Sempre que passava por ela eu não deixava de prestar atenção naquela belezura de estátua.
Era uma de bronze puro, média aproximadamente uns 3 à 4 metros de altura. Ficava num largo pedestal quadrado pintado de preto que tinha bordas verticais e horizontais coloridas com uma tinta dourada.
O monumento era um elegante homem montado em um formoso cavalo.
Vestia um uniforme militar e enpunhava uma espada na mão direita e com a esquerda segurava as rédeas do animal.
O cavalo era corpulento e possuía uma longa crina jogada ao lado esquerdo de seu pescoço.
O equino estava levantado com as patas traseiras, fazendo oque a linguagem do bom e velho brasileiro chama de "pinote", erguendo-se em pose heróica como uma típico ser que aparece nos filmes de faroeste junto aos cowboys valentes ou nos contos de fadas sendo a montaria do príncipe encantado que salvará a doce princesa do dragão feroz e malvado.
Todos esses elementos davam a aquele monumento ar de imponência e respeito.
Não pude deixar de sentir uma grande admiração:
"Quem me dera ser como esta estátua..." - pensei ao fita-la e vê-la com estes singelos olhos que um dia a terra há de comer.
Toda vez que eu passava pelo centro sempre lançava um longo olhar para a estátua e depois passava o resto do dia pensando na mesma...
Trabalho?
Almoço?
Mulheres?
Sair com os camaradas?
Jantar?
Não! Eu só tinha mente para uma coisa em específico - aquela estátua.
Almejava como criança ser um grande herói montado em um cavalo e, assim como a estátua, estar no centro de tudo e ser visto por milhões de olhares de donas de casa, choferes de táxi, cidadães de firma, vendedores,
Idosos, crianças, adolescentes... Queria que toda a gente me conhece-se.
Por muito tempo, tive sonhos onde eu estava no lugar da estátua.
Era assim: eu estava sempre em um pedestal, montando um belíssimo cavalo branco e vestia um belo uniforme passado e segurava uma brilhante espada em minha mão e a gente de todo o mundo vinha vir me ver.
Dos Estados Unidos à China.
Da Inglaterra ao Nepal.
Da Arábia à República Tcheca...
Todos me amavam:
"Veja como é belo!"
"É majestoso!"
"É um verdadeiro símbolo!"
Era o que todos falavam no meu sonho.
Minha maior felicidade era deitar a cabeça no travesseiro e imaginar ser... Como dizem todos: um herói.
Ficava triste quando acordava de manhã e todas aquelas pessoas em reverência a mim não estavam mais lá...
Sem cavalo... Sem uniforme passado...
Ai, minha nossa! Uma lástima!
Uma coisa horrível!
Eu era obrigado a passar o resto do dia na mesmice de sempre:
Ir ao emprego; comer arroz, feijão e carne, as vezes com uma saladinha ao acompanhamento; frequentar o bar da esquina no fim de semana e beber com os bons companheiros;
Ir ao mercado, correr no parque aos Sábados e... AH! Ora, tudo isso e outras coisas!
Eu estava cansado...
Eu queria algo novo...
Queria ser um novo eu.
Um eu digno de admiração e comoção geral.
Então, um dia, tomei a decisão - eu vou ser como a estátua.
Lá fui eu a costureira:
- "Madame, poderia confeccionar-me um uniforme militar?" - perguntei-lhe.
- "Posso, meu filho, mas, que mal lhe pergunte, para que?" - indagou a mulher.
- "Serei o novo Napoleão Bonaparte, senhora!" - respodi-lhe.
Depois que o uniforme ficou pronto, precisava de um cavalo e uma espada, então fui até uma loja de brinquedos:
- "Com licença, gostaria de comprar uma espadinha e um cavalinho de brinquedo" - disse eu ao atendente.
- "Claro! Para seu filho, presumo" - falou o atendente.
- "Não" - respondi eu.
- "Então para quem?" - perguntou o atendente, surpreso e pensativo com a minha resposta.
- "Para mim, moço, serei o novo Napoleão Bonaparte!"
Consegui então um cavalo e uma espada, ambos de madeira bem bonitinhos.
Quando consegui tudo, fui para minha casa, vesti o uniforme que a costureira fez, enpunhei a espada em minhas mãos e montei em meu cavalo.
Sai pela rua galopando com meu pangaré:
"Abrão alas! O novo Napoleão está passando!" - gritava eu às pessoas.
