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Na maioria dos casos de Stalker,é um homem obsessivo que persegue incessantemente uma mulher. Mas no meu caso, foi uma mulher que me perseguiu. E continua perseguindo, mesmo depois de morta!
Eu conheci a Lydia no Tinder. Sempre fui um cara muito tímido e retraído, nunca tive coragem de chegar em ninguém ao vivo, sabe? Então eu baixei o Tinder e acabei dando match com ela. Ela era bonita, tinha feições simples, olhos grandes,cabelos curtos e um sorriso encantador. Nós marcamos o primeiro encontro num café que ficava perto da minha casa. A primeira coisa que eu reparei sobre ela é que ela falava muito. Muito mesmo! ficou meia hora tagarelando sobre o trabalho dela, acho que ela tinha uma floricultura ou algo assim e ficou lá falando, falando,até fazer a derradeira pergunta: " E você lindo, O que faz da vida?" Eu… eu sou fotógrafo , trabalho freelance, sabe? Nada que pague muito bem mas, dá pra viver! - eu disse dando uma risada baixa e forçada. “ Ai que tudo! Fotografia é super legal! Eu tava precisando mesmo de tirar umas fotos pra loja e…” depois disso, cada palavra que saiu da boca dela virou estática. Eu não ouvia mais nada. No balcão da cafeteria eu vi o atendente. Ele era…lindo? Eu não sabia explicar o que eu tava sentindo, mas, eu tava totalmente apaixonado por aquele cara! “ Não , não, isso não tá certo… eu to literalmente num date com uma mulher e pensando num cara? Eu tenho que sair daqui!”
Olha , Lydia, esse nosso encontro foi muito legal e tal, mas eu tenho que ir pra casa! Acabei de lembrar que eu tenho um trabalho e … “ Mas já? Eu tava no meio da história do meu cachorro! Então, ele pegou a bolinha e engoliu né? Daí…”
Lydia, me desculpa mesmo! Mas eu tenho que ir! Tenho um compromisso urgente e …
“ ah , ta bom! Mas eu vou te ver de novo né gato?” Claro,claro…eu moro aqui do lado,naquele prédio marrom. A gente se vê. Aquelas palavras escaparam da minha boca como se fossem migalhas do bolinho que eu estava comendo no café. Eu nunca devia ter falado pra ela onde eu morava.
“ a gente se vê” ela me falou enquanto eu saia correndo pela porta do café.
Eu tinha que sair dali. Estava sufocando! Nunca na minha vida eu tinha olhado um homem daquela maneira…eu precisava entender o que estava acontecendo comigo. Então depois de muito pensar,eu desinstalei o tinder e tomei a decisão: No dia seguinte, eu ia conversar com aquele atendente!
Eu ensaiei tudo certinho na minha cabeça. Eu não podia parecer um desses malucos obsessivos, então ia chegar na boa. Pedir um café e puxar assunto, simples! “ Senhor? Senhor,você está bem?”- ele disse preocupado mas soltando uma leve risadinha nervosa. Ah, eu …eu tô bem sim! Eu, só tava um pouco distraído perdão…Me vê um capuccino por favor? Rapidamente eu me concentrei no crachá dele, eu ia descobrir o nome dele, eu ia descobrir o nome dele e daí pra frente a gente trocava ideia. Enrico? “ É o meu nome…” disse ele dando uma risada tímida. Eu ri também,esperava não estar fazendo papel de iditota. “ E você senhora? O que vai querer?” “ Ah, vou querer o mesmo que ele pediu!”
Nesse momento eu congelei. Não era possível! Era ela! Ela tinha ido de novo na mesma lanchonete dois dias seguidos e pediu o mesmo que eu… coisa boa não era!
Lydia! Você por aqui?- eu disse nervosamente.
Ela era a última pessoa que eu queria ver naquele momento.
“ É…eu resolvi dar uma passada aqui,você sumiu ontem, não respondeu minhas mensagens…”
Ah, é…eu desinstalei o Tinder, sabe? Aconteceram umas coisas ontem e …eu to meio que repensando minha vida no momento…
“ Perai! Você tá terminando comigo?” foi naquele momento que eu percebi. A lydia era louca.
Terminar…mas nós nem nos beijamos…do que você ta…
“ Eu sabia…eu SABIA que você ia fazer isso! Vocês homens são todos iguais! Agora fique sabendo de uma coisa, eu posso ter te perdido agora, mas você ainda ver ser meu! Ouviu bem? MEU! ISSO NÃO VAI FICAR ASSIM!”
Ela saiu gritando do café como uma lunática enquanto eu fiquei lá parado boquiaberto.
“ Nossa…parece que vocês dois tiveram um término bem feio hein?” disse Enrico rindo da situação.
Eu terminei de recobrar meus sentidos e disse com uma confiança que eu nunca tinha tido antes:
Término? Eu conheci ela ontem!
