Amarelo sangue parte 1

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ATENÇÃO! HISTÓRIA LONGA. TEMPO MÉDIO DE NARRAÇÃO DA HISTÓRIA COMPLETA: 1h.

Capítulo 0:

Poucas pessoas se lembram precisamente de pesadelos que tiveram na infância, mas eu fui assombrado por um mesmo pesadelo por anos. Eu nunca tive ele por mais de duas noites, mas ele era tão nítido em minha mente que mais parecia uma memória real do que a lembrança de um simples pesadelo de infância.

Nesse pesadelo eu caminhava por um campo vazio. Meus pés descalços tocavam a grama verde. O vento frio tocava minha pele e fazia meus cabelos ruivos dançarem. Eu parecia perdido e quando olhava para o horizonte procurando por qualquer sinal de ajuda só encontrava um vasto céu azul com nuvens brancas ondulantes.

Depois de muito andar eu finalmente encontrei algo diferente...

Era uma casa.

Ela estava lá, simplesmente existindo no meio do nada. Parecia quase... errado ela estar lá.

A casa tinha um tom de amarelo claro com linhas brancas verticais pintadas nas paredes e seu formato era retangular. Havia uma varanda e na lateral uma passagem onde deveria estar um portão mas só tinha uma pequena escada que levava até a varanda. E o detalhe mais estranho... ao invés de grades sob o alpendre da varanda — havia na verdade uma cortina feita de linhas finas que estavam cobertas por pompons coloridos nas cores rosa e azul.

A casa parecia me convidar para entrar. Então eu caminhava até lá e subia os poucos degraus da escada. Quando eu finalmente chegava na varanda eu via de relance a sala que contava com uma televisão antiga e outros móveis vintage. Eu me aproximava lentamente, sentindo uma mistura de esperança, curiosidade e hesitação. Então eu ouvia o som de alguém se aproximando, meu coração acelerava e eu... eu acordava.

Por muito tempo eu vi esse pesadelo como algo inocente.

Não me incomodava o fato de ele nunca escapar da minha mente e surgir em momentos importunos.

Era só um sonho esquisito e marcante devido aos elementos únicos que o contemplavam. Eu achava que esses elementos marcantes e até icônicos eram os responsáveis por fazer esse sonho se perpetuar em minha mente.

Mas recentemente eu descobri que eu estava enganado, totalmente enganado.

As coisas eram muito mais complexas do que eu poderia imaginar.

Capítulo 1:

No jardim de infância eu conheci meus melhores amigos: Antony Peletier e Olívia Samuels. E eu não consigo me lembrar da minha vida antes deles.

Nós nos demos bem imediatamente, mesmo tão novos, nossas personalidades já se completavam.

Eu sempre fui o mais calado, introvertido e observador. Antony, o palhaço do grupo, sempre levantava nossos ânimos em momentos difíceis. Ele também costumava ser o mais impulsivo, não medindo esforços para defender alguém importante. Acima de todas as suas qualidades, a lealdade se destacava. Já Olívia era a mais sensata entre nós, ela sempre colocava ordem no nosso grupo e nos impedia de tomar atitudes das quais nos arrependeríamos depois.

É impossível falar sobre tudo o que aconteceu sem citá-los. E agora que eu parei para refletir sobre tudo amplamente, me lembrei de uma conversa que tive com Antony e Olívia quando estávamos no segundo ano do fundamental. Naquela época, nossa cidade passava por dias sombrios, com diversos desaparecimentos acontecendo. Nós, crianças, não entendíamos com precisão a gravidade daquela situação, então não estávamos alarmados.

Era uma manhã de primavera, nós estávamos na escola aproveitando o intervalo. Estávamos no parquinho, que estava vazio, já que poucas crianças tinham ido para a escola naquele dia. Antony estava em um dos balanços e eu no outro bem ao lado dele, enquanto Olívia estava sentada no topo do escorregador que ficava na frente dos balanços.

Estávamos quietos naquela manhã, talvez por causa do clima pesado que pairava sobre a cidade.

O som do vento balançando as folhas das árvores e o rangido das correntes dos balanços preenchiam o silêncio, parecia que até os pássaros estavam desconfortáveis para cantar naquele dia.

Fiquei encarando o céu azul, preso em meus pensamentos por longos segundos, até que Antony finalmente quebrou o silêncio.

— Não veio quase ninguém hoje, né?

— Deve ser por causa das crianças que sumiram. — Olívia respondeu.

