Planeta dos insetos - capitulo 8 - final da saga um

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Capítulo 8 – A Linha Entre Amigos e Inimigos

POV: ..., ON.

O cheiro de ferro e podridão no Hospital São Vicente é denso o suficiente para você mastigar.

Deixo Larissa por alguns minutos com os fantasmas dela e me movo sozinho entre os escombros do pátio interno. Vago entre os corpos dispostos no chão de concreto rachado. Soldados de farda camuflada e homens de jaqueta de couro e colete improvisado jazem misturados, abraçados na mesma poeira. A linha entre quem defendia e quem atacava virou cinzas.

Passo pelas carcaças das pessoas, me agachando para checar os bolsos, os cintos, as botas. Nada. Nem uma cápsula de munição aproveitável. Limparam o lugar com a precisão de gafanhotos.

Até que um som quebra o silêncio do pátio.

Chiado... estática...

É fino. Distorcido. Um chiado metálico que me faz paralisar com a mão a milímetros da jaqueta de um soldado morto.

Sigo o som até o tronco de um homem com tatuagens no pescoço, caído atrás de um monte de sacos de areia estourados. Preso ao colete dele, um walkie-talkie militar pisca uma luz vermelha fraca.

Puxo o aparelho. O plástico está besuntado de sangue seco.

— ...câmbio? Marcos, responde essa porra, câmbio! — a voz sai rouca, entrecortada por interferência, ruidosa como se o cara estivesse falando do meio de uma tempestade. — A gente não vai mais esperar no ponto de extração. O comboio tá saindo. O ponto de encontro mudou pro porto velho. Vamos nos reencontrar com os Piratas de Aço antes da noite cair. Se tu ainda tá vivo, te vira. Câmbio e desligo.

Piratas de Aço.

O nome ecoa na minha cabeça com o peso de uma pancada no peito.

Aperto o plástico do rádio até os nós dos meus dedos estralarem. O quebra-cabeça se monta na minha mente: os caras na caminhonete, o motor de barco na caçamba, os caminhões que limparam a farmácia, a chacina aqui no hospital. Eles não são apenas saqueadores vagando sem rumo. É uma milícia organizada. Têm liderança, têm rota e estão se movendo pela água.

— CARRANCA!

O grito de Larissa corta o pátio, me puxando de volta da conversa no rádio.

Giro sobre os calcanhares, a mão já no fuzil, mas é só ela. Larissa surge da sombra do corredor principal, arfando, os olhos vermelhos do choro, as mãos cobertas de fuligem.

— Eu olhei... olhei em tudo — ela diz, a voz trêmula, tropeçando nos próprios passos até parar diante de mim. — Vi cada corpo. Olhei embaixo das macas, no necrotério, nas salas do segundo andar... O meu irmão não tá lá. O Léo não tá entre os mortos!

Ela tem um brilho desesperado nos olhos. A esperança é uma coisa perigosa; faz a pessoa se agarrar a farpas afiadas achando que é corda.

Olho para ela, depois para o rastro de sangue e marcas de garras no chão que levam para o pátio aberto dos fundos.

— Larissa... — começo, a voz fria, sem o dente para amaciar a queda. — O chão do pátio tá cheio de rastro de Driller e de escaravelho. Se o corpo do seu irmão não tá ali... ele pode ter sido levado. Ou devorado.

Ela engole em seco, a boca aberta para protestar, mas as palavras morrem na garganta dela. A realidade da declaração bate forte, mas ela não quebra desta vez. A garota que chorava no chão do hospital dá dois passos para trás, absorvendo o golpe, e ajeita o fuzil no ombro com uma firmeza nova.

— Ele pode ter sido levado — ela repete, mudando a frase para a única versão em que ele ainda respira. — Eles levaram mantimentos e sobreviventes. Os caras da caminhonete falaram que o tal Scar paga por gente jovem.

Eu não discuto. No fim do dia, a motivação dela para continuar andando não me importa, desde que ela continue andando e mantenha o dedo firme no gatilho.

— O rádio deu a pista — digo, mostrando o walkie-talkie para ela antes de guardá-lo no bolso do meu colete. — Eles tão indo pro porto velho. Vão se reunir com a frota dos Piratas de Aço.

— O porto... — ela murmura. — É lá que eles tão guardando tudo.

— É lá que tá a nossa munição. E talvez o que sobrou do seu mundo.

Olho para o céu através do teto solar destruído do saguão. A luz do sol está ficando roxa, doentia. O ar esfria rápido. Ficar parado ali é esperar a morte bater na porta.

— Vamos — digo, ajustando a bandoleira do fuzil no meu peito. — A caminhonete tá pronta. A gente tem meio tanque, três armas e uma rota.

