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Esta obra é uma ficção de terror psicológico e contém temas sensíveis, como luto, depressão, ansiedade, crises de pânico, Alzheimer, trauma, violência e sofrimento emocional. Os acontecimentos e personagens são fictícios e não têm a intenção de romantizar ou incentivar essas situações.
Leia com discernimento.
— "Por que você ainda está aqui?"
Aquela voz se repete sem parar nos meus ouvidos. Ela invade minha consciência e minha inconsciência, como se não existisse lugar onde eu pudesse escapar. Sinto medo, uma pressão sufocante... e então desperto.
— Outro pesadelo? — perguntou Jax.
Suando frio e respirando com dificuldade, olhei em direção ao dono da voz.
— Não... o mesmo de sempre. Ainda é ela.
Jax soltou um suspiro cansado.
— Você ainda não conseguiu superar a Nyra, Scarlett? Você vai acabar adoecendo desse jeito.
— Quer falar sobre isso?
Sabia exatamente qual seria minha resposta. Afastei a coberta, sentei na beira da cama e fiquei encarando Jax. Mordi o lábio inferior até sentir o gosto metálico do sangue antes de confirmar com a cabeça.
— Quero. Desta vez... vou te contar tudo.
Passei a mão pelos cabelos e comecei.
Naquela época, como você sabe, eu estava vivendo o pior momento da minha vida. A morte do meu pai e o avanço do Alzheimer da minha mãe me destruíram completamente. Eu me sentia quebrada e não havia nada que pudesse fazer para impedir aquilo. Foi assim que a depressão tomou conta de mim. Mas eu juro por Deus que nunca tentei tirar a minha própria vida. Não porque nunca tivesse pensado nisso, e sim porque eu não podia. Ainda precisava organizar o funeral do meu pai e cuidar da minha mãe o tempo inteiro. Foi justamente no meio daquele vazio que ela apareceu.
Nyra.
Uma garota de pele branca como porcelana, cabelos negros, olhos escuros e uma aura que misturava calma, melancolia e mistério. Não lembro exatamente quando começamos a conversar. Apenas parecia que nos conhecíamos havia muitos anos. Sempre tínhamos assunto, ela me ajudava com minha mãe e, quando percebi, já passávamos todos os dias juntas. Se eu ia ao mercado, ela estava lá. Se levava minha mãe às consultas, ela estava lá. Se eu passava horas encarando o vazio do apartamento, ela também estava lá, impedindo que eu fizesse qualquer besteira. Eu simplesmente aceitei aquilo. Parecia certo. Ou pelo menos parecia.
Tudo mudou quando comecei a fazer terapia. Na primeira sessão, numa quinta-feira, minha terapeuta fez uma pergunta que destruiu completamente minha realidade.
— Scarlett... quem é Nyra? Você entrou aqui sozinha. Conversou sozinha. Sorriu sozinha.
Naquele instante meu mundo parou. Nyra era real? Ou era apenas uma criação perfeita da minha solidão? Tudo o que vivi com ela havia sido uma ilusão? Os abraços, as conversas, as carícias, os desabafos... eu tinha imaginado tudo aquilo?
Depois desse dia mergulhei em uma paranoia insuportável. Via seu reflexo nos espelhos, sua silhueta parada nos corredores do apartamento e sentia sua presença atrás de mim. Então comecei a ignorá-la. Passei a evitá-la e deixei de frequentar nosso lugar favorito. Meu mundo voltou a ser apenas escuridão. A rotina tornou-se vazia outra vez e a depressão me puxava cada vez mais para o fundo.
Até que ela cansou de esperar.
Às três da madrugada, Nyra apareceu na porta do meu apartamento. Toc. Toc. Toc.
— Scarlett? Ei... o que está acontecendo? Me deixa entrar.
Eu estava sentada no chão, completamente entorpecida pelos remédios para ansiedade. Até hoje não sei como não tive uma overdose. Por alguns segundos ela parou de bater e o silêncio me deu uma falsa sensação de segurança. Então as batidas voltaram, mais fortes, mais altas, mais desesperadas. E sua voz... sua voz saiu errada.
— Scarlett! Eu sei que você está aí! Me dê permissão para entrar!
Parecia um áudio corrompido, uma gravação presa em um defeito, um eco impossível. Mas eu não abri. Nem tive tempo. No minuto seguinte perdi a consciência enquanto a escuridão do quarto me engolia. Esperava apenas que o sol voltasse a nascer.
— O que aconteceu depois? — perguntou Jax, entregando-me uma caneca de chá de camomila.
Segurei a caneca com as duas mãos.
— Eu... não sei. Não consigo lembrar. Tudo o que existe depois disso são flashes desconexos... e uma voz repetindo sem parar: "Por que você ainda está aqui?"
Jax permaneceu em silêncio por alguns segundos antes de falar:
— Já pensou em procurar um hipnoterapeuta? Talvez consiga acessar essas lembranças.
Balancei a cabeça negativamente e coloquei a caneca vazia sobre a mesa de cabeceira.
— Não. Existem coisas que talvez nunca devam ser descobertas. E alguma coisa dentro de mim diz que é melhor continuar assim.
Jax suspirou, levantou-se e colocou a mão sobre meu ombro.