Antony olhou para ela.

— Minha mamãe disse que foi o homem-oco que levou as crianças. — ele falou.

Olhei curioso.

— Homem-oco? — questionei.

Antony se virou para mim.

— Sim. A mamãe me disse que o homem-oco está levando todas as crianças. Ela falou para eu ter cuidado e não me preocupar, pois logo o xerife Collins vai pegar ele! — ele explicou.

Olhei surpreso, a curiosidade começava a tomar conta de mim.

— Por que o xerife Collins não pegou esse homem mau ainda? — Olívia questionou com um olhar confuso.

— Porque ele se esconde muito bem, não sabem quem ele é ainda, mas sabem que ele existe e que está levando as crianças para a floresta.

Olívia arregalou os olhos.

— Mamãe me disse que ele é tão mau que, no lugar do seu coração, não existe nada, por isso ele se chama "homem-oco". — Antony concluiu.

— E se ele aparecer para mim? Como vou saber que é ele? E se ele me levar? — Olívia questionou, assustada.

— É muito simples — Antony disse como se fosse um sábio — é só você procurar o coração dele, se ele não tiver um, você corre para longe!

Olívia assentiu, com os olhos vidrados em Antony.

— Fica tranquila, Ol — falei — estamos protegidos, olha para o outro lado da rua. — apontei na direção do grande portão de grade da escola.

Olívia se virou e seus olhos encontraram a viatura da polícia estacionada do outro lado da rua.

O xerife Collins estava escorado na porta da viatura, ele usava óculos escuros e olhava para a escola com um semblante calmo enquanto segurava um copo de café.

— Tenho certeza que o xerife Collins vai resolver tudo. Ele vai colocar o homem-oco para correr! — Antony disse, empolgado.

Eu ri sutilmente e Olívia pareceu mais tranquila.

Capítulo 2:

Acho que, de alguma forma, sempre sentimos quando algo está errado. Seja através de uma intuição ou um sinal.

O sinal pode ser óbvio ou sutil, mas acreditar nele ou não pode ser o que vai determinar o seu destino.

Eu escolhi ignorar.

Não sei se dar atenção a aqueles detalhes poderia mudar grande coisa.

Mas sinto que ignorar deixou tudo pior.

Eu vou tentar organizar esses fatos. Ainda é difícil para mim pois algumas partes da minha memória estão realmente comprometidas.

Bom, ainda na época que eu estava no segundo ano do fundamental — logo depois do Antony contar sobre a lenda do homem-oco para ser mais exato — eu passei a me sentir frequentemente observado. Claro, poderiam ser apenas paranóias de uma criança que ouviu histórias de terror e de pessoas desaparecendo.

Mas deixou de ser paranóia quando eu comecei a ouvir batidas na janela do meu quarto quase toda noite.

O medo me salvou.

Imaginar o homem-oco do outro lado do vidro fez eu ficar paralisado debaixo dos cobertores.

E um dia aquilo parou.

A presença latente foi substituída por um carro vermelho que eu passei a ver em todos os lugares possíveis.

Eu nunca consegui ver o motorista.

Mas o carro sempre estava lá. Sua lata carmesim brilhando contra a luz do sol, perto da minha casa, da escola, da padaria, da minha lanchonete preferida, do parquinho e de todo lugar que eu pudesse ir.

Claro que naquela época eu não vi maldade nisso. Para mim, era só um carro vermelho de modelo raro que eu coincidentemente via em todo lugar.

Então eu não conectei o carro às batidas na janela do meu quarto.

Agora que eu sei da verdade, sei que tinha tudo haver.

E é por isso que no início desse texto eu falei sobre como a forma que escolhemos interpretar os sinais são importantes.

Bom, de qualquer modo, eu era só uma criança.

E esses detalhes poderiam passar despercebidos até mesmo para um adulto.

Só que um dia, isso mudou, as coisas chegaram à um novo patamar…

Eu tinha um urso chamado Teddy.

Ele era marrom, possuía um detalhe ciano em suas patinhas e um laço da mesma cor no pescoço.

Eu andava com ele para todo lado, mas, um dia perdi ele depois de passear no parque com meu pai.

Aquilo me deixou devastado.

Meu pai prometeu que compraríamos um novo urso assim que possível e eu só concordei.

Mas não foi preciso.

Por que no dia seguinte o urso surgiu na porta da minha casa.

Ele estava lá.

