Entre mundos parte 2

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ATENÇÃO: História longa! Tempo médio de narração da história completa: 1h.

Capítulo 2:

Corri como nunca e quanto mais longe eu ia, mais claro ficava que aquela cidade estava vazia — pelo menos, sem qualquer ser humano.

E essa conclusão me fez ter a certeza de que eu não entraria em mais nenhuma casa. Ninguém estaria lá para me ajudar de qualquer maneira.

Havia algo claramente errado com aquele lugar, mas, a cada minuto, a preocupação de como eu havia parado ali diminuía e dava lugar a como eu escaparia dali.

Finalmente parei de correr quando o ar faltou em meus pulmões e eu senti que estava longe o suficiente daquela casa.

A essa altura, a chuva já havia parado, então eu me sentei em uma calçada enquanto tentava regular minha respiração.

Com a baixa da adrenalina, toda a dor voltou ao meu corpo, me atingindo dos pés à cabeça.

Eu estava tonta, parecia que iria vomitar a qualquer momento, mas também queria chorar… e gritar… e correr, mas para onde eu correria?

Olhando ao redor, eu não via nada além daquelas casas escuras e silenciosas que poderiam esconder qualquer coisa. E aquele céu nebuloso de fim de tempestade, onde nem a lua ousava aparecer para me amparar.

Abaixei minha cabeça e solucei. As lágrimas voltaram a cair pelo meu rosto.

Estou sozinha.

Então, como uma resposta irônica do universo, o som alto do motor de um veículo rangeu no horizonte.

Senti meu coração acelerar e me levantei de súbito.

O som ficava cada vez mais alto, mais próximo. Era grave e agressivo de um modo que fazia as janelas tremerem mesmo estando longe.

Não podia ser boa coisa.

Reuni minhas forças restantes e comecei a correr. No mesmo instante, faróis altos emergiram no fim da rua.

Virei uma esquina e pude ouvir o veículo acelerando na rua anterior, pois o som ficou ainda mais alto e começou a ser interrompido por engasgos violentos de uma máquina moribunda.

— Deus… me ajuda.

Virei outra esquina e avistei minha única esperança: uma praça.

Avancei e saltei sob alguns arbustos a tempo de o estranho veículo surgir.

Meu peito subia e descia rapidamente e eu torcia para que eles não tivessem me visto.

O veículo parou. Era uma van preta e grande, as janelas estavam cobertas por camadas generosas de fita isolante e os faróis altos iluminavam toda a rua.

Me encolhi atrás dos arbustos.

A porta da van se abriu e eu tapei minha boca quando quase deixei um gemido escapar.

Meu desespero cresceu exponencialmente quando vi a figura grotesca que desceu do lado do passageiro.

Era uma mulher. Sua pele era pálida e parecia decomposta em alguns pontos, considerando o pigmento acinzentado. Ela era desumanamente alta e magra, de um modo que eu podia notar suas costelas sob a pele esticada.

Ela ficou de costas e assim eu pude ver que ela tinha uma espécie de cauda que balançava de um lado para o outro, como a de um gato.

— Meu… Deus. — murmurei, sem notar.

A mulher se virou e eu finalmente pude ver seu rosto horrendo.

Sua cabeça era livre de qualquer cabelo ou pelo, assim como o restante de seu corpo. E seu rosto… não tinha nada além de uma grande cavidade parecida com uma boca.

Aquilo… tinha vários dentes pontiagudos e irregulares, além de um líquido vermelho espesso que não parava de escorrer.

O ser se inclinou na direção de onde eu estava e eu fechei meus olhos com força, esperando o pior.

Cada segundo se arrastou como se uma bomba estivesse prestes a detonar.

Então, o estalo da porta da van se fechando cortou a noite. Depois, o som daquele motor barulhento sumindo no fim da rua e o meu suspiro de alívio.

Me levantei cautelosamente, como se qualquer movimento brusco pudesse trazer aqueles monstros de volta.

Suspirei pesadamente enquanto olhava ao redor e buscava digerir o acontecimento anterior.

