Ao caçarem um porco do mato, o animal acabou passando por cima de uma pilha de mato seco. Fez-se um som de algo quebrando... Um estalo.
Os caçadores seguraram a corda dos cães de caça:
- "Mas que raio de som foi esse?" - disse um.
- "Será vaca morta?" - falou o outro.
Viram uma parte de chão funda...
- "E que enterra osso de vaca em buraco?..." - disse o primeiro.
- "Vai que era vaca leiteira boa" - respondeu o segundo.
O porco do mato já ia longe, os cachorros, sentindo e ouvindo o animal latiram em direção à mata.
- "Aquieta! Matias!" - falou o primeiro caçador.
- "Fecha a matraca, Dífri!" - disse o segundo.
Os cães se calaram.
Ficaram ali, ofegantes e com a língua pra fora.
- "E se for osso de gente?..." - indagou o primeiro.
- "Não... Será?... Não..." - falou o segundo.
- "Vai que é..." - disse o primeiro.
- "E a funerária lá passa no meio do mato, Ferdeira..." - respondeu o segundo.
- "E quem disse que foi a funerária... Pode ter sido um assassino que deixou aí..." - disse o primeiro.
- "Ou o papa-figo..." - falou o segundo.
- "Pode ser ossada de lobisomem também?..." - questionou o primeiro.
- "Será?!" - indagou o segundo.
Os dois então se entre olharam...
- "Vamo checar?..." - falou o primeiro.
- "Credo! Eu mesmo não!" - respondeu o segundo.
- "E se for só graveto?" - disse o primeiro.
- "Já tem curioso demais por aí... Quero ser mais um não..." - falou o segundo.
- "Larga de ser covarde!" - disse o primeiro.
- "Eu lá sou covarde!" - respondeu o segundo.
- "Então vamos checar essa fundura!" - disse o primeiro.
- "E os ossos de gente?..." - perguntou o segundo.
- "Alguma coisa tem aí..." - falou o primeiro.
O segundo, relutante, pegou Dífri e aproximou o cachorro do local...
O animal farejou algo...
Começou a latir.
O primeiro olhou...
Fez a mesma coisa com Matias.
O animal farejou...
Começou a latir também.
Os caçadores se olharam...
- "Tem coisa aí mesmo..." - disse o segundo.
- "Bora tirar as folhas?" - indagou o primeiro.
O segundo caçador ficou relutante e passou a mão pela boca, lambeu os beiços e depois mordeu os de cima.
- "Compadre... Tô com medo de ser osso de gente..." - falou ele.
- "Pois então deixa que eu vejo!" - falou o primeiro, aproximando-se da grota.
Tirou uma camada de folhas...
Viu uma mão seca!
- "Cruz credo!" - gritou o primeiro e depois saiu em disparada pela mata.
O segundo ficou sozinho...
Relutante, foi até o local e tirou mais uma camada de folhas...
Viu um rosto cadavérico!
- "AI, MEU SANTO!!!" - gritou e saiu pela mata.
Só os cachorros ficaram lá.
Então, de modo natural e descontraído, o cadáver seco levantou-se do buraco e começou a rir:
- "Lá se vão, assustei outra vez, que diversão!" - disse o espectro.
Matias virou-se para Dífri:
- Óia! É de osso!" - falou Matias.
- "Bora pegar?" - perguntou Dífri.
- "Só se for é agora!" - disse Matias.
Os cães então avançaram sobre o esqueleto que saiu em disparada pela mata, fugindo dos animais, pois este apetecia-os.
Os cachorros vinham em seu encalço.
O esqueleto então correu até chegar em uma estrada de terra e pulou uma cerca.
Acabou por cair dentro de um caixão.
Entrara num cemitério.
Foi enterrado pelo coveiro a sete palmos do chão na caixa fechada.
Ali ficou... Um tempo se passou e os cães não acharam-o e foram embora.
O esqueleto pensou que já estava salvo e queria sair.
Sentia-se desconfortável... Aquilo não lhe cabia:
- "Senhor coveiro, pode me tirar daqui agora... Tenho claustrofobia!"