Sentado bem na frente da porta.

Eu lembro como fiquei feliz, agarrei o urso e corri até meu pai.

Ele ficou receoso pois não fazia sentido a pelúcia aparecer ali daquela forma.

Mas depois ele imaginou que alguém tivesse me visto com o urso, encontrando ele perdido no parque e procurado meu endereço para deixá-lo lá, nossa cidade é pequena então aquilo era totalmente plausível.

Meu pai só não entendeu o porquê da pessoa não ter aparecido, só deixado o urso lá.

Mas eu supus que era uma pessoa tímida.

Então nós esquecemos o assunto e eu apenas comemorei o retorno do meu querido Teddy voltando a carregar ele para todo canto.

Mas um dia…

Eu encontrei outra coisa repousando na porta da minha casa.

Era uma pequena caixa.

Havia uma fita dentro dela e eu não hesitei em pedir ao meu pai para colocá-la para rodar no VCR.

Quando a primeira imagem surgiu na tela eu pude ver o rosto do meu pai ficando branco.

Senti meu pequeno coração se acelerando e arregalei os olhos.

Era…

Eu.

Eu estava em todos os takes.

Em alguns eu olhava diretamente para a câmera.

Em outros era só uma imagem panorâmica do meu quarto ou dos lugares que eu fui.

E algumas vezes eu estava dormindo.

— O que é isso… papai? — perguntei com a voz meio trêmula.

— N-não é nada filho…! Não se preocupe. — ele disse, avançando para tirar a fita do VCR.

Depois desse dia eu nunca mais vi o Teddy.

Capítulo 3:

Algum tempo depois do episódio com meu urso Teddy, aquele sonho se alojou em minha mente.

E depois tudo se acalmou.

Os desaparecimentos que aconteciam pela cidade pararam, o carro vermelho deixou de aparecer em todo canto e o homem-oco virou uma figura tosca para nós que crescíamos e deixávamos de acreditar em lendas.

Os anos se passaram.

E aquela noite chegou.

Eu tinha quinze anos.

Meu pai ia trabalhar até tarde e eu chamei Antony e Olívia para passarem a noite na minha casa já que eu estava com medo de ficar sozinho.

Eles aceitaram e chegaram por volta das sete da noite.

Uma tempestade de neve caía lá fora então nós estávamos bem agasalhados.

Nós trancamos todas as portas e janelas, e fomos para a cozinha onde preparamos chocolates quentes.

Depois fomos para o meu quarto.

Antony e Olívia largaram suas mochilas sobre a cama e nós três nos sentamos no chão com nossas canecas postas à nossa frente.

O vento assobiava lá fora.

— O que vocês querem fazer agora? — questionei.

Antony pensou um pouco e Olívia tomou um gole do chocolate quente.

— Já sei! — Antony falou.

— O que? — Olívia disse colocando a caneca no chão.

— Vamos jogar verdade ou desafio. — Antony falou olhando para nós dois com um olhar desafiador.

— Verdade ou desafio? — questionei.

— Sim. — Antony respondeu dando de ombros.

— Por mim tudo bem. — Olívia disse.

— Por mim também. — falei.

— Ótimo! Você tem alguma garrafa aqui pra gente girar? — Antony questionou.

— Aqui no meu quarto não. Vou procurar em outro cômodo. — falei me levantando.

Os dois assentiram e eu caminhei até a porta.

Atravessei o corredor escuro e cheguei na cozinha onde pude visualizar a janela e a neve caindo lá fora.

Acendi a luz e examinei o lugar em busca do que Antony sugeriu. Meus olhos alcançaram a bancada da cozinha e eu vi uma garrafa de vinho vazia do meu pai.

Peguei a garrafa e comecei a caminhar de volta para o quarto.

Mas...

Quando eu passei na frente da janela me senti observado.

Senti um estranho arrepio tomando conta do meu corpo e parei.

Olhei para a janela, mas nada parecia errado.

Lá fora, os flocos de neve continuavam rodopiando no ar e as árvores secas produziam sombras imponentes, mas nem um pouco ameaçadoras.

Balancei a cabeça com vergonha de mim mesmo e fechei a cortina.

Depois voltei a fazer meu trajeto até o quarto.

Ao chegar no quarto, me sentei perto de Antony e Olívia e coloquei a garrafa no chão, no meio de nós.

Por alguma razão, um forte incômodo tomava conta de mim.

Eu sentia como se algo estivesse errado.

