Publicado em
Concretude da Morte
No instante em que efetivamente se realiza o salto, ocorre aquele momento em que toda a sua vivência se desenrola à sua frente, acompanhada pelos trilhos, antes de se extinguir como uma chama, uma chama que jamais será reacendida.
Mas, antes, preciso quebrar essa ideia em partes para, então, apresentar o que considero interessante nesse conceito.
A concretude seria a qualidade ou condição daquilo que é concreto, ou seja, real e possivelmente palpável.
Um objeto concreto, partindo dessa interpretação, então, seria material e, possivelmente, palpável, como papel, pedra e tesoura.
Assim como os trilhos do trem: eles são concretos, existem fisicamente e podemos vê-los e tocá-los.
Estando cara a cara com eles, no entanto, naquele último instante, é impossível evitá-los.
Porém, aqui existem duas ideias que podem ser confundidas, mas possuem uma diferença sutil e atraente.
A chama representa a irreversibilidade porque, após apagada, não será reacendida.
Uma vez extinta, não pode simplesmente ser restaurada à mesma condição.
Ao se deparar com os trilhos, essa provavelmente será a primeira ideia a passar pela sua cabeça.
No entanto, esse pensamento pode surgir enquanto você ainda está sentado no banco do trem, apreciando a vista, pensando no instante em que a viagem acabará.
Um pensamento anacrônico sobre uma certeza abstrata, tal qual a pintura do homem morto.
Você o vê de frente para o penhasco, na beira, enquanto aquele cenário desértico se desfaz atrás dele.
Não há como voltar, somente para onde ir. Mas você nunca terá o desfecho dessa história, pois a morte é uma certeza que ainda não está presente, por mais que pense nela.
Esse, infelizmente, não é o seu caso.
De volta ao presente, não há como voltar e, quando acontecer, nada poderá reverter.
Aqui entra aquilo que é inevitável, porque o final da viagem finalmente chegou.
Estou fazendo errado pensando na morte, então? Eu deveria viver mais?
Tá. Mas essa ideia não parece tão interessante.
Não, você não está fazendo nada de errado pensando na morte.
Este pensamento é como uma narrativa de gerações.
Ela se propaga e se propaga entre os indivíduos até que finalmente atinge você, sem aviso prévio.
Talvez até tenha uma causa aparente, mas o conteúdo dessa carta é o mesmo, independentemente do meio em que chegou.
No trem, suas mãos irão desvelar essa carta, e seus olhos serão as janelas pelas quais essa mensagem vai entrar e sacudir um pouco.
Isso pode ser bom ou muito ruim.
Eu não sou especialista para saber como isso realmente ocorre.
E viver mais parece uma resposta agradável e com certa lógica.
Deixa eu te perguntar algo: o que exatamente seria viver mais para você?
Esse é o pulo do gato.
Pode não parecer grande coisa, mas definir o que seria “viver mais” dá norte e evita algumas pedras pelo caminho, porque essa frase é muito vaga.
Pode significar que você precisa viver por mais tempo, buscar novas experiências, fazer mais amigos, moderar ou parar com vícios.
São palavras-chave em quase todo conselho e sermão, muitas vezes ditas com uma certeza surpreendente, mesmo sendo igualmente vagas.
Por que, se alguém está angustiado, significa que precisa fazer mais amigos? Acordar cedo e correr?
Se fosse tão fácil, gostaria de estar dormindo cedo todas as noites, em vez de perder meu tempo escrevendo isso.
Não sei se alguém realmente estará lendo, então, por quê?
É isso que torna essa ideia interessante para mim.
A ausência de uma resposta concreta.
Pode viver o quanto quiser, mas sua única certeza até chegar ao final daquela viagem será… Você já sabe.
A concretude da morte é o entendimento de que a morte é um fato físico, palpável e irreversível, deixando de ser apenas um conceito abstrato ou distante.
Em outras palavras, são os exemplos que utilizei para descrever esse conceito.
Nele podemos pensar, refletir e, quem sabe, aprender algo.
Porém, possivelmente, só teremos essa certeza fora da abstração quando estivermos diante dela, no lugar do homem morto, da chama e dos trilhos.
O que, por sua vez, não será apenas desembarcar do trem; chegará sem aviso, como uma ação repentina.
Sua mente grita, seu coração range; você sabe que é a hora.
E então, a viagem termina.