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Capítulo 4 – A Armadilha do Galpão
A chuva caía com força, transformando o asfalto da zona industrial em um espelho negro que refletia a luz fraca dos postes. Dentro do carro descaracterizado, o silêncio era interrompido apenas pelos estalos metálicos do rádio da polícia.
— Unidade 12, atenção — anunciou o operador, com a voz cortada pela estática. — Recebemos uma denúncia anônima. Possível localização do cativeiro do suspeito. Galpão 04, setor de cargas abandonado. Não há outras unidades na área. Procedam com cautela.
Amélia franziu a testa e olhou para o painel.
— Uma denúncia anônima enviada diretamente para o nosso rádio? Sem passar pela central do Moreira? Isso está errado, Laura. Parece uma armadilha.
No banco de trás, Jack inclinou o corpo para a frente. As algemas tilintaram contra o cinto de segurança. Seus olhos observavam a escuridão lá fora, e sua expressão demonstrava uma preocupação que não parecia fingida.
— O Imitador não faz chamadas de emergência, detetive — disse Jack, com a voz grave e sem qualquer sarcasmo. — Ele faz convites. Se forneceu o endereço, é porque já preparou o cenário.
Parei o carro a cinquenta metros da entrada do galpão. O lugar era uma construção enorme de metal e alvenaria, com janelas quebradas e mato crescendo ao redor dos portões enferrujados.
Não havia viaturas. Nenhuma luz acesa.
— Fiquem aqui — ordenei, verificando o carregador da minha pistola e preparando a arma. — Amélia, mantenha o rádio ligado na frequência do departamento. Se eu não der sinal em três minutos, peça reforços. Não entre sem cobertura.
— Laura, você não pode entrar aí sozinha! — protestou Amélia, segurando meu braço.
— Se entrarmos todos, seremos alvos fáceis — respondi, encarando-a com firmeza. — Além disso, Jack está preso ao suporte do banco. Não quero um suspeito solto atrás de mim enquanto estiver dentro de um lugar onde não consigo enxergar tudo ao meu redor.
Jack deu um sorriso amargo e encostou a cabeça no banco.
— Sempre calculando tudo, detetive. Mas lembre-se: no País das Maravilhas, quem anda sozinho costuma encontrar a Rainha de Copas com a machadinha afiada.
Ignorei o aviso e saí para enfrentar a tempestade.
O interior do galpão cheirava a poeira molhada, óleo queimado e algo adocicado, semelhante ao cheiro de um corpo em decomposição. O odor era tão forte que minha garganta começou a arder.
Apontei a lanterna tática para a escuridão, iluminando pilhas de paletes apodrecidos e máquinas industriais abandonadas.
No centro do galpão, sob um facho de luz que entrava por uma abertura no telhado, havia uma mesa de ferro.
Sobre ela, o corpo de uma nova vítima estava estendido de maneira quase teatral.
Pela primeira vez naquela sequência de crimes, os dois pés amputados não tinham sido levados. Estavam lado a lado, perfeitamente alinhados sobre o peito da vítima. Sob eles, havia um pedaço de papel pardo preso pelo peso dos pés.
Aproximei-me com a arma apontada à frente, enquanto meu coração batia cada vez mais rápido. Direcionei a lanterna para o papel e li as letras grandes, escritas com sangue espesso:
"XEQUE-MATE."
Um estalo veio do fundo do galpão. Era um som seco, semelhante ao de engrenagens de aço se movendo.
Antes que eu pudesse me virar, o portão de ferro da entrada despencou com um estrondo ensurdecedor. A poeira subiu em uma nuvem espessa, e a saída ficou completamente bloqueada.
Levei o rádio à boca.
— Amélia! O portão fechou! Estou presa no setor principal! Repito, estou...
Minha voz foi engolida pela estática. O rádio tinha parado de funcionar. Algum bloqueador de sinal estava em operação dentro da estrutura.
Passos pesados começaram a ecoar entre os escombros e as sombras ao meu redor.
Lentos. Calculados.