As luzes laranjas dos postes refletiam no asfalto molhado daquela cidade esquecida por Deus.

E eu sentia o desespero me vencer cada vez que um novo questionamento se abatia sobre mim.

Que lugar é esse?

Como eu vim parar aqui?

Onde estão as pessoas?

O que são essas coisas?

O que… O que eu faço?

Tentei me acalmar, tentei encontrar explicações lógicas, mas cada uma delas caía por terra assim que o rosto daquela aberração retornava aos meus pensamentos.

Por fim, concluí que o melhor a se fazer era sair dali, mesmo que eu não soubesse para onde ir.

Comecei a andar pela praça, atenta a cada mínimo barulho.

Depois atravessei a rua e me vi diante de um grande e imponente shopping que estava aberto, mas completamente escuro e, obviamente, vazio.

Entrar ali parecia uma péssima ideia e eu nem consideraria isso… se eu não tivesse ouvido aquele maldito som de motor moribundo e pneus derrapando outra vez.

Sem hesitar, pulei para dentro do shopping, sendo engolida pela escuridão opressora.

Vi os faróis banhando a rua e avancei mais para dentro do shopping, temendo ser vista por aquelas coisas.

O corredor do shopping era largo e longo. Seu piso liso refletia sutilmente o brilho branco de algumas lâmpadas que agonizavam dentro das lojas laterais.

Aquela iluminação era insuficiente, mas, no final do corredor, uma luz mais forte me aguardava.

Era a luz da lua atravessando uma grande janela.

Cheguei lá e fui banhada pelo brilho pálido que atravessava o vidro.

Daquele lado, o céu já estava limpo e repleto de estrelas. Era tão bonito que, por um instante, me fez esquecer o pesadelo que eu vinha vivenciando.

Respirei fundo e olhei para a esquerda. Outro corredor escuro se estendia ali. Depois olhei para a direita e vi uma escada.

Por alguma razão, senti que era mais seguro ir pelas escadas.

Segui meus instintos e comecei a subir.

As escadas eram de metal, então produziam ruídos que soavam ensurdecedores diante da situação em que eu me encontrava.

Finalmente cheguei ao segundo andar e ali as coisas não eram muito diferentes do primeiro em termos de iluminação.

Mas algo me chamou a atenção: havia uma sacada ali.

Caminhei até lá cautelosamente. Lá eu poderia ter uma visão mais ampla da rua e assim poderia ver se aquele carro havia ido embora.

Meus cabelos úmidos dançaram assim que alcancei a área descoberta e o cheiro de chuva tomou minhas narinas.

Minhas mãos tocaram o parapeito frio e eu olhei para baixo.

Não vi nada além do asfalto brilhante.

Eles haviam ido embora.

— Olá.

Soltei um arquejo de surpresa antes de me virar bruscamente para encontrar a dona da voz que havia feito o meu sangue congelar dentro das veias.

Para minha surpresa, era uma criança.

Uma garotinha com cerca de nove anos estava parada na entrada da sacada. Sua pele era tão pálida que causava a impressão de ser transparente, seus cabelos eram… brancos, totalmente brancos e cacheados, com uma franja que quase cobria suas sobrancelhas discretas. Seus olhos eram redondos, como se a garota estivesse em estado de alerta, mas sua expressão serena evidenciava que isso era apenas uma impressão. E… as pupilas… elas eram negras como uma noite sem estrelas e estavam tão dilatadas que mal era possível ver a parte branca de seus olhos.

A menina deu um passo à frente e eu, intimidada, dei um para trás. Senti minhas costas batendo contra o parapeito e me achei estúpida por estar com medo de uma criança.

— Não tenha medo, tia — ela falou enquanto brincava com a barra de seu vestido preto.

— Q-quem é você? — perguntei com a voz trêmula.

Ela se aproximou um pouco mais.

— Não importa. Estou aqui para te ajudar!

— Me ajudar?

A garotinha virou seu rosto para o lado e deu um sorriso sarcástico. O ar pareceu mais denso e eu mal notei que estava prendendo a respiração.

