Publicado em
Eii... (eu escutei, seguido de alguns tapas leves em meu rosto)
— Grrr... Onde eu estou? (falei, ainda meio confuso)
— Cara, você é meio idiota, não é? Kkkk. Sua raça ganhou o benefício da graça divina, foi feita à imagem e semelhança e, mesmo assim, se recusa a seguir o caminho certo... De qualquer forma, não posso te julgar, kkkk (falou o estranho com uma risada debochada).
Quando finalmente abri meus olhos, eu vejo uma silhueta, uma criatura bizarra na minha frente, tipo quando uma pessoa fica contra a luz. o ambiente era sombrio, apenas tendo uma luz acinzentada atrás da tal criatura, e de repente sinto uma onda de calor tomar o ambiente.
— Eita porraaaa! Quem, quem é você? Me diga, porra. Como eu vim parar aqui, caralho?
— Calma, calma, campeão, hahaha (disse a criatura novamente de forma debochada).
— Quem faz as perguntas aqui sou EU! (agora a criatura assumiu uma forma séria).
— Cê realmente fez merda dessa vez, né? Não adianta se fazer de idiota agora, vamos, tente lembrar o que cê fez para estar aqui. Não adianta se fingir de bom moço pra mim, eu te acompanho por muito tempo... Porém, quero saber o seu ponto de vista perante toda essa situação.
Ainda estava meio confuso, porém aquela criatura falava com uma autoridade tão grande... Eu nunca tinha sentido aquilo na minha vida; ao mesmo tempo, sentia que a criatura era familiar de alguma forma. Meu corpo respondeu instintivamente e, de repente, alguns fragmentos da minha memória foram voltando, então eu disse:
— Ook, acho que posso fazer isso...
Dentro da minha cabeça tinham vários pensamentos:
— Quem sou eu? — O que aconteceu antes? — Por que ele quer saber de mim? — Por que sinto que não posso mentir dessa vez? — Droga, eu não entendo o que está acontecendo...
De repente, tive um clarão na minha cabeça, e as respostas para as perguntas que fiz internamente foram sendo respondidas...
— vamos lá, vou te contar desde o começo (falei, tentando parecer firme, por mais que estivesse tremendo de medo).
— Então comece (a criatura disse, parecendo empolgada).
Meu nome é David. Desde criança, eu sinto que sou diferente. Nunca compreendi muito bem as emoções das pessoas, tudo parece tão falso, tudo tão sintético... Minha família sempre foi fanática religiosa, então tudo o que acontecia — sendo doenças, crimes, disputas políticas — eram obras do "diabo". Mas por quê? Quem seria o diabo? Por que ele nos odeia? Por que odiamos ele de volta? Eu tinha dificuldade de entender isso. Minha mãe sempre disse que dentro da gente existem influências que podem nos ajudar em situações difíceis: um seria um "anjinho", que nos guiaria para um lado bom, e o outro "diabinho", que nos faria ir para um lado sombrio e ruim.
Nunca levei isso a sério, na verdade eu achava que a minha mãe era uma idiota por acreditar nisso... Muitos anos depois, já adulto, eu vivia naquele padrão de sempre... Casa, trabalho, trabalho para casa. Me afastei da minha família e amigos; quando estavam por perto, falavam que eu precisava de ajuda para aquele problema com as emoções, falando que eu tinha algum nível de esquizofrenia...
POR QUE SEMPRE É FÁCIL JULGAR OS OUTROS? POR QUE NÃO PODEM ME ACEITAR DO JEITO QUE EU SOU?! (o sentimento de raiva sempre me tomava quando lembrava disso).
— Ei, não perca o foco, não quero saber desses draminhas dos jovens de hoje em dia (falou a criatura de modo sério).
— Você sabe que só está dando desculpas pra tentar justificar o que você fez, kkk (a criatura deu uma risada maliciosa).
