O JULGAMENTO DO POETA

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O ar aqui embaixo tem gosto de silêncio e de falha humana.

Sempre critiquei a vaidade daqueles que constroem monumentos para tentar enganar a própria insignificância. O ser humano aprendeu a nomear monstros para não precisar encará-los no espelho. Compara-se a animais para justificar atrocidades, como se a crueldade fosse instinto e não escolha. Criamos narrativas, desculpas e máscaras para esconder a nossa própria violência, incapazes de aceitar que o mal não é uma força sobrenatural, mas uma decisão estritamente humana.

Enquanto os chamados irracionais matam para sobreviver, o homem mata para provar que pode. E nisso, revela sua falha mais grave: possuir inteligência suficiente para criar a paz, mas escolher a guerra. A pior praga do mundo nunca foi um vírus, nem um desastre natural. É a raça humana — inteligente, consciente e ainda assim cruel.

Eu sabia disso melhor do que ninguém. Por isso, decidi agir onde a justiça falhava por conveniência e o mundo escolhia fechar os olhos. Meus alvos nunca foram inocentes; eram homens intocáveis, pilares respeitados da sociedade cujas mãos imundas destruíam a infância de quem não tinha voz. Eram monstros revestidos de terno, benfeitores protegidos pelo aplauso cúmplice dos outros.

Não me vejo como um herói. Heróis buscam glória, e a glória é o refúgio dos vaidosos. Apenas fiz o que a aritmética fria da moral exigia: retirei o lixo que a civilização tinha preguiça de limpar. Lembro-me de quando estive na delegacia, sob a lâmpada incandescente que oscilava acima da mesa de metal, projetando sombras longas nas paredes descascadas. À minha frente, o comissário limpava os óculos com um lenço de linho amassado, tentando conter o tremor sutil em seus dedos — o mesmo tremor de quem passou a vida inteira fechando os olhos para o que convinha não ver.

— Você tem noção do que fez, Dantas? — ele perguntara, a voz contida, quase sussurrada. — Eram homens públicos. Juízes, empresários, diretores de institutos respeitados. Homens que jantavam com o prefeito. E você... você os tratou como lixo de quintal. Recostara-me na cadeira de ferro daquela sala, unindo as pontas dos dedos com calma.

— Comissário, a sua surpresa não é moral; é burocrática — respondi na época, mantendo o tom polido, quase acadêmico. — Você não está chocado com o fato de que eles destruíram a infância de dezenas de crianças nos porões daquela fundação beneficente. Você está chocado porque eu fiz o trabalho que a sua corregedoria tem preguiça de assinar.

Ele engolira em seco, desviando o olhar para a pilha de cadernos pretos sobre a mesa — meus diários, onde a poesia se misturava à contabilidade exata dos carmas que decidi cobrar. — Eles tinham famílias, tinham direitos... — E as vítimas deles? — retrucara, inclinando-me ligeiramente para a frente. — Onde estavam os direitos de uma criança de oito anos silenciada pelo medo, pela chantagem e pela toga de um homem intocável? A sociedade adora proteger os monstros que usam gravata, porque admitir que o mal veste terno significa admitir que a própria estrutura social é podre. Eu apenas fiz a matemática. Subtraí o supérfluo.

— Você não é juiz, Dantas. Você é um assassino frio. Um psicopata com complexo de salvador. Soltara um suspiro leve, quase divertido. — Um assassino? Sem dúvida. Não vou me esconder atrás de eufemismos bonitos ou fingir arrependimento para ganhar a simpatia de um júri de hipócritas. Eu tirei vidas. Sujeitei minhas mãos ao sangue para limpar o chão que vocês pisam com tanta soberba. Mas me chame do que quiser, comissário: de carrasco, de anômalo, de monstro. Apenas não me chame de injusto.

O comissário se levantara abruptamente daquela mesa, olhando-me com o ódio impotente de quem percebia que a minha lógica era irrefutável. E, antes de me trancar na solitária, dissera que o inferno me aguardaria. Mas o inferno não esperou pelo julgamento.

Uma pá de terra cai sobre o meu peito com um baque abafado. O som é seco, pesado, definitivo. Mais uma porção de terra escura desliza pelas tábuas mal aparafusadas da caixa estreita, cobrindo o meu rosto, preenchendo o espaço onde antes havia oxigênio. A polícia finalmente encontrou o caderno de notas, decifrou os enigmas poéticos e seguiu o rastro exato das covas que deixei para os intocáveis — embora tenham decidido abreviar os trâmites legais do tribunal antes de me colocarem aqui.

A ironia final, percebo agora, é perfeitamente simétrica. A terra que me soterra não tem pressa, assim como eu não tive ao proferir minhas sentenças. No fim, a humanidade encontrou a maneira mais honesta de lidar comigo: enterrou-me não por justiça, mas por pura e simples higiene.

E, enquanto o escuro absoluto sela a minha boca, continuo achando que eu estava certo. O inferno, comissário, já está habitado há muito tempo. E ele não fica embaixo da terra; ele veste terno, assina leis e dorme em camas macias, protegido pelo silêncio de vocês. O mundo continua podre. Só faltou eu para terminar o serviço.