Ela virou a cabeça para frente novamente e olhou diretamente nos meus olhos.

Agora… seus olhos realmente estavam totalmente negros.

— Irei te ajudar… a achar o seu caminho para o lugar onde você merece estar!

Ela sorriu, revelando uma fieira de dentes pontiagudos.

E, antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, suas pequenas mãos quentes como o fogo do inferno alcançaram meu peito. Senti o frio nos ossos quando me faltou equilíbrio e meu corpo despencou para baixo, enquanto minhas mãos estendidas no ar buscavam qualquer coisa para segurar.

Ouvi o baque das minhas costas atingindo o asfalto e o som de mil ossos se quebrando. Senti o sangue quente começando a se espalhar ao redor da minha cabeça, mas… eu ainda estava viva e ciente de toda aquela dor.

Ainda pude ver, com minha visão turva, a garotinha correndo e sua risada ecoando, como se ela estivesse em todos os cantos daquela cidade ao mesmo tempo.

Eu queria me levantar.

Queria lutar contra tudo aquilo.

Orei para todos os deuses possíveis e supliquei que tirassem aquela dor e todo aquele sofrimento.

Desejei acordar daquele maldito pesadelo.

Desejei que… desejei que meus olhos não se fechassem.

Mas eles se fecharam.

Capítulo 3:

O som de botas pesadas tocando o asfalto ganhava forma a cada segundo.

Meu corpo balançava e aquilo me dava vontade de vomitar.

Conforme meus sentidos foram voltando… eu percebi…

Algo quente estava apoiando meu corpo e um braço grande atravessava as minhas costas.

Eu estava… sendo carregada no ombro de alguém!

Senti o desespero se abater sobre mim. Me mexi, tentando iniciar uma fuga, mas a fraqueza transformou meu movimento em algo miseravelmente inútil.

Eu não via nada além das coisas ficando para trás a cada novo passo daquele alguém.

Era um homem, finalmente pude ter certeza, quando sua voz firme e áspera cortou o silêncio.

— Fica calma! Você precisa ficar calma.

Tudo o que eu mais desejava era estar calma, mas como eu poderia estar?

O homem me segurou mais firme e apertou os passos.

Meu coração começou a bater mais rápido e eu busquei coragem para encontrar minha voz em algum lugar do meu corpo.

Mas… ela parecia estar em lugar nenhum.

O som agressivo de um trovão cortou a noite e só aí eu me dei conta de que a chuva havia voltado e parecia cortar minha pele como vidro.

Junto disso, me lembrei do shopping, da garotinha, da minha queda, da dor… e de tudo que havia acontecido naquela noite.

Era para eu estar morta.

Eu… estou morta?

Essas perguntas fizeram minha cabeça latejar ainda mais.

O homem que me carregava atravessou a rua em passos rápidos e fomos banhados pela luz branca da fachada de uma loja. Aquele era um dos poucos lugares com luz.

Ele destrancou a porta de vidro com pressa e saltou para dentro da loja, trancando a porta novamente e tirando minhas chances de fugir.

Em seguida, ele me soltou cuidadosamente e eu pensei que essa seria minha chance de atacá-lo e fugir, porém, mais uma vez, fui sabotada pelo meu próprio corpo impotente. Eu cambaleei para trás e caí sentada em um sofá.

O cômodo estava praticamente escuro; só havia um resquício da luz branca do lado de fora, e aquilo não era o suficiente para ver o homem.

Eu só podia ver sua silhueta alta e imponente enquanto ele guardava a chave em seu bolso.

Então, ele estendeu seu braço em direção à parede e todo o cômodo foi iluminado pela luz fluorescente.

Fechei meus olhos automaticamente, o brilho ferindo minhas córneas.

Mas não demorei para abri-los novamente e finalmente pude vê-lo.

O homem diante de mim tinha olhos verdes tão profundos quanto uma esmeralda sob a luz do sol. Sua pele era pálida e contrastava com seus cabelos negros molhados pela chuva. Ele vestia roupas totalmente pretas e calçava um par de coturnos pesados da mesma cor.