Busquei afastar esses pensamentos e voltei minha atenção aos meus amigos.

— Vamos começar! — Antony disse colocando a mão sobre a garrafa.

Ele girou o objeto que produziu um zunido agudo ao entrar em atrito com o chão.

O som foi ficando mais grave e irregular à medida que a garrafa foi perdendo a velocidade.

Até que ela parou.

— Olívia! — Antony exclamou.

Olívia olhou para a garrafa que apontava para ela e depois para Antony.

— Verdade ou desafio? — Antony questionou.

— Verdade. — ela respondeu.

Antony sorriu.

— É verdade que... você acredita na lenda do homem-oco até hoje? — ele perguntou olhando fixamente para Olívia.

Senti um arrepio ao ouvir esse nome.

O som da risada irônica de Olívia se misturou ao som do vento lá fora.

— Que pergunta ridícula! É claro que não. — ela respondeu.

Antony deu de ombros e girou a garrafa mais uma vez.

Ela produziu o mesmo som irritante ao parar de girar, e dessa vez apontou para mim.

— Estou com sorte hoje. — Antony falou em um tom bem-humorado.

— Mike, verdade ou desafio?

— Verdade. — respondi sem hesitar.

Ele fingiu pensar um pouco.

— É verdade que... você já gostou da Amber Collins?

Engasguei com minha própria saliva.

— O que? A Amber? — falei surpreso.

Olívia revirou os olhos.

— Claro que não Antony. — respondi.

— É Antony! Até parece que o Mike seria capaz de gostar daquela garota insuportável. Ela se acha só por ser filha do xerife. — Olívia falou olhando para o chão.

— Ei não fica brava Ol — Antony começou a falar — eu não gosto dela também!

— É. Nós prometemos não citar ela nunca mais e você acabou de descumprir essa promessa! — Olívia falou, evidentemente chateada.

Naquela época era praticamente uma regra do nosso trio não gostar e não citar o nome de Amber Collins, pois uma vez, sem motivos aparentes, ela bateu em Olívia.

Antony e eu flagramos essa cena. Olívia estava com o nariz cheio de sangue, nós defendemos ela e fomos até o xerife para reclamar do comportamento de Amber.

Ele falou que ia conversar com a filha e nós deixamos esse assunto para lá.

O ponto é que Antony teorizou que Amber fez isso por gostar de mim e ter ciúmes de Olívia, algo que não fazia o menor sentido.

Antony ficou em silêncio e girou a garrafa de novo, dessa vez o objeto apontou para ele e Olívia faria a pergunta.

— Antony. Verdade ou desafio? — Olívia perguntou ainda séria.

— Vou escolher desafio para me redimir pelo meu erro. — Antony disse em um tom engraçado.

Olívia deixou um sorriso escapar.

— Eu te desafio a sair lá fora!

Olhei surpreso.

— Lá fora? Mas tá muito frio. — falei.

Olívia se virou para mim.

— Ele aguenta. É só ir até o quintal da sua casa e voltar.

— Isso mesmo. Eu aguento! Isso daí vai ser moleza. — Antony disse já se levantando.

Seguimos ele pela casa, até chegar na porta da frente.

Eu ainda sentia aquela sensação estranha, ela parecia estar até mais intensa, como um mal pressentimento.

— Tem certeza Antony? — questionei.

— É claro. Eu não recuso nenhum desafio!

Olívia sorriu vitoriosa.

Abri a porta e a brisa gélida tocou nossas peles. Olívia abraçou seu próprio corpo e Antony suspirou.

— Dois minutos! — Olívia falou.

— Beleza! — Antony respondeu confiante.

Ele saiu. Seus pés afundando na neve e os flocos se alojando em seu casaco felpudo.

Olívia fechou a porta e eu olhei para o relógio para marcar os minutos.

Tudo estava indo bem.

Até que...

Ouvimos o som de Antony correndo de volta.

Sua respiração estava tão ofegante que ele parecia estar correndo uma maratona.

Olívia e eu nos entreolhamos.

Então ele bateu na porta, seu desespero fazendo as dobradiças estremecerem.

— Abre a porta! Rápido! — ele gritou do outro lado.

Olívia arregalou os olhos e girou a chave.

Antony empurrou a porta com tanta pressa que tropeçou e caiu no chão.

Olhei para ele assustado.

Aquele não parecia o simples desespero de alguém com frio.