Todos me olhavam na rua, porém não parecia um olhar de respeito...
Era como se me julgassem profundamente com ar de estranheza:
"Ué?..." - pensei.
Achei que todos me olhariam de forma diferente, como olhariam um Aquiles ou um Rei Arthur, mas aparentemente não foi ao caso.
Mesmo assim, segui meu rumo sem perder minha pose de cavaleiro heróico:
"Vá, vá, vá!
O grande cavaleiro está por passar!" - dizia eu, fazendo as pessoas na rua abrirem caminho.
Me dirigi até a praça central, onde estava a estátua.
Fiquei do lado do monumento, ali, exigi reverência:
"Atenção povo!
Agora não é só mais uma estátua para quem vocês devem prestar respeito, mas a mim!
O novo Napoleão!
Quero que todos me saúdem!
Vamos lá!" - disse a todos da praça enquanto girava em círculos e segurava a espada para o alto.
Todos ali me olhavam estranho:
"Vamos!
Saúdem!" - gritei.
Nesse momento, a estátua virou a cabeça e falou comigo:
- "O que pensa que está fazendo?!" - disse ela.
- "Apenas tentando ser como você" - falei eu, em respeito e reverência.
- "Bobagem besta, nunca será como eu, nem és de bronze!" - respondeu ela.
- "Serei uma estátua de carne, senhor!
Viva como as manhãs de verão!" - disse-lhe.
- "Hahaha, que coisa ridícula!" - falou ela, debochando.
- "Ora, sua!" - falei, arremessando a espada de madeira na estátua.
- "Não podes me machucar, sou de bronze, hahaha!" - respondeu-me, debochando ainda mais.
Então parei de andar em círculos, desci de meu cavalo, subi ao pedestal e avancei no pescoço da estátua.
Tentei esganala!
Porém sem muito êxito, ela continua a rir e a zombar de mim:
- "Hahaha, homenzinho fraco! Hahaha" - disse ela.
Neste momento vi minha espada de madeira no chão da praça, a mesma que havia jogado na estátua momentos antes.
Desci do pedestal, peguei a espada e subi novamente. Dessa vez, comecei a desferir vários golpes com a espada na estátua:
- "Eu lhe admirava!
Como pode zombar assim de mim!" - falei furiosamente, batendo no monumento.
Comecei a xingar a estátua e ela fazia o mesmo, discutiamos de forma violenta.
Eu sempre batendo nela e ela nunca reagindo.
Ao longe todos observavam minha briga com a estátua:
- "Ele está louco?" - era o que alguns se perguntavam.
- "Deve estar, está até brigando com uma estátua!" - diziam.
Não demorou muito para que chamassem os guardas.
Os homens me tiraram do pedestal:
- "Me larguem!
Ela estava debochando de mim! Eu tenho meus direitos!" - falei irritado, tentando me soltar das mãos dos guardas.
Levaram-me preso e da cadeia madram-me diretamente ao hospício.
Me amarraram com camisa de força e me deixaram em um quarto.
A porta tinha uma pequena janelinha com duas grades, as quais eu via os médicos e enfermeiros passando de lá pra cá.
Em um determinado momento, dois médicos pararam em frente a porta da minha sala e me observaram:
- "E esse aí?" - perguntou um doutor de bigode e óculos redondo.
- "Estava bringando com uma estátua na praça central" - respondeu o outro doutor, um homem de barba volumosa e cabelo crespo curto.
- "Ele disse que era o novo Napoleão" - continuou o barbado.
- "Outro desses..." - disse o de bigode.
Nesse momento, vendo a conversa entre os médicos eu falei:
- "Ei! Tirem-me daqui!
Eu sou o novo Napoleão!" - disse eu indignado.
- "Claro que é, filho..." - falou o doutor de bigode.
Os dois médicos então saíram, ao longe ouvi um deles falar:
- "Mais um caso destes que se acha Napoleão..."
Agora estou aqui,
Almejei tanto ser como a estátua da praça central e acabei num hospício.
Aquele monumento miserável continua lá...
Admirei tanto e zombou de mim...
Quando eu sair daqui eu juro que vou acabar com ele e tomarei o seu lugar!
Ele vai ver...
Eu não sou louco!
Eu... Eu...
EU SOU O NOVO NAPOLEÃO BONAPARTE!!!