O Primeiro Ciclo

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Sabe quando um segredo é grande demais para ser guardado, mas antigo demais para ser revelado? Era exatamente assim. Os funcionários mais antigos evitavam tocar no assunto. Sempre que alguém fazia a pergunta errada, desviavam o olhar, e o próprio diretor do hospital preferia fingir que certas histórias jamais haviam acontecido. Não tinham medo de parecer loucos. Era algo muito pior. Sabiam que algumas verdades permaneciam vivas enquanto fossem lembradas.

Durante décadas, o necrotério foi tratado como o centro de acontecimentos inexplicáveis. Histórias sobre vozes durante a madrugada, funcionários que desapareciam sem deixar rastros e pessoas que enlouqueciam após poucos meses de trabalho eram contadas como lendas criadas apenas para assustar novatos. O que ninguém imaginava era que aquele prédio jamais fora a origem de tudo. Era apenas uma porta.

Muito antes de existirem corredores de aço, câmaras frias e luzes fluorescentes, algo já habitava aquele lugar. Não possuía corpo, rosto ou um nome que pudesse ser pronunciado. Era uma presença antiga, tão antiga quanto o primeiro homem que olhou para um cadáver e desejou descobrir o que existia depois da morte. Enquanto a humanidade aprendia a enterrar seus mortos, aquela presença aprendia a observá-los. Não precisava matar nem perseguir suas vítimas. Bastava esperar. Esperar até que alguém encarasse o vazio por tempo suficiente para, sem perceber, permitir que o vazio olhasse de volta.

O mais perturbador era que aquele ser não era apenas uma lenda. Tinha um nome, um sobrenome e uma história que ninguém ousava contar. Em vez de ser apagado da existência, seu passado foi trancado dentro de um antigo arquivo, lacrado em um cofre escondido na diretoria do hospital. Não porque quisessem preservar sua memória, mas porque acreditavam que algumas verdades jamais deveriam voltar à superfície.

Ninguém naquele hospital queria se lembrar da doutora Morrigan Johns. Seu nome foi apagado dos documentos, retirado de fotografias antigas e proibido nos corredores, como se nunca tivesse feito parte daquela instituição. Ainda assim, havia algo que nem o tempo, nem o silêncio, nem todas as tentativas de esconder seu passado conseguiram apagar.

Seus hábitos macabros.

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Enquanto os demais médicos tratavam os mortos com respeito, Morrigan permanecia horas sozinha no necrotério depois do fim do expediente. Dizia que a morte era apenas outra forma de consciência e que os cadáveres ainda tinham muito a revelar para quem soubesse escutá-los. No início, todos acreditavam tratar-se apenas das excentricidades de uma médica brilhante. Foi somente quando os primeiros funcionários começaram a desaparecer e outros perderam completamente a própria sanidade que perceberam a verdade: Morrigan não estudava a morte... ela tentava dar vida a algo que jamais deveria existir.

O que ninguém jamais descobriu era que Morrigan fazia parte de uma organização tão antiga quanto os próprios registros do hospital. Seus membros acreditavam que a morte não era o fim da existência, mas o estado mais puro que um ser humano poderia alcançar. Para eles, a vida era apenas uma etapa imperfeita, uma longa preparação para aquilo que realmente importava.

Morrigan levou essa crença muito além da teoria. Transformou o necrotério em seu laboratório particular, onde cada novo funcionário se tornava, sem saber, parte de um experimento cruel. Seu objetivo não era matar, mas aprisionar a mente de suas vítimas em um ciclo interminável, obrigando-as a reviver a própria morte repetidas vezes. Ela observava cada reação, cada escolha e cada tentativa desesperada de escapar, como se buscasse provar que, diante da morte inevitável, toda identidade acabava se desfazendo.

Quando percebeu, já era tarde demais para voltar atrás. O que quer que tivesse criado já não dependia mais de sua vontade. Seus experimentos ultrapassaram os limites da vida e da morte, tornando-se algo impossível de controlar. Nem mesmo sua própria morte foi capaz de interromper o ciclo.

Na verdade, tudo piorou.

Os desaparecimentos continuaram. Os surtos psicológicos tornaram-se cada vez mais frequentes, e novos funcionários passaram a relatar exatamente as mesmas experiências, como se seguissem um roteiro escrito décadas antes. Vozes ecoavam pelos corredores, gavetas metálicas se abriam sozinhas, prontuários desapareciam sem explicação e corpos sem identificação surgiam noite após noite.