Ao invés de ficar parado no chão, ele saltou rapidamente e avançou sobre a porta, trancando a mesma.

— Antony! Você tá bem? — Olívia perguntou, preocupada.

Antony não respondeu.

Ele estava pálido, seu peito subia e descia rapidamente e sua pupila estava dilatada.

— Antony? — Olívia chamou outra vez.

Ele continuou tentando regular sua respiração.

— Aconteceu alguma coisa? — eu perguntei.

Ele finalmente respirou fundo e olhou sério para nós. O medo ainda lapidado em seu olhar.

— T-tem alguém lá fora. — ele falou de uma vez com sua voz trêmula.

Antony é do tipo brincalhão, mas eu nunca o vi brincando com algo do tipo, muito menos tão sério.

— C-como assim? — Olívia perguntou com a voz fraca.

— Eu... eu estava lá fora e quando olhei para o canto do quintal... vi uma silhueta parada na escuridão. — ele disse se sentando em uma cadeira, ainda trêmulo.

Senti um arrepio na espinha.

— Você tem certeza? Talvez seja só uma árvore. — falei.

— T-tenho... porque... — ele começou a falar, visivelmente abalado — porque ele começou a vir na minha direção!

Olívia arregalou os olhos.

Eu olhei para a porta, meu coração martelando dentro do peito.

— Vamos sair daqui! Vamos voltar para o quarto.

Antony se levantou e nós voltamos rapidamente para o quarto.

Ao chegar lá, eu fechei a porta como se aquilo fizesse alguma diferença.

Antony se sentou na cama limpando seu casaco salpicado de flocos de neve. Olívia parou ao lado dele com uma expressão aflita.

— E agora? — Olívia perguntou.

— Agora nós ficamos aqui. Se realmente tem alguém lá fora, essa pessoa não pode entrar. A casa está toda trancada. — respondi.

— "Se realmente tem alguém lá?" olha o meu estado Mike! Você acha que eu iria brincar com isso! — Antony falou alterado, sua voz tão pesada quanto o som da tempestade lá fora.

Nunca o vi tão bravo.

— Tá Antony. Eu acredito em você. Me desculpa, eu só estou tentando acalmar as coisa e porra, essa é a minha casa! — falei.

Antony abaixou a cabeça.

Olívia cruzou os braços e olhou na direção da janela que estava coberta por uma cortina branca.

— O que essa pessoa está fazendo aqui? E se ele conseguir entrar? Nós estamos sozinhos! — Olívia falou nervosa.

Suspirei. Passei a mão nos meus cabelos ruivos e me sentei ao lado de Antony.

— Estamos seguros aqui, fica tranquila. Meu pai chega de manhã, tudo que temos que fazer agora é ficar aqui.

Olívia assentiu, mas ela não parecia confiante.

Cada um de nós estava tomado pelo medo.

Não é todo dia que alguém surge em seu quintal durante uma tempestade de neve e corre atrás de alguém.

De repente, aquele som cortou a noite como uma lâmina afiada...

Uma batida na janela.

Meus amigos olharam para mim com os olhos arregalados.

— N-não deve ser nada. — falei tentando tranquilizar meus amigos.

Mas...

Outras três batidas preencheram o silêncio.

Aquele maldito som que tanto atormentou a minha infância.

Um som que só poderia ser de alguém batendo o punho contra o vidro.

Antony e eu nos levantamos da cama abruptamente.

Nós três paramos na frente da porta do quarto, olhando diretamente para a janela.

Atrás da cortina branca quase transparente, uma sombra negra e imponente nos espreitava do lado de fora.

Girei a chave da porta do quarto e puxei meus amigos comigo.

Nós corremos para o banheiro — o lugar que parecia mais seguro — e passamos a noite trancados lá, ouvindo o som de alguém andando ao redor da casa.

Pela manhã, assim que meu pai chegou, ele se deparou com três adolescentes aterrorizados e com lágrimas nos olhos.

Aquela tinha sido uma noite verdadeiramente aterrorizante para nós três.

Meu pai saiu para o quintal e confirmou nossas suspeitas, haviam... diversas pegadas na neve.

Vi o rosto do meu pai empalidecer, como quando ele viu aquelas fitas.

Ele ficou tão estranho depois desse dia.

Na verdade, ele nunca mais foi o mesmo.

Ele nem me quis morando com ele mais, como se eu fosse a causa daquele intruso invadir nosso quintal.

Ou... como se ele quisesse me proteger.