O Tatu-Canastra que Falava

Publicado em

Lá pelas quebradas do sertão de Minas Gerais, um caçador chegou com uma história intrigante para toda a população de uma pequena cidadezinha chamada Amarinho Velho: havia ele capturado um tatu-canastra que possuía a habilidade de falar. O povo todo ficou curioso com aquela história: "Ué? Mas tatu que fala? Essa é nova!" - era o que todo mundo pensava. Por onde passava o homem anunciava: "Tatu falante capturado nos cafundós da floresta Amazônica! Traga a família e venha ver o exemplo mais claro do sobrenatural que existe no mundo!" As pessoas ouviam aquilo e ficavam logo com a curiosidade subindo dos pés à cabeça, querendo ver o tal animal que supostamente poderia falar igual gente. Então, em um determinado momento, o caçador se colocou na pracinha central da pequena cidade. Pôs uma mesa no local e, em cima dela, colocou uma gaiola, onde dentro dela havia um grande tatu-canastra. O homem então cobrava cem reais para quem quisesse ver de perto o animal. Ele dizia: "Olha aí minha gente! Não é mentira! É a pura verdade que conto aqui para vocês! Eis aqui o tatu falante!" Os curiosos então pagavam ao homem e aproximavam-se da gaiola. Enquanto as pessoas olhavam para o bichinho dentro da gaiola, o caçador contava a história de como havia capturado o tatu: "Cá estava eu em uma expedição pela floresta Amazônica... Eu andava por entre aquela grande mata, procurando algum bicho quando de repente escutei como se fosse bocejo de gente. Foi aí então que, escutando aquilo, me dirigi ao local do som... Eu ô vi... Estava lá... Bocejando igual uma pessoa mesmo! Então não perdi tempo, esperei o danado dormir e capturei o gaiato! Agora ele está aqui, para que todos vocês possam ver. A maior prova que existe coisa inacreditável neste mundo, minha gente!" As pessoas se impressionaram com a história e então disseram ao caçador: "Ele fala como gente né? Faz ele falar pra nós ver!" "É, vai! Faz ele falar!" "Eu quero é ver esse bicho falar, vice!" O caçador, ouvindo todos pedirem para que o tatu falasse então falou: "Certo, certo... Farei ele falar!" O homem então se aproximou da gaiola cochichou algo para o tatu e se colocou atrás da gaiola: "Pedi pra ele falar, vocês vieram já já..." O caçador então se agachou atrás da mesa com a gaiola. Foi aí que o tatu começou a falar... Era uma voz estranha... Meio esganiçada e abafada: "Como vão minha gente!" Disse o tatu, sem abrir a boca... O animal continuou a falar: "Sou lá de dentro da floresta Amazônica, onde não há um pé de cristão". As pessoas estranharam: "Uai? Ele fala sem abrir a boca?" "Pois é, ele não abre a boca nem que a vaca tussa..." "Coisa estranha..." Foi então que um grande homem gordo e forte de barba longa e semblante de cara dura olhou para o caçador agachado atrás da mesa onde estava o tatu na gaiola... O caçador estava com as mãos na boca... Aparentava estar fazendo aquela voz que saia do animal! O grande homem que via aquilo então disse: "Ei! Espera um pouco..." E se aproximou da mesa, indo para trás dela e pegando o caçador pela camisa, levantando-o do chão. O gigante então falou: "Minha gente, espia só! Era ele que tava fazendo a voz do tatu!" O povo então viu o caçador e começou a dizer: "É mermo?!" "Não acredito!" "Era ele mermo?!" O grande sujeito, ainda com o caçador em mãos, abriu a boca e colocou-se a falar para as pessoas: "É ele mermo! Vai! Faz a voz aí!" O caçador, sendo segurado e ouvindo aquele gigante pedir para ele fazer a voz, então colocou as mãos na boca e fez uma voz. Era a mesma voz esganiçada e abafada do tal do tatu falando... O grande homem então colocou o caçador no chão do lado da mesa com a gaiola. O caçador então começou a ser vaiado e atingido por diversas coisas, como pedras, areia e até cocô de jegue: "Calma minha gente! Eu posso explicar!" - dizia o caçador, tentando se defender das coisas que eram jogadas em sua pessoa. A população enraivecida então disse: "Que explicar o que! Isso aí é charlatanismo!" "Charlatão!" "Safado, pilantra, enganador!" Foi então que uma pessoa no meio da multidão furiosa falou em tom feroz: "Esse tatu é um puro bicho asqueroso sem habilidade alguma!" Foi aí que, o tatu dentro da gaiola, vendo a confusão, botou seu braço para fora da gaiola, aproximando-o do bolso do caçador. De lá, tirou uma cartela de cigarro e um isqueiro. O tatu então tirou um cigarro de dentro da cartela e colocou-o na boca, acendendo com o isqueiro e começando a fuma-lo sentado dentro da gaiola. O tatu, fumando o cigarro, então falou para quem havia gritado aquela ofensa: "Óia... Eu posso até não falar, mas me ofender assim de graça é um desrespeito com minha pessoa, vice!"