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A engenharia espacial nos ensina que o universo é implacável, mas lógico. Se um propulsor falha, há um cálculo de empuxo que explica o desastre. Se a pressurização cede, a mecânica dos fluidos dita a velocidade do colapso. Passei a vida me preparando para o vácuo, para o frio e para a matemática da morte no espaço. O que nenhum manual do centro de treinamento ensina é o que fazer quando a própria realidade decide que você é uma equação errada que precisa ser apagada.
Eu me chamo Henry Simons. Era para ser o momento de maior orgulho da minha vida.
A missão Artemis tinha sido um sucesso cirúrgico. Durante meses de simulações exaustivas, dividindo cafés frios de madrugada e o confinamento sufocante das instalações de teste, eu, Leo Martins e Lucas Vance tínhamos deixado de ser apenas uma equipe para nos tornarmos uma família. Eu cuidava da navegação; Leo, geólogo experiente, administrava as coletas; e Lucas... Lucas era simplesmente o melhor engenheiro e piloto de módulo que a agência já tinha formado.
Os vinte e oito dias em órbita e na superfície lunar passaram como um relógio bem ajustado. Coletamos quilos de amostras, concluímos os experimentos e iniciamos a trajetória de retorno.
O imprevisto aconteceu a poucas horas da reentrada.
Quando o Sol havia emitido uma onda fortissima de plasma, ela atingiu o casco da nave, ouvimos um estalo abafado, seco, como uma lâmpada gigante queimando no cômodo ao lado. Os painéis piscaram por uma fração de segundo. Checamos instantaneamente a integridade da estrutura, a telemetria, os níveis de oxigênio. Tudo perfeito. Nenhum sensor registrou anomalia. Rimos de alívio, trancamos os recipientes de pedras lunares no compartimento do laboratório de bordo e seguimos viagem.
Aterrissamos sob o zumbido mecânico da base de operações e os aplausos contidos da equipe de solo. Entregamos as amostras ao laboratório de análise primária e fomos direto para a sala de descanso dos astronautas para respirar antes da coletiva de imprensa.
O ar da sala era frio, cortado pelo zumbido contínuo do ar-condicionado e tomado pelo cheiro forte de café recém-passado. Puxei três copos de papel, enchi-os até a borda e me sentei à mesa redonda ao lado de Leo. Segundos depois, a porta deslizante se abriu e Lucas entrou.
Ele não parecia o homem que pilotou nosso módulo de reentrada com a precisão de um cirurgião. Sua pele estava acinzentada, o suor frio escorria pelo seu rosto e seus lábios tremiam tanto que ele mal conseguia puxar o ar.
— Henry... — a voz dele saiu tremula, como se ele havia visto a morte. — Eu... acho que deixei de existir.
— Do que você tá falando, cara? O excesso de gravidade derreteu seu cérebro? — brinquei, empurrando um dos copos de café na direção dele.
Lucas sequer olhou para o café. Ele ergueu o celular com a mão trêmula.
— Eu liguei para a minha mãe. Disse que a gente tinha pousado, que estava tudo bem e que eu passaria lá no fim de semana. Ela... ela perguntou quem estava falando. Eu disse que era o Lucas. O filho dela. Ela começou a chorar... disse que aquilo era uma brincadeira doentia e que nunca teve um filho. Ela desligou na minha cara, Henry.
Antes que eu ou Leo pudéssemos raciocinar, o sinal sonoro do televisor fixado na parede apitou, cortando a sala com a vinheta de um boletim urgente.
A repórter apareceu ao vivo, posicionada exatamente em frente ao hangar onde tínhamos desembarcado há menos de uma hora:
"...retornam em segurança após vinte e oito dias no espaço. A comitiva da agência espacial acabou de confirmar o sucesso absoluto do pouso da missão Artemis. Na tela, vocês veem a imagem oficial dos dois astronautas que fizeram história hoje: Henry Silva e Leo Martins."
Olhei fixamente para o monitor. A fotografia oficial de divulgação preencheu a tela. Lá estávamos eu e Leo, ombro a ombro, sorrindo com os trajes espaciais. Mas o espaço entre nós dois — o lugar exato onde Lucas estava no dia em que a foto foi tirada — simplesmente não existia. A foto tinha sido tirada apenas com nós dois.
— O quê... o que é isso? — Leo se levantou em um pulo. — Cadê você na foto, Lucas?
Lucas permaneceu imóvel. Ele levou a mão ao estômago, dobrando o corpo para a frente.
— Eu tô... tô passando muito mal. Minha cabeça... parece que meu cérebro está sendo perfurado.
— Vamos para a enfermaria agora — Leo disse, segurando Lucas pelo braço.
Os dois saíram pelo corredor. Fiquei parado na porta por alguns segundos, ouvindo o som dos passos pesados das botas até desaparecerem. Depois, sobrou apenas o zumbido mecânico do ar-condicionado.
Minutos depois, a porta se abriu novamente. Leo entrou. Sozinho.
— Cadê o Lucas? Como ele tá? — perguntei, a voz subindo um tom.
Leo franziu a sombrancelha, realizou uma expressão genuinamente confusa.
— Lucas? Que Lucas, Henry?
O sangue fugiu do meu rosto. A raiva e o pavor se misturaram num estalo dentro do meu peito.