Do lado de fora, dentro do carro, Amélia apertou o botão do rádio com tanta força que seus dedos ficaram brancos.
— Laura?! Responda! Laura!
Apenas chiado.
Amélia olhou para o galpão, enquanto o pânico tomava conta de seu rosto. Levou uma mão à chave do carro e a outra ao coldre da arma.
A culpa que a perseguia havia dois anos parecia sufocá-la. Se alguma coisa acontecesse com Laura ali dentro, ela se sentiria responsável.
— Ela está em perigo — murmurou Amélia, com as mãos tremendo sobre o volante.
— E você vai ficar esperando a polícia do Moreira chegar para recolher o corpo dela? — perguntou Jack, com a voz firme e cortante, no banco de trás.
Amélia se virou para ele.
Jack não estava sorrindo. Seus olhos cinzentos permaneciam fixos no portão fechado do galpão, e sua mandíbula estava tensa.
— Eu não posso soltar você, Jack! Se fugir, minha vida acaba!
— Se Laura morrer lá dentro, sua vida já estará acabada, perita! — rebateu Jack, inclinando-se o máximo que as algemas permitiam. Sua voz carregava um desespero que Amélia nunca tinha visto nele. — O homem lá dentro é um sádico que quer provar alguma coisa ao mundo. Ele não vai apenas matá-la. Vai transformar a morte dela em um espetáculo. Me solte! Eu conheço a mente desse tipo de monstro melhor do que qualquer policial deste estado!
Amélia olhou para a chave que carregava no bolso. Hesitou por dois segundos que pareceram uma eternidade.
Então, um disparo abafado ecoou do interior do galpão.
Sem pensar duas vezes, ela se esticou para o banco de trás e usou a chave para abrir a trava das algemas de Jack.
— Se tentar alguma coisa... — ameaçou ela, sacando a arma.
— Guarde a munição para quem está com a faca, Amélia — interrompeu Jack.
Ele saltou do carro antes mesmo que ela terminasse a frase.
Dentro do galpão escuro, o golpe me atingiu de surpresa pela lateral.
O impacto de um cano de ferro contra minha omoplata me lançou contra o chão de concreto. Minha pistola escapou da mão e deslizou pela escuridão.
Tentei me levantar, mas mãos fortes me empurraram contra o chão. Um joelho pesado pressionou meu peito, expulsando todo o ar dos meus pulmões.
A luz da lanterna caída no chão iluminou o rosto do agressor.
Era um homem magro, com os olhos vermelhos e um sorriso perturbado. Ele usava uma cópia malfeita da máscara branca de couro do Coelho.
— A detetive favorita dos jornais... — rosnou ele, com a voz rouca, apertando os dedos contra minha garganta. — O mestre vai ver... Vai ver que eu fiz o que ele não teve coragem de terminar!
Minha visão começou a escurecer. O ar já não chegava aos meus pulmões. Tentei afastar os braços dele, mas minha força estava acabando.
Então, ouvi passos lentos ecoando pelo galpão.
Em seguida, duas palmas secas cortaram o silêncio.
O som era irônico, quase debochado.
— Bravo... — disse Jack, surgindo das sombras. Sua voz ecoou pelo galpão com uma calma assustadora. — Que espetáculo patético e vulgar você preparou, meu caro.
O Imitador ficou imóvel. A pressão em meu pescoço diminuiu um pouco enquanto ele virava a cabeça, incrédulo, na direção do homem de moletom preto que caminhava tranquilamente em direção à luz.
— Senhor...? — gaguejou ele, dividido entre o fanatismo e o choque. — É você... Você veio ver! Eu preparei tudo para você! A arte... o ritual!
Jack parou a poucos metros de nós. Seu olhar percorreu a cena, e uma expressão de repulsa tomou conta de seu rosto.
— Arte? — perguntou, com desprezo. — Você espalha sangue pelo chão como um açougueiro bêbado e chama isso de arte? Você é apenas um verme medíocre tentando usar o nome de alguém grandioso para esconder sua própria insignificância. Você não é o Coelho. Você não passa de um erro.
