Há algo atrás da porta.

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Meus pais sempre me disseram para nunca sair para fora de casa, depois do pôr do sol. O que, em um certo sentido, no nosso bairro, parecia ser uma regra que todos seguiam á risca.

É claro, ninguém nunca falava diretamente sobre.

Mas você podia ver que ninguém ficava fora de casa pós 19h. Os vizinhos se recolhiam, as cortinas fechavam. E á partir dali, nenhum piu se ouvia.

Eu nunca entendi muito bem o porquê diabos isso era necessário.

Sempre interpretei como uma daquelas "superstições" estúpidas de velhos, passadas de geração em geração.

Em anos, houve apenas uma noite em que eu decidi sair pós pôr do sol, para pegar um ar.

Mas, no entanto...fui surpreendido pela a minha mãe, que, sem dizer uma única palavra, rapidamente me pegou pelo o braço e me arrastou para dentro de casa.

Quando ela fechou a porta, começou...

Não gritando, mas...quase sussurrando, daquele jeito que alguém desesperado, mas que não pode falar alto, o faz, quando quer te convencer que fez algo errado.

Meu pai veio e apenas pôs a mão sobre a própria testa, olhando á mim com indignação. Ele apenas balançou a cabeça negativamente e deu de ombros.

...

O ocorrido correu por minha mente durante todo esse tempo. Eu pesquisei na internet, perguntei a colegas de classe se os pais deles, ou a vizinhança, também eram assim. Nada.

Então, sem respostas...bem, tive eu mesmo que, na prática, procurar as minhas.

...

Bateu 19h15 e eu ainda estava fora de casa. Meus pais provavelmente juravam que eu estava em meu quarto, mas eu saí de fininho pela a porta dos fundos.

Se nada acontecesse, ao menos eu provaria que tudo o que eles pensassem...independente do que fosse, era infantil e sem sentido.

Então, o sol já estava quase totalmente fora do céu...o horizonte preenchido por rosa leve e o azul desvanecente, as nuvens indo embora...algumas estrelas e um pouco da lua já surgindo, lá em cima.

19h20...nada.

Os vizinhos já fecharam tudo. Não se vê nem os cães, na rua. Mas tudo normal.

Ouço o sino distante de uma igreja próxima, a Missa irá começar.

Soaria assustador...talvez para uma criança. Se não fosse ridículo.

Ainda assim, o sentimento de expectativa e curiosidade, e aquele leve receio de antes, não me deixavam em paz...

Os pássaros cruzaram o céu...19h25. Tudo praticamente escuro.

As luzes das outras casas, acenderam aos poucos. A minha, bem...não.

Eu estranhei, afinal, meus pais estavam lá dentro. E eles sempre ligam as luzes.

Por um momento, o pensamento de que "algo realmente aconteceu", se passou pela minha cabeça. Mas eu apenas a balancei em pequenos risos nervosos e permaneci ali...

Mas, ah...quem derá isso tivesse continuado assim. Logo o conforto, o sussurro aconchegante da noite, deu lugar a uma sensação de perigo iminente.

Primal, Instintivo, íntimo...

Aquilo ficou mais e mais evidente, quase físico...como se estivesse se aproximando de mim.

Quando não suportei mais a tensão, o horror tomou conta.

Eu então, pressionado pela a sensação atemorizante que por mim corria, girei rapidamente de volta, direção á minha casa...

Eu cruzei o pequeno corredor de concreto que leva á porta atrás.

E, enquanto eu fazia...isso se aproximou rapidamente, como se...como se algo tivesse subitamente se esgueirado pela as minhas costas.

Senti como se tivesse envolvido meu corpo por um momento, e então tivesse deixado, quando abri a porta e entrei em casa.

Até ali, eu já estava suando frio...a tensão se espalhou pelo o meu corpo, a ansiedade e o medo dispararam...eu me sentia congelado dentro de mim mesmo.

E, ainda por cima, a maldita casa está escura.

O combo completo para um delírio de um jovem, por conta de uma superstição estúpida, mas que agora parecia mais e mais...terrível.

Paradoxalmente próxima e distante. E eu nunca odiei tanto ter desobedecido meus pais. Mas mesmo até ali, eu não podia evitar.

...

Eu dei alguns passos direção ao corredor que fica entre a sala, as escadas, a entrada e a cozinha...olhei ao redor, me esgueirei pela a parede e espiei a cozinha...

Nada.

Nem sinal ou rastro de ninguém.

Mas eu não chamaria pelo os meus pais. Não depois do que senti, não nessas condições.

A sensação de antes estava diminuindo, mas o fato de só eu, aparentemente, estar ali, com a casa mergulhada na mais profunda escuridão...mexeu comigo de um modo que nada o fez, antes.