— Para de tirar uma com a minha cara, Leo! — gritei, desferindo um soco na mesa de centro que fez os copos balançarem. — O Lucas! O nosso piloto! O cara que acabou de sair daqui segurando no seu braço passando mal! Para com essa palhaçada!
Leo deu dois passos para trás, me olhando como se eu tivesse enlouquecido.
— Henry, você tá surtando! Que piloto? Fomos só nós dois! Eu saí pra pegar uma garrafa de água no corredor porque você tava esquisito!
— ELE ESTAVA AQUI! — esbravejei, avançando na direção dele e segurando-o pelos ombros. — Nós três fomos pra Lua! Nós três voltamos!
No instante em que segurei o Leo, ele travou. Uma palidez mortal cobriu o rosto dele em questão de segundos. A garrafa de água escapou da sua mão e caiu no chão.
— Henry... — Leo murmurou, levando as mãos à cabeça, cambaleando até a cadeira. — Minha cabeça... tá doendo muito. Que dor é essa? Eu não tô nada bem...
Ele puxou o celular do bolso com dedos trêmulos e discou um número no viva-voz.
— Pai... pai? — Leo implorou ao telefone, a voz embargada. — Pai, sou eu, o Leo. Cheguei da missão... me ajuda, o Henry tá surtando e eu tô passando muito mal...
A voz do outro lado da linha veio fria, cortando o alto-falante:
"Desculpe... quem está falando? Quem é Leo?"
— Sou eu, pai! O Leo! O seu filho! O astronauta! — Leo gritava, lágrimas de desespero escorrendo pelo rosto acinzentado.
"Olha aqui, eu não sei quem é você e nem como conseguiu esse número, mas isso é uma falta de respeito enorme. Eu nunca tive filhos. Não ligue mais para cá."
A chamada caiu com um bip seco. Leo começou a hiperventilar, cobrindo o rosto.
— Fica aqui! Não se mexe! — falei para ele enquanto o pavor estava tomando conta de mim. — Eu vou buscar a equipe médica! Vou trazer alguém aqui agora!
Corri pelo corredor, dobrei a esquina e arrastei dois paramédicos às pressas. Quando escancarei a porta da sala de descanso de volta... a sala estava vazia. A cadeira onde Leo estava sentado continuava lá, mas não havia ninguém. A garrafa caída no chão sumira. Não havia uma gota d'água no piso.
— Onde está o paciente, Simons? — o médico perguntou.
— Ele tava aqui! O Leo Martins! Ele tava sentado bem ali!
— Henry... você fez essa missão sozinho. Não existe nenhum Leo Martins na agência.
Eu não conseguia entender, será que eu estava enlouquecendo? Será que algo nessa missão afetou meu cérebro?
Eu saí em disparada. Ignorei os gritos, atravessei o estacionamento e entrei no carro. Eu precisava de um pilar. De alguém fora da agência, alguém que ainda soubesse que eu existia.
Maya. Minha namorada.
Corri até o prédio dela, subindo os degraus de dois em dois. Cheguei ao corredor do andar dela, mas, antes mesmo de erguer a mão para bater na porta de madeira, comecei a sentir um enjoo muito forte.
Minha visão começou a ficar turva e sentia como se agulhas estivessem perfurando o meu cérebro.
Despenquei para a frente, o corpo pesado demais para ser sustentado pelas pernas. Meu ombro colidiu com a porta por não me aguentar em pé.
Um segundo depois, o trinco girou. A porta se abriu e eu caí para a frente.
Mãos macias e ágeis me seguraram antes que a minha cabeça atingisse o piso do corredor.
— Ei! Meu Deus! Segura! — a voz dela ecoou, alarmada.
Maya me envolveu com os braços, fazendo força para sustentar meu peso, puxando-me para dentro do apartamento. Sentir o toque dela, o calor do seu corpo e ouvir sua voz foi como se eu estivesse finalmente fora daquele pesadelo. Apoiei a cabeça contra o ombro dela, respirando fundo, lágrimas involuntárias de alívio queimando meus olhos.
— Maya! Maya, graças a Deus... você tá aqui...
Maya estancou. O corpo dela ficou rígido sob as minhas mãos.
Ela olhou nos meus olhos. Não havia amor na sua expressão. Havia apenas um olhar confuso e de medo, o pavor instintivo de estar segurando um estranho quase desacordado na própria porta.
A respiração dela estava acelerada. Ela olhou para a minha farda de astronauta, depois para o meu rosto banhado em suor frio.
— Como... como você sabe o meu nome? — ela perguntou, a voz trêmula, dando um passo para trás enquanto segurava a porta. — Você tá bem? Quem é você?
O ar desapareceu completamente dos meus pulmões. O alívio ruiu, dando lugar a um abismo gelado e sem fundo.
Olhei para a sala dela. Na mesa de centro, onde antes havia uma foto nossa sorrindo em uma praia no último verão, agora havia apenas um porta-retratos com a foto dela sozinha. Na parede, a televisão ligada no mudo mostrava o boletim urgente. A imagem que preenchia a tela era a do módulo lunar. Na legenda que corria no rodapé, lia-se: "Missão Artemis: a primeira missão automatizada"
Não havia astronautas. Nunca houve.
Levantei os olhos para ela uma última vez.
Minha voz saiu trêmula, pois acabei de perceber meu destino:
— Eu... eu acho que deixei de existir.
Nota do chat 10