O Imitador soltou um grito de raiva, caindo na provocação. Largou meu pescoço e se levantou de um salto, sacando uma longa faca de caça com a lâmina serrilhada.
— EU SOU O SUCESSOR! — berrou o maníaco, avançando contra Jack.
Aproveitei aquele instante de distração.
Rolei pelo chão de concreto, encontrei a empunhadura da minha pistola e ergui o braço, ainda com a visão embaçada.
BANG!
O disparo ecoou pelo galpão. A bala atingiu a estrutura metálica ao lado do Imitador, lançando faíscas pelo ar.
O agressor se virou bruscamente, percebendo que havia perdido o controle da situação, e golpeou o ar com a faca.
Jack não recuou.
Em vez de se afastar para se proteger, deu um passo à frente para interceptar o agressor e impedir que ele avançasse na minha direção.
A lâmina brilhante atingiu o abdômen de Jack.
O som do metal rasgando o tecido e a carne foi seguido por um gemido abafado. O Imitador empurrou a faca até o cabo.
Os olhos de Jack se arregalaram de surpresa. Ele caiu de joelhos, levando as mãos ensanguentadas à lâmina cravada em seu corpo.
No mesmo instante, o portão lateral foi arrombado.
Amélia entrou no galpão com a lanterna e a arma em punho.
— POLÍCIA! PARADO!
Em pânico ao perceber que a polícia havia chegado, o Imitador soltou a faca e correu para a parte escura dos fundos do galpão. Desapareceu entre as tubulações de escoamento antes que conseguíssemos alcançá-lo.
Corri até Jack, que estava caído de lado no concreto gelado. O sangue escorria por entre seus dedos, quente e abundante.
— Jack! Meu Deus, Jack!
Segurei a cabeça dele e pressionei meu casaco contra o ferimento, tentando conter o sangramento.
Amélia se aproximou às pressas. O rádio finalmente voltou a funcionar, e ela começou a pedir socorro médico de emergência.
Jack olhou para mim. Suas pálpebras estavam pesadas, e sua pele parecia tão pálida quanto cera sob a luz da lanterna.
Mesmo à beira de perder a consciência, seus lábios se curvaram naquele sorriso torto e impossível de ignorar.
— E então... detetive...? — murmurou, tossindo enquanto um fio de sangue escorria pelo canto da boca. — Fui... um bom ator...?
— Cale a boca, seu idiota! — gritei, com a voz embargada, pressionando o tecido contra seu abdômen. — Fique comigo! Não ouse fechar os olhos!
— A Alice... sempre acorda do sonho... no final — sussurrou ele.
Então, perdeu a consciência, e sua cabeça tombou contra meu braço.
Amélia se ajoelhou ao meu lado, com os olhos cheios de lágrimas e medo.
Trocamos um olhar silencioso na penumbra do galpão. Nenhuma de nós precisava dizer em voz alta aquilo que ambas havíamos acabado de compreender:
Jack tinha arriscado a própria vida para me salvar.
O novo assassino era, sem dúvida, um imitador cruel.
Mas uma pergunta ainda mais sombria queimava dentro de nós:
Se Jack não era o monstro... quem era o homem que o ensinara a sangrar?
Capítulo 5 – Fuga para o Escuro
A luz fria do quarto de hospital iluminava as paredes brancas, enquanto o cheiro de antisséptico tomava conta do ambiente. O som constante do monitor cardíaco parecia marcar uma contagem regressiva.
Jack estava deitado na cama, com o abdômen coberto por grossas faixas cirúrgicas. Sua pele pálida contrastava com as olheiras escuras ao redor dos olhos. Mesmo assim, seus olhos cinzentos continuavam atentos, observando o teto com uma calma inquietante.
No corredor, a voz do capitão Renard ecoou como um trovão.