Larissa assente devagar. Ela olha para o corredor escuro onde o corpo da mãe ficou uma última vez, e depois se vira para a saída, sem olhar para trás.

A terra sob nossas botas não chega a tremer, ela zune.

A frequência é aguda, uma ressonância doentia que faz as restaurações dos meus dentes doerem. O grito que a garota deu minutos atrás... a vibração daquela dor não se dissipou no ar. Ela desceu pelos dutos de ventilação, ecoou nos poços de elevador abandonados e despertou o que estava aninhado nas entranhas de concreto do hospital.

— Carranca... o que é isso? — o sussurro de Larissa vem falhado, os olhos cravados no teto de gesso rebaixado.

As placas do teto começam a estufar para baixo. Uma fresta se abre. Depois outra.

Uma poeira amarela e viscosa despenca sobre o saguão, seguida por um som de raspagem seca. Asas. Milhares de asas curtas e rígidas batendo em uma velocidade que turva o ar.

Dois olhos multifacetados, negros e brilhantes como pérolas de piteira, surgem da fenda. Em seguida, o corpo. Abelhas mutantes. Mas não as que polinizam flores. Essas têm o tamanho de cães de porte médio, cobertas por uma pelagem amarela e preta, grossa como espinhos de ouriço, e um abdômen que se contrai num ritmo febril, ostentando ferrões do tamanho de baionetas.

— Pra trás! — berro.

Não há tempo para mirar. O enxame despenca dos dutos como uma cachoeira amarelada e faminta.

Agarro Larissa pela gola da jaqueta e nos lanço com violência para dentro de uma sala de consulta lateral. Bato a porta de madeira maciça e passo a tranca de ferro.

THUMP!

O impacto na porta é imediato e brutal. Não é um empurrão; é um ataque perfurante. O metal da fechadura entorta. Dois segundos depois, a ponta negra de um ferrão atravessa a madeira maciça como se fosse papelão, saindo a três centímetros do meu rosto, gotejando um ácido transparente que fumega ao tocar o piso de linóleo.

— A janela! Vai, vai, vai! — ordeno, dando um chute na fechadura entortada enquanto a porta começa a se desintegrar sob o peso das carapaças.

Larissa corre até a janela do segundo andar. A vidraça já estava estilhaçada, restando apenas dentes de vidro no caixilho de alumínio. Ela olha para baixo, vacila por meio segundo ao ver a queda de seis metros até o pátio de serviço.

— Não dá pra pular! — ela grita, o vento frio da tarde batendo no rosto dela.

— Parapeito! Anda!

Puxo-a para fora. Nossos pés encontram a saliência estreita de concreto de pouco mais de trinta centímetros que contorna a fachada do edifício. O ar lá fora está infectado pelo zunido ensurdecedor. Três abelhas gigantes já saíram pelas janelas do andar superior e começam a mergulhar na nossa direção, as asas produzindo um deslocamento de ar que quase nos joga no vazio.

— Pula no andaime! — aponto para uma estrutura de ferro e tábuas velhas mantida por cabos de aço, um andar abaixo.

Larissa não pensa. Ela se lança no ar.

O impacto dela contra as tábuas de madeira ecoa num CRACK seco. O andaime balança perigosamente, a fita de aço rangendo no topo do prédio. Ela cai de joelhos, sem ar, a arma se arrastando pelo estrado.

Eu me jogo logo atrás. Meu peso faz a estrutura pender para a esquerda. A dor na coxa machucada rasga até a minha cintura quando minhas botas atingem o estrado, mas o instinto de sobrevivência assume o controle.

Duas criaturas despencam do céu direto sobre nós.

Saco o facão de caça da cintura com a mão direita. A primeira abelha vem com o ferrão projetado para a frente, tentando me empalar contra a parede do hospital. Me esquivo para o lado, o estrado rangendo, e desferço um golpe oblíquo com todo o peso do meu corpo. A lâmina pesada entra logo abaixo da cabeça da criatura, decepando a carapaça fina. Hemolinfa escura e espessa espirra na minha jaqueta enquanto o corpo sem vida cai no vazio.

A segunda avança pela esquerda. Giro o corpo para cortar, mas o movimento brusco faz minha perna falhar. Meu joelho cede.

Fico exposto. O bicho paira a um metro de mim, as mandíbulas duplas estalando, o abdômen curvando para desfazer o golpe mortal.

CRASH!

Uma viga de madeira pesada — arrancada por Larissa da base do próprio andaime — atinge a cabeça do inseto com a força de uma marreta. O impacto faz a carapaça da criatura estalar e o bicho desorientado tomba para o lado, perdendo o sustento das asas e despencando em queda livre até se estrepar no asfalto do pátio.