— Certo. Mas, se mudar de ideia, me avise. Eu só quero te ajudar, Scarlett.
Assim que saiu do quarto, permaneci olhando para a porta fechada, tomada por uma sensação crescente de medo.
Scarlett permaneceu alguns minutos parada no quarto, encarando a porta por onde Jax havia saído. Conhecia o melhor amigo bem o suficiente para saber que ele dificilmente deixaria aquele assunto morrer. Existiam apenas duas possibilidades para o que ele faria a partir dali, e ela odiava ambas. Em qualquer uma delas acabaria sendo obrigada a reviver um passado que vinha tentando manter enterrado havia anos. Soltou um longo suspiro, caminhou até o armário, escolheu uma roupa qualquer e tomou seus remédios. Apesar de já estar melhor do que no passado, a depressão nunca a abandonara completamente. A perda do pai ainda deixava marcas, e a morte da mãe, consumida lentamente pelo Alzheimer, abrira um vazio que parecia impossível de preencher.
Como fazia todos os dias, decidiu seguir sua rotina. Sem perceber, transformara aqueles pequenos hábitos em uma espécie de âncora. Manter horários, repetir caminhos e visitar sempre os mesmos lugares era a única forma de impedir que sua mente vagasse até lembranças que preferia esquecer. Enquanto tudo permanecesse igual, talvez seu passado continuasse onde deveria estar.
Naquela manhã trabalhou normalmente na antiga locadora, um estabelecimento que sobrevivia mais pela insistência do dono do que pelos poucos clientes que ainda apareciam. À tarde compareceu às consultas com a psicóloga e a psiquiatra e, ao anoitecer, entrou no mercado para comprar apenas o essencial. Na verdade, nem sempre precisava de alguma coisa. Às vezes caminhava pelos corredores apenas para cumprir mais uma etapa da rotina que criara para si.
Foi entre as prateleiras dos produtos de limpeza, cercada por pessoas comuns vivendo suas vidas comuns, que tudo mudou.
Ela estava ali.
Nyra.
Parada entre os corredores como se jamais tivesse ido embora. A pele continuava absurdamente pálida, quase sem vida. Os cabelos negros caíam sobre os ombros, contrastando com o branco do rosto, enquanto seus olhos permaneciam fixos em Scarlett, como se estivessem esperando aquele reencontro havia muito tempo. O mundo ao redor pareceu desaparecer. Os sons ficaram distantes, sua respiração falhou e o coração disparou de forma desesperada. O medo tomou conta de seu corpo, mas havia algo ainda pior escondido dentro dela. Uma parte de si queria correr até Nyra, abraçá-la e sentir novamente a segurança que acreditava encontrar em sua presença. Durante muito tempo aquela garota havia sido seu único refúgio, a única pessoa que parecia compreender sua dor. Por um instante, Scarlett desejou esquecer todas as dúvidas e simplesmente voltar para seus braços.
As pernas, porém, cederam antes que pudesse dar um único passo. Sua visão escureceu, os sons desapareceram por completo e seu corpo encontrou o chão.
— Acorda... Scarlett...
A voz parecia distante.
— Scarlett... acorda!
Respire.
Um... dois... três...
Inspire.
Um... dois... três...
Abri os olhos lentamente. O teto branco, o cheiro característico de desinfetante e o som constante dos aparelhos deixavam claro onde eu estava.
Hospital.
Ouvi passos se aproximando. A porta se abriu e Jax entrou às pressas. Seus olhos estavam avermelhados e marejados. Assim que me viu acordada, caminhou até a cama e me abraçou com força.
— Merda, Scarlett... você me deu um susto do caralho.
A preocupação em sua voz era evidente. Sempre que uma crise acontecia, ele se culpava por não estar presente. Não importava quantas vezes dissesse que aquilo não era responsabilidade dele; Jax jamais acreditava.
— Desculpa... — minha voz saiu quase como um sussurro. — Eu vi... eu vi ela...
Ele se afastou apenas o suficiente para olhar nos meus olhos.
— Quem? A Nyra?
Assenti lentamente, enquanto as lágrimas começavam a escorrer pelo meu rosto.
Jax passou a andar de um lado para o outro pelo quarto, claramente tentando organizar os próprios pensamentos.
— Então foi isso que desencadeou o ataque de pânico.
Por alguns instantes permaneceu em silêncio. Depois parou diante da janela e respirou fundo.
— Scarlett... nós precisamos descobrir o que realmente aconteceu naquela noite. Pelo seu bem.
Olhei para ele sentindo o peito apertar. A simples ideia de revisitar aquelas lembranças fazia meu estômago revirar, mas talvez ele tivesse razão. Talvez fugir do passado fosse justamente o que permitia que ele continuasse me perseguindo.
Depois de alguns segundos, concordei com um leve movimento de cabeça.
— Tá bem... nós vamos fazer isso.
Jax voltou até a cama e segurou minha mão com cuidado. Ainda havia medo estampado em meus olhos, um medo confuso que nem eu conseguia explicar. Ele percebeu imediatamente. Apertou minha mão um pouco mais forte, tentando transmitir uma segurança que nem ele próprio sentia. Se existisse alguma maneira de aliviar aquele sofrimento, ele faria qualquer coisa para encontrá-la.