Juca Gavião acordou de manhã bem cedinho.
Sentiu fome e decidiu sair de seu ninho para procurar comida. Não iria caçar... Essas conversas de "trabalho duro" não era com ele, na verdade estava mais determinado era mesmo em achar algum otário que lhe pudesse ceder um rango daqueles.
"Hoje é dia da malandragem...
Vou ver se encontro algum camarada hehe" - disse ele em tom irônico e um tanto maldoso.
Juca Gavião então esticou-se pra dar aquela estralada matinal no esqueleto e saiu voando de seu ninho à procura de alguém, ou melhor, à procura de um mané.
Voou por um tempo, até que encontrou Zé Carcará:
- "Zé! Meu grande amigo!" - disse Juca em tom amigável.
- "Juca! Como vai companheiro?" - respondeu Zé vendo o conhecido.
- "Vou bem... E você?" - falou Juca.
- "Bem também" - disse-lhe Zeca.
- "Que bom..." - respondeu-lhe Juca.
Juca Gavião então viu que nas garras do Carcará havia uma rã morta e logo pensou: "Opa! É... tá aí o meu almoço!"
O Gavião começou a ladainhar com Zeca e tocou no assunto de comida:
- "Sabe... Vi ultimamente que tão dizendo que rã causa uma azia das brabas" - começou Juca.
- "E é?" - indagou Zeca.
- "Te digo como é verdade!
E olha, vou te dizer... Se eu fosse você não comeria essa rã que cê tá carregando, vai que pega uma azia, homem!" - falou Juca em tom preocupado.
- "Mas isso deve ser caso isolado. Tem gente que é sensível mesmo, eu sempre comi rã e nada nunca me ocorreu" - respondeu Zeca.
- "Mas é só por via das dúvidas..." - disse Juca.
- "Bom... Se tu tá dizendo, então vou jogar fora..." - falou Zeca.
- "Não! Dá pra mim que eu jogo fora!" - disse Juca, se apressando logo antes que o companheiro jogasse a rã da altura onde estavam e ela se perdesse na mata lá embaixo.
- "Mas por que?
Por que é você que tem que jogar fora?" - indagou Zeca.
- "É que você não pode ficar descartando esse tipo de coisa por ai. Vai que outro bicho lá de baixo come e fica com azia? Cê não quer ferrar os outros, não é?" - disse Juca, argumentando.
- "É... Faz sentido. Pega aqui..." - falou Zeca, entregando para o camarada Gavião a rã.
- "Sábia escolha, Zeca..." - disse Juca, recebendo a rã.
Zeca Carcará então disse que iria caçar outra coisa para comer e despediu-se do amigo, voando para longe.
Juca Gavião comeu a rã, deliciando-se com a mesma e em menos de um minuto, ela já estava em seu estômago.
- "Ótimo... Mas ainda tenho fome!" - começou ele.
- "Hora de procurar outro otário!" - falou.
Juca então saiu voando novamente e desta vez foi para a terra, onde lá encontrou Ricardo Guará, um lobo que estava sentado ao pé de uma bananeira comendo uma penca de bananas.
Juca se aproximou dele:
- "Camarada Ricardo!" - começou ele com o mesmo tom amigável que usara para falar com Zeca.
- "Juca! Como vai?" - respondeu Ricardo.
A partir dali começou o mesmo papo de sempre.
Em determinado momento, Juca tocou no assunto de comida da mesma forma que fez com o Carcará anteriormente:
- "Sabe... Fiquei sabendo que banana dá uma azia danada e vi que cê tá comendo umas, acho melhor joga-las fora" - disse Juca.
- "É mesmo? Bom... Se você diz..." - respondeu Ricardo.
Juca novamente se apressou para evitar que o sujeito jogasse o alimento fora e convenceu-o a dá-lo para ele.
Ricardo Guará então, convencido pela ladainha do Gavião, deu a penca de bananas para ele e saiu para caçar outra coisa para comer.
Quando viu que Ricardo já ia longe, Juca comeu a penca de bananas rapidamente.
- "Muito bom... Mas ainda sinto o bucho vazio!" - disse ele.
Juca então levantou vôo novamente.
Desta vez foi procurar alguém na copa das árvores.
Eis que então encontrou o Macaco Onofre, que comia um jenipapo.
- "Onofre, meu chapa..." - começou ele.
A mesma conversa se deu, porém, na hora de falar que o jenipapo dava azia das brabas e que era melhor jogar fora, o Macaco deixou-se desconfiar:
- "Não sei se acredito nessa tua conversa..." - falou Onofre.
- "Pois te digo como é verdade. Olha, conheci um bugio que morreu disso aí até" - disse Juca.
- "Tá, vou rebolar no mato então..." - falou Onofre, preparando-se para jogar o jenipapo longe.
Na hora que Juca impediu rapidamente o Macaco de jogar a fruta fora e disse que era melhor dar para ele, Onofre se viu desconfiado outra vez.
- "Rapaz... Essa tua conversa..." - começou Onofre.
- "Sei não" - disse.
- "Te digo como é verdade!" - falou Juca.
- "Ora... Tá certo, mas saiba que se for mentira tu ainda vai se lascar muito" - disse-lhe Onofre, entregando o jenipapo.
O Macaco então foi caçar outra coisa para comer.
Juca comeu ligeiro o jenipapo.
- "Agora sim... Fiquei cheio!" - falou.
Juca Gavião então aproveitou o resto do dia e quando chegou a noite voltou para seu ninho para descansar.
- "O mundo realmente é dos espertos..." - disse Juca em tom relaxado de malandro enquanto preparava-se para dormir.
A madrugada ia passando e passando...
Até que...
Juca acordou sentindo uma enorme queimação na barriga.
- "O que é isso?..." - pensou.
No dia seguinte, veio a notícia triste a todos os familiares e amigos:
"Juca Gavião morrera"
O enterro aconteceu e todos ficaram tristes e de luto pelo falecido.
Dias depois veio o diagnóstico do Dr. Capivara, médico do Hospital Amazônico sobre a morte do malandro:
"Ele aparentemente teve uma azia das brabas e vomitou bastante.
Morreu de broncoaspiração"