu mais jovem agora tinha dezesseis anos e vivia como o único homem lúcido em Dav-Lós.

Antes que pergunte: sim, esse era o novo nome da vila.

O motivo?

Bem...

Esse é um detalhe que ficará para outra hora.

Naquele dia, o céu estava limpo e ensolarado. Um cenário raro anos atrás, mas que havia se tornado comum desde a chegada de Madre Eleanor.

Eu descansava sobre uma pequena colina do lado de fora da vila, observando o movimento das plantações ao longe, quando notei alguém caminhando pela estrada de terra.

Um cavaleiro.

Sua armadura refletia a luz do sol, e no peito do manto estava bordado o brasão da Igreja.

Meu coração disparou.

"Agora estamos salvos."

Foi exatamente isso que pensei.

Depois de tantos anos carregando aquele segredo sozinho, finalmente alguém de fora havia chegado.

Alguém treinado.

Alguém enviado pela própria Igreja.

Mas, como quase tudo na minha vida...

Eu estava errado.

O cavaleiro não veio para enfrentar Madre Eleanor.

Veio para saudá-la.

Jamais esquecerei a sensação que tomou conta do meu estômago ao vê-lo ajoelhar-se diante dela, bem no centro da praça, curvando a cabeça como um fiel diante de uma santa.

Ao redor, os moradores comemoravam.

Sorriam.

Rezavam.

Enquanto eu apenas observava em silêncio.

Segundo o próprio cavaleiro, o Vaticano havia tomado conhecimento dos milagres de Dav-Lós. A antiga vila amaldiçoada havia se tornado um símbolo de esperança graças ao trabalho de Madre Eleanor.

Por isso...

Desejavam seu retorno.

Queriam levá-la de volta ao Vaticano.

Pela primeira vez em muitos anos, senti uma esperança verdadeira.

Talvez...

Talvez, se ela fosse embora, tudo acabasse.

Mas Madre Eleanor apenas sorriu.

E aquele sorriso me assustou mais do que qualquer monstruosidade que eu já havia visto.

Ela não pretendia partir.

Não agora.

Nem tão cedo.

O vento balançou suavemente seu véu branco enquanto ela olhava para o cavaleiro e dizia com a mesma serenidade de sempre:

— Agradeça ao Santo Padre por mim, meu nobre cavaleiro. Porém, em nome de Deus e por vontade divina, permanecerei aqui. Ainda há uma grande profecia a ser cumprida. Quando ela chegar ao fim, retornarei ao Vaticano trazendo um presente divino.

Assim que terminou de falar, todos os moradores se ajoelharam.

Alguns choravam.

Outros rezavam.

E o cavaleiro...

O cavaleiro apenas abaixou a cabeça em sinal de respeito.

Como se estivesse diante de uma verdadeira santa.

Foi então que ela voltou os olhos para mim.

Apenas por um instante.

O sorriso permanecia em seus lábios.

Mas não era mais acolhedor.

Era um sorriso faminto.

Naquele momento compreendi algo que jamais havia considerado.

Madre Eleanor não estava presa em Dav-Lós.

Ela queria permanecer ali.

E, pela primeira vez em anos, comecei a acreditar que os milagres nunca haviam sido seu verdadeiro objetivo.

Talvez fossem apenas o primeiro passo de algo muito maior.

E muito pior.

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Capítulo 3

Sabe, imagino que vocês estejam pensando que passei todos esses anos apenas observando Madre Eleanor de longe, tentando adivinhar quais seriam seus próximos passos.

Deus sabe — ou qualquer outra entidade que esteja ouvindo este relato — o quanto eu gostaria que tivesse sido apenas isso.

Eu não me importaria de passar o resto da vida limitado a trocas de olhares e silêncios desconfortáveis. Afinal, qualquer distância daquela criatura era uma bênção.

Mas, para o meu azar...

Ela queria o oposto.