— Isso foi a gota d'água, Laura! — Renard entrou no quarto, batendo a porta. Seu rosto estava rígido, e dois oficiais armados o acompanhavam. — Você levou um prisioneiro extremamente perigoso para uma armadilha, colocou a vida da sua parceira em risco e quase permitiu que ele fosse morto!
— Jack salvou minha vida, capitão! — argumentei, dando um passo à frente, sem me intimidar com a autoridade dele. — Se ele não estivesse lá, o Imitador teria me estrangulado. A faca que o atingiu era para mim!
— Ele é um manipulador, detetive! — gritou Renard. — O laudo de dois anos atrás é claro. O fato de existir um doente tentando imitar os crimes dele não apaga o sangue que esse homem tem nas mãos. A partir deste momento, você e a perita Amélia estão oficialmente afastadas da custódia de Merrin e da investigação. A equipe do Moreira vai assumir o caso.
Amélia tentou intervir, mas Renard levantou a mão, impedindo-a de falar.
— O senhor Merrin será levado de volta à cela de segurança máxima assim que os médicos autorizarem sua saída do hospital. O circo acabou.
Jack soltou uma risada baixa e rouca da cama.
— Que ironia interessante, capitão... — murmurou, virando o rosto devagar. — Levo uma facada para salvar sua melhor investigadora e, no fim, continuo sendo o monstro que todos preferem culpar. Nada muda em Ravenhill.
— Cale a boca, Merrin — rosnou Renard. — Você vai apodrecer naquela cela até o fim da vida.
Olhei para Jack. Havia uma dor profunda em seus olhos, escondida atrás do sarcasmo de sempre.
Tentei dizer alguma coisa, mas as palavras não saíram. Fui escoltada para fora do quarto junto com Amélia, sentindo o peso daquela injustiça.
Duas horas depois, a noite caiu sobre o hospital.
Jack permaneceu em silêncio. Olhou para as faixas que cobriam seu abdômen e sentiu uma pontada forte no ferimento a cada respiração mais profunda.
As palavras do capitão continuavam ecoando em sua mente, mas ele não sentia raiva. O que sentia era a urgência de descobrir a verdade antes que fosse tarde demais.
A enfermeira responsável por administrar o sedativo havia adormecido na cadeira do posto de enfermagem. O policial que vigiava a porta se afastara para atender a uma chamada no rádio.
Sem fazer barulho, Jack retirou os eletrodos presos ao peito e desligou o monitor antes que o alarme disparasse.
Colocou os pés no chão frio. A dor no abdômen fez sua visão escurecer por um instante, mas ele respirou fundo e esperou até conseguir se manter de pé.
Pegou o casaco preto que estava pendurado no suporte da cadeira, vestiu-o com cuidado e olhou para o espelho do banheiro.
O reflexo mostrava o rosto de alguém que havia sobrevivido ao pior.
— O Coelho não é uma lenda... — sussurrou para o espelho, com um sorriso triste. — É uma cicatriz. E está na hora de descobrir quem a deixou.
Em seguida, desapareceu pelo corredor dos fundos e saiu pela porta de emergência, movendo-se como uma sombra que nunca deveria ter estado ali.
Do lado de fora, no estacionamento, eu e Amélia discutíamos os próximos passos da nossa investigação por conta própria quando vimos uma figura de moletom preto dobrar a esquina do prédio.
Jack caminhava com passos curtos, mas determinados, em direção à escuridão.
— Não pode ser... — Amélia levou a mão à boca. — Aquele maluco fugiu!
— Ele não está fugindo da polícia, Amélia — respondi, seguindo-o com os olhos. — Está indo atrás da verdade. E nós vamos atrás dele.
A antiga fazenda de criação de coelhos na zona rural de Ravenhill parecia um cemitério esquecido. As cercas de madeira estavam apodrecidas, e o galpão principal cheirava a mofo, ferrugem e terra molhada.
Jack atravessou o portão caído. O som de seus sapatos esmagando o capim seco despertou lembranças que ele havia tentado esquecer por dois anos.
Deu três passos para dentro do galpão das gaiolas e parou.