Larissa está em pé, o peito subindo e descendo, segurando o pedaço de madeira com os nós dos dedos brancos de tanto apertar. Ela não congelou. Ela reagiu.

— Boa, garota! — rosnado.

Mais três zunidos pesados se aproximam do alto. O andaime não vai aguentar outro combate.

Virando para a janela mais próxima da fachada, ergo o cotovelo protegido pela jaqueta grossa e me lanço contra o vidro. A estrutura cede num estrondo de estilhaços. Caio rolando para dentro de um corredor escuro do primeiro andar, puxando Larissa comigo pelo braço antes que o enxame possa passar pela abertura.

Bato as costas contra a parede do corredor, arfando, o facão pingando o fluido viscoso da criatura.

O som das asas lá fora continua violento, mas a penumbra do corredor nos esconde. Pelo menos por enquanto.

O corredor fede a fumaça de enxofre e ao odor doce e enjoativo do sangue das abelhas. O zunido lá fora ainda vibra nas paredes, mas o vidro quebrou o ritmo do ataque deles. Por enquanto.

— Lençóis. Cobertores. Qualquer tecido que pegue fogo rápido. Agora! — ordeno, a respiração ainda cortada na garganta.

Não esperamos. Vasculho o carrinho de curativos abandonado enquanto Larissa corre para um quarto de internação próximo, voltando com os braços cheios de lençóis manchados de mofo e aventais cirúrgicos descartáveis. Jogo tudo em duas pilhas separadas no meio do corredor.

Puxo o isqueiro do bolso. O polegar treme de fadiga, mas a chama pega na terceira tentativa, espalhando-se rapidamente pelos tecidos secos.

As duas fogueiras improvisadas cospem labirintos de fumaça preta e densa que sobem pelo teto, encardindo o gesso.

O efeito é imediato e brutal.

Três das abelhas que irrompiam pela janela estilhaçada entram no corredor voando em nossa direção. Elas entram direto na densa cortina de fumaça. O oxigênio rarefeito e o calor sufocam as asas delas. Uma despenca direto no meio das brasas, a carapaça estalando e fumegando num fedor insuportável de proteína queimada. A segunda bate contra a parede desorientada, e eu me lanço com o facão, abrindo-lhe o tórax com um golpe seco. A terceira recua, batendo em retirada pela janela.

— Fica perto do fogo! — grito por cima do crepitar das chamas.

A luta é rápida, suja e desesperada. O calor das fogueiras nos cerca, o suor escorre misturado à fuligem e ao sangue de bicho, queimando nossos olhos.

Quando a fumaça começa a rarear e o caminho pela porta dos fundos se abre, não hesitamos. Atravessamos o saguão lateral correndo, tropeçando em escombros, até empurrar a porta de metal de serviço que dá para a parte de trás do complexo.

O ar frio da noite nos acerta como um tapa.

Despencamos para fora, afastando-nos a passos largos até nos escondermos atrás de pilhas de contêineres de lixo enferrujados.

O silêncio volta a reinar, quebrado apenas pelo som da nossa respiração pesada, estourada e irregular.

Estamos cobertos de cinzas, poeira e fluido pegajoso. A perna lateja, reabrindo a dor do tiro de dias atrás, e sinto cortes superficiais nos braços. Mas estamos inteiros.

Olho para o lado. Larissa está encostada na chapa fria de metal do contêiner. Ela escorrega devagar até sentar no chão de asfalto, abraçando os próprios joelhos. A cabeça está baixa. As mãos tremem incontrolavelmente — não mais de raiva ou adrenalina, mas do peso absoluto da exaustão.

O corpo dela cedeu. A morte da mãe, a fuga, o veneno das abelhas, a facada que deu no saqueador... tudo desabou de uma vez só.

— Já deu... — a voz dela sai um sussurro frágil, quase inaudível, abafado pelo vento. As lágrimas abrem sulcos limpos na poeira do seu rosto. — Não dá mais, Carranca. A gente não vai conseguir chegar a lugar nenhum. Meu irmão sumiu, minha mãe tá morta, e a cada metro que a gente anda, tem mais um bicho querendo arrancar um pedaço da gente. Pra quê continuar?

Ela enterra o rosto nos braços. A esperança dela evaporou de vez naquele hospital. Ela quer desistir. Quer apenas fechar os olhos e deixar o mundo acabar ali.

Olho para ela. Sinto o peso dos meus próprios fantasmas arranhando minha mente — o eco da minha própria família gritando no escuro. Sei exatamente o gosto desse desespero.

