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Esboço de Narrativa: Culto da Família — Delírio Herdado
A cidade movimentada de Whitehaven sempre foi agradável de se ver ao amanhecer e também ao entardecer. Talvez tenha sido esse o motivo que levou meu avô a escolher esse lugar para ser seu túmulo.
Frederick Müller, uma figura que fez nossa família ser conhecida por sua natureza excêntrica e nômade.
Ele viveu inúmeras aventuras de norte a sul, pelas terras douradas de Aurethia, indo da capital do país aos tão conhecidos Auremonts. Mas, antes mesmo de subir aquelas estradas íngremes, ele teria estudado as lendas e contos das aldeias circundantes dos gigantescos montes.
Descreveu essa viagem como um sonho em amarelo, uma história que contaria para seus filhos e, se fosse da vontade do divino, a mesma história contaria para seus netos.
Ao atravessar a fronteira, ele aportou em Alderland, um país de centros luminosos que, naquele momento, ainda estavam em formação. No entanto, alguns anos mais tarde, a própria majestade os renomearia como “Lúrios Rháina”, demonstrando uma criatividade notável ao chamá-los de “Luzes do Reino”.
É nessa nação em que me encontro, nesse exato momento, descendo minha rua como de costume, mas destinado a embarcar no trem das 4 da tarde. Já não tão habitada após o horário de pico, a estação deve estar desolada.
Para minha sorte, pelo que andei pesquisando, chegarei à capital após duas estações, fora essa que irei pegar.
Uma jornada de algumas horas de balanço, antes de chegar e partir não muito tempo depois.
Meu principal objetivo é refazer os passos do meu avô, um explorador de muitos segredos que deixou especialmente para mim, o mais ávido devorador do saber de toda a família, seu querido diário e uma carta.
Faz três anos desde o seu enterro. Ninguém da família pensou que ele faleceria de uma maneira absurda, como acabar engasgado com um pequeno osso.
Viveu esplendorosamente e pereceu no que posso descrever como um final patético, quase uma piada barata de bar.
Deixando para trás uma herança gorda e poucos bens pessoais, dos quais ele tinha mais proximidade. Esse era o caso de seu diário de viagem, em que anotou cada experiência que obteve, sendo um desvairado de norte a sul.
Confesso que sua morte não me passou despercebida. Talvez eles tenham ficado contentes com a partida deste senhor, aparentemente com as faculdades mentais em declínio. Mas, para mim, que desde a infância sonhava em viver as mesmas grandes aventuras que ele viveu, foi um choque.
Então, posso dizer o quão realizador foi, por mero acaso do destino, revirando seu largado quarto, encontrar seu diário e, junto a ele, uma carta escrita por sua própria mão.
Quem saberia, só de olhar, se teria sido seu conhecido ou não quem escreveu algo? No caso de Frederick, a explicação é simples e surpreendente.
Meu avô, apesar de possuir uma sabedoria e perspicácia incomuns, não tinha habilidade para escrever de maneira adequada.
Pelo que me contaram, constantemente meu pequeno avô, durante sua juventude, fugia dos livros tanto quanto o Diabo foge da cruz.
Isso é hilário de tantas formas que não consigo acreditar veementemente nisso.
Porém, para alguém que viveu tão próximo dele, seus garranchos não eram incompreensíveis.
Ele se utilizava de símbolos para suprir essa óbvia desvantagem e, seguindo esses mesmos símbolos, acabei intrigado.
Na verdade, fui encantado por uma curiosidade difícil de colocar em palavras.
No último jantar com toda nossa família reunida, anunciei o que faria, para onde iria e quando provavelmente voltaria para casa, além de pedir que deixassem meu quarto tão intocado quanto o de meu avô.
Claramente, não gostaram muito da ideia, mas permitiram mesmo assim.
“Neto de peixe, peixinho é”, como falou meu querido pai.
E, agora, se me vissem aqui na estação de trem, o Longo Prado Prateado, estariam me chamando de louco, como fizeram com meu avô.