Seu abdômen ardia, mas a dor física logo foi sufocada por uma onda de lembranças tão fortes que ele mal conseguia distinguir o presente do passado.
O trauma que havia permanecido escondido no fundo de sua mente finalmente veio à tona.
O ambiente ao redor pareceu se transformar. O silêncio da noite foi substituído pelo som imaginário de centenas de coelhos se debatendo nas gaiolas de metal. O cheiro de ração seca e esterco desapareceu, dando lugar ao odor forte de sangue quente.
Pés trazem sorte, meu rapaz...
A voz de seu pai adotivo e tutor ecoou em sua mente. O homem que a cidade inteira admirava como um benfeitor generoso havia escondido um lado monstruoso por trás daquela imagem.
Jack caiu de joelhos no chão de terra e agarrou a própria cabeça enquanto as lembranças daquela noite de 2023 voltavam com toda a força.
Ele se viu aos vinte anos, descobrindo um compartimento escondido no porão da casa de seu tutor.
Viu os potes de vidro, os tecidos de linho branco e as lâminas de bisturi organizadas cuidadosamente sobre uma bancada.
Depois, viu o rosto do homem que o acolhera mudar. A expressão carinhosa desapareceu, dando lugar a um olhar frio e cruel.
— Você deveria ser o meu legado, Jack... — sussurrara o velho naquela noite, enquanto amarrava os pulsos e os tornozelos do jovem com cordas grossas.
Jack voltou a sentir as amarras apertando sua pele. Eram as mesmas marcas que ainda carregava nos pulsos e nos tornozelos.
Lembrou-se da lâmina roçando seus pés e do medo de que fosse a próxima vítima daquele ritual.
Lembrou-se também da luta desesperada no escuro, do lampião caindo no chão, do fogo se espalhando pelas gaiolas e do golpe que desferira às cegas contra o velho para conseguir escapar.
Quando a polícia chegou, dois anos antes, encontrou o tutor morto e Jack em estado de choque, sem conseguir compreender completamente o que havia acontecido. Ele estava coberto pelo sangue do homem que o torturara.
Sua mente havia bloqueado parte daquele horror como uma forma de protegê-lo do sofrimento.
Mas a polícia, com base nos laudos feitos às pressas por Amélia e nas decisões de Renard, escolheu uma explicação mais simples: colocou a máscara do assassino no rosto do sobrevivente.
— Eu não era o Coelho... — arfou Jack, com lágrimas escorrendo pelo rosto coberto de poeira. Ele pressionou a mão contra o abdômen ferido. — Eu era a peça que faltava.
Na entrada do galpão, eu e Amélia assistíamos à cena em silêncio absoluto.
Amélia estava paralisada. As lágrimas escorriam livremente por seu rosto enquanto ela começava a compreender a dimensão da tragédia para a qual havia contribuído.
A verdade finalmente estava vindo à tona.
Mas o jogo ainda não tinha terminado.
Capítulo 6 – A Máscara de Bondade
A neblina que vinha dos morros cobria o pátio da antiga fazenda de coelhos como um manto cinzento. O vento da madrugada fazia as pás enferrujadas do velho moinho rangerem, produzindo um som metálico e constante.
Jack se levantou devagar do chão de terra. Limpou o sangue e a sujeira do rosto com a manga do moletom. Seu abdômen ainda doía sob as faixas, mas seu olhar agora demonstrava uma clareza que não tinha antes.
Ele se virou e nos encarou na entrada do galpão. Não pareceu surpreso ao nos ver.
— Vocês ouviram... não ouviram? — perguntou Jack, em voz baixa, sem sarcasmo. Pela primeira vez, não parecia tentar esconder seus sentimentos. — O homem que esta cidade chamava de benfeitor... aquele criador de coelhos que adotava órfãos e fazia doações para asilos... era o verdadeiro monstro. Ele me trancou no porão, disse que me daria a "eternidade" e tentou me mutilar. Há dois anos, quando o lampião caiu e o galpão pegou fogo, lutei para sobreviver. O corpo queimado que encontraram no chão era o dele. Mas a polícia preferiu me transformar no monstro porque era mais fácil do que admitir que passou uma década sem enxergar a verdade.
