Meu querido amigo brabinski

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O ranger da madeira velha no corredor era o som que eu mais temia. Era o sinal de que a noite tinha começado e que o "monstro" estava voltando para casa. Eu me encolhia sob o cobertor surrado, tentando não respirar, enquanto o barulho de botas pesadas e o arrastar de pés trôpegos se aproximavam. Quando a porta do quarto se abria e o cheiro insuportável de álcool tomava o ar, eu via o homem que um dia foi meu herói — o pai que me ensinava a chutar bola e me contava histórias — desaparecer por completo. No lugar dele, surgia uma fera movida pela fúria. Minha mãe, sempre tão doce e corajosa, tentava se colocar como um escudo entre ele e eu, mas os gritos e os estrondos logo tomavam conta de tudo. ​Eu tentava manter viva a memória de como era antes da bebida. Naquela época, o meu maior companheiro era o Brabinski, um cachorro vira-lata de pelos cor de mel. Ele era meu único refúgio seguro. O Brabinski sentia a minha tristeza e o meu medo antes mesmo de eu manifestar qualquer reação. Ele vinha, encostava o focinho úmido na minha mão e ficava ali, em silêncio, apenas para me mostrar que eu não estava sozinho. Ele era o meu protetor, aquele que me lambia as lágrimas e me fazia sentir um menino comum. Quando ele morreu, o mundo perdeu todo o brilho para mim. A casa ficou grande, vazia e perigosamente silenciosa nos intervalos entre as bebedeiras do meu pai.​A mudança veio em uma tarde de chuva torrencial. Minha mãe e eu voltávamos para casa, encharcados, quando algo chamou minha atenção no fundo do quintal, quase coberto pela lama. Era um boneco de pelúcia, sujo e desgastado. Ele tinha uma cor estranha, um tom de roxo desbotado, e braços e pernas longos que lembravam vagamente a estrutura de um pequeno macaco. Seus olhos de botão pareciam me encarar com uma melancolia profunda. Quando o peguei, senti um calor estranho emanar do tecido. Limpei a lama das costas dele e quase deixei cair de susto: costurado com um fio grosso, estava o nome Brabinski. Minha mãe, quando viu, empalideceu e não conseguiu dizer uma palavra, mas, movida por uma piedade estranha, ela o lavou e me entregou. Naquele instante, eu senti que algo havia retornado para mim. ​O boneco tornou-se meu único confidente. Eu contava a ele sobre meus medos, sobre os dias em que eu queria sumir e sobre a dor que sentia por ver minha mãe sofrer tanto. A primeira vez que ele falou, eu estava encolhido debaixo da cama após uma surra que levei apenas por existir. Eu soluçava, sentindo o gosto de sangue na boca, quando o boneco, que estava caído ali perto, pareceu se mover. Ele tinha uma voz doce, infantil e inocente, quase como se estivesse tentando brincar. Ele sussurrou: "Não chore, Lucas. Eu estou aqui agora. Quer que eu te conte uma história para a gente esquecer a dor?" Aquela voz tão calma e gentil foi o único conforto que encontrei em meses.​A situação em casa escalou para um nível que eu não pude controlar. Meu pai chegou em casa numa noite mais violenta do que todas as outras. Ele agrediu minha mãe com uma selvageria que me fez fechar os olhos, mas os gritos dela não paravam. Ele me arrastou pelos braços e me jogou dentro do quarto, trancando a porta com um estrondo. Eu me sentei no chão, abraçado ao meu boneco roxo, e com o coração em frangalhos, sussurrei contra o peito dele: "Eu não aguento mais. Eu quero que ele suma... eu quero que ele vá embora". A exaustão e o pânico me fizeram apagar ali mesmo. ​Acordei com um silêncio que parecia doer nos ouvidos. A porta, antes trancada, estava aberta. O boneco não estava mais comigo. Fui descendo as escadas, sentindo o ar pesado, carregado com um odor metálico de sangue e terra úmida. Subi até o quarto principal, guiado por um sussurro contínuo que não parava de cantarolar uma cantiga de ninar. A cena que encontrei no quarto era o fim de tudo o que eu conhecia. ​O Brabinski estava lá, mas ele não era mais o brinquedo de pelúcia pequeno. Ele tinha se transformado em uma criatura colossal, com o pelo roxo agora eriçado e uma boca que, apesar do tamanho, ainda mantinha aquele sorriso inofensivo de brinquedo. Atrás da cama, apenas as pernas do meu pai estavam à mostra, estáticas. O boneco virou-se para mim, seus olhos de botão emitindo um brilho suave, e me estendeu uma caixa de presente, como se fosse uma surpresa maravilhosa. Meus braços se moveram contra a minha vontade; eu abri o pacote e a visão da cabeça do meu pai ali dentro foi o estopim para a minha mente quebrar. O boneco deu uma risada leve, como uma criança brincando, e num piscar de olhos, encolheu, voltando a ser aquele bonequinho inofensivo. Quando as luzes da polícia iluminaram o quarto, eu estava parado ali, com a faca na mão e o sangue do meu pai sujando minhas roupas, sem entender por que tudo tinha acabado daquela forma. ​NOTÍCIA DE JORNAL – EDIÇÃO EXTRA ​“Tragédia sem precedentes: Menino confessa crime brutal contra o próprio pai. Em um depoimento perturbador e cheio de lacunas, o menor insistiu que seu boneco de pelúcia, um macaco roxo de pano, teria assumido uma forma gigante e realizado o ato. Autoridades locais descartaram qualquer elemento sobrenatural, classificando as alegações como um surto psicótico grave. O menino foi encaminhado a uma instituição psiquiátrica para tratamento intensivo, onde permanece sob isolamento.” ​Já perdi a conta de quanto tempo estou neste lugar. O branco das paredes parece querer engolir os meus pensamentos. Na madrugada de hoje, o frio entrou por uma fresta no teto e acordei sentindo um peso familiar sobre o peito. ​O boneco estava lá, sentado sobre o meu lençol. Mas, ao lado dele, algo começou a se materializar das sombras da parede. Era o meu cachorro, o Brabinski. Mas não o cão saudável que eu amava. Ele estava em decomposição, com a carne caindo dos ossos e olhos que brilhavam com uma luz maligna. Ele se aproximou do meu rosto, e a voz rouca, que agora soava estranhamente como a do boneco roxo, ecoou pelo quarto: ​"Você sentiu nossa falta, Lucas? Nós nunca fomos embora. Agora que estamos aqui, onde ninguém mais pode te separar da gente, finalmente poderemos brincar para sempre."