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Aquele era o primeiro Natal em que Lucas não sentia mais brilho nenhum nas luzes coloridas. Havia algo morto naquelas lâmpadas, como se tivessem queimado não pelo tempo, mas por luto. Aos dez anos, ele sempre esperava acordado para tentar ver Papai Noel descer pela chaminé — mas esse ano… algo estava errado. Não era apenas tristeza; era como se o mundo tivesse sido esvaziado por dentro, deixado para apodrecer em silêncio.
E foi culpa da irmã.
— Imagina só, Lucas, um velho gordo entrando pela chaminé? Isso é invasão. É ridículo — ela disse rindo, com aquele veneno de quem não sabe o peso das próprias palavras. — Mas ele sempre deixa meus presentes… — Você pede uma coisa e ganha outra. Isso já te diz tudo. São mamãe e papai. Papai Noel não existe.
A frase não apenas o feriu. Ela arrancou algo vivo de dentro dele. Algo que fazia parte do que ele era.
Por um instante, Lucas sentiu como se tivesse sido esvaziado — como um brinquedo quebrado, como um boneco que alguém abriu pelas costuras.
A mãe lançou um olhar furioso, mas era tarde demais. O mundo ao redor pareceu perder cor, profundidade, textura. Lucas caiu para dentro de si mesmo, como se despencasse sem corpo. Nada fazia som.
Foram ao centro comprar decorações. As pessoas pareciam felizes demais, iluminadas demais — quase artificiais, como bonecos animados por cordas invisíveis. As músicas natalinas eram lentas, arrastadas, como se o disco estivesse derretendo.
Então viram a loja.
Uma porta estreita, madeira escura, como seimada por fogo antigo. Uma placa pendia torta, escrita apenas: Guirlandas.
A loja parecia existir num lugar onde o tempo não encostava. Nem poeira. Nem vento. Nada.
Lá dentro, um casal de idosos sorria. Um sorriso aberto demais, humano de menos.
A velha movia-se sem som, como se os ossos se dobrassem de forma errada para sustentá-la. Sua pele enrugada lembrava pergaminho velho — o tipo usado para escrever pactos. O velho tinha barba branca… mas encharcada. Com manchas secas, escuras, endurecidas — como algo coagulado e antigo. Os olhos deles brilhavam como lâminas molhadas.
E só vendiam guirlandas.
Guirlandas artesanais, trançadas com galhos retorcidos… e fibras que não poderiam ser vegetais. Algumas finas como cabelo humano. Outras grossas como tendões. A mãe achou a mais bonita.
— É perfeita. — Ah, minha querida — disse a velha — essa deixará sua casa… acolhedora.
A voz dela tinha cheiro. Cheiro de madeira molhada. E de algo mais… ferroso.
Lucas olhou para a guirlanda. E sentiu um movimento. Como se algo dentro dela pulsasse. Um músculo. Um coração minúsculo batendo devagar.
Um sopro morno passou pelo ouvido dele.
Morno demais. Úmido demais. Como se alguém tivesse encostado a boca ali.
À noite, o pai sugeriu:
— Lucas, por que não escreve sua cartinha?
— Mas pai… eu já sei. A mana contou.
A mãe virou tão rápido que a cadeira arrastou.
— Por que você fez isso?! — Porque vocês mentem pra ele desde sempre! — ela gritou. — O mundo é cheio de mentiras! Papai Noel é uma farsa! O Coelhinho da Páscoa também!
Cada palavra era uma martelada no peito de Lucas. Como se ela abrisse suas costelas uma por uma.
Ele não chorou de tristeza. Chorou de vazio.
O pai a mandou para o quarto. As luzes da casa tremeram — não como lâmpadas falhando, mas como se algo tivesse passado por dentro delas.
O jantar acabou silencioso. O ar estava pesado. Quente demais para dezembro. Como se a casa respirasse.
À meia-noite, a casa dormia. Ou fingia dormir.
A irmã descia as escadas em silêncio, pronta para fugir para uma festa no cemitério — ironicamente, o lugar mais seguro que ela poderia estar.
No corredor, ela parou.
Um cheiro doce e quente invadia o ar — biscoitos de gengibre recém-saídos do forno, com aquele perfume que deveria ser reconfortante… mas ali parecia enjoativo, denso, como se estivesse cobrindo algo podre.
Na cozinha, havia um prato cheio. O vapor subia devagar, como respiração.
— Depois de tudo, eles ainda alimentam essa mentira? — ela murmurou, rindo.
Pegou um biscoito e mordeu.
Algo estourou. Quente. Fibroso. Metálico.
Com o celular, ela abriu outro.
A massa estava recheada com uma pasta espessa… escura… e fios de algo que não era glacê — era mais grosso, mais elástico. Fios avermelhados. Como músculos finos.
Um cheiro subiu. Ferro. Carne. Sangue quente.
Ela engoliu sem querer e sentiu um pedaço duro raspando sua garganta.
Um fragmento de dente. Humano.
O grito morreu na boca dela quando duas sombras se moveram.
A luz do celular revelou:
O velho — vestido de Papai Noel, mas com o rosto deslocado do crânio, como se a pele fosse uma máscara frouxa. A barba pingava gotas grossas, escuras, quase pretas.
A velha — sorrindo com dentes longos, finos, curvados como garras de animal marinho. Seus olhos eram duas bolhas leitosas — sem pupila, sem alma.
Ambos seguravam sacos enormes, vivos, convulsionando. Dentro deles, algo arranhava. Rasgava. Tentava sair. E gemia.
Lentamente.
Quando ela virou para correr, viu Lucas no topo da escada.
O sorriso dele era doce. Doce demais. E completamente errado.
— Você disse que Papai Noel não existe… — ele sussurrou. — Mas ele existe sim. Só que não para quem deixa de acreditar.
O velho abriu a boca. A mandíbula deslocou com um estalo seco. E a risada saiu.
Profunda. Molhada. Cheia de vozes.
Ho… ho… ho…
Antes que ela pudesse girar o corpo, a velha abriu o saco. E a escuridão engoliu tudo.
Arquivo confidencial — Relatório do Investigador Tiago Duarte
25 de dezembro.
Nenhum corpo encontrado. Apenas arrastos de sangue levados até as lareiras — como se os corpos tivessem sido puxados para cima, e não para baixo.
As crianças sobreviventes — todas entre 4 e 10 anos — repetem:
Papai Noel levou quem não acreditava.
Dizem que ele saiu das guirlandas. E que os sacos não eram de pano — mas de pele. Pele costurada. Ainda quente.
O cheiro de gengibre impregnava tudo. E havia sangue nos cabelos de cada criança. Sangue fresco.
A loja está abandonada. Mas encontramos marcas nas paredes. Arranhões. Unhas. E algo escrito com sangue já seco:
Deixem a magia morrer e nós voltamos.
Entrada pessoal — 24 de dezembro, 23h40
Minha esposa trouxe uma guirlanda estranha. Minha filha adorou. Eu… não sei. Ela parece pulsar na parede.
O cheiro está forte agora. Gengibre queimado. E algo por baixo… um cheiro quente, salgado.
Ouvi passos na varanda. Pesados. E o som abafado de sacolas arrastando.
A maçaneta está se movendo.
Vou verificar.
Se eu não voltar —
Feliz Natal.
E que vocês nunca deixem a magia morrer.