Eu respirei fundo, reuni uma coragem que não sei de onde veio, e prossegui pelo o corredor...olhei para a sala de estar.

Nada.

Eu encostei as costas na parede e dei um suspiro longo...

O problema agora seria subir as benditas escadas.

E, ó, Deus...quem me derá esse tivesse sido meu único problema!

A porta da saída...a maldita porta da saída, se abriu.

Como se alguém tivesse girado a maçaneta por fora e aberto...lento, deliberado, quase proposital demais, como se quisesse testar minha reação.

"Aquilo", voltou, de novo...

Agora mais forte, vindo de todos os cantos...se aproximando como um prelúdio sinistro direção á mim.

Então, eu não perdi tempo: eu dei um salto direção ás escadas, e corri o mais rápido que pude direção ao quarto.

O pânico finalmente veio, e eu sentia que desmaiaria á qualquer momento.

Cada degrau durou uma eternidade.

Eu fechei a porta do quarto com um baque forte e a tranquei.

...

E essa foi definitivamente a noite mais longa de minha vida.

Eram cerca de meia noite. Eu não ouvi um único som de passos, conversas, sombras por debaixo da porta, de meus pais.

E após o evento, eu só consegui ficar lá, internamente paralisado após a onda de pânico e horror passar.

Eu estava seriamente pensando em saltar do quarto, correr com todas as minhas forças direção á porta da frente, e sair para pedir ajuda aos vizinhos.

Mas o medo era demais para eu sequer cogitar seriamente tirar os pés para fora.

Eu não teria o menor problema de passar a noite em claro, por pior que fosse.

E eu preferiria que tivesse sido assim...

...

Bateu 1h30 no relógio, e foi quando pela a primeira vez, algo factível aconteceu... A sensação não voltou. Mas algo veio: uma presença, uma simples maldita presença atrás da porta.

De começo, achei que podia ser algum de meus pais. Mas bastou o fato de as luzes não terem acendido, para eu saber que isso provavelmente não era verdade.

E essa droga ficou lá...

Ficou lá, e não se engane: eu sabia que estava.

Atrás daquela maldita porta.

E o pânico voltou. Borbulhando, ameaçando implodir.

2:15, por que isso não vai embora?

Meu Deus...eu só queria que isso acabasse. Que pesadelo, que pesadelo!

Isso não fez um único som desde que chegou. Ao invés disso, ficou lá...parado, como se estivesse aguardando algo ou buscando alguém.

Não havia sombras embaixo da porta, nem respiração ou sons...mas estava lá. Não havia passos. Não arranhou a porta ou bateu.

Mas eu sentia...como se tentasse ouvir qualquer som mínimo que eu fizesse. E até 4:49 foi assim.

Um tormento sem fim de algo que eu não fazia idéia do que poderia ser.

Eu não movi um músculo até esse horário, que foi quando senti que desapareceu do nada, sem deixar rastros...e eu pude respirar aliviado.

...

A manhã veio e, com ela, adivinhe? Tudo normal.

Meus pais surgiram, tomando café da manhã, se preparando para o dia e o trabalho.

Eu não comentei com eles sobre o que aconteceu, nem eles disseram nada que pudesse indicar alguma preocupação sobre a noite anterior.

Eu fiquei encucado com isso, o dia todo.

Eu mal consegui comer ou conversar com qualquer um, lembrando do que aconteceu na noite passada...a sensação, a pressão nas costas, a escuridão noturna, a porta se abrindo, a maldita presença de madrugada...

E eu ainda estava apavorado que algo acontecesse de novo...

...

A noite chegou, de novo. E com ela, o medo. Possivelmente o medo mais profundo que já senti em toda a minha vida...

Não o suficiente para me fazer explodir ou gritar, embora eu quisesse o fazer desde ontem após o pôr do sol.

Mas...o suficiente para me afundar em mim mesmo.

Encolhido em minha cama, a maldita porta trancada.

Eu mal conseguia me mexer... só de pensar, só de sentir que alguma coisa poderia estar lá. Silencioso, aguardando, ouvindo.

Esperando eu mover um músculo, para sabe Deus o que aconteceria depois.

...

Porém...ah, que droga, e que droga que eu tenha que lembrar disso para lhe contar:

Isso surgiu dentro do guarda-roupa.

1:30 em ponto, de novo.

Quando surgiu, eu congelei. Não foi gradual, foi direto. Como um susto silencioso. Isso só apareceu, como se sempre tivesse estado lá...eu estava deitado.