Numa noite qualquer dos meus dezesseis anos, Madre Eleanor decidiu que estava na hora de termos nossa primeira conversa.

Naquele dia, o trabalho na lavoura se estendeu mais do que o normal. Quando finalmente deixei os campos, o sol já havia desaparecido atrás das montanhas, e o céu assumia os tons escuros do entardecer.

Como sempre, precisei passar em frente à igreja.

Ela havia transformado aquele lugar no verdadeiro coração de Dav-Lós.

A construção era magnífica.

Branca como mármore recém-polido, adornada por esculturas delicadas e enormes vitrais coloridos que refletiam os últimos raios de sol.

Mas havia um detalhe que sempre me causava desconforto.

No centro da fachada existia um vitral gigantesco.

Ele não retratava um santo.

Não representava um anjo.

Nem qualquer passagem das Escrituras.

Representava ela.

Madre Eleanor.

Seu rosto ocupava quase toda a janela de vidro, cercado por raios dourados, enquanto observava a vila com a serenidade de uma guardiã celestial.

Era bonito.

Bonito demais.

Bonito a ponto de parecer errado.

Uma obra daquela deveria existir em uma grande catedral, não no meio de uma vila esquecida pelo mundo.

Era como um erro na própria realidade.

E, por mais absurdo que pareça, aquele vitral sempre me provocava arrepios.

Talvez fosse o sorriso.

Talvez fossem os olhos.

Ou talvez eu simplesmente soubesse quem realmente estava sendo venerada ali.

Parei por alguns instantes para observá-lo.

Os segundos viraram minutos.

Então senti.

Aquela sensação horrível de estar sendo observado.

Como se alguém estivesse do outro lado do vidro.

Como se aqueles olhos coloridos estivessem vivos.

Meu coração acelerou.

Quando finalmente desviei o olhar e encarei os portões da igreja...

Ela estava lá.

Parada.

Imóvel.

Vestindo sua habitual batina branca.

Madre Eleanor me observava em silêncio, carregando o mesmo sorriso sereno que tranquilizava os moradores.

O mesmo sorriso estampado no vitral.

O mesmo sorriso que eu havia visto acima de uma sepultura aberta cinco anos antes.

Por algum motivo, aquilo me assustava ainda mais do que sua verdadeira aparência.

Monstros costumam esconder os dentes.

Ela não.

Ela apenas sorria.

Antes que eu pudesse fingir que não a havia visto e seguir meu caminho, ela ergueu uma das mãos.

Com um simples gesto...

Convidou-me para entrar.

Naquele instante, tudo dentro de mim gritava para fugir.

Virar as costas.

Correr para casa.

Me esconder debaixo das cobertas e fingir que nada daquilo estava acontecendo.

Mas existe um medo maior do que enfrentar um monstro.

O medo de descobrir o que acontece quando você o desagrada.

Por isso aceitei.

Não por coragem.

Mas porque tinha medo das consequências de dizer não.

Cada passo em direção à igreja parecia mais pesado que o anterior.

E, quanto mais eu me aproximava, mais satisfeito parecia o sorriso de Madre Eleanor.

Como se ela esperasse por aquele momento havia anos.

Talvez realmente esperasse.

Quando finalmente alcancei os portões, ela os abriu antes mesmo que eu pudesse tocá-los.

— Boa noite, meu filho.

Sua voz era suave.

Gentil.

Exatamente como a voz de uma santa deveria ser.

— B-boa noite, Madre.

Até hoje sinto vergonha daquela resposta.

Minha voz falhou como a de uma criança assustada.

O que, para ser sincero, era exatamente o que eu era naquele momento.

Ela sustentou meu olhar por alguns segundos.

Então soltou uma risada baixa.

Não era cruel.

Não era debochada.

Era muito pior.

Era a risada de alguém que já conhecia todos os meus pensamentos.

— Faz cinco anos que você me observa de longe — disse calmamente. — Achei que já estava na hora de conversarmos.

