Naquele dia, as uma e tanto da tarde, a família Cabral se encontrava no cemitério de São Nicolau de Tolentino, desolada com a morte recente do tão querido patriarca, o Major Antenório Cabral.
Ali se encontravam irmãos e irmãs, amigos e amigas, filhos e filhas, tios e tias. Todos tomados por um desolador sentimento que só quem perdeu um ente querido sabe como que é...
Todos choravam, lamentando a morte do homem:
"Por que foste logo tu, Antenório?" - dizia a esposa do falecido, chorando desconsoladamente.
O major era bem quisto por todos da família.
Ex-militar da metrópole urbana de São Paulo, foi um dos mais exemplares quando o assunto era o cumprimento de seu ofício.
Aposentou-se do trabalho cedo, com mais ou menos uns trinta e poucos anos por conta de complicações com a saúde, inclusive, sendo esse fator que levou o patriarca antes da hora...
O homem era um bom pai, bom... Pelo menos tentava ser.
Não era lá muito perfeito, mas ensinou direito todos os princípios de uma boa pessoa a seus filhos: respeito, empatia, solenidade, obediência, e, o principal... O Amor.
Major Antenório Cabral nunca foi muito duro, na verdade era um grande brincalhão com todos ao seu redor, claro, que, por vezes, quando dependia da ocasião, assumia uma postura séria, como deveria de ser.
Antenório sempre tentava ser o melhor para todos quando podia, tentava ser um bom ser humano, com falhas? Sim! Muitas, mas era um ser humano.
Bem... O enterro ocorreu.
Ao passar da tarde e ao cair da noite, o cemitério ia esvaziando-se de gente, que deixavam o local com aquele clima de melancolia e amargura do luto.
Quem ficou por lá, mesmo quando já era madrugada e todos já haviam ido para suas respectivas casas, foi a esposa do finado, Maria Candida Cabral, que chorava ao pé da lápide do marido.
Passou incontáveis momentos de seu tempo chorando e chorando. Relembrava dos bons momentos, das brincadeiras do marido, dos momentos românticos, até das pequenas discussões a mulher se lembrava.
Lamentava sem parar, sem quase um respiro, só a dor e a tristeza eram seu único combustível naquele momento:
- "Moça!" - gritou uma voz ao longe.
- "Moça!" - repetiu.
A viúva se virou.
Viu ao longe o coveiro do cemitério.
Era um homem de calças bege de tecido leve meio esfarrapadas, uma camisa de botões branca desbotada amassada, sapatos desgastados e um semblante de alguém que parecia surpreso de ainda haver alguém ali.
Era o coveiro do cemitério.
O homem estava apoiado numa pá.
- "O'que ainda fazes aqui?" - perguntou o coveiro.
- "Lamentando a perda..." - respondeu a viúva.
- "Então quer dizer que ainda velas o finado?" - indagou o coveiro.
- "Gente que sofre sempre tem tempo para isso..." - falou-lhe a viúva.
- "E não te cansa?" - falou o coveiro.
- "Cansa... Mas não consegue-se parar, meu bom homem..." - disse a viúva.
- "Pois bem... Pelo visto o homem era bem quisto pela senhoria" - falou-lhe o coveiro.
- "Por todos da família" - respondeu a viúva.
Um silêncio se fez no ambiente... Nenhum dos dois falou, até que o homem decidiu falar:
- "Sabe... Eu já vi muita gente perder parente nesse mundo..."
A mulher, em um tom de tristeza e um tanto de sarcasmo então responde ao coveiro, com um pequeno sorriso de canto de boca:
- "Trabalhas num cemitério, moço"
- "Pois é... Mas sabe, nesse tempo todo que trabalho aqui aprendi algo importante..." - falou o coveiro.
- "E o'que seria?" - indagou a viúva.
- "Aprendi que as coisas vêm e vão... Até a vida" - respondeu-lhe o coveiro.
- "Lá vem você com essa história..." - disse a viúva.
- "Moça..." - começou o coveiro, mas teve sua fala cortada pela mulher.
- "Não! Eu não quero ouvir sobre essa conversa de 'superar'... Todos sempre falam isso!" - falou a mulher ao coveiro, começando a chorar novamente.
Depois de outro choro, o coveiro ficou um tanto pensativo. Mais uma vez o silêncio se fez, desta vez por um tempo mais longo. Então, o homem cortou-o, falando em tom calmo com a mulher:
- "Então do que a senhora gostaria?" - perguntou o coveiro.
A viúva então parou de chorar por um minuto e pensou, então respondeu ao homem:
- "Posso conversar um pouco sobre meu marido com você? Acho que isso me ajudaria melhor..."
O coveiro então abriu um pequeno sorriso de compreensão e, como um bom anjo da guarda barroco, respondeu para a mulher um simples, mas sincero e significativo:
"Pode..."