— Isso não funciona comigo!! (A CRIATURA NOVAMENTE RETOMOU O TOM DE AUTORIDADE; SEU OLHAR PARECIA ENXERGAR MINHA ALMA).
Ainda meio em choque, retomei o fôlego e disse para a criatura:
— Calma, caralho, para chegar aonde você quer, eu tenho que explicar o que aconteceu antes... (falei, tentando parecer firme).
— Grrrr, que seja, mas NÃO ME ENROLE (a criatura disse, parecendo não gostar do meu tom).
— Então, retomando meu raciocínio...(falei tentando lembrar onde tinha parado)
Por que é mais fácil julgar quem é diferente?
Nas últimas noites eu não conseguia dormir, a insônia se tornou uma companhia frequente. E, no meio dessas noites, eu me peguei pensando:
— Por que tudo parece entediante e sintético? — Isso nunca vai mudar? — O problema realmente sou eu?
Hahhahah, não, não, não tem como o problema ser eu... Sou inteligente demais para estar errado!
Nas noites seguintes, a insônia se recusava a me deixar, então levantei da cama e liguei a TV... Pulando entre os canais, achei um programa jornalístico mostrando as tragédias da guerra EUA x Irã, e, por não ser horário nobre, as imagens não tinham censura. Quando fui vendo os corpos despedaçados, queimados, mortos pela fome, mortos de todas as formas possíveis... E foi aí, nesse momento, eu finalmente percebi. Realmente existe uma coisa que não podemos fingir, algo que não tem como ser sintético: o medo, o desespero, a dor...
Eu senti um sentimento que nunca tinha sentido antes... Não foi compaixão, nem pena... Foi algo intenso, INTENSO DEMAIS, foi um estado de êxtase, nunca tinha sentido nada assim antes...
— Kkkk, seus amigos tinham razão, cê realmente é um moleque perturbado (falou a criatura, agora parecendo empolgada com o meu relato).
— VOCÊ VAI ME INTERROMPER TODA VEZ?
— ISSO ESTÁ FICANDO CHATO, CARA (FALEI QUASE GRITANDO, CLARAMENTE IRRITADO).
— OLHA O JEITO QUE FALA COMIGO! (A CRIATURA GRITOU, E LOGO UM SOM DE TROVÃO DEIXOU TUDO MAIS DRAMÁTICO).
— Mas continue, hehehe, quero ver onde vai parar (a criatura retomou o tom malicioso).
Depois de alguns dias, peguei pensando em minha mãe, mais especificamente nas influências que disse que a gente tinha...
— Anjinho e diabinho, hein?
Sempre tentei escutar o anjinho, ser uma pessoa boa, mas sempre me fodia... Sempre era pisado...
Então, hehehe, por que não deixo o diabo assumir? Eu me questionei, não parecia uma ideia ruim... Na próxima noite, sentei na minha cadeira e comecei a pensar... O que é algo puro e bom? velhinhos... Isso, um alvo fácil que muita gente negligencia e não vai fazer falta no mundo, hehehe. Qual o melhor jeito de causar medo e desespero neles? Uma faca bem afiada, da, da, da (falei cantarolando).
Decidido o alvo e a arma, eu comecei a agir. Foi lindo ver o cabelo branco da senhora Selma ser tomado pelo vermelho intenso do sangue. Nunca vou me esquecer da expressão no rosto dela e dos grunhidos que fazia quando minha faca entrava lentamente em sua garganta... Aquele sentimento era incrível... Depois foi o Sebastião, depois a Gertrudes, depois a Genoveva... Então não conseguia mais parar, não poderia ficar sem aquela sensação...
— Cê é mais cruel que o diabo, hein?! Kkk. — Nunca teria pensado em algo tão macabro (disse a criatura com um tom empolgado).
Não o respondi, apenas continuei.