Depois disso ele não se aguentou e deu uma gargalhada. Uma linda gargalhada. Eu ri junto.
E foi assim que eu conheci o Enrico. Nós ficamos conversando por horas aquele dia.
Então e voltei lá no outro dia. E no outro. E no outro…
O tempo foi passando e nós fomos nos aproximando. Eventualmente ele sacou qual era a minha. E três meses depois daquele date horrível, eu tinha um namorado pra chamar de meu.
Tudo parecia um sonho. Mas em breve, ia virar um pesadelo!
Um dia ,voltando do café com o Enrico, eu senti uma presença nos observando sorrateiramente, eu não podia afirmar que tinha alguém nos seguindo mas a sensação de paranoia não deixava meu corpo.
Então sinalizei para o Enrico que andássemos mais rápido.
Ele não entendeu muito bem, mas chegando em casa eu expliquei.
“ Para de ser paranoico,não tem ninguém seguindo a gente relaxa! Quem ia querer te seguir até em casa, essa hora da noite?”
Eu olhei para ele com uma cara de “você sabe” e ele só falou:” ah é…ela.”
Pois é…eu tenho medo de ser ela, sabe? Desde aquele dia que ela saiu gritando do café …eu sempre fico alerta achando que ela vai voltar!
“ Relaxa Amor! Se ela quisesse te procurar agora, acho que ela já teria batido na…”
Dito e feito. Bem naquele momento, em que eu gelava de medo de ter que ver aquela mulher de novo, nós ouvimos batidas nervosas na porta. Resolvemos ignorar, talvez assim ela desistisse e fosse embora. Mas não foi o que aconteceu. As batidas ficaram cada vez mais altas. Ela esmurrava a porta como se tentasse realmente arrombá-la. Depois de muito tempo, eu decidi que já era demais e abri a porta. Não foi nenhuma surpresa para mim ver que era ela que batia freneticamente na minha porta. Ela estava horrível. Cabelo desgrenhado, roupas rasgadas, maquiagem borrada de tanto chorar, em nada parecia a garota que eu havia conhecido 3 meses antes. Eu tomei a iniciativa e falei assustado: Lydia…o que aconteceu com você? O que você tá fazendo aqui? “ Eu…Eu vim te ver! Eu tinha que te ver, pelo menos de perto assim, eu já tenho te visto quase todo dia mas…”
Pera…o que? Como assim você tem me visto quase todo dia? Você tá me SEGUINDO LYDIA? “ Não seguindo…eu não vou fazer nada com você …eu te amo!” Lydia, por favor, você tem que entender, eu amo outra pessoa! Temos que seguir caminhos separados, vai ser o melhor para os dois. “ AH NÃO! VOCÊ TÁ ME FALANDO QUE VOCÊ AMA…ELE?” Disse ela virando a cabeça tentando ver Enrico através da abertura da porta. “EU NÃO ACREDITO NISSO GUILHERME! COMO VOCÊ PODE ME TROCAR POR UM HOMEM! EU NÃO ACREDITO! EU NÃO ACREDITO! EU NÃO ACREDITO…” repetia ela gritando histericamente. Naquele momento meu sangue já havia fervido e eu falei o mais alto que podia: CHEGA! Lydia, eu não te troquei por ninguém porque nós NUNCA TIVEMOS NADA! Aquele encontro tenebroso com você só serviu para eu entender QUEM EU REALMENTE SOU! Então eu acho melhor você sair daqui agora sua maluca, porque senão eu vou chamar a POLÍCIA! SAI! Então ela saiu. Saiu xingando e gritando pelos corredores do prédio. É claro que a nossa gritaria havia acordado o prédio inteiro e todos os meus vizinhos se aglomeraram nas janelas para ver o que estava acontecendo. Ela teve que ser escoltada pelo porteiro que me implorava perdão por ter deixado ela entrar. Depois de muita confusão ele conseguiu tirar ela do prédio mas mesmo assim ela continuou gritando no meio da rua.
