Trecho Número Quinze

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(este texto é trecho de um texto bem mais extenso)

15: Estou sendo assombrado.

Saio de casa, o mundo lá fora. Passara das oito horas e passo após passo faço meu caminho de errata. Meus pés e pernas doem, mas a dor me agraciava. Houvera em mim a vontade de estar à deriva, de me deixar levar, de aceitar de qualquer grado o que me fosse dado. Mas depois das oito horas, veio nove, e simplesmente assim, cada passo é um ato de volição, cada passo torto pelo caminho sinuoso é uma escolha eloquente.

Meus pulmões ardem, meus pés também. Ainda, isso em nada me incomoda, de alguma forma. A ideia de me encontrar com planícies abissais já não me satisfaz. Não me entenda mal, o oceano também é sublime, assim como são os fantasmas que me assombram. A lua puxa e as ondas quebram e espumam pela areia molhada, tons de verde e azul que passam para o branco, tingem a areia branca de marrom.

Leminski escreveu: "a palmeira estremece palmas para ela que ela merece"

E isso me satisfaz, sim. É verdade, mas existe algo além. O céu oco e tão desprovido, a escuridão da noite. O mar, espelho do céu. O mar passa a ser mistério, assim como são os fantasmas brancos que me atormentam a cabeça…

Na calada da noite, estes vêm. Esbranquiçados, piscando para mim, alguns poucos se mostram e sinto medo, sinto o sublime. Sinto minha diminuta estatura e então percebo que sou assombrado e maravilhado por minha própria pequenez.

Como poderia não ser? Vem para mim, aquela mesma frase: "Sou o universo tentando se perceber."

E então: "Sempre me encontro hipnotizado, olhando, secando as esparsas estrelas, e de tanto olhar me pego pensando, como será que seria me ver refletido no planeta espelho?"

Sim, querer se ver no outro, se procurar no outro e no tudo. Ser nada, querer ser tudo, sonhar com estrelas, a luz do sol refletida na lua refletida na água, refletida em meus olhos. Areia molhada grudenta, farfalhar de palmeiras, vento gelado, e tudo espiralado contra a calidez de tuas promessas, quanto conforto para este ser tão torto... E apenas então, a luz do sol refletida na lua refletida na água refletida em meus olhos é também refletida na água em meus olhos, na calidez dessas gotas tão torrenciais, vazão de sentimentos, bochechas molhadas, maçãs do rosto, símbolo de pecado.

"Me responda, Pai. Existe maior pecado que a volição?" Sim, isso me satisfaz, isso faz sentido. Uma vida sem dor é uma vida destituída de sentido.

Leminski, novamente: "Gente que mantém pássaros na gaiola tem bom coração. Os pássaros estão a salvo de qualquer salvação."

Aquele melro de asas quebradiças, oco tal qual o céu escurecido, penas que fervem e borbulham, uma dor sem precedentes e tudo o mais. Aquele melro sabe, aquele melro satisfaz.

Continuo sendo assombrado, o céu azulado se escurece e os fantasmas pontilhados me enlouquecem, apenas assim. Há essa ideia ingênua de olhar sem compromisso, sem achar que há algo entre nós, de autoengano e sabe se lá o que mais. Não adianta. Só algumas olhadas e tudo vem para mim. Continuo andando mas minha mente corre e não quer parar, talvez não consiga, tudo ainda queima e é tão bom, como se agarrar naquela palmeira e ouvir a madeira gemendo, só para se jogar na água gélida e então quebrar o reflexo e o tudo e pensar "aqui é meu anti-útero, talvez aqui, eu finalmente me vá.", só para achar graça e logo rasgar a água inspirando por ar, cheiro e gosto de sal, pele salgada e salmoura, suco de ego, egofagia? Ah, minha mente não para, peço perdão!