Fazia algum tempo que o Sr. Ernesto havia caído numa condição estranha após se mudar para a nova casa junta a esposa.
Não era algo de deixa-lo acamado, porém fazia-o ter sintomas irregulares e, por vezes, fora do natural.
Uma vez, enquanto jantava junto a esposa, jurava ter ouvido o frango falar:
"Aí! Por que me comes?
Garfada? Aí! Ui! Dói! Oh, como dói!" - falava a carne.
Ernesto perturbou-se e não conseguiu mais comer...
Levantou de sua cadeira assombrado:
"Perdi o apetite..." - falou para a esposa.
Outra vez, sentia-se fadigado, cansado e com a cabeça pesada.
Olhou-se no espelho:
Viu uma figura deformada.
Não parecia um monstro, um fantasma, era só... Um ser visivelmente esquisito difícil de dizer o que era.
Depois disso, virava sempre os espelhos para o outro lado, tudo para não ver seu reflexo... Ou, o que quer que fosse que tivesse tomado o lugar dele.
Em uma noite, acordou num sobressalto.
Sentia que algo havia mordido sua coluna...
Era como a mordida das presas de algum aracnídeo ou inseto, porém, multiplicada e aumentada.
Passou a madrugada inteira em dor agonizante.
Não comia direito, não dormia direito, sequer saia de casa. Tinha medo de passar por constrangimentos na rua e ser taxado como um louco e, também, por que temia o que a sua enfermidade podia proporciona-lo no decorrer do dia.
Então ficava isolado.
Via o movimento da rua pela janela ou ficava andando pelos corredores da casa ou no quarto, sentado e encostado no canto da parede, apenas aguardando o próximo inesperado passo da sua calamidade de causa desconhecida.
Em uma tarde, Ernesto recebeu a visita de um médico por insistência da esposa:
- "Querido, por favor, eu lhe pesso... Vamos chamar o doutor..." - dizia a mulher aflita.
- "E para que?! Já fizemos isso antes! Nem um médico sabe o que me aflige..." - respondia ele.
- "Mas vamos pelo menos tentar..." - falava a esposa.
- "Ruth..." - falou Ernesto, suspirando fundo.
- "Ernesto, estou preocupada com você. Por favor, vamos chamar o médico, quem sabe desta vez..." - disse Ruth.
Ernesto suspirou fundo outra vez:
- "Está bem..." - falou ele em tom de uma quase desesperança.
O doutor então veio.
Era um homem de óculos fundo de garrafa, um bigode enorme e uma calvície aparente.
Vestia um jaleco e por baixo dele uma camisa de botões preta e uma gravata verde.
Vestia calças marrons de tecido leve e carregava uma mala.
Seu nome era Ricardo.
- "Boa tarde!" - falou o médico em tom formal ao ser recebido na casa.
- "Boa tarde..." - respondeu Ruth.
- "Então... Onde está o paciente?" - perguntou Ricardo.
- "Está lá no quarto" - respondeu-lhe a mulher.
- "Certo..." - falou o doutor adentrando mais a casa e dirigindo-se até o quarto do casal.
A porta estava fechada. Ricardo então bateu:
- "Sr. Ernesto?..." - perguntou ele.
Bateu outra vez:
- "Sr. Ernesto?... Vim lhe fazer uma visita. Creio que já saiba disso" - falou.
Uma voz então veio de dentro do quarto:
- "Pode entrar..." - fora dita em tom quase melancólico.
Ricardo abriu a porta e adentrou o local.
Ernesto estava, como de costume, sentado encostado no canto da parede.
O médico se aproximou dele e ajoelhou-se perto do paciente.
Ruth entrou no recinto, apenas observando.
- "A sua esposa informou-me que o senhor sente-se mal. Poderia me dizer o que vem sentindo?" - disse Ricardo.
- "Bem..." - começou Ernesto.
O homem então narrou o que vinha lhe acontecendo ultimamente, falou dos estranhos sintomas quase que surreais e fora do padrão.
O médico o olhou atentamente sem dizer nada.
Então abriu a mala e puxou de lá um livro.
Começou a folhear o objeto...
Depois fechou.
Ricardo suspirou fundou:
- "É... De fato algo fora do comum..." - disse ele.
- "Tão fora do comum que não encontrei nada referente a isso aqui..." - continuou o doutor, mostrando o livro para Ernesto e Ruth.
Ernesto então falou tristonhamente:
- "Eu sabia que não iria adiantar de nada..."
Ricardo abriu a boca:
- "Já pensou em ser algo destas coisas 'paranormais'?"
Ruth e Ernesto olharam para o médico, cada qual com um semblante de julgamento:
- "Um médico falando sobre o paranormal?" - disse Ernesto.
- "É a única explicação... Se nem a ciência ou Freud explica, então talvez seja mesmo coisa sobrenatural" - respondeu Ricardo.
- "Mas que suposição ridícula, doutor..." - falou Ruth.
- "Bem... Quem sabe... Sinto muito senhor Ernesto e senhora Ruth, mas não posso ajudar neste caso" - disse Ricardo, se levantando do chão.
- "Mas que droga!" - disse Ernesto indignado, batendo na parede com a mão fechada.
Nesse momento, algo lhe ocorrera...
Como se fosse feita de geleia, a mão de Ernesto grudou-se na parede.
Ele não disse nada, apenas olhou horrorizado.
Repentinamente, o resto de seu corpo que estava encostado na parede também grudou-se a ela.
Estava ele preso na parede.
O médico, a esposa, e o próprio paciente desesperam-se diante daquela cena pavorosa.
Ernesto começou então, aos poucos, a derreter e quando se viu, virou uma massaroca no chão com algumas partes grudadas na parede do quarto.
Ricardo e Ruth encaravam tudo...
Fitavam com um misto de surpresa e horror.
Então, a massa que antes era um homem começou a se mover e dela saltaram duas pequenas gosminhas.
Que ratejaram até os pés de Ruth e Ricardo e, com rapidez, subiram até suas cabeças e entraram dentro de seus ouvidos, alojando-se em seus cérebros.
Os dois começaram a sentir uma forte dor de cabeça que fazia eles se contorcerem.
Então, pararam e ficaram imóveis.
Os dois derreteram e também tornaram figuras pastosas no chão.
As três massas então alojaram-se nas paredes da casa como fungos e ali ficaram.
Deu-se falta de Ernesto, Ruth e Ricardo, porém, ninguém sabia ao certo o que tinha acontecido com os três, só se sabe que a última vez que foram vistos foi na casa de Ruth e Ernesto.
Buscas então foram feitas no local, porém nada foi encontrado, tudo estava estranhamente no lugar. A única coisa anormal foram algumas manchas encontradas nas paredes do quarto do casal.
Com o tempo, sem ter notícias de nada ou ninguém, o lugar foi colocado a venda.
Ainda haviam buscas pelos desaparecidos.
Cartazes eram colocados nos postes nas ruas e mais buscas eram feitas, mas nada... Era como se aquelas pessoas tivessem evaporado da cidade. As pessoas não sabiam do macabro e bisonho acontecimento que sucedera com os três na tarde da visita de Ricardo ao casal e, estranhamente, ninguém tinha escutado nada acontecer dentro da casa, como se tudo tivesse sido abafado.
E, de forma bizarra, todos os compradores da casa que moravam por um tempo nela acabavam sendo internadas nos hospícios com os mesmos sintomas que Ernesto apresentara, como uma espécie de loucura crônica, ao residirem no lugar.
As manchas nas paredes do quarto de casal continuavam lá, sem que soubessem quem eram.
E a casa, continuava intacta.
Continuava, sem insistência, a existir.