PELE DE CORDEIRO, SENHORA MORTE

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NOTA AO LEITOR: Por trás das metáforas desta narrativa, ocultam-se temas pesados como violência doméstica e abuso. Cuide da sua saúde mental ao ler.

Ele chegou ao meu jardim usando uma pele de cordeiro, mas seu sorriso, cheio de dentes, mostrava que um lobo morava ali.

Acariciou minhas pétalas com uma gentileza suspeita e aspirou meu perfume com uma fome letal.

Quando o vinho escorreu pela minha boca, ele disse que era para me regar. Eu estranhei o gosto. Não era doce. Não era suave como a água. Havia algo metálico, amargo, estranho.

Mas eu acreditei nele.

Quando me arrancou da terra e me colocou em um vaso, disse que era para me proteger.

Eu acreditei nele.

Então os dias passaram.

Não recebi sol. Não recebi chuva. Não recebi o vento.

E minhas pétalas começaram a murchar.

Mesmo assim, ele continuava dizendo que era para o meu bem.

Até que, um dia, ele lançou meu jarro contra o chão.

Suas mãos envolveram meu caule com força.

E, pela primeira vez, vi desespero em seus olhos.

O pelo que antes era branco agora estava vermelho-escarlate.

Meus espinhos cortavam sua carne.

Minhas raízes, livres da prisão do vaso, voltavam a tocar a terra.

Porque rosas podem ser belas. Podem ser delicadas. Mas existe um motivo para terem espinhos.

     **RELATÓRIO FINAL:**

A acusada foi inocentada após a comprovação de legítima defesa. Durante dez anos, seu agressor a manteve em cativeiro e a submeteu a agressões físicas e psicológicas sob o pretexto de que tudo era feito para o seu próprio bem.

Na noite de 25 de março, ao tentar matá-la, ele foi atacado pela vítima. O laudo confirmou vinte e cinco perfurações.

Questionada sobre o número de golpes, a acusada respondeu:

— Ele não parava.Então eu continuei.