Se eu deixá-la cair agora, ela morre em dez minutos. E, pior... se eu perder a única pessoa que aprendeu a olhar para o mesmo horizonte que eu, o próximo bicho a me estripar serei eu.

Me aproximo com a minha mancada pesada, ajoelho-me na poeira à frente dela e seguro o queixo de Larissa com firmeza, forçando-a a levantar o rosto e olhar nos meus olhos.

— Olha pra mim, Larissa — ordeno, a voz áspera, mas firme como ferro. — Você não sobreviveu ao massacre do hospital, não atirou naquele maldito e não cruzou meio inferno de caminhonete para virar comida de inseto aqui na lama.

— Eu tô cansada... — ela soluça, os olhos vermelhos e implorando por um pingo de conforto que eu não sei dar.

— Eu sei que tá — respondo, sustentando o olhar dela. — O mundo inteiro tá cansado. Mas o teu irmão tá lá fora, e os caras que mataram a tua mãe ainda respiram. Se você morrer aqui, o Scar venceu. O fim da linha não é hoje.

Fico em pé, estendendo a mão calejada e suja para ela.

— Você aprendeu a segurar o ferro. Aprendeu a caminhar no escuro. Agora levanta essa bunda do chão, porque a gente tem uma frota de Piratas de Aço para caçar no porto.

Ela olha para a minha mão estendida por longos segundos. O desespero ainda brilha nos olhos dela, mas o fogo da raiva — a mesma raiva que a salvou antes — começa a piscar de novo nas cinzas.

Ela respira fundo, engole o choro, aperta os dentes e coloca a mão dela na minha. Eu a puxo para cima com toda a força que me resta.

O som das asas zunindo lá dentro do hospital ainda reverbera nas nossas costas, mas o vento frio da noite empurra a gente para frente.

— Corre! — estico o braço, puxando Larissa enquanto a perna machucada pulsa em dor pura.

Aceleramos o passo pelo pátio de serviço, contornando a lateral dos contêineres de lixo até avistarmos a silhueta robusta da caminhonete escondida na penumbra do muro. O motor ainda deve estar um pouco quente, mas o silêncio ao redor parecia seguro.

Até que os faróis de uma lanterna potente cortam a escuridão direto na nossa cara, nos cegando por um segundo.

— Parados aí! Nem ousem mexer nas armas! — a voz corta o ar. É grave, cortante e carregada de uma autoridade que não pede permissão.

Congelamos instantaneamente. Minha mão desce por puro reflexo para o cabo da faca, mas paro ao ver quem está ao redor do veículo.

Três figuras bloqueiam o caminho para a caminhonete.

O que falou está encostado na lateral do capô. Um homem loiro, aparentando uns 27 anos, vestindo o que sobrou de um colete policial desbotado. Ele é forte, tem cicatrizes leves cortando o rosto e uma expressão permanentemente séria, esculpida a ferro. A postura dele é rígida, militarizada — o tipo de cara que daria ordens até no meio do apocalipse.

Atrás dele, apoiada numa mureta, está uma mulher ruiva de olhos verdes penetrantes, por volta dos 25 anos. O cabelo longo e vibrante está preso num rabo de cavalo desgrenhado. Ela veste uma jaqueta militar grossa, mas, pelas aberturas da gola, dá para ver um uniforme de enfermeira ensanguentado por baixo. Ela me analisa com o mesmo olhar clínico com que avaliaria um paciente em estado terminal.

E agachado, bem na porta do motorista da nossa caminhonete, está um rapaz negro de camiseta cinza. Ele não tem a carcaça pesada do loiro, mas suas mãos são finas e ágeis. Ele segurava uma chave de fenda torta e estava a segundos de estourar a fechadura. Ele congela, olhando para nós com os olhos arregalados.

— A chave é nossa, e a caminhonete também — digo, destravando a bandoleira do fuzil com um movimento lento, milimetricamente calculado para não parecer uma ameaça imediata, mas pronto para o banho de sangue.

O loiro do colete policial estreita os olhos, pesando cada grama do meu equipamento, a minha mancada e o estado deplorável em que Larissa e eu estamos, cobertos de cinzas e sangue de abelha.

— No mundo de antes, talvez fosse de vocês — o loiro responde, a voz cortando como vidro. — Agora, pertencer a quem tem braço para pilotar e gasolina no tanque. E pelo visto... vocês acabaram de sair do inferno ali de dentro.

Larissa aperta o cano da arma na cintura, o corpo tenso ao meu lado, pronta para estourar.

O tabuleiro virou de novo. E a noite promete ser longa.

POV: ..., OFF.

SAGA 1 – O dia depois de amanhã, Concluída