Quando senti, o pavor tomou conta, de novo. Eu não ousei mover nada em meu corpo, mal alterava o fluxo de minha respiração, mal piscava...eu só tive coragem de fechar os olhos. Isso é tudo o que eu pude fazer.

A tensão do corpo, o batimento acelerado, o suor, o medo paralisante...se alguém tivesse dito que eu estava no inferno, eu acreditaria.

2:43...

Isso ainda está ali. Até o momento, eu estava totalmente paralisado. Meu cérebro sequer ousaria pensar em dormir. Seria loucura, impossível.

...

Então, após uma madrugada lutando contra meus próprios sentimentos e a vontade de saltar da cama e sair correndo escada abaixo, 4:49 em ponto, a sensação sumiu...de novo.

...

O dia se passou, eu ainda não havia comentado nada com meus pais.

Nas últimas duas noites, eu mal havia dormido direito.

Eu estava cansado, com sono e, o pior de tudo, apavorado...desesperado, sabendo que essa m*rda possivelmente voltaria na próxima noite, e eu não posso fazer nada.

O que eles pensariam se eu contasse á eles?

Não, eu não posso...eu não posso!

...

De novo, a noite chegou...e com ela, o terror de ter que encarar tudo. Antes de bater meia noite, eu já estava andando de um lado para o outro em meu quarto. Algumas lágrimas escorrendo em meu rosto, eu estava quase explodindo...uma represa que deveria sair.

Eu sentei em minha cama, tentando me acalmar...

E quando a madrugada chegou, eu estava deitado, de novo.

1:30 no relógio, e ela surgiu...agora, debaixo da cama.

Ah...que...merda!

Quando senti, meus lábios se contraíram, os músculos ficaram tensos e se apertaram, eu afundei meus membros na cama, espremi os olhos...segurando algumas lágrimas que ameaçavam escapar.

Que inferno...que inferno!

3:37, e eu cometi meu primeiro erro...

Eu dormi.

E, quando o fiz, a sensação de perigo voltou. Arrastando pela a escuridão

Horror paralisante e doentio.

O terror me despertou. Eu saltei da cama, e em prantos corri direção ao quarto dos meus pais.

Empurrei a porta, acendi a luz e me ajoelhei ao lado da cama, chorando, enquanto minha mãe me acolhia em seus braços para me acalmar. Meu pai se levantou e foi até o quarto.

O tormento das últimas noites explodiu em meu peito, vazando, liberando todo o peso e a sensação do medo visceral que acumulei.

Balbuciei para ela, colocando para a fora toda a verdade...

Sobre ter ficado até mais tarde fora de casa.

Ela pareceu assustada, surpresa, indignada. Mas apenas me confortou em meio ao puro horror de meu coração.

Meu pai veio, nada havia lá.

Ela contou á ele, e ele pareceu tão preocupado quanto ela.

...

Nos próximos dias, isso parou...

Eles não me contaram o que era, ou o motivo pelo o qual tudo aconteceu como aconteceu.

Eles apenas explicaram que, nessa cidade, existem regras passadas de geração em geração.

Não regras de estórias de criaturas, fantasmas ou demônios.

Mas regras sobre o que "eles" pedem, e desejam algo em retorno.

Sobre não poder ser quebrado o juramento.

Sobre lidar com as consequências, corretamente.

Sobre cânticos no escuro, observações ou mera presença.

Presença de algo que não se revela, mas corrompe. Presença de algo que não ataca, mas distorce a mente para que faça se joguinho sujo e passe adiante a ilusão.

A ilusão do medo, do terror, do aguardo por algo que nunca virá. Esse é o Verdadeiro Horror: não o medo do desconhecido, mas nunca compreender que, talvez, isso seja exatamente o que o alimente.

Para que atacar, quando você pode...simplesmente, ser presente?

Numa sombra do quarto, embaixo da cama, numa cadeira repleta de roupas que parece alguém...ou algo.

Talvez numa sensação de perigo inevitável.

Numa porta se abrindo sozinha, num acolhimento sombrio em meio a um corredor...

Dentro do guarda-roupa.

Até mesmo fora de sua casa...

O suficiente para te enlouquecer. O suficiente para fazer você surtar, sem fazer absolutamente nada. O suficiente para sair e procurar seus pais, e perceber que...talvez, eles mesmos também sejam uma ilusão.

E...ah...eu fui pego nessa ilusão! Eu...estou aqui, mas...tudo está ficando escuro, de novo. Eles estão me encarando á meia hora, sem dizer uma única palavra... O terror me envolve novamente.

Quando você não sabe o que irá acontecer, e se pode ou não, evitar...esse é o verdadeiro horror.

Esse é o Medo Primordial. E agora, estou submerso nele...

Por favor, alguém me ajude!

...