Ele deve ter percebido que eu o encarava, pois logo separou seus lábios e se apresentou:

— Meu nome é Alex — disse ele, caminhando em minha direção. — E eu sou o seu guardião — concluiu, parando ao meu lado.

Pensei que meu queixo fosse cair.

Guardião?

E eu queria mesmo entender aquilo, mas não conseguia dizer uma palavra sequer.

Alex começou a mexer em um toca-fitas.

— Você gosta de música?

Ele olhou para mim e nossos olhares se encontraram.

E eu queria mesmo responder.

— Gosta? — Ele perguntou outra vez, com o cenho franzido.

Separei meus lábios para responder.

Mas nada saiu.

Nada.

Vi Alex se virar e apertar um botão.

— Você deve gostar. Sei que vocês humanos gostam desse tipo de coisa e, por sorte, isso existe por aqui.

Nem sequer pude estranhar sua fala sobre “nós humanos”, já que estava com os olhos fixos em lugar nenhum enquanto me perguntava o que diabos estava acontecendo comigo e… por que eu não conseguia falar.

Então, a melodia tomou conta da sala e atingiu meus ouvidos.

Hymn for the Weekend.

Uma das minhas músicas favoritas.

Eu estava congelada de surpresa e, ao mesmo tempo, sentindo o alento de ouvir algo tão familiar.

— Viu? Eu sou inofensivo. Você pode falar comigo.

Alex caminhou até outro sofá na lateral do cômodo e se sentou lá.

Acompanhei ele com o olhar, enquanto sentia as lágrimas ardendo em meus olhos.

— Então, qual é o seu nome?

Desviei o olhar, envergonhada e confusa por não conseguir respondê-lo.

— Tá. Vou parar de fingir ser normal. Eu já sei que o seu nome é Cecília. Mas por que você não me responde?

Porque eu não consigo.

Alex olhava confuso para mim.

E tudo aquilo era demais, todos aqueles sentimentos… eram demais para mim.

Senti a primeira lágrima fria e com gosto de derrota escorrer pelo meu rosto.

Alex pareceu quase surpreso.

— Você… você não consegue falar?

Voltei meu olhar para ele e balancei a cabeça.

— Sempre foi assim? — Ele perguntou, complacente.

Balancei a cabeça em negação.

— Droga — murmurou ele, levantando-se.

Alex caminhou até os fundos da loja e sumiu na escuridão.

Ele não demorou para voltar e estava segurando um bloco de notas e uma caneta.

Acompanhei ele com o olhar enquanto ele deixava os dois objetos em uma mesinha à minha frente.

— Você deve ter muitas perguntas e eu estou aqui para respondê-las — disse ele, se agachando do outro lado da mesa.

Desviei meu olhar para o bloco de notas e estendi minhas mãos trêmulas na direção da caneta. Quando eu a peguei, pensei que não conseguiria segurá-la por muito tempo, mas, com muita dificuldade, a levei até o papel e escrevi minha primeira pergunta com uma letra irregular.

O que está acontecendo aqui?

Alex pegou o bloco, leu minha pergunta e olhou para mim novamente.

— Você está morta.

Senti meu coração afundar.

Morta?

Escrevi minha nova pergunta freneticamente.

Eu morri quando caí daquele prédio?

Ele riu sarcasticamente e eu fiquei confusa.

— Não, você já estava morta bem antes daquilo.

Olhei para ele com o cenho franzido.

— Fica tranquila, vou te explicar isso. Esse lugar em que você está é para onde pessoas que fizeram uma coisa muito ruim vêm, só que ele se manifesta de uma forma diferente para cada pessoa. É por isso que você está “sozinha” aqui.

Alex passou o papel para mim novamente e eu escrevi minha nova pergunta.

O que são aquelas coisas? E você?