“ GUILHERME! GUILHERME! NÃO ME DEIXA ASSIM! EU TE AMO! VOCÊ NÃO PODE FAZER ISSO COMIGO!” Ela teria ficado gritando a noite inteira mas , algo inesperado aconteceu aquela noite. Bem no momento em que ela esvaziava os pulmões gritando loucamente, um carro que descia a rua próxima a minha perdia a direção. Ele desceu com toda velocidade em direção a Lydia. As pessoas do prédio ao perceberem que um carro se aproximava gritavam para ela sair da frente, mas ela não escutou. Quando ela percebeu os faróis cegantes do carro vindo em sua direção já era tarde demais. O carro bateu com tudo na sua cintura, a jogou em direção a um poste. Ela foi partida ao meio. Naquela noite eu obviamente não dormi. Além do meu estado de choque, eu ainda tive que ficar horas explicando para os policiais o que havia acontecido. Algum tempo depois eu fui informado que a Lydia era esquizofrênica. Ela havia fugido de casa aos 19 os pais procuravam ela mas ela sempre se mudava. E agora era tarde demais para eles ajudarem a filha. Era um mistério para todos como ela havia se virado tão bem sozinha e sem medicação, mas é isso, a vida encontra um jeito. O mínimo que eu podia fazer era ir ao enterro. Apesar de muito desconfortável com a situação, eu fui. Os pais da lydia me pediam desculpas sem parar enquanto choravam aos meus pés. Eu dizia que estava tudo bem, que ela não sabia o que estava fazendo. Eles então me pediram para eu olha-la no caixão por um momento. Dada as circunstancias eu presumi que o enterro seria de caixão fechado mas pelo visto o pessoal do necrotério só costurou ela de volta, era horrível tinha como ver os pontos remendados no vestido, e lá estava ela. Deitada, com aqueles olhos enormes fechados para sempre. Eu tentei me consolar, dizendo a mim mesmo que agora ela finalmente estava em paz. Isso não poderia estar mais longe da verdade. Nos momentos finais do velório na hora de fechar o caixão, eu tive um pequeno lapso na minha visão e pode jurar ver os olhos de lydia abertos como nunca antes me encarando por poucos segundos até a tampa do caixão se fechar. Eu estava apavorado e totalmente em choque. Certamente aquilo era algum truque da minha mente.
Depois do enterro, eu voltei pra casa. O Enrico tentou me consolar mas não adiantava. Eu estava totalmente em choque. Mal conseguia falar. Eu me deitei para dormir mas meus olhos não fechavam. Eu só conseguia pensar na noite anterior. Só conseguia pensar em Lydia e em seu corpo partido ao meio jogado na calçada. Eu fiquei olhando pro teto por horas até que eu ouvi. Ouvi arranhões na porta, como se um cachorro estivesse pedindo para entrar. Tentei acordar Enrico para ele ir ver o que era mas não adiantou, ele parecia não me ouvir, estava dormindo como uma pedra. Então, eu me levantei da cama e fui até a porta. Ao abrir eu não consegui ver ninguém. Eu já me preparava para fechar a porta quando senti uma mão agarrando a parte de baixo da minha perna. Então eu vi com um horror indescritível: era Lydia! Ela estava lá! Na minha frente , agarrando minha perna! Ela porém já não tinha mais pernas, ela se arrastava partida ao meio em minha direção, balbuciando palavras que eu demorei a entender. Ela deixava um rastro de sangue atrás dela, sua face estava totalmente desfigurada,parecia ter ralado no concreto por horas até chegar no meu apartamento. Depois de muito tentar entender eu consegui pegar alguma coisa do que ela falava , que balbuciava sem parar: “ Você…achoooou que…ia se …liiiivraaar…tão faaaciiil…eu …teeee …a moooo… eu …NUNCAAAA …VOU …EMBORAAAAA!” E foi nesse momento que eu me vi novamente na minha cama. Eu acordei gritando. Enrico se virou para mim assustado e eu contei a ele o que tinha acontecido. Ele tentou me acalmar dizendo que era tudo um sonho. Que eu só tinha tido um pesadelo. Mas não era só um pesadelo. Daquele dia em diante, eu viria aquela meia-mulher aonde quer que eu fosse. Em casa, no trabalho,na rua,até mesmo nas fotos que eu tirava, ela sempre estava lá, olhando diretamente pra mim! Me perseguindo. Para sempre. Eu tentava ignorar, fingir que ela não estava lá mas não adiantava. Com o tempo isso foi desgastando o meu relacionamento com o Enrico. Ele disse que não conseguia lidar com alguém tão mentalmente instável e me deixou. Eu não aguento mais ver ela! Ela me segue para todos os lados…ela está sentada do seu lado ai agora e… Uhum…é ,acho que vamos ter que aumentar a dose do seu remédio Guilherme. Mas doutor, você tem que acreditar em mim! Ela ta ai do seu lado, você só não consegue ver! Sim ,guilherme, eu sei, sua condição tem piorado desde que você chegou aqui mas, não tem o que fazer…temos que continuar tomando o remédio até ela sumir ok? Tudo bem doutor… Agora , se você puder voltar para o seu quarto, infelizmente nosso tempo acabou por hoje. Os enfermeiros vão acompanhá-lo, melhoras Guilherme! Obrigado doutor… Eu posso estar em qualquer lugar. Tomar todos os remédios do mundo. Ela não vai ir embora. Ela NUNCA VAI EMBORA.
ELA NUNCA FOI EMBORA!
Nota do chat 9,5
Concordo com o ZK
Não querendo alfinetar o discord, mas ler aqui é muito melhor.