Certa noite, já tinha definido meu alvo... A senhora Velma. Ela morava sozinha, tinha aproximadamente 1,49m de altura, magrinha, com o cabelo branco como a neve. EU á avistei saindo da missa, a segui para descobrir onde morava... Fui estudando sua rotina durante uma semana inteira, até que não consegui me controlar mais, e numa noite de sexta—feira, decidi fazer o ataque. Pulei seu muro com uma certa facilidade, destranquei sua porta e fui com passos calmos até seu quarto... Abri gentilmente a porta e vi um relevo por baixo das cobertas... Quando me preparei para o golpe, eu escutei um estrondo, senti algo quente perfurando minhas costas... De repente perdi o equilíbrio e caí ao chão... Algo se aproximou lentamente e disse:
— Eu sabia que você tentaria me atacar... Eu percebi você me observando esse tempo todo. Seu erro foi pensar que os mais velhos são inocentes; vivemos demais, jovenzinho. passamos por guerras, somos mais fortes do que você pensa.
— Como? Você não estava na cama? (falei em um tom de dor e confusão).
— Aquilo? É fácil de fazer usando roupas velhas, kkk. Cê é muito idiota por acreditar naquilo.
E de repente senti um impacto na minha cabeça e minha mente ficando em branco; quando percebi, estava aqui com você.
Eu escutei uma gargalhada vindo da criatura:
— Então você morreu para uma velha, kkkkkkk. Isso é ridículo demais.
Permaneci em silêncio, sem saber o que falar.
A criatura me olhou fixamente
— Terminou?
Eu respondi:
— Sim...
Silêncio.
A criatura se aproxima.
Depois sorri.
Não aquele sorriso debochado.
Um sorriso cansado.
— Engraçado...
— Você passou a vida inteira procurando um culpado.
O diabo.
Sua mãe.
Sua família.
A guerra.
A sociedade.
A esquizofrenia.
Até um anjinho...
Menos você.
eu fiquei irritado.
— Cala a boca!
Você não sabe de nada!
A criatura apenas responde.
— Eu sei.
Porque tudo isso...
Eu pensei junto com você.
eu senti um arrepio.
— O... O que?
A criatura dá alguns passos.
A cada passo...
O rosto começa a mudar.
Os olhos.
A boca.
O cabelo.
Até que...
eu estava olhando...
Para mim mesmo.
— Não...
Não...
Isso não faz sentido...
A criatura sorri.
Agora com exatamente o mesmo sorriso de david.
— Faz.
Eu sou a única voz que nunca saiu da sua cabeça.
Enquanto você culpava Deus...
Eu estava aí.
Enquanto culpava o diabo...
Eu estava aí.
Enquanto enfiava aquela faca...
Eu estava aí.
Eu nunca mandei você fazer nada.
Você escolheu.
Todas.
As.
Vezes.
Silêncio.
David cai de joelhos.
— Então...
Eu sou um monstro?
A criatura responde.
— Não.
Você é humano.
Silêncio.
— Essa é a parte engraçada.
Vocês passam a vida inteira inventando monstros.
Inventando demônios.
Inventando maldições.
Inventando possessões.
Só para nunca admitir uma coisa simples.
a criatura se aproxima.
Encosta a mão no peito de David.
— O maior monstro...
Sempre morou aqui.
Nesse momento...
Toda a escuridão desaparece.
A luz aumenta.
A criatura começa a desaparecer.
David grita.
— Espera!
Quem é você?
Ela sorri pela última vez.
— Eu?
Eu fui a única pessoa que nunca mentiu para você.
Afinal, eu sou você...
E, de repente, aquele cenário escuro se transforma em algo familiar... Era a casa da Velma, da maldita Velma... Sinto o frio subir por meu corpo e tudo escurecer lentamente. E, mesmo no final de tudo, eu não me arrependo de nada... Afinal, nunca foi um diabo que me influenciou a fazer o que eu fiz, foram sempre ESCOLHAS.
8,2 - Nota do chato
Essa historia entra muito no assunto das calls