— Você deve estar falando dos monstros… Bom, aquelas criaturas que você viu têm uma função aqui, uma função que você não vai gostar nem um pouco. Eles estão aqui para te capturar e te levar para aquilo que vocês humanos costumam chamar de inferno. Eu, por outro lado, como seu guardião, estou aqui para te proteger e garantir que você volte para o seu mundo ou vá para o “paraíso”. Mas nós não temos muito tempo e a escolha está nas suas mãos. Quanto mais tempo você passa aqui, mais fraca fica, pois está morta no mundo normal e não pode ficar morta lá por mais de dois minutos. Enquanto você viveu tudo isso aqui, se passou um minuto no seu mundo normal, e é por isso que você está se sentindo tão fraca. Também é por isso que perdeu a voz. Além disso, a queda contribuiu para você se sentir fraca mais rápido, então não podemos deixar você se machucar mais.

Alex me entregou o bloco de notas novamente e eu demorei um pouco para escrever minha nova pergunta, pois ainda tentava digerir tudo que ele acabara de dizer.

Só existe você de guardião?

— Não, existem vários guardiões, tipo o meu irmão Lucien, por exemplo, mas eu sou o seu único guardião.

Peguei a caneta e escrevi minha próxima pergunta.

Então qualquer outro ser que eu encontrar aqui é perigoso?

— Na verdade, não. Alguns monstros aqui são “inofensivos”; eles não vão te ajudar nem nada assim, mas também não vão te causar grande mal… Existe uma forma de saber se um monstro é perigoso.

Olhei curiosa e Alex prosseguiu.

— Normalmente, eles têm uma marca no pescoço. Não é uma marca padronizada, mas apenas eles têm marcas no pescoço.

Acho que, por instinto, olhei para o pescoço de Alex procurando por uma marca.

Ele percebeu e riu sarcasticamente.

— Eu não tenho marca nenhuma, sou seu guardião e você deveria acreditar nisso.

Me encolhi envergonhada e ele apenas passou o bloco de notas para mim de novo, ainda com um sorriso sarcástico no rosto.

— Mais alguma pergunta?

Olhei hesitante; eu tinha uma pergunta, mas… estava me preparando para fazê-la.

Suspirei e peguei a caneta, vendo a tinta traçar meu questionamento sobre o papel.

Você disse que eu fiz uma coisa ruim. E todos esses monstros querem me levar para o inferno. O que eu fiz de tão ruim? Eu matei alguém antes de morrer? Eu não me lembro de nada.

Pela primeira vez desde que o conheci, vi o olhar de Alex ficar sombrio.

— Você não fez mal a ninguém… além de si mesma.

Olhei atordoada, então minha ficha caiu. Eu sabia o que ele iria dizer, mas desejei com todas as minhas forças que ele não dissesse.

— Você cometeu suicídio, Cecília. E esse é o lugar para onde os suicidas vêm.

Fiquei sem reação.

— Você precisa se decidir agora, estamos sem tempo e eu preciso te levar até os portais. Os dois ficam próximos, só o do “inferno” que fica em outro lugar — ele suspirou. — Quando chegarmos perto dos dois portais, você precisa ter sua resposta.

Alex ergueu o bloco de notas em minha direção outra vez.

Engoli seco e peguei o mesmo.

Eu não me lembro de nada.

— Você vai lembrar.

Ele se aproximou de mim com seu semblante sério, seus olhos verdes me atingindo como flechas.

— Fecha os olhos.

Obedeci.

Alex colocou suas mãos nas laterais da minha cabeça.

E logo as memórias surgiram.

Memórias de uma vida inteira.

Senti as lágrimas rolando em meu rosto, conforme as imagens mudavam.

Alex tirou a mão da minha cabeça e as imagens sumiram, mas agora eu sabia da existência delas.

Abri meus olhos e olhei para ele.

Ele me olhava com expectativa.

Abaixei minha cabeça, não conseguia olhar diretamente para ele.

— Você… você quer voltar? — Ele perguntou, e pela primeira vez, havia insegurança em sua voz.

Alex arrastou o bloco sobre a superfície de vidro, trazendo-o para mais perto de mim.

Hesitei, mas então peguei a caneta e me abaixei, deixando que uma lágrima caísse sobre o papel.

Vi Alex travar a mandíbula quando leu o que estava escrito.

Eu não sei.