Meu sangue gelou.

Aquelas palavras confirmavam o que eu sempre suspeitara.

Ela sabia.

Desde aquela noite no cemitério.

Durante cinco anos, simplesmente permitiu que eu continuasse vivendo com esse segredo.

Como um gato que brinca com um rato antes de devorá-lo.

Ela se afastou da entrada e apontou para o interior da igreja.

— Entre.

Respirei fundo.

— Obrigado... mas prefiro ficar aqui fora.

Por alguns segundos, Madre Eleanor apenas me encarou.

Depois sorriu novamente.

O mesmo sorriso paciente.

Quase maternal.

Então senti sua mão pousar sobre meu ombro.

Naquele instante descobri algo aterrador.

Ela era forte.

Muito forte.

Forte de um jeito impossível para alguém com aparência tão delicada.

Com um único movimento, lançou-me para dentro da igreja.

Meu corpo atravessou a entrada antes que eu pudesse reagir, e caí de rosto sobre o frio piso de mármore.

A dor explodiu em meu nariz e percorreu minhas mãos.

Atrás de mim, ouvi os grandes portões se fecharem lentamente.

— Não era uma escolha, querido.

Sua voz ecoou pela igreja vazia como uma oração distorcida.

Levantei a cabeça ainda atordoado.

O interior era ainda mais impressionante do que o exterior.

Velas brancas iluminavam corredores intermináveis.

O cheiro de incenso era tão intenso que quase sufocava.

Esculturas de anjos adornavam as paredes, mas havia algo profundamente errado nelas.

Todos choravam.

Não lágrimas.

Uma substância negra escorria lentamente por seus rostos de mármore.

— Sabe... — começou Madre Eleanor, caminhando sem qualquer pressa pelo salão — sempre achei fascinante a forma como os humanos acreditam enxergar mais do que realmente enxergam.

O som de seus passos ecoava calmamente atrás de mim.

Controlado.

Paciente.

Como se ela tivesse todo o tempo do mundo.

— Cinco anos me observando... cinco anos fingindo coragem... e, mesmo assim, você nunca contou a ninguém o que viu naquela noite.

Engoli em seco.

Ela parou atrás de mim.

Perto demais.

Então senti seus dedos erguerem meu rosto pelo queixo, obrigando-me a encará-la.

Seu sorriso permanecia o mesmo.

Mas seus olhos...

Seus olhos pareciam completamente vazios.

— Então me diga... — sussurrou. — Isso faz de você uma vítima...

...ou alguém igual a mim?

— N-não! Eu não sou igual a você!

Minha resposta saiu rápida demais.

Desesperada demais.

Tentei me afastar, mas seus dedos continuavam firmes em meu queixo.

Ela inclinou levemente a cabeça, analisando meu rosto como quem observa uma curiosa obra de arte.

Então riu novamente.

Baixo.

Suave.

E aquele som me assustou mais do que qualquer grito.

— Tem certeza?

Ela soltou meu rosto e começou a caminhar lentamente ao redor de mim.

Sua batina branca deslizava pelo piso de mármore como se nem sequer tocasse o chão.

— Você viu quem eu realmente sou quando tinha onze anos... e permaneceu calado durante cinco longos anos.

Cada palavra parecia cuidadosamente escolhida para atingir exatamente onde mais doía.

— Não tentou fugir.

— Não tentou alertar ninguém.

— Não tentou impedir meus cultos.

Ela parou diante do altar.

As velas tremularam ao mesmo tempo.

Como se respondessem à sua presença.

Então voltou a sorrir.

— E sabe qual é a parte mais interessante?

O silêncio que se seguiu pareceu durar uma eternidade.

— Você continuou aproveitando os milagres da mesma forma que todos os outros.

Naquele instante...

Percebi que ela não estava tentando me convencer de nada.

Ela estava tentando me fazer duvidar de mim mesmo.

E, pela primeira vez desde a noite no cemitério...

Funcionou.