Amélia deu um passo à frente e levou as mãos trêmulas à boca. As lágrimas escorriam por seu rosto sujo de poeira.
— Jack... meu Deus... — Sua voz falhou. — O laudo da autópsia de 2023... O corpo estava tão queimado que confiamos no histórico dentário e nas poucas evidências que conseguimos analisar. Fui eu. Fui eu quem assinou o laudo que mandou você para a prisão.
— A culpa não foi só sua, perita — respondeu Jack, com um sorriso triste. — Foi da cidade inteira. Ravenhill precisava de um vilão com rosto jovem e um nome fácil de lembrar.
Antes que pudéssemos compreender tudo o que ele acabara de revelar, ouvimos passos atrás do velho moinho. Gravetos se quebravam sob o peso de alguém que se aproximava.
Amélia sacou a arma rapidamente e ficou atenta à nossa retaguarda. Eu avancei ao lado de Jack, em direção às sombras.
— Ele está aqui — sussurrou Jack, sem tirar os olhos da neblina. — Meu fã doentio veio terminar sua homenagem.
Uma figura surgiu em meio à névoa cinzenta.
Era o Imitador.
Ele segurava uma grande faca de açougueiro. A máscara branca de couro, uma cópia da usada pelo Coelho, estava manchada de lama e sangue seco. Seus olhos demonstravam uma loucura descontrolada.
— Você estragou tudo, Merrin! — gritou o Imitador. Sua voz ecoou entre as estruturas de madeira apodrecida. — Você deveria ser uma lenda! O mestre perfeito! Mas se entregou à polícia! Ficou do lado dessas cadelas do departamento! Se você não vai honrar o legado do velho... EU VOU!
O homem avançou como um animal enfurecido, golpeando o ar com a faca.
Jack não recuou.
Mesmo com o ferimento no abdômen, ele se movimentou com agilidade, como alguém que conhecia cada canto daquela propriedade. Desviou do primeiro golpe e aproveitou o impulso do agressor para jogá-lo contra a estrutura de madeira do moinho.
A madeira estalou e se quebrou. O homem soltou um grito de dor, e a faca escapou de sua mão, caindo na lama.
Aproveitei aquele instante de desequilíbrio. Avancei e derrubei o maníaco com uma rasteira no joelho.
Ele caiu de rosto no chão enlameado.
Amélia avançou imediatamente, pressionou o joelho contra as costas dele e algemou seus pulsos.
Aproximei-me e arranquei a máscara de couro de seu rosto.
Por baixo dela, surgiu o rosto comum, suado e decepcionante de um ex-funcionário do matadouro municipal. Era alguém que havia acompanhado os detalhes do caso pela imprensa e se deixado levar pela história sombria criada em torno do Coelho.
— Acabou — declarei, mantendo minha arma apontada para o agressor. — Você não é um mestre. É apenas um assassino que vai passar o resto da vida na prisão, no mesmo lugar de onde tentou tirar Jack.
Jack se aproximou devagar e olhou para o homem caído. Sua expressão misturava pena e desprezo.
— A sorte nunca pertenceu ao velho. E também não pertence a você — murmurou Jack, chutando a máscara de couro para longe, na lama. — Pertence a quem consegue sobreviver a monstros como vocês.
Amélia pegou o rádio. Sua voz estava embargada, mas ela conseguiu falar com firmeza:
— Central, aqui é a perita Amélia. Localizamos o suspeito dos novos homicídios na antiga fazenda de coelhos. Ele está imobilizado e sob custódia. Enviem equipes de apoio e a perícia para o porão da propriedade principal. Encontramos o local do crime original de 2023.
Jack ergueu os olhos para o céu, que começava a clarear no horizonte.
A neblina de Ravenhill se dissipava lentamente sob a primeira luz da manhã.
Depois de dois anos, o pesadelo parecia finalmente ter chegado ao fim.