Foi somente muitos anos depois que os poucos sobreviventes chegaram à conclusão mais perturbadora de todas.

Morrigan nunca havia deixado o necrotério.

Ela era a própria entidade.

Não um fantasma. Não um demônio. Mas um fragmento de consciência preso entre a vida e a morte, condenado a repetir eternamente os experimentos que jamais conseguiu concluir. Seu desejo de compreender a morte acabou transformando-a em algo que nem ela própria seria capaz de definir.

Era por isso que nenhum novato permanecia o mesmo depois do primeiro plantão noturno. Todos acreditavam que deixariam o hospital convencidos de que sobreviveram, sem perceber que jamais haviam saído dali. Continuavam presos naquele corredor gelado, revivendo a própria morte em um ciclo interminável que sempre recomeçava às três horas e dezessete minutos, enquanto Morrigan observava em silêncio, esperando descobrir se, daquela vez, alguém finalmente reagiria de forma diferente.

Arthur não foi o primeiro, e certamente não seria o último. Antes dele, milhares atravessaram aqueles corredores acreditando estar apenas começando um novo emprego. Todos acabaram fazendo parte dos experimentos de Morrigan. Alguns resistiram por dias, outros por semanas, mas nenhum conseguiu escapar completamente do ciclo.

Arthur, porém, era diferente.

Sem que soubesse, tornou-se o experimento de número 3021.

Entre todos os que vieram antes, foi o único que continuou lutando contra a própria realidade mesmo quando todas as evidências apontavam para o inevitável. Enquanto os outros acabavam aceitando a loucura, Arthur insistia em procurar respostas, desafiar as regras e acreditar que ainda existia uma saída.

E foi exatamente isso que despertou o interesse de Morrigan.

Ela observava cada reação, cada tentativa de fuga, cada momento de desespero e cada pequena esperança que surgia antes de ser destruída pelo ciclo. Para ela, Arthur havia deixado de ser apenas mais um funcionário do necrotério. Tornara-se seu experimento favorito, aquele que sempre encontrava uma nova maneira de reagir à própria morte, mesmo sem perceber que jamais deixara de vivê-la.

Talvez fosse por isso que Morrigan prolongasse tanto o ciclo dele. Queria descobrir até onde uma mente humana conseguiria suportar antes de finalmente esquecer quem era... ou até provar que, pela primeira vez, um de seus experimentos seria capaz de quebrar as regras que ela mesma havia criado.

Talvez aquele tivesse sido seu verdadeiro objetivo desde o início. Não descobrir o que existia depois da morte, mas encontrar alguém capaz de escapar dela.

Em milhares de tentativas, ninguém havia conseguido. Todos acabavam enlouquecendo, esquecendo quem eram ou aceitando o ciclo como se fosse a única realidade possível.

Arthur era a exceção.

Mesmo depois de incontáveis repetições, alguma parte dele continuava resistindo. Era como se sua mente se recusasse a desaparecer por completo. A cada novo ciclo, esquecia quase tudo, mas sempre permanecia uma sensação incômoda de que algo estava errado. Era essa pequena centelha que mantinha Morrigan interessada.

Ela já não buscava respostas.

Buscava Arthur.

Enquanto ele lutava para sobreviver ao próprio pesadelo, ela observava em silêncio, aguardando o dia em que ele finalmente quebraria o ciclo... ou se renderia de uma vez por todas.

Os antigos funcionários acreditavam que a entidade desejava fazer novas vítimas.

Estavam errados.

Ela queria apenas uma.

Sempre a mesma.

Por isso, quando um novato chegava ao necrotério, Morrigan apenas o conduzia ao início do experimento. Se fracassasse, era descartado. Se resistisse, tornava-se apenas mais um número em seus registros.

Mas, quando Arthur atravessou aquelas portas, algo mudou.

Pela primeira vez, Morrigan sorriu.

Não porque tivesse encontrado uma vítima.

Mas porque acreditava ter encontrado alguém capaz de concluir aquilo que ela nunca conseguiu.

Se ele conseguiria ou não, nem mesmo ela sabia.

A única certeza era que, todas as noites, exatamente às três horas e dezessete minutos, as luzes da sala fria voltavam a piscar, uma gaveta metálica se abria lentamente e um novo ciclo começava.

Porque alguns experimentos nunca terminam.

Eles apenas